Burning
38 Capítulo 32
Notas iniciais
CAPÍTULO 32
A mão esquerda de Nathan era quente em contato com a minha, enquanto andávamos em silêncio até a casa de Jerry; ele curtindo o momento e eu ansiosa demais para falar alguma coisa.
Desde que fui trancada no reformatório, não tinha contato com nenhuma pessoa normal que não fossem meus pais ou Dorothea e, de repente, me vi em um lugar cheio de pessoas como eu que estavam dispostas a me conhecer... Isso era desconcertante para mim.
Estava tão imersa em pensamentos que não notei que havíamos chegado até que Nathan parou em frente a uma casa igual as outras com uma varanda.
– Chegamos. – anunciou ele em tom de despedida.
– Vou ter que entrar sozinha? – perguntei apavorada.
– Quer que eu entre com você? – perguntou arqueando uma sobrancelha. Eu assenti. Ele levantou a mão até meu rosto e acariciou minha bochecha com a ponta dos dedos. Nathan inclinou o rosto em direção ao meu e seus lábios pressionaram o local onde sua mão acariciara há alguns segundos. – Vamos entrar, então. – sussurrou ele em meu ouvido enquanto suas mãos encontravam as minhas.
– Vamos. – falei baixinho.
Nathan me puxou para subir os três degraus da varanda e então bateu na porta escura de madeira. Segundos depois a porta foi aberta revelando um homem alto e grisalho, com um par de olhos cinza familiares. Ele trajava uma camisa azul clara e uma calça social preta, assim como os sapatos. O homem sorriu ao nos ver.
– Nathan! – exclamou ele dando um abraço em Nathan, que retribuiu. – Como foi a viagem? – perguntou ele em um tom zombeteiro quando soltou Nathan.
– Cansativa e... – Nathan olhou para mim de soslaio. – Proveitosa.
Eu corei.
O homem sorriu, embora sua expressão fosse confusa, e então se virou para mim.
– E você deve ser a Srta. Willians, estou certo?
– Sim, mas me chame de Lorena. – sugeri tentando disfarçar o quanto a menção ao meu sobrenome mexia comigo. Ele me fazia lembrar meus pais e uma pontada aguda de dor e saudade me atingia sempre que isso acontecia.
– Claro, Lorena. – ele estendeu a mão para mim e eu a toquei em um aperto de mão firme. – Sou Jerry Bennet, fui eu quem construí tudo isso aqui.
Eu sorri.
– Deve ter dado trabalho, Sr. Bennet. – falei olhando em volta.
– Bastante trabalho. – concordou ele. – Mas me chame de Jerry, sim?
– Como quiser.
– Vamos entrar? – convidou Jerry. – Podemos conversar no meu escritório. – Jerry deu um passo para o lado, abrindo passagem para mim. Eu olhei para Nathan discretamente, implorando para que ele ficasse comigo. – Você também vem, Nathan? – ele perguntou notando meu desconforto.
– É claro! – falou Nathan como se fosse óbvio. – Tenho que acompanhar minha namorada. – quando ele disse isso, notei um brilho intenso em seu olhar.
– Vocês estão...namorando? – perguntou Jerry parecendo surpreso. – Desde quando?
Senti meu rosto ruborizar novamente.
– Desde ontem à noite. – respondeu Nathan orgulhoso.
– Bom, nesse caso, felicidades ao novo casal.
– Obrigada. – Nathan e eu falamos ao mesmo tempo; eu timidamente e ele triunfante. Jerry nos deu um sorriso afável e paternal, antes de gesticular para entrarmos. Assim que o fizemos ele se virou para fechar a porta e eu aproveitei para observar o cômodo em que me encontrava.
Eu estava em uma sala ampla, com paredes brancas e piso de madeira. Um tapete verde escuro e pesado cobria um pedaço do chão na frente de um sofá grande e antiquado com uma estrutura de metal e o estofado cor de vinho. Havia uma lareira apagada próxima ao sofá e alguns quadros pintados em tons pastéis decoravam as paredes – um deles retratando o belo outono de Nova York.
Nathan e eu o seguimos por um corredor cheio de outros quadros, esses tão discretos e tristes quanto os que decoravam a sala de estar. Uma porta surgiu a nossa frente e Jerry a abriu, indicando que entrássemos.
Obedecemos e ficamos em pé ao lado da porta enquanto Jerry a fechava e assumia seu lugar em uma cadeira de couro preta que ficava atrás de uma escrivaninha que comportava um computador e alguns livros. Jerry indicou para que nos sentássemos nas duas cadeiras que ficavam de frente para a sua, de onde tinha a vista da estante de livros enormes que ficava atrás da escrivaninha, escondendo as paredes beges. Nós nos sentamos e Jerry começou a conversa:
– Então, Lorena, não sei se Nathan já disse que desde que a vimos no noticiário estamos te procurando... disse?
– Sim. – confirmei olhando para Nathan pelo canto do olho.
– Sabíamos que você era uma de nós e que fazia parte da academia, por isso o enviamos ao reformatório, para resgatá-la. – eu assenti. – Agora que já está tudo resolvido, que você está aqui, temos que discutir nossas regras, certo?
– Certo. – concordei.
– Primeiramente vamos falar da sua rotina semanal. Acredito que tenha recebido seu horário com as atividades, pedi a Katherine que a entregasse hoje mais cedo, e acredito que ela tenha explicado como funciona essa parte... não é? – confirmou. Eu assenti. – Muito bem então, posso pular para a próxima etapa: Os Centros de Treinamentos. Bom, há dois CTs aqui na Academia de Não-Humanos, um de luta e o outro para as habilidades especiais. O Centro de Treinamento de lutas são aulas que acontecem de duas em duas horas das oito às dezoito e são feitas em grupos de oito pessoas. Já o das habilidades especiais funciona até as dez da noite e ele contém várias salas individuais, porque as aulas são realizadas assim e há um instrutor disponível sempre que precisar.
– Ok.
– Acho que as explicações das regras acabaram, mas... – ele hesitou. – Eu queria que você me falasse um pouco sobre...você. Sobre o seu...dom. – eu desmoronei. Não gostava do meu dom, do que eu causava as pessoas por causa dele. Mas eu sabia que, como Nathan dissera uma vez, eu devia me aceitar, aceitar quem eu sou e isso incluía a minha habilidade indesejada. Reprimi um suspiro.
– O quer saber sobre ele? – perguntei na defensiva.
– Eu queria poder vê-lo. Queria ver como é. – Jerry me olhou com expectativa.
Eu olhei para baixo por um momento, relutando em mostrá-lo, e então me levantei da cadeira em que eu estava sentada ao lado de Nathan e andei alguns passos para trás. Percebi que Nathan me olhava com medo – talvez pensasse que eu sairia correndo do escritório.
Assim que estava a uma distância segura deles eu olhei para as minhas mãos, concentrando-me e, um segundo depois, as chamas apareceram novamente. Olhei para cima novamente e vi que Jerry parecia tão deslumbrado quanto Nathan e Josh quando lhes mostrei o meu dom.
– É incrível! – exclamou Jerry, alto demais. – É simplesmente impressionante!
Eu forcei um sorriso.
– Foi o que eu disse a ela. – disse Nathan recuperando o bom humor.
Deixei as chamas se apagarem e Nathan se levantou.
– Está pronta para ser apresentada para os outros membros da academia? Eles estão esperando...
– Sim, estou. – menti. Eu não gostava de ser o centro das atenções, nunca havia gostado e seria constrangedor o que aconteceria a seguir, mas achava que podia lidar com isso. Então, de mãos dadas com Nathan, segui Jerry até o lado de fora.
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