Bônus Club

7 Línguas de Sal


Notas iniciais
Esse capítulo é um divisor de águas: é o que eu posso dizer. As coisas ficam mais perigosas a partir daqui.
Curiosidade do dia: A caça à Anachal e seus usuários, quando efetuada pela polícia, é legalizada, o que inclui o assassinato dos drogados e a apreensão da droga.

Um clube VIP.

Caso exista uma definição exata, é essa.

Começou como um grupo do alto escalão governamental, composto por funcionários públicos e demagogos, sedento por dinheiro desviado e sistemas corruptos. Entretanto, o tempo limou as bordas daquela equipe.

Tornaram-se especializados, poderosos demais. Quando toda a sociedade gira em torno do roubo, quando a ética é esquecida e a imoralidade é posta num pedestal, os valores se invertem. As diretrizes se transformam em quadrilhas armadas: quem furta e lucra mais vence, quem furta e lucra menos é deposto. Desta forma, o imenso time de bandidos políticos, que fora iniciado com mais de quarenta membros, havia sido reduzido a um expresso de oito componentes.

E agora, os oito se reuniam numa mesa redonda. Eles, parlamentares, magnatas e ministros, tinham sido os responsáveis pela apreensão das dez Moedas Santas. Eles as tinham importado para o país, eles as mantinham em custódia e eram responsáveis por elas.

Exceto por uma.

- Em relação à perda da décima moeda, cujo santo responsável é “Fofão”, é de consenso geral que você nos forneça seu depoimento, senadora Carla – moderou o encontro um dos titulares da pequena assembleia, cujo semblante era enturvecido pelos negrumes da sala.

Um magnificente lustre pendia do forro, alumiando o centro da mesa: decorada por entalhes dourados, ela fora fabricada em madeira maciça.

- Claro, Vossa Excelência – pigarreou Carla.

A senadora não era visível, totalmente oculta numa das extremidades. Sua voz ecoando foi o sinal para uma espécie de holofote, que a evidenciou em meio aos seus companheiros. De terno rosa, aparentemente entediada, Carla deu um sorriso gasto, puxando consigo um papel avulso.

- Como todos têm conhecimento, devido a ordens diretas de nosso partido, há três dias furtei uma Moeda Santa – recitou Carla, procurando pontos de referência em seu relatório.

“Nosso partido”. Partido ao qual estavam coligados aqueles indivíduos, ao qual Carla estava coligada. PBC, Partido do Batismo Constitucional, ou em outras palavras:

PBC, Projeto Bônus Club.

- Isso já nos foi informado, Carla. Desejamos informações atuais – objetivou alguém na lateral direta, engolfado pelo breu.

- Perdão pela demora, Vossa Excelência. É realmente uma lástima que não pude entrar em contato com meus subordinados: eles foram encaminhados para o extermínio de Miguel Villa, contudo, ainda não me notificaram sobre a operação – rebateu Carla, reposicionando o papel sobre a madeira, concentrada em seu discurso. – Graças aos dados entregues pela matriz do partido, pudemos elaborar uma estratégia eficiente, contando ainda com a cooperação das forças policiais.

- Espero não termos feito uma busca em vão. Vasculhamos todo nosso material a respeito desse cidadão, o novo portador da moeda, inclusive pontos de distribuição de Anachal: se falhar nessa manobra, Carla, teremos de remover seus direitos como chefe de gabinete – determinou a outra ponta da mesa, séria e impaciente.

- Sim, sim, Vossa Excelência e os departamentos de inteligência foram cruciais: pudemos assim mobilizar um contingente prático e ágil, e planejar a eliminação de Miguel Villa assim que ele entrasse na região comandada pelo tráfico. Entretanto...

- O Presidente está correto, senadora: estamos fartos de “entretanto”, “talvez”, “por ventura”. Desejamos uma evolução rápida de nossos projetos, e atrasos infrutíferos causarão a dissolução de cargos e dispersão de Moedas Santas: isso não pode acontecer – retrucou um parlamentar careca, que repentinamente se debruçou na madeira, estressado.

- Ouçam o que nossa companheira tem a dizer, colegas – pediu uma mulher, roendo unhas num assento diagonal. – Parece-me de extrema relevância.

Carla rangeu os dentes. Estava sendo pressionada como nunca.

- Retornando ao que dizia: não podemos desperdiçar o valor estratégico de Miguel Villa. Plantamos evidências, mas, já existem, em seus respectivos postos, oficiais do supremo tribunal que suspeitam que eu roubei a moeda que me foi confidenciada – discutiu Carla. – Se expusermos Miguel como um ladrão autêntico, não apenas como uma figura imaginária, nós ganharemos tempo.

A verdade era simples. O tribunal dera a Carla a função de resguardar uma das moedas em sua residência, pensando que seria um local pouco visado e, sob as ordens do Bônus Club, a senadora roubara o objeto de si mesma. Infiltrada na empresa químico-industrial, tentando se livrar das provas, ela repassara a propriedade para Miguel durante a entrevista.

- Propõe prendê-lo? É uma faca de dois gumes – afirmou o presidente, contradizendo. – O tribunal pode interrogá-lo, e posso confessar que eles estão propensos a usarem qualquer prova que puderem contra nós. Se as moedas saírem de nossa posse agora...

- Prendê-lo não, instigá-lo a usar a moeda. Se Miguel Villa usar a sorte contra uns dos nossos, ela será preso e ela devolvida para nós, essencialmente por sermos os guardiões temporários – argumentou Carla. – O Bônus Club recupera a moeda, Miguel é neutralizado. A operação conjunta entre meus ordenados e a polícia, efetuada hoje à noite, nos revelará se ele vem usando a moeda desde que a adquiriu, esta tarde.

Carla recrutara os atiradores, Vinícius e o esquadrão de assalto de um modo que, Miguel poderia sobreviver somente se tirasse a sorte na moeda.

- Se ele sobreviver, nós daremos, pouco a pouco, corda para que ele próprio se enforque. Ultimamente a polícia tem realizado “faxinas” em áreas dominadas pelo Anachal, e essa, regida pelo traficante Rafael Oliveira, vulgo “Rafinha”, que espionamos desde que dei a moeda para Miguel, não tem muito valor. Coloquemos o ataque à oficina num tópico separado do roubo da moeda, e vamos conseguir dobrar o tribunal – raciocinou Carla, orgulhosa.

- É um bom plano – assentiu o presidente, bufando calmamente. – Em dois dias, inevitavelmente, a imprensa vai vazar a informação do plebiscito, e toda a população saberá sobre o roubo. Denunciar Miguel como o responsável, pregando cartazes de recompensa atrás dele, me parece interessante. Isso é claro, se ele sobreviver, o que é uma hipótese tolerada. Agora, uma pergunta curiosa. O quanto “Fofão”, o santo da moeda, sabe sobre nossos planos, Carla?

Houve um repentino e incômodo silêncio.

- Eu tive de usar a moeda depois de roubá-la, por ordens suas – matutou Carla, irritada. – Pensando nisso, ele ficou solto no meu escritório durante algum tempo: se ele fuçou por ali, deve saber um pouco mais do que os outros santos. Mas, no máximo, ele conhece sobre o torneio.

- Isso é perigoso – confirmou a mulher, na diagonal do encontro. – Eu duvido muito que Miguel Villa nos dê trabalho, mas um santo continua sendo um santo, e o torneio é um processo crucial para que nos tornemos guardiões legítimos das moedas.

- Lidaremos com isso quando a hora chegar – pigarreou o presidente. – Estão todos dispensados. Desejo relatórios completos pela manhã: boa noite.

E assim, a reunião do Bônus Club foi encerrada.

Carla sorriu.


Notas finais
O capítulo foi relativamente curto, mas eles serão feitos mais ou menos nesse padrão daqui em diante. Tenham uma ótima sexta-feira, e espero que continuem acompanhando =D, boa noite!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.