Bíblia dos Contos Proibidos.

11 A melhor açougue do mundo.


Sebastião, o açougueiro, era um homem de poucas palavras e de mãos firmes. Seu açougue, a “Casa de Carnes Boi Gordo”, ficava num beco estreito da cidade, onde o cheiro de mofo e carne fresca se misturavam numa fragrância singular. Na verdade, singular era tudo sobre Sebastião e, principalmente, sobre a sua carne.

A fama começou de mansinho, com um ou outro cliente mais fiel comentando sobre a textura macia e o sabor inigualável de sua carne moída. "É a melhor que já comi em toda a minha vida", dizia a cozinheira do prefeito. "Derrete na boca", comentava um padeiro corpulento. Logo, a fama se espalhou como uma mancha de gordura, e o beco de Sebastião passou a ser um ponto de peregrinação para os amantes da boa carne.

Os concorrentes estranhavam. Afinal, onde Sebastião conseguia uma matéria-prima tão superior? A cidade não tinha nenhum gado especial, e as fazendas vizinhas vendiam seus produtos para todos os açougues. A carne de Sebastião, porém, era diferente. Tinha uma cor mais vibrante, um cheiro mais doce e um sabor que viciava. As pessoas faziam fila, e ele, sempre com um avental limpo e um sorriso discreto, atendia a todos com uma calma assustadora.

O que eles não sabiam era que a "carne especial" de Sebastião não vinha de nenhum animal comum. Vinha de criaturas que ele caçava nas florestas densas e escuras nos arredores da cidade, seres grotescos e deformados que poucos acreditavam existir. Sebastião, no entanto, sabia. Ele tinha um dom para rastrear essas abominações, atraí-las para armadilhas e, então, transformá-las na carne que o tornaria famoso.

Os pais da cidade, no entanto, notaram algo mais sombrio. A cada mês, uma pessoa desaparecia, atraída pelo fascínio da floresta. A polícia investigava, mas nunca encontrava nada. O jornal local, após alguns meses, parou de publicar sobre os casos. As pessoas, em sua maioria, pareciam ter se acostumado com a tristeza silenciosa que pairava sobre a cidade.

Enquanto isso, a fama de Sebastião só crescia. Ele abriu uma segunda loja, mais elegante e bem iluminada. A carne moída, antes vendida a um preço justo, agora era um item de luxo, disputado a tapas. Ninguém, no entanto, ousava questionar a origem. A qualidade era tão irresistível que a curiosidade era logo substituída pelo desejo de mais um pedaço.

Um dia, um jovem aprendiz, recém-contratado, estava varrendo a loja nos fundos. Ele era ingênuo, mas não tolo. O cheiro, ali, era diferente. Mais forte, mais enjoativo. E a máquina de moer, sempre impecável durante o dia, estava coberta por uma sujeira estranha que nem mesmo o esfregão de Sebastião conseguia tirar. Ao tentar remover a peça, ele notou algo que fez seu estômago revirar: um pedacinho de couro, cinzento e escamoso, preso entre as engrenagens. Não parecia pertencer a nenhum animal conhecido.

Aterrorizado, ele largou tudo e correu. Correu sem rumo, com o cheiro da carne de Sebastião entranhado em suas narinas. Correu até a praça central, onde as pessoas, em euforia, faziam fila para comprar a nova e "deliciosa" leva de carne. Elas riam, conversavam, elogiavam o sabor. O rapaz, desesperado, gritou. Tentou avisar. Falou sobre a máquina, sobre o couro, sobre a verdade escondida no beco.

Mas ninguém ouviu. Ninguém queria ouvir.

Afinal, a carne estava muito saborosa. E a ignorância, às vezes, é a mais deliciosa de todas as iguarias.


Notas finais
Oie!! Espero que vocês gostem!🖤