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6 Cafetão de Pelúcia - Parte II


Notas iniciais
Yo! Nesse capítulo, dois personagens novos! Ele também é o fim do primeiro arco.
Curiosidade do dia: Os "santos", guias das Moedas Santas, são reencarnações de criminosos condenados. Existe um para cada moeda.

Um conglomerado de estrelas. Pequenas, grandes, minúsculas, invisíveis, exuberantes. As luzes multicoloridas transpassavam o celeste, enfeitavam o negrume atmosférico, e um ar de misticismo e encanto se perdia nas nuvens: o manto negro recobrindo a cidade, a cidade de arranha-céus se elevando ao breu.

— Carla não vai gostar disso, Vinícius – disse uma mulher esguia, encostada nos corrimões da varanda.

— Duvido muito que ela não goste. Afinal, foi ela mesma quem deu a moeda pro moleque – respondeu Vinícius, sentado.

Olheiras, camiseta regata. O magricela acendeu um tubo de Anachal, mergulhando em devaneios. Tosse forte.

— O outro atirador já foi mandado de volta – contou ela, observando a cidade.

Um terraço circular, rodeado por grades. Em seu centro havia essa torre quadrada e branca, desprovida de janelas: recostado numa de suas paredes, Vinícius inalava a infame fumaça, entrelaçando suas pernas.

— Ele é policial, né? – questionou ele, repentinamente mais canalha. – Tá vendo, trabalhar com a polícia não funciona. Carla é senadora, mas, se ela continuar cooperando com esses veadinhos, nunca vai conseguir o que quer.

— Apesar de ele ser policial, é bom atirador. Não seja preconceituoso – discordou a moça, afastando-se dos corrimões. – Você infiltrado na oficina, nós dois como atiradores de elite, o time de assalto fazendo o cerco: não tinha como o plano acabar assim.

— Engraçado. Desde que comecei a trabalhar pra Carla, nunca vi você errar um tiro, Alice – zombou Vinícius, espreguiçando-se, o cigarro amarrotado entre as unhas. – Será que você achou o Miguel bonitinho, e resolveu errar de propósito? Hein?

— Como se eu me importasse com esse tipo de coisa – e Alice estralou o pescoço, fria. – Você não entendeu o poder daquela moeda, entendeu? Vinícius.

O tom da garota era gélido, quase robótico.

— Não, não entendi – respondeu o magrelo, a bituca brilhando em meia luz.

— Algo fez com que eu errasse os tiros. Aquela é a metralhadora que usei.

Alice apontou para uma M249: a arma estava aconchegada nas grades, dependurada por cintas.

– Ela possui alcance de um quilômetro, somado a um desempenho de 1.100 tiros por minuto – continuou ela, impassível. – E eu, caso não saiba, sou a terceira melhor atiradora do estado.

— E...? – Vinícius deu uma risadinha.

— Todo bom atirador considera o centro de gravidade do alvo, principalmente quando existe movimento – explicou Alice. – Assim, podemos determinar qual parte dele tem uma trajetória estável, ou é mais fácil de atingir. Mas... Esse Miguel. Quando se tem em mente a minha posição, o modo com que ele correu tornou impossível acertar em cheio.

— O que você acha que aconteceu? – ele não parecia cativado pela conversa.

— A moeda influenciou o comportamento dele – arrematou a assassina. – Não foi como se Miguel se esquivasse das balas: ele apenas ficava a uma distância segura dos impactos, e andava de forma a dificultar a minha empunhadura da arma. Eu atirei da pior forma possível, ele agiu com perfeição.

— Resumindo: ele teve sorte, e você, azar – Vinícius se levantou, sugando avidamente o cigarro de Anachal.

— Basicamente – concordou Alice.

A moça se deslocou para longe das grades da varanda. Esbelta, alta, tinha os cabelos púrpuras, olhos intensamente arroxeados: a face, delicada, expressava pura e simples indiferença. De vestido e sandálias, agarrou a metralhadora, enrolando as cintas em seu pescoço.

— Devemos retornar e notificar Carla das novidades – lembrou Alice. – Miguel Villa escapou sem ferimentos, usando como bem entendia a Moeda Santa, e, além disso, destruiu a divisão de assalto.

— Tanto faz... – e Vinícius, ao caminhar, raspou as solas dos calçados num rastro sangrento.

Manchas hediondas de sangue. Estavam impressas em toda varanda, constituindo curvas alongadas, grossas, miúdas... Seguiam por retas e poças, e encerravam-se no canto direto do terraço. Naquela esquina, desfigurados e sobrepostos como num açougue, estavam Valdir e Ricardo.

O que é sorte?

Combinação de circunstâncias ou de acontecimentos, que influem de um modo inelutável. Em suma, um conjunto de agentes, animados ou inanimados, contribuintes de um resultado final, positivo ou negativo.

Explicações de dicionário.

Miguel olhou por cima dos ombros: a avenida deserta estendendo-se às suas pegadas. Ele percebera a existência de uma inexpugnável fronteira entre pensar e agir, e que as rodas do tempo não mudariam de sentido, não haveria voltas ao passado. Imaginar, projetar-se através da mente, é uma coisa; realizar algo, contudo, trás consigo uma responsabilidade irreversível.

Atropelando tampas de bueiro, ele seguiu em direção aos velhos condomínios. Miguel sentia o coração pular em sua garganta, o suor extravasar pelos poros... A região não estava muito movimentada, e logo ele notou a ausência de carros e pedestres: nem assombrações tinham a audácia de passear ali naquele horário. Tendo percorrido quase toda a travessa, seus pés não suportavam o abuso de velocidade e, refreados pela fadiga, eram arrastados por tropeços e desequilíbrios.

Exceto pelos passos de Miguel ecoando, a avenida era quietude. É o tipo de cenário raro numa cidade grande: era como se algo isolasse essa realidade do resto do mundo.

Um apêndice de edifícios e fábricas.

Miguel diria estar solitário naquelas vias desabitadas, mas em verdade, ele transbordava medo. Suas feições continham um espanto anormal, como se ele tivesse sofrido um dano tão extenso que não poderia se recuperar, e estivesse eternamente em choque. Correndo pelas guias e calçadas, ele foi circundado pelas nuances de luz preta e amarela, oriundas dos postes.

Embrulhou em sua palma direita a moeda: ela não emanava mais o calor que testemunhara na oficina.

O batente da porta vibrou. Miguel adentrou seu apartamento, acendendo ininterruptamente todas as lâmpadas da casa, e Nina não parecia em lugar algum: sua prima muito provavelmente havia ido embora mais cedo. Cogitando essa possibilidade, ele rumou para o quarto, ainda atónito, sentindo a brisa vir das janelas, e arremessou o disco prateado na cama.

A moeda não parecia nada sobrenatural quando vista de cima, atolada nos cobertores onde fora jogada, embora ainda detivesse a pompa digna de uma relíquia. Miguel fitou-a infinitamente, buscando algo que descrevesse os acontecimentos na oficina, ou o milagre que tinha feito com que ele escapasse. Limpando o suor em sua testa, ele desistiu de estudá-la, e, após a pequena desistência, sentou-se na orla do colchão, perplexo.

Miraculosamente, ele fora capaz de se livrar dos tiros de metralhadora, roubar a arma de Fernandinho, liquidar os guerrilheiros e, por mais absurdo que parecesse, sair pela frente da oficina sem ser atingido por uma única bala. Em suas vestes, fora as marcas de sangue seco e óleo, não havia um arranhão sequer.

— Isso não tem como ter acontecido! – exclamou ele.

Foi então que, externo às suas abstrações, um ruído espalhafatoso despertou sua atenção.

VSHHHH!

Barulho de água corrente, típico da descarga: alguém estava usando o banheiro. Miguel supôs que devia ser Nina, e andou para fora do quarto, dando três pancadinhas na porta do toalete.

— Pode entrar, eu já terminei – avisou o ocupante.

Pelo fato de esperar uma voz feminina, Villa arregalou os olhos. Essas cinco palavras alertaram-no para o fato de que era, sem dúvidas, o timbre mais grave que escutara em toda sua vida. Atrapalhado, Miguel torceu a maçaneta, escancarando o capacho.

— Como?...!

Em total oposição ao banheiro da oficina, o de seu apartamento era imaculado, desinfetado ao extremo. Ele não viu nada de estranho, exceto pelo movimento giratório dentro do vaso: carregando algo para as tubulações, o redemoinho de água respingava na porcelana. Miguel não viu ninguém, mas, em seguida, a mesma voz interagiu com ele, paralisando-o em temor.

— Eu ainda preciso usar a pia, parceiro. Tem como ir pro lado? – perguntou.

— Tem um fantasma no meu banheiro? – detectando apenas os sons, essa foi a dedução de Villa.

— Não, não. Fantasmas não são elegantes – respondeu o vozeirão, risonho. – Sua perna tá no caminho, gigante.

A pia estava diretamente atrás de Miguel e, olhando para baixo, ele viu uma coisa extremamente curiosa.

Um ursinho estava de pé sobre os azulejos.

Feito de pelúcia roxa, ele tinha movimento próprio, e ergueu suas minúsculas calças de couro, reposicionando sua cartola, prendendo o cinto. Seu nariz era de plástico, os olhos pregados como botões, e seu tamanho não ultrapassava os trinta centímetros. Bípede, ele andava como um pinguim, as patas de veludo deslizando no piso.

Suas juntas, articuladas, não eram controladas por controles-remotos ou baterias: era um ursinho de pelúcia que conseguia mover-se de acordo com sua vontade. De cartola em miniatura, uma bengala de ouro – que era nada mais nada menos que um canudo pintado de amarelo –, além de um pequeno terno violeta, ele olhou para Miguel, exibindo e ostentando certa malandragem.

— É impressão minha ou – disse Miguel, confuso – tem um ursinho de pelúcia usando meu banheiro?

— Deve ser impressão sua. Animais de pelúcia não falam – replicou o ursinho, mexendo a boca e nariz de tecidos, gesticulando com sua “bengala”.

Obviamente, o dono daquele poderoso timbre era ele. A voz que Miguel ouvira antes, e inclusive o aterrorizara, viera de um boneco de vinte e oito centímetros de altura. Ele pensou em dublagem, mas, sem dúvidas, ele estava dialogando com o bichinho.

— Mas eu não sou um animal de pelúcia, parceiro. Eu sou um santo – apresentou-se ele, pomposo. – Só me ajuda a subir até a pia, rapidinho...

Depois de lavar seus punhos, com cinco ou seis gotas d’água, o ursinho e Miguel estavam finalmente sentados sobre a cama. Miguel parecia ter sido bombardeado por um cometa, inteiramente desorientado com a cena.

Pigarreando, o santo começou a explicar-se.

— Talvez você já tenha percebido que essa não é uma moeda comum – disse ele, segurando com suas patas dianteiras a moeda que Miguel arremessara nos edredons.

— Eu não quero saber disso. Você pode ir embora e levar ela com você: aí, quem sabe, minha vida volta ao normal – retorquiu Miguel.

Os efeitos da Anachal já haviam desaparecido no sangue, logo, não havia razões para ele sonhar acordado daquele jeito. Entretanto, aceitar aquela conversa ainda era irrealizável.

— Vida normal? Você chama esses trambiques, golpes e extorsões de vida? – gozou o ursinho. – Essa moeda pode reverter sua sorte, garoto. Ela é conhecida como Moeda Santa, e não deve ser menosprezada: considere ela como uma benção.

— Benção? – Miguel não compreendeu.

— É fácil de explicar – rebolando, o ursinho de pelúcia deu uma risadinha. – Atualmente, existem dez Moedas Santas. Cada moeda possui um santo que guia o seu uso, mas nós só aparecemos depois que a conexão entre o usuário e ela foi feita. Traduzindo: se você tratasse essa moeda como um objeto de decoração, eu não estaria aqui.

Miguel fizera algo com a moeda, e isso desencadeara a aparição do urso. Aquela entidade, muito mais excepcional que qualquer bicho de pelúcia, enfatizou a culpa do rapaz em seu surgimento.

— Você jogou no cara-ou-coroa. Isso bastou – sorriu o ursinho, lecionando as funções da moeda. – Não sei se já reparou, mas, o futuro é feito por ações do passado. Essas ações são como peças de relógio, que giram e criam determinados cenários.

A cada piscada de olho, por mais mínima que seja, o futuro se transforma. O poder daquela moeda, em sua essência, era influenciar escolhas e probabilidades, alterando assim suas consequências. Um sopro altera o movimento do ar, o ar ajuda a resfriar uma sala, a sala resfriada contribui para o seu aproveitamento amanhã. Tudo está conectado. Uma gigantesca cama de gato, onde eventos e efeitos milimétricos causam mudanças em enormes cadeias.

— Naturalmente, quando você deseja jogar cara-ou-coroa, um lado é escolhido. Em moedas normais, a chance de queda é de 50% para ambas as faces, mas nessa, o lado que seu dono escolher terá 70% de chance de ganhar: ela é parcial – ensinou o ursinho. – Se você triunfar no cara-ou-coroa, ganha um minuto e meio de sorte; se perder, caindo nos 30% restantes, ganha dois minutos de azar. A sorte age em seu benefício, o azar te prejudica.

A sorte é um estado de espírito no qual as “causas e consequências” são captadas e interpretadas a seu favor. O azar é o estado de espírito no qual as rédeas do destino te castigam.

— Olá, Miguel Villa, portador de Moeda Santa. Meu nome é Fofão: o santo de sua moeda, e, a partir de agora, espero que sejamos bons amigos – concluindo uma reverência, Fofão gargalhou.

Um cafetão de pelúcia, uma moeda assombrada. Muito interessante.



Notas finais
Esse foi o capítulo. Eu tinha ele pronto, mas tava cheio de erros: tive que dar uma enxugada.
Sobre a moeda, nem tudo está explicado ainda. Vocês ainda terão oportunidade de ver ela funcionando integralmente. Por enquanto é só, muito obrigado pelo apoio! T+!