Bulletproof Wings
17 Esperando por mais dias bons
Notas iniciais
Jungkook não sabia o porquê, mas estava pintando um quadro. Era o rosto de um garoto, e ele sentia que era Yoongi. O rosto começou a se manchar sozinho, como se alguém estivesse pegando o pincel, molhando-o na tinta e respingando-o. Como se ele mesmo o estivesse fazendo, mas não queria fazer aquilo. Não queria desfazer aquela imagem.
Jungkook chorou. Aquele era o Yoongi que ele conhecia, e estava mudando. Ele não queria que mudasse. Aquele era seu amigo, que aos poucos se transformava em outra coisa. E, finalmente, mergulhava-se em chamas.
Taehyung não tinha se importando em estar sendo preso, mas um sentimento sombrio tomou conta do seu coração. Seu sorriso desapareceu lentamente. Namjoon olhou para trás, e percebeu que os policiais, provavelmente novatos, estavam tendo dificuldade em algemá-los. Ele deu um jeito de se soltar e puxou Taehyung. Os dois correram para longe dos policiais, que não se animaram muito em segui-los. Eles entraram em uma rua diferente, despistando-os completamente.
Depois de muito correr, eles pararam, com as respirações ofegantes. E sorrisos nos rostos. Taehyung não se esqueceu completamente seu mau-pressentimento, mas fugir havia sido divertido. Namjoon riu um pouco, dando tapinhas nas costas curvadas do mais novo.
— Perdemos as latas — lamentou Taehyung, um pouco mais sério. Namjoon riu.
— Ah, sim, seria melhor se tivéssemos sido presos como criminosos! — Debochou ele. Depois de alguns segundos, ouviram o som ruidoso de uma música. Namjoon fez uma careta. — Não acredito que não desligou o celular — disse Namjoon.
— Desculpe, hyung.
— Deve ser o Jungkook. Vê o que ele quer agora.
Taehyung tirou o celular do bolso. Era um número desconhecido.
— Será que é a polícia? — Perguntou Taehyung, completamente preocupado.
— Que polícia, Taehyung? De onde que a polícia ia tirar seu telefone? Mas atende com cuidado. Bota no viva-voz, e não diz quem é você.
— Tá — disse Taehyung, com um sorriso no rosto, prevendo como aquilo seria divertido. Ele atendeu a chamada colocando no viva-voz. — Alô? — Falou ele, disfarçando a voz. Namjoon segurou a risada.
— Estou falando com V? — Perguntou a voz masculina. O sorriso de Taehyung desapareceu. Havia muito tempo que ninguém o chamava de V. Por que um estranho o estaria fazendo?
— Quem deseja falar com ele? — Perguntou Taehyung, desconfiado.
— Eu sou paramédico. Preciso que ele venha fazer um reconhecimento de corpo.
Taehyung quase deixou o celular cair. Namjoon segurou sua mão, enquanto olhava com preocupação para o seu rosto sem expressão.
— Que corpo? — Perguntou Namjoon, prevendo que Taehyung não conseguiria falar.
— É um menino, aproximadamente 18 anos, cabelo preto. Ele sofreu um atropelamento. Esse contato foi a última chamada dele. O senhor sabe quem pode ser?
— Sim. Nós vamos reconhecer, onde é?
Namjoon e Taehyung pegaram a caminhonete e foram para o endereço fornecido. Logicamente, era uma rua, não um edifício. Quase chegando, Taehyung notou uma movimentação em uma rua paralela, semelhante à que seria causada por um acidente. Mas não era o local fornecido… Era o lugar onde Yoongi trabalhava, e onde estava acontecendo um incêndio. Ele chamou Namjoon, tocando-o pelo braço. Namjoon diminuiu a velocidade e olhou para onde Taehyung apontava.
— Hyung — murmurou Namjoon. Em seguida, olhando para o rosto apavorado de Taehyung, se desfez do assunto, voltando à velocidade normal. — Não é aqui. É mais à frente.
Taehyung olhou para a frente, não convencido. A sensação ruim tinha aumentado quando passaram pelo incêndio.
Enfim, encontraram uma nova multidão, dessa vez no meio da rua. Pararam a caminhonete ali perto e foram andando. Passaram entre as pessoas que cercavam o local.
— Vai ter que dizer o seu nome — lembrou Namjoon. — Quer dizer, seu nome de palco.
— Meu antigo nome de palco — corrigiu Taehyung.
Depois de algum esforço, chegaram ao centro. O carro ainda estava lá, mas o motorista não. O corpo estava no chão, coberto por um saco plástico que não escondia uma poça de sangue. Havia poucos paramédicos no local. Namjoon foi até um deles, e Taehyung se apresentou, com um gosto amargo na boca.
— Eu sou V, e este é Namjoon. Viemos fazer o reconhecimento de corpo.
— Ah, sim. Por aqui, por favor.
O paramédico os levou para o centro. As pessoas estavam atentas, observando com pesar. Os dois pararam ao lado do corpo. O paramédico cuidadosamente retirou uma parte do plástico, revelando a parte superior do corpo. Taehyung começou a chorar imediatamente, cobrindo a boca com as duas mãos, mas Namjoon conseguiu se conter. Os olhos de Jungkook estavam fechados, marcados pelo roxo e pelo vermelho dos incidentes anteriores. O paramédico o cobriu novamente. Taehyung se afastou alguns passos, sendo seguido de perto por Namjoon, que segurou seus ombros. Outro paramédico se aproximou com uma prancheta.
— Sinto muito — disse, com a voz mansa. — Podem informar o nome dele?
— Jeon Jungkook — disse Namjoon, com a voz afetada e se segurando para não acrescentar “ie” ao final. O paramédico acenou, anotou o nome na prancheta e se afastou.
— Ele me ligou, hyung — disse Taehyung, sem parar de chorar. — E eu o ignorei. Eu sou um péssimo amigo!
— Para com isso, Tae. Não faz isso.
— Somos só nós agora, hyung.
O rosto de Taehyung estava enxarcado, enquanto as lágrimas de Namjoon se mantinham presas em seus olhos. Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não pode ter certeza, Tae… Não pode ser ele…
— Eu sei que é ele, hyung. Eu senti. — Taehyung abaixou a cabeça e chorou com mais intensidade. — Eu não vou suportar mais dois velórios, Nam…
Namjoon balançou a cabeça novamente, pressionando os lábios. Ele queria chorar, mas não podia. Tinha que ser forte para seu dongsaeng.
— Não. Você não precisa fazer isso. Olha pra mim. — Ele segurou o rosto de Taehyung, puxando-o para cima. — Olha pra mim, Taetae. Nós vamos pra nossa casa agora, e vamos ficar bem. Eu e você, ok? — Taehyung não parava de chorar, mas acenou com a cabeça. — Eu quero ouvir você dizer. Fale, nós vamos ficar bem.
— Nós vamos ficar bem, Nam — disse ele, com esforço.
— Isso. Eu vou ficar do seu lado, ouviu? Nós vamos ficar juntos. Eu e você, Tae. — Namjoon abraçou Taehyung com muita força como nunca tinha abraçado. Finalmente, no ombro de Tae, ele deixou suas lágrimas escorrerem. — Eu e você. — Depois, ele sussurrou de forma que Taehyung não ouvisse. — Você precisa sobreviver.
Taehyung e Namjoon voltaram para os containers abandonados onde moravam, sem sua mochila de latas e sem seus amigos. Eles entraram, acenderam a luz e fecharam a porta. Taehyung tirou o casaco e se deixou cair sentado na cama, enquanto Namjoon abria a geladeira, procurando o que poderiam comer. Deu a Taehyung algumas sugestões, mas ele disse que não tinha fome. Tinha parado de chorar, mas Namjoon conhecia aquela expressão. Parecia um sorriso, com os cantinhos da boca levemente erguidos, mas significava exatamente o contrário. Era a expressão que significava que Taehyung estava triste ou com vontade de chorar. Namjoon pensou no que poderia fazer, mas sabia que não havia como amenizar a dor da perda. Ele estava tentando consigo mesmo desde que perdera Jin, mas era o tipo de ferida para o qual só existe um remédio, chamado tempo.
Namjoon fechou a porta da geladeira e foi até Taehyung.
— Você está cansado. Deveria se deitar.
Taehyung não protestou. Se deixou cair de lado sobre o travesseiro. Namjoon gentilmente tirou os seus sapatos e os colocou no chão. Depois, sentou em um banquinho na cama ao lado da cama de Taehyung. Constatou que ele estava derramando lágrimas finas e silenciosas.
— Sabe, Tae… Acho que eu vou cantar pra você dormir.
Taehyung olhou para Namjoon e ergueu uma sobrancelha.
— Cantar? Você?
— Qual o problema?
Taehyung se permitiu uma risada fraca.
— Você não canta, Namjoon hyung. Você é rapper!
— Eu não costumo cantar, não quer dizer que eu não consiga, Taetae. — Disse ele, mexendo no celular. — Posso fazer um esforço.
— O que vai cantar, hyung?
— Eu e os meninos fizemos essa música há algum tempo, mas não chegamos a mostrar. Eu acho que ainda tenho o playback. — Namjoon deu play na faixa em seu celular. — Eu tenho tentado te dizer isso… Eu preciso te dizer isso. Isso é tudo pra você.
Ele cantou. Taehyung estava tão cansado que não demorou mais do que oito versos para adormecer com a doce voz de Namjoon. Mas, em seus sonhos, Taehyung ouviu a voz de Yoongi, ouviu seu rap, sua composição. Sentiu que ele estava ali ao lado. Logo, Jungkook colocou a mão em seu ombro, e cantou a primeira parte do refrão. Jungkook pediu a Taehyung que contasse até três, esquecesse os problemas, segurasse sua mão e sorrisse. Taehyung queria atender, mas não conseguia se mover. Ele não precisava. Ele só sorriu. Estava tudo bem. Jimin apareceu ao seu lado, e cantou a segunda parte do refrão.
Na terceira parte, Taehyung se permitiu cantar, sentando-se na cama e olhando para aqueles quatro, que sorriam para ele.
— Esperando por mais dias bons. Se você acredita no que eu digo, então 1, 2, 3. Se você acredita, então 1, 2, 3.
Estava tudo bem! Depois de cantar sua parte, ele ouviu a voz de Jin repetindo o que ele havia cantado, mas não conseguiu vê-lo nos primeiros versos. Decidiu olhar para trás, e o encontrou, sorrindo para ele de trás da cama.
— 1, 2, 3 — cantou Jungkook, segurando suas mãos e puxando-o da cama. Ele se levantou. — Por um dia melhor.
— Porque nós estamos juntos — cantou Jimin, indo para a porta, e abrindo-a. Lá fora, o dia estava claro, e Hoseok estava sobre os trilhos. Taehyung sorriu e foi atrás dele, sendo seguido pelos outros. Hoseok cantou seu rap doloroso enquanto andava de costas, guiando Taehyung pelos trilhos. Aquele era quem Taehyung mais queria ver. Hoseok agradeceu a Taehyung por ter se tornado o momento mais bonito da vida. Taehyung não parava de sorrir, mesmo que a letra de Hoseok doesse. Então cantou pra ele enquanto andavam pelos trilhos.
— Está tudo bem quando eu falo: 1, 2, 3, esqueça! Apague todas as memórias ruins, segure a minha mão e sorria.
Jin chegou mais perto de Taehyung, colocou a mão sobre seu ombro e novamente repetiu o que ele havia cantado. Hoseok continuava sorrindo e andando, virou-se para a frente para continuar guiando-os. Jungkook e Jimin cantaram as outras duas partes do refrão, enquanto tudo escurecia muito devagar, tudo ao redor ia mudando.
— Se você acredita, então 1, 2, 3. — Disse Hoseok, enquanto paredes surgiam ao redor. Taehyung poderia ter ficado com medo, mas confiava em Hoseok.
— Se você acredita, então 1, 2, 3 — disse Namjoom. Uma escada escura surgiu à frente deles.
— Se você acredita, então 1, 2, 3 — disse Yoongi, tomando a frente e subindo as escadas. Taehyung correu atrás dele, e quando chegou ao topo, se viu em um palco de madeira. Yoongi estendia para ele um microfone. — Se você acredita, então 2, 3, diga!
Taehyung pegou o microfone e andou para a ponta do palco. Viu uma multidão, e cantou mais uma vez, sendo acompanhado por eles. Um por um, os meninos se posicionaram ao lado dele com seus microfones, e eles cantaram juntos como se não houvesse amanhã. Ou, melhor, como se tivessem a certeza de que só haveriam dias muito melhores dali em diante.
Estava tudo bem.
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