Burning Desire - Bade
5 Bisbilhotagem
Notas iniciais
P.O.V Da Jade
— Eu teria pedido demissão e teria o processado. — Tori estava preparando o jantar.
Eu não estava com cabeça para cozinhar, cheguei do trabalho cansada, estressada e atordoada pelo descaramento do meu chefe safado. Pelo menos eu tirei algum proveito daquela desagradável situação. Eu realmente merecia um aumento, processá-lo por assédio seria bom por um lado, mas complicado por outro. Do mesmo jeito eu sairia lucrando no final das contas, ele teria que me indenizar por danos morais e etc...
— Pensei nisso, juro que pensei, mas eu achei melhor não prestar queixa... Sim, o certo seria denunciar aquele canalha. Eu tenho muita consideração pelo pai dele, coitado, ele ficaria arrasado... Eu gosto de trabalhar na Editora, se eu saísse de lá eu teria que trabalhar como garçonete ou num caixa de um mercado. Você me entende? Não estou desvalorizando essas profissões, nem nada do tipo, mas eu já trabalhei numa lanchonete e eu odiei, não aguentei nem duas semanas no trampo. Não levo jeito pra ser babá e nem atendente de lojas. Você sabe como eu sou, não tenho paciência com crianças e não sei muito bem lidar com pessoas. E tem mais, eu não sou formada em porra nenhuma, eu nem faço mais faculdade... — Me justifiquei.
— Eu sei, eu sei... Mas se você se sente bem na Editora e quer continuar trabalhando com o tal de Albert, eu te apoio. — Sorriu compreensiva. — Agora que tem um aumento, isso é algo bom. Você tem o cara na palma da mão também, deveria investir nisso, sabe? Não faz mal chantagear, pôr ele na linha de vez em quando... Você ainda quer publicar o seu livro? Aí está a sua chance, amiga! — Me incentivou. — Você é bonita, charmosa e sensual, deveria saber usar suas armas, se é que me entende... — Piscou me dando um sorriso sapeca.
— Você está me aconselhando a dormir com ele, para que ele possa publicar o meu livro? — Indaguei, chocada.
— Não exatamente... Dormir não, Jay. Mas você poderia seduzir ele, pedir com jeitinho, ele não seria capaz de recusar. — Afirmou falando tudo aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Isso é loucura, Vega. — Balancei a cabeça.
— Nossa! Eu só estou brincando. Devia ter visto a sua cara! — Começou a rir.
— Muito engraçadinha você, hein? — Joguei um guardanapo nela.
Minutos depois...
Tori havia feito frango a milanesa, arroz branco e salada de batata. Nos sentamos à bancada, uma de frente para a outra. Tinha suco de abacaxi e pudim de chocolate na geladeira.
— E o vizinho gato? Saiu com ele de novo? — Questionei.
— A gente correu de novo, ele gosta de manter o corpo em dia. Ele é bem regrado, sabe? Não consome doces e nem refrigerante. Come bastante frutas, salada e coisas saudáveis. — Ela disse um pouco sem ânimo.
— O que foi? — Perguntei quando ela soltou um suspiro triste.
— Hoje a gente almoçou, e ele pediu apenas frango grelhado e salada verde. Eu fiquei com vergonha de pedir bife, macarrão e batata frita, ele com certeza não curte garotas que comem fritura, gordura e porcarias deliciosas que fazem mal... Daí tive que fingir que sou o tipo de garota Fitness. — Desabafou. — Quando cheguei em casa, eu comi três sanduíches de presunto e tomei duas latinhas de Coca... Ele nem imagina que eu como feito uma porca. — Disse, chorosa.
Dei um tapa nela, a Vega arquejou e massageou o rosto.
— Pode ir parando com essa besteira. Você come feito um caipira e nem engorda. Olhe pra você, você parece uma modelo. Não finja o que não é para tentar conquistar esse cara. Se ele não te aceitar do jeito que você é, é porque ele com certeza é um idiota que não te merece! — Falei, séria.
— Você tem razão. — Assentiu abrindo um sorriso. — Da próxima vez que me bater, eu vou revidar! — Avisou.
— Claro que vai... — Debochei.
[...]
No dia seguinte...
Fitei o meu reflexo no espelho de corpo inteiro, eu estava sensual, nada vulgar. A blusa de linho estava com os três primeiros botões abertos formando um decote, nada indiscreto. Blusa clara e saia escura, e para fechar o look, coloquei meus saltos de 8 cm. Havia uma fenda na lateral direita da saia, o comprimento estava bom.
Eu não sabia o que fazer com o cabelo, nunca tive paciência com penteados. Apenas o prendi com um broche verde-esmeralda. Delineei meus olhos e passei batom cor de vinho. Sorri diante do espelho satisfeita com o resultado.
Eu estava linda, sensual e com cara de secretária sexy.
Coloquei o meu estojo com os óculos de leitura na bolsa. Enfim, eu estava pronta para ir para o trabalho.
Cheguei na Editora 20 minutos adiantada, estacionei meu carro na mesma vaga de sempre. Sinjin estava ali colocando corrente na Lambreta. Coitado, ele tinha medo de ser roubado. Mas quem seria louco de roubar aquela Lambreta feia? É cada uma...
Me aproximei bebericando o meu café. Ele escancarou a boca quando me viu.
— B-bom d-dia, J-Jade! — Gaguejou.
— Ótimo dia, Sinjin! — Pisquei e lambi o lábio inferior.
O boboca piscou e corou, passou a mão pelo cabelo cacheado e depois ajeitou os óculos.
Seus olhos desceram por meu corpo, murmurei um 'Até logo' e lhe dei as costas, saí rebolando do estacionamento sabendo que seu olhar me seguia.
Ponto pra mim. Eu sabia seduzir sem muito esforço. Mas Sinjin era Sinjin. Eu ainda teria que testar o meu charme com o meu "querido" chefe.
"Ele já tentou te agarrar!"
A vozinha irritante do meu consciente me lembrou.
De fato aquilo era verdade, mas ele estava sob efeito de álcool. Estando totalmente sóbrio já seria outra coisa. Tori havia me dando uma ideia. Aquela era a minha chance. Eu teria o meu livro publicado e de quebra, seria promovida à um cargo melhor.
O que custava tentar, certo?
[...]
— Bom dia, Sr. Oliver! — O saudei assim que ele entrou na sala dele.
Eu estava organizando a sua mesa pela segunda vez, na verdade, eu estava o esperando... Fingindo arrumar sua mesa.
— Bom dia, Srta. West! — Usou seu tom formal.
Ele nem sequer me olhou, foi logo tirando o paletó e sentou arregaçando as mangas da camisa social. Seu cabelo estava preso num coque simples. Por quê aquele 'Diabo' tinha que ser tão lindo?
— Já quer o seu café? — Sentei na beira da mesa, fazendo com que a minha saia subisse um pouco.
— Já tomei durante o caminho. Só quero que desça da minha mesa imediatamente! — Aquilo foi uma ordem.
E pelo seu tom, o seu humor estava azedume. Merda.
Desci da mesa e ajeitei minha saia, sentindo o meu rosto esquentar.
— Pode ir pra sua sala, quando eu precisar, eu chamo. — Me dispensou.
— Sim, senhor. — Assenti.
— Já ajustei o seu salário. No mês que vem, você já receberá com aumento. — Avisou com secura.
— Ótimo! — Forcei um sorriso.
Minutos depois...
— Tire cópias desses relatórios. — Me entregou uma pasta preta. — Eu enviei os anexos com os gráficos para o seu e-mail, quero que salve no seu pendrive. Me traga um café bem forte, tenho bastante e-mails para responder hoje. Depois arrume esses documentos em ordem alfabética e empilhe eles na minha mesa. Cooper vai te entregar uma pasta com alguns documentos importantes. Tire cópias de cada papel e guarde os originais na gaveta da minha escrivaninha. — Me entregou a chave. — Às 14:00 horas desça até a recepção para pegar uma encomenda. Não esqueça de salvar os arquivos que eu te enviei ontem à noite numa pasta com senha, ok? Só você tem o acesso daquele computador, mude a senha se for preciso. — Avisou, sério.
— Certo, entendi. — Anotei na agenda digital algumas coisas para não esquecer.
— Contou para alguém o que aconteceu ontem? — Sua voz saiu baixa.
— Não! — Menti e ele pareceu aliviado. — Mais alguma coisa, senhor? — Ergui uma sobrancelha.
— Por enquanto não. — Negou.
— Com licença. — Falei antes de me retirar de sua sala.
Tirei as cópias, me certificando de não esquecer nenhuma. A copiadora era rápida e a impressora era nova. Sinjin grampeou para mim e encardenou algumas planilhas.
— Obrigada. — Agradeci pegando a papelada.
— Gostaria de almoçar comigo hoje? — Perguntou todo tímido.
— Ah, não vai dar, hoje eu vou almoçar com uma colega. — Menti.
Ele ficou triste, mas assentiu compreensivo.
[...]
Acabei almoçando sozinha, Alex faltou ao trabalho e me mandou uma mensagem dizendo que estava doente. Liguei para ela, mas a morena não atendeu minhas ligações e nem retornou.
Sr. Oliver não me convidou para almoçar com ele, e mesmo se ele me convidasse, eu não aceitaria. Ele sequer estava mantendo contato visual comigo, sua postura profissional e seu tom formal estavam em ação. Nada de comentários debochados e nada de gracinhas. Ele com certeza estava intimidado.
Quando o horário de almoço acabou, voltei ao trabalho. Às 14:00 desci para receber sua encomenda.
— Aqui está o seu pacote de hoje. — Deixei o embrulho de papel amarelo-pardo em cima de sua mesa.
— Na verdade, é seu, Srta. West! — Avisou.
— Como? — Franzi o cenho. — Mas eu não...
— Abra! — Mandou e apoiou o queixo nas mãos que estavam cruzadas, seus cotovelos estavam apoiados na mesa.
Fitei o pacote por alguns segundos, hesitante, e decidi abrir por curiosidade. Dentro do papel amarelo-pardo havia outro embrulho, rasguei o papel vermelho-escuro e me deparei com uma embalagem plástica lacrada.
Abri a embalagem e retirei dali um par de meia-calça preta e uma cinta-liga da mesma cor. Li a etiqueta de marca francesa.
— Não posso aceitar... — Enfiei a meia-calça e a cinta-liga na embalagem.
— Não só pode, mas como deve. Não aceito devoluções. — Avisou.
— Mas... — Encarei as peças delicadas e caras. — Eu realmente... — Enguli em seco. — Tudo bem. — Decidi aceitar. Murmurei um 'Obrigada' baixo e enfiei a embalagem no pacote.
— Vão cair feito luvas nessas pernas deslumbrantes. — Ah, ele já tinha ativado seu modo 'galanteador' para não dizer outras palavras.
Minutos depois...
— Tenho um compromisso agora. Fique aqui na minha sala e atenda as ligações. Voltarei daqui à duas horas. Organize os documentos como eu te pedi. — Vestiu o paletó e ajeitou a gravata.
Assenti e ele foi embora, me deixando ali atarefada. Organizei os documentos. Atendi algumas ligações. Anotei recados. Joguei no celular. Troquei torpedos com a Tori. Andei por sua sala começando a ficar entediada. Chequei sua agenda. Fiz tudo o que ele havia me encarregado para fazer.
Uma luz azulada me chamou a atenção. Ele havia esquecido o notebook de uso pessoal em cima da mesinha preta. Ele estava aberto e ligado. Sentei de frente para o seu PC e resolvi bisbilhotar. Nem precisei digitar a senha.
Havia fotos dele no Canadá, fotos de lindas paisagens. Fotos dele em Pubs com os amigos. Fotos dele rodeado de mulheres magricelas e rostos cheios de Botox. Não achei nenhuma foto sua sem roupa... E nenhuma foto constrangedora.
Até ali tudo bem...
Chequei seu histórico de pesquisa, mas estava limpo. Aquilo me frustrou. Ele não deixava "vestígios". Com certeza entrava em sites eróticos e coisas do tipo. Será que ele assistia muito vídeo pornô?
Nada que o incriminasse... Que droga.
A maioria das pastas de arquivos tinha senha. Fui abrindo uma por uma. Eu estava parecendo uma Hacker. Ri comigo mesma.
Cliquei no 'Livro em andamento'. Esse era o nome da pasta, havia 10 arquivos minimizados. Abri o primeiro:
"Capítulo 1: Olhares"
Ele estava escrevendo um romance. Um romance erótico.
O telefone tocou, aquilo me assustou, eu estava tão concentrada lendo seu livro pra lá de picante.. Que safado. Tentei minimizar, fechar o arquivo e na hora da pressa acabei fazendo merda...
— NÃO! — Gritei quando a pasta sumiu.
Todo o conteúdo escrito. Os 10 capítulos desapareceram num piscar de olho.
— Cacete! Puta que pariu! — Quase me descabelei toda. Não, aquilo não poderia ser verdade.
Levantei e corri para a mesa dele, atendi o telefone. Minhas mãos tremiam. Minha voz quase não saiu.
— Sou eu, Albert Oliver, Srt. West. Estou voltando porque esqueci a maleta com os documentos e o meu notebook. Me encontre na recepção daqui à meia hora. Minha maleta está em cima da mesa e o notebook está na mesinha redonda. Talvez eu demore mais de meia hora pra chegar, estou entrando no carro. Te ligo quando eu estiver perto da Editora! — Encerrou a ligação. Nem tive tempo de falar 'Sim, senhor!'.
— Merda! — Ele estava voltando para buscar o notebook. Eu estava ferrada.
Minutos depois...
— Sinjin! — Invadi a sala aonde o rapaz trabalhava. Eu estava segurando meus sapatos. Correr de salto não era uma boa ideia. — Você entende alguma coisa de informática? — Perguntei quase sem fôlego.
— Fiz curso. Por quê? — Me olhou confuso, estranhando o meu estado. Ele tinha cara de nerd.
— Vem comigo até a sala do meu chefe. Eu preciso de você, Sinjin. Eu mexi no notebook dele e deu merda. Meu emprego está em suas mãos! — Avancei nele, agarrando sua camisa passadinha, desesperada.
— Olha, tenta se acalmar. Eu vou ver o que eu consigo fazer, ok? Deu paine ou algo assim? — Indagou quando o puxei para fora daquela saleta equipada com impressoras, copiadoras e materiais de escritório.
— Não sei... Devo ter clicado em algo e puff... Os arquivos que estavam abertos sumiram. Sinjin, o meu chefe vai querer me comer viva! — Eu estava ficando apavorada.
O apressei e começamos a correr em direção ao elevador.
Fale com o autor