Bye.
5 5.
Notas iniciais
Bufo irritada.
—Mas será que vocês não compreendem? Eu não gosto dela!
—Para de fazer birras Mafalda. Tens 16 anos, já está na hora de ganhares alguma maturidade!
Respiro fundo com um sorriso irónico. Abro a boca para falar mas não digo nada. Há não... Não chores Mafalda, por favor não chores, não agora, não à frente deles.
Subo as escadas a correr e tranco-me no meu quarto. Deito-me na cama de barriga para baixo e tapo a cara com a almofada. Grito alto, mas não tão alto ao ponto de iniciar uma nova discussão. Levanto-me e olho pela janela.
Aquela sonsa...
Está neste momento a tirar algumas malas do táxi que a trouxe cá. Mas que porcaria! Com 7 biliões de pessoas no mundo, com 13 primos... Tinha logo de ser ela a passar cá uma "temporada"! Pois sim... Aposto que à primeira oportunidade arranja maneira de se pregar à parede ou, pior, a mim!
Faço-lhe uma careta através da janela e mostro-lhe o dedo do meio. Ela ainda não me viu... Por esta hora já devo estar com a cara toda molhada. Mas não, eu não lhe vou dar esse gostinho. Era o que faltava. Vir para a minha casa, comer a minha comida, andar na mesma escola que eu e ver-me a chorar... Não, isso já era azar a mais.
Sento-me na cadeira coberta de roupa e agarro no telemóvel ligando para a única pessoa decente e compreensiva que conheço. A Samanta.
—Estou?
—Olá Sam. Sou eu, a Mafalda.
—Oi.
—Por acaso não estarias disponível agora, estarias?
—Hum... Espera um pouco.
Oiço-a gritar do outro lado da linha;
—Mãe! Posso sair?
—Para onde?
—Vou ter com a Maddie!
Não consegui ouvir a resposta, o som estava demasiado abafado.
—A minha mãe concordou.
—Okay, encontramo-nos no parque de skates.
Segundos depois de desligar a chamada oiço o meu padrasto do outro lado da porta.
—Maddie, abre a porta.
—O que é que eu ganho com isso?
—Um sermão!
—Não obrigada, estou bem assim.
—Anda lá, a Ana está à espera.
—Pois então diz-lhe que pode continuar à espera pois eu não vou sair deste quarto enquanto ela mantiver aqueles pezinhos repugnantes na minha casa!
—Sabes muito bem que esta casa é minha e da tua mãe e, sendo assim, eu é que decido quem é que pisa ou não este chão!
—Como queiras!
—Não sejas mal educada.
—Tu não és meu pai!
A discussão termina quando percebo o seu andar pesado a atravessar o corredor e a descer as escadas.
Troco de roupa à pressa e verifico uma ultima vez se a porta está mesmo trancada. Agarro no meu bloco de notas, arranco uma folha e escrevo "Não me incomodem. Fui dormir mais um pouco." colocando-a por baixo da porta. Abro as portadas da janela do meu quarto levando as chaves comigo. Com os pés assentes no tronco da árvore em frente ao meu quarto, faço rodar a chave duas vezes para que a janela não volte a abrir e para que nem a minha mãe nem o Fred desconfiem da minha pequena e repetida fuga. Coloco as chaves no bolso e desço com cuidado o tronco atravessando o jardim e toda a vizinhança.
Já no fundo da rua, caminho normalmente.
Avisto, passado algum tempo, a Sam a subir e a descer uma rampa cheia de grafitis. Ela também me vê e corre (literalmente pois está em cima do skate) até mim. Abraça-me e enterro o rosto no seu pescoço deixando duas lágrimas caírem. Ela, decerto, sentiu a humidade da água pois afasta-me com ambas as mãos e encara-me preocupada.
—Ela já chegou... Não foi?
Confirmo com a cabeça.
—Anda, vamos sentar-nos ali.
Andamos até ao banco de pedra que enfeita o parque.
—Ainda te lembras dela? Da Ana? — Falo com calma, sem chorar.
—Hum hum...
—Pois... Como sabes ela está lá em casa a passar uma "temporada". — Faço aspas com os dedos. — E é estranho mas mesmo passado tanto tempo continuo a odiá-la.
Faço silêncio à espera que ela diga algo, mas não o faz e sinto-me tentada a continuar.
—Estou super confusa. Ele já se foi à 4 anos e mesmo assim continuo com rancor de tudo o que ela lhe fez. Não era suposto já me ter esquecido de tudo? Não era suposto já ter ultrapassado tudo?
—Maddie... Ambas sabemos que não o odias. Ao teu irmão. — Desvio o olhar. — Vês? Ele não te é indiferente. E só o facto de não dizeres o seu nome já é uma prova.
—Diogo.
Falo com desprezo e ela inclina o rosto para o lado.
—Tu percebeste o que eu quis dizer. — Espera algum tempo antes de continuar. — Foi ela que lhe apresentou aquele mundo. Foi ela que lhe ensinou a viver nele e foi ela que lhe ensinou a ignorar este mundo... O teu mundo.
Encolho os ombros e ela suspira continuando.
—Mas apesar de tudo, ele podia ter recusado. Ele podia ter dito "não"... Apenas acho que estás a ser um pouco injusta. Se calhar ela só estava a tentar ajudá-lo. À sua maneira mas ainda assim a ajudá-lo. Não foste tu que disseste que ele andava muito em baixo? Triste?
—Aham.
—E ela fê-lo feliz.
—E estupido! — Olho para ela com raiva, raiva do que me estava a acontecer. — Ela fez com que ele ficasse tão feliz que lhe provocou uma overdose e mais tarde, às duas da manhã, encontrei o meu irmão deitado no chão da cozinha a ter um ataque! Consegues imaginar como me senti? Ele era o meu melhor amigo. E agora? Agora é só um monte de cinzas que o vento não leva. Sou obrigada a conviver com a sua sombra todos os dias e nem me pude despedir! Nunca irei perdoá-lo. Ele foi-se embora Sam! Ele apanhou o primeiro comboio que encontrou e desapareceu!
—Mas não morreu, e isso só te deixa mais confusa.
Engulo em seco.
—Pois é, mas também já não interessa. Ele não está aqui, pois não? Então não vale a pena chorar por ele.
—Tu dizes isso sempre...!
Ela sorri fraco e eu concordo a custo.
—Eu sei... Vamos.
Agarro no seu skate e ponho-me em cima dele com ela a andar ao meu lado.
—Já está na hora de comprares um para ti.
—Yah mas desde que o outro se partiu que tenho andado a tentar arranjar dinheiro para um novo. Tem andado difícil arranjar um de jeito por um bom preço.
—Talvez te ofereça um.
Começo a rir.
—Nenhuma de nós tem esse dinheiro a não ser que comece a juntar. E não te atrevas a fazê-lo! Já basta eu usar a minha mesada, não quero que faças o mesmo.
—Tudo bem. Tu é que mandas! Só acho que se tivesse um padrasto riquinho como o teu comprava um parque de skate só para mim!
Começo a rir-me e nesse mesmo instante caio em cima de algo. Ergo o rosto e está demasiado próximo. Aquele semblante... Algo me diz que vou vê-lo muitas mais vezes. Os nossos olhos encaram-se por longos minutos e só ai me dou conta de que continuo em cima dele. Levanto-me constrangida e ele faz o mesmo. Atrevo-me a falar.
—Peço imensa desculpa, não foi minha intenção magoar-te...
Os seus dedos alcançam o meu rosto e seguram o meu queixo. Pisco os olhos duas vezes estática. Ele aproxima a cara da minha e não me consigo mexer. Os meus olhos negros presos no horizonte e ele deposita um beijo na minha bochecha. Os seus lábios macios em contato com a minha pele morena. Depois vai-se embora e não tenho forças para o seguir, perguntar-lhe o nome ou bater-lhe por me ter beijado.
—O que raio foi aquilo?
A Samanta parece tão ou mais desorientada que eu.
—Não faço a mínima ideia!
—Conhece-lo?
—Não.
—Mas alguma vez o viste?
—Não.
—Mas tu sabes alguma coisa?!
—Não...
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