Bye.
4 4.
Notas iniciais
9-01-2012
Diogo;
1 mês...
A mãe já não chora. O pai já não grita. E eu parei de te escrever desde... bem, desde à muito tempo. Claro que 23 dias não é "muito tempo" mas, sei lá! Para mim é.
Recordaste de quando eu tinha pesadelos? Segundo tu, eu gritava e chorava bastante então, lembro-me bem, batias 6 vezes na madeira da tua cama, no quarto ao lado. Eu ouvia-te sempre e ficava mais calma. Era o teu número da sorte... E quando eu não acordava e continuava a gritar, tu vinhas ter comigo e abraçavas-me enquanto me beijavas os nós dos dedos e o nariz. Queixavas-te sempre de que estava fria e aquecias-me as mãos com o teu bafo quente prendendo-as nas tuas que, por sinal, eram muito maiores. Mas eu gostava e de manhã, quando acordava, continuavas sempre lá, ainda a abraçar-me e com as nossas mãos acorrentadas. Levantavas-te devagar e ias para o teu quarto em silêncio para que os pais não soubessem que tinhas dormido comigo. E quando eles perguntavam porque andavas tão cansado, respondias que havias dormido mal ou numa posição desconfortável (o que não deixa de ser verdade pois a Samanta queixa-se do mesmo quando vou dormir à casa dela). E eu corava sempre por saber do que falavas realmente...
Continuo zangada, podes ter a certeza.
Eras o meu irmão! Era a ti que contava todos os meus segredos. Era contigo que eu desabafava e eras tu que eu descrevia na aula de educação mural e religiosa quando o professor nos pedia para descrever o nosso melhor amigo...! Era por ti que eu ficava trancada no quarto a chorar quando o pai te batia por teres andado a fumar e era por ti que eu levava chapadas quando me punha à tua frente para que não fosses para o hospital pior do que já estavas! Era por ti que eu suportava a Bianca e era por ti que eu tolerava o Pedro...
Mas foste embora não foi? Suponho que agora estejas a curtir à grande com meia dúzia de raparigas e um grande grupo de amigos, bem longe daqui! E também aposto que já te esqueceste de mim...
O pior de tudo, acho, é não saberes o mal que me fazes! Já estou a chorar outra vez e não está aqui ninguém para me beijar os nós dos dedos como tu fazias. E eu odeio isso. Odeio-te, principalmente, a ti. Mas não deixo de adorar-te... Estou tão confusa. Porquê? Por que é que fizeste isto? A tua vida era assim tão miserável ao ponto de me deixares? Era assim tão mau? Não podias simplesmente... suportá-lo como eu suportava, como ainda suporto?! És egoísta, muito egoísta! Só pensas em ti e iludiste-me com essa tua imagem perfeita em que continuo a acreditar.
Mas fica descansado. Vai tudo acabar, e sabes como? Também te vou esquecer.
Eu não tenho um irmão, e, se tinha, já morreu. Há muito, mas muito tempo. De preferência antes mesmo de ter nascido. Ele não tinha nome nem idade, nem mesmo rosto. E também não me abandonou porque, se eu tivesse um irmão, ele nunca me teria abandonado.
Adeus;
Mafalda.
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