Bíblia dos Contos Proibidos.
12 A Estranha Coleção.
A rotina de Rui, o carteiro do bairro, era sempre a mesma. Entregar correspondências, sorrir para as vizinhas e evitar a casa de Dona Gertrudes. A velha senhora era conhecida por sua obsessão por objetos antigos, uma acumuladora compulsiva que vivia reclusa em uma casa de dois andares com cortinas desbotadas. A correspondência dela era sempre volumosa, cheia de pacotes estranhos vindos de antiquários de todo o país.
Um dia, Dona Gertrudes não apareceu para pegar suas cartas. No dia seguinte, a mesma coisa. Rui, preocupado, tocou a campainha, mas não houve resposta. Ele ligou para a neta dela, que lhe deu uma chave e pediu que ele verificasse se estava tudo bem.
A porta rangeu quando Rui entrou. Um cheiro de naftalina e mofo invadiu suas narinas. O interior da casa era um labirinto de móveis antigos e objetos empilhados até o teto. De repente, ele ouviu um som, uma melodia fraca e assustadora vindo do andar de cima. Era uma música de uma caixinha de música, dessas que tocam uma melodia infantil.
Com o coração na garganta, Rui subiu as escadas. A música vinha do quarto de Dona Gertrudes. A porta estava entreaberta. Ele hesitou, mas a preocupação com a saúde da velha senhora o impulsionou a entrar. O quarto estava ainda mais cheio de tralhas. No centro, uma caixinha de música dourada girava, tocando sua melodia. Em frente, havia um armário antigo e pesado.
A música parou. O silêncio voltou a invadir o lugar. Rui percebeu que havia algo errado. No espelho do armário, ele viu o reflexo de Dona Gertrudes. Não a velha senhora que conhecia, mas uma versão mais jovem, com um olhar vazio e sem vida. A imagem parecia se mover, e de repente, ele viu a velha Gertrudes sentada em uma cadeira de balanço, balançando lentamente e olhando para o vazio. Mas o que havia de mais assustador não era a imagem, e sim o que ela segurava no colo: uma boneca de porcelana com olhos de vidro que pareciam olhar diretamente para ele.
A boneca tinha um rosto pintado, pálido e com uma rachadura na bochecha, como se tivesse sido quebrada e colada novamente. Os olhos de vidro eram os mesmos do reflexo que ele acabara de ver. A boneca, com seu vestido de renda sujo, parecia sorrir. O som da caixinha de música começou a tocar novamente, e a boneca no colo de Dona Gertrudes parecia se animar. A cabeça se virou lentamente, e os olhos de vidro pareciam ganhar vida. Rui viu o reflexo da boneca no espelho do armário. O sorriso se ampliou, e a rachadura na bochecha parecia se aprofundar.
Rui olhou para a velha senhora. As mãos dela seguravam a boneca com firmeza, mas seus olhos estavam fixos em um ponto no chão. Um arrepio percorreu sua espinha, e um instinto de autopreservação tomou conta dele. A casa parecia sugar o ar, e a melodia da caixinha de música, antes apenas incômoda, agora parecia zombar dele.
Ele recuou lentamente, tentando não fazer barulho nas tábuas rangentes do assoalho. A boneca no colo de Dona Gertrudes parecia segui-lo com o olhar, o sorriso pintado fixo no rosto de porcelana rachada. O cheiro de naftalina parecia mais forte, sufocante.
Chegou ao topo da escada e desceu-a o mais rápido e silenciosamente possível. A cada passo, sentia que a casa o observava, as sombras pareciam se alongar e as tralhas amontoadas pareciam ganhar formas ameaçadoras.
Ao chegar ao andar de baixo, correu em direção à porta da frente. O cabo da porta estava frio em sua mão trêmula. Abriu-a e saiu para a rua, respirando fundo o ar fresco da tarde. Olhou para trás, para a casa de Dona Gertrudes. As cortinas desbotadas pareciam esconder segredos terríveis, e a melodia fraca da caixinha de música parecia ainda ecoar em seus ouvidos.
Nunca mais Rui entregou correspondência na casa de Dona Gertrudes. A velha senhora e sua estranha coleção tornaram-se uma lenda urbana no bairro, um mistério que pairava sobre as cortinas desbotadas daquela casa velha.
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