Bye.
6 6.
Subo novamente pelo tronco da árvore e iço o corpo até ao parapeito da janela, abrindo-a com cuidado e entrando primeiro com a perna direita, depois com o tronco e por fim com a perna esquerda.
Começo a despir-me e entro na mini casa de banho do meu quarto, abro a cabine do chuveiro e entro quando a água aquece. Sinto-me mais fresca, mais limpa... Saio enrolada numa toalha e deito-me exausta na cama a olhar para o teto. Pego no telemóvel e observo as horas; 7 horas e meia. Olho de relance para a porta e vejo um bilhete por baixo da mesma.
"Às oito queremos-te sentada à mesa de jantar. E não ouses faltar Mafalda... Caso contrário arrastar-te-ei pelas escadas."
Mãe.
Reviro os olhos e levanto os braços em falsa alegria. Visto umas calças de ganga escura e uma camisa branca. Não me preocupo em escolher uns sapatos e levo as minhas pantufas em forma de pata de lobo. Admito que não é a minha melhor tentativa para o visual do ano mas estou dentro de casa, casa em que, por acaso, vivo e se eles querem que eu vá calçar umas sabrinas ou umas botas pontiagudas, bem podem sentar-se à espera... Não vai acontecer.
Desço com calma as escadas pronta para olhar para o monstro que causou tudo. Nem sei como é que a mãe pôde convidá-la depois do inferno a que fomos sujeitas...
Faltam cinco minutos e sento-me no sofá com os pés, um sobre o outro, em cima da mesinha de vidro. Ligo a televisão e passo os canais repetidas vezes deixando, por falta de opções, no VH1 em que dava "7 years" de Lukas Graham. Deixo cair a cabeça para trás, de encontro ao sofá, e fecho os olhos numa tentativa frustrante de me abstrair de tudo o resto, mas não consigo. Aninho-me com a almofada, faço conchinha e penso no Diogo e na Ana.
Ela é nossa prima e é um ano mais nova do que ele, tem 19 anos. Nós nunca fomos muito próximas, saltávamos à corda uma vez ou outra mas ficávamos por aí. Até que a apanhei a fumar atrás do campo de futebol da vizinhança e corri a avisar o Diogo. Lembro-me muito bem da sua expressão; apreensiva, relutante, indecisa, inquieta... Acariciou-me a bochecha e foi ter com ela. 3 meses e meio mais tarde vi aquilo que ninguém alguma vez tomou conhecimento, a não ser a Sam. Ele estava trancado no quarto e eu bati à porta vezes sem conta para que ele me ajudasse nos deveres. Quando ele abriu, estava tão alegre que por momentos fiquei igual. Pegou-me ao colo, gritou que me adorava e deixou-me cair na sua cama começando uma batalha de cócegas. Quando parámos para ganhar fôlego, o meu sorriso desfez-se. Sobre a sua secretária estava um maço de cigarros e ao lado um pó branco. Fiquei estática, por segundos o meu sangue ficou frio como a neve daquele dia. Ele acompanhou o meu olhar e encarou-me com os olhos marejados. Pediu-me desculpa, abraçou-me e beijou-me a testa. Fez-me promessas que não sei nem se chegou a cumprir. Uma eu sei que quebrou; a de deixar a cocaína. E também me fez prometer que não contava a ninguém o que vira naquele quarto. Mas a Samanta é uma exceção, ou pelo menos eu gosto pensar que sim.
Semanas mais tarde foi-se embora.
Uma lágrima contorna a minha face e não me dou ao trabalho de limpá-la. Levanto-me e recomponho as almofadas. Dirijo-me à casa de banho depois de ter desligado a TV e molho a cara enxugando-a logo de seguida com a toalha ao lado.
Vou jantar. Já todos começaram, porque será que isso não me surpreende?
—Dormiste bem, Maddie?
Ignorei a víbora. Como é que ela se atreve a chamar-me Maddie depois de tanto tempo?
—Responde à tua prima. — A minha mãe fala sem me olhar, concentrada na sua refeição.
—Teria dormido muito melhor se não estivesse uma assombração a rondar os corredores.
—Com modos!
Suspiro.
—Sim, dormi bem, Ana.
Ela sorri. O Fred olha-me preocupado. Ele sempre foi bom para mim e para a minha mãe mas quando me olha assim não consigo deixar de me sentir estranha e culpada. Como se estivesse a trair o meu pai. Abano ligeiramente o rosto em negação e pego por entre os dedos o copo cheio de sumo. Faço movimentos circulares com a mão e observo a reação do liquido lá dentro. Bebo-o e encaro o meu reflexo. Os meus cabelos estão penteados para a frente, são ondulados e castanhos escuros. A minha pele é morena e os meus olhos negros deixam muito a dizer sobre mim. São um enigma que até eu tenho dificuldade em desvendar. Olho para o lado; ela continua igual. Tem a pele morena como a minha, talvez um pouco mais clara. Os cabelos meio ondulados, meio encaracolados são castanhos claros, quase loiros. Os olhos tendem a cair para o verde embora também pareçam castanhos em algumas alturas.
Pouso os talheres no prato e não tarda a minha mãe fala.
—Já acabaste?
Faço que sim com a cabeça.
—Queres sobremesa?
—Não obrigada.
—E tu Ana? Ainda tens fome?
—Não tia. Mas estava tudo delicioso.
—Bom saber.
Ambas trocam olhares e sorrisos e isso deixa-me frustrada.
—Dão-me licença?
—Podes ir, sim.
—E eu tia? Já posso ir para o meu quarto? Ainda tenho de guardar as minhas malas.
—Quanto a isso existe um problema...
Volto a sentar-me prestando atenção ao que ela dizia.
—Nós ainda não temos o teu quarto pronto. Os homens das mudanças ainda não trouxeram a mobília do teu antigo quarto e por isso terás de dormir com a Mafalda.
Levanto-me bruscamente e ela leva uma mão à cabeça num gesto de impaciência. Todos se viram para mim.
—O quê?! Só podes estar a brincar... Eu não o aceito!
—Pois mas parece-me que não tens muita escolha.
Olho-a incrédula.
—Eu disse que não a queria aqui. Eu disse que não a queria a mexer nas minhas coisas! E agora temos de partilhar o mesmo quarto?
—É só por uma noite. Talvez duas se ainda não tivermos resolvido esta situação.
—Tudo bem. Mas fiquem sabendo que se por acaso ouvir sequer a respiração dela, vou dormir no sofá!
—A escolha é tua.
—Não. Acreditem que a escolha não é minha, porque se fosse, ela jamais pisaria o mesmo chão que eu.
—Estás a ser insolente!
—Que seja.
Vou para o meu quarto a correr pela segunda vez nesse dia. Fecho a porta com força e agarro nos cabelos. Apetece-me arranca-los!
Minutos depois oiço bater à porta. É ela.
—Podes entrar...
Ela entra com cuidado.
—Tem calma, não te vou espancar. — E concluo num sussurro. — Embora me apetecesse.
Ela caminha normalmente até à outra extremidade do meu quarto e deixa ai a sua mala de viagem.
—Hmm...
—A casa de banho é naquela porta. Podes vestir-te lá se não te sentires à vontade.
Ela assentiu. Voltou já vestida e eu também já fizera o mesmo.
—Podes por ali as tuas roupas. Ou então em cima da mala.
Mais uma vez, fez aquilo que lhe indiquei. Sentei-me de pernas à chinês na cama e, sob o olhar atento dela, concordei que podia fazer o mesmo. Olhámos uma para a outra sem expressão. Respirei fundo e tomei coragem para falar.
—Tu... Hmm... ainda fumas e...?
Engulo em seco sem terminar. Estava com medo da resposta mas ela não disse nada. Limitou-se a olhar para o lado em óbvio desconforto e quando voltou a olhar para mim tinha os olhos marejados. Suspendi a respiração.
—Maddie...
—Mafalda. — corrijo-a num sussurro.
—Mafalda... E-eu não queria que nada daquilo tivesse acontecido. Eu, eu não estava bem. Eu não sabia o que estava a fazer. Eu só... sentia-me sozinha!
Deixo cair uma lágrima e limpo-a no mesmo instante.
—E tiveste de o arrastar contigo... não foi?
—Olha... Eu já pedi desculpa. Eu lamento imenso, eu não queria magoar-te.
—Magoar-me? — lanço-lhe um sorriso irónico. — Desculpa mas essa seria a menor das minhas preocupações se estivesse no teu lugar. Ele foi-se embora por tua culpa. E eu nem pude despedir-me...
—Eu sei. Mas a culpa não foi minha... Não no seu todo.
Olho-a incrédula.
—Não?!
—Não. — assusto-me com a firmeza com que o diz. — Acredites ou não, eu tentei impedi-lo! Sim, fui eu que lhe dei a porra da cocaína, fui eu que lhe dei o isqueiro e os cigarros, fui eu que o apresentei à... àquela vida! Mas eu sempre fiz questão de o lembrar de que não era obrigado a nada. E no fim a escolha foi dele. — por esta altura também ela chorava. As falas entre cortadas pelos seus soluços. — Eu tentei Maddie! Quando ele passou por mim naquele dia e me disse que se ia embora, eu tentei impedi-lo! Eu vi-o a entrar no comboio. Eu agarrei-lhe a camisa e pedi-lhe que não fosse. Por ti! Mas ele não me ouviu e eu não pude fazer nada...
—Tu... Tu viste-o a entrar no comboio?!
—Sim, para Madrid.
—M-Madrid...? E nunca me... disseste?
—Eu quis dizer-te, mas tu cortaste qualquer ligação que eu pudesse ter contigo! Quando te liguei, bloqueaste o meu contacto. Também bloqueaste o meu e-mail e não respondeste a nenhuma das minhas cartas. Sempre que ia à tua casa diziam-me que não estavas e eu sabia que era mentira mas mesmo assim não me deixavam entrar.
—E-eu não sabia! Não fazia a mínima ideia! Mas... mantiveste o contacto com ele?
—Só por uma semana. A partir dai nunca mais falámos. — fez uma pausa. — Sei no que estás a pensar e não. Não podemos ir a Madrid. Ele já não está lá, antes de cortarmos com qualquer ligação ele avisou-me de que ia para os Bordéus, depois para Berlim, para Roma... Ele pode estar em qualquer lugar neste momento!
Assenti. Ela tinha razão. E de qualquer maneira se ele se foi embora é porque já não nos queria ao seu lado.
—Ainda não respondes-te à minha pergunta.
—Não. Eu já não tomo drogas...
Fui à despensa do fundo do corredor e tirei de lá um colchão para as visitas. Pu-lo ao lado da minha cama e coloquei a forra, os lençóis, os cobertores e um edredão.
—Se tiveres frio é só tirares um deles.
—Obrigada.
Deitámos-nos e apaguei a luz do abajur.
—Maddie...?
—Hmm?
—Desculpa... Por tudo.
Não disse nada. Nunca iria perdoá-la. Claro que agora a dor amenizou um pouco mas ainda não estou pronta. Talvez nunca esteja...
Ainda assim, soube bem ouvir tudo aquilo. De certa forma passei a odia-la menos...
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