Bulletproof Wings

18 Eu preciso do seu amor antes que eu caia


Notas iniciais
Annyeong! Como foi o Natal de vocês? O meu foi tão agitado que não deu pra postar. Vai ser um pouco complicado manter a frequência diária, mas eu vou tentar! Aproveitem bastante a presença de várias pessoinhas nesse cap!

Taehyung abriu os olhos no silêncio e se levantou, afastando o cobertor que não se lembrava de ter colocado sobre si. O container estava escuro e vazio.

Ele esfregou os olhos e pegou o celular sobre a mesinha e o desbloqueou. Eram sete horas da manhã. Namjoon certamente estava trabalhando no posto. Taehyung evitou lembrar da noite anterior, evitou lembrar de Yoongi e Jungkook, mas tudo parecia lembrá-los. Havia algumas chamadas perdidas. Duas da senhora Park. Cinco do senhor Jeon. Três mensagens de Jungkookie.

“Estou aqui, hyung”.

“Cadê vocês?”

“As coisas não estão nada bem aqui, hyung. Por favor, venha logo!”

Taehyung chorou mais uma vez. Já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha chorado, mas era difícil evitar. Ele havia rejeitado Jungkook quando ele mais…

— Não. — Taehyung disse não para si mesmo, enxugando as lágrimas como se nunca tivessem existido. — 1, 2, 3, esqueça!

Deixou o celular de lado e afundou o rosto nas mãos, tentando pensar em alguma coisa que fizesse sentido e não o lembrasse das coisas ruins que ele precisava esquecer. De alguma forma, a única coisa que lhe vinha à mente era a mensagem de Kookie. Ele tinha ido à sua casa, mesmo Taehyung dizendo que não fosse. Ele só podia estar desesperado. Desesperado por alguma amizade. Tinha dito na ligação que brigara com Yoongi. Mesmo antes de Namjoon o levar para morar nos containers, eles tinham notado que os dois estavam estranhos, mais precisamente Yoongi. No enterro de Hoseok, ele tinha dito alguma coisa sobre Jungkook, ele o tinha tratado muito mal, mas não dizia o porquê. Yoongi o abandonou, mas Taehyung sabia que nunca deveria ter feito o mesmo. A parte mais bonita foi que Jungkook não desistiu deles. Ele ligou, insistiu, e mesmo sem ser correspondido, foi atrás deles, indo à casa de Taehyung, indo atrás da mentira que ele havia contado. Esse incidente havia gerado uma situação peculiar: Jungkook morreu sabendo mais sobre a casa de Taehyung do que ele próprio. “As coisas não estão nada bem”, ele dissera. Parecia aflito com a situação. Pediu que eles chegassem rápido, mas eles não iam chegar.

Não?

Namjoon, provavelmente não. Taehyung estava atrasado.



Kim Namjoon tinha acabado de sair do posto. Andou até o lugar onde havia estacionado a caminhonete, ligando o celular. Ele sempre o deixava desligado enquanto estava em seu local de trabalho, para não correr riscos. Chegaram algumas mensagens, havia algumas ligações perdidas. Assim que ele entrou no carro, o telefone tocou. Era a senhora Park. Namjoon fechou os olhos, se preparando para aquela conversa que ele estava tentando adiar. Sabia que era necessária. Ele a atendeu.

— Alô.

— Oi, Namjoon — disse ela, com a voz afetada. — Como você está?

Namjoon abaixou a cabeça. Fazia muito tempo que ninguém lhe fazia aquela pergunta. Ele era o responsável por todos os seus amigos, e eles estavam partindo aos poucos. Nenhum deles tinha o hábito de direcionar tal pergunta a Namjoon; sempre que alguém a fazia era Jin, ou Yoongi. Na verdade, o próprio Namjoon estava tão acostumado a cuidar daqueles seis que não tinha muito tempo para pensar em si, em como estava. Mas a senhora Park estava preocupada com ele. Namjoon nunca fora muito apegado à família, mas nos últimos dias sentia como se a senhora Park fosse sua própria mãe, pois ela estava realmente acolhendo os amigos de Jimin como se fossem seus próprios filhos; como se pudessem, de alguma forma, suprir sua falta.

Namjoon sabia muito bem que não eram tempos de fingimento ou polidez. O momento era ruim; era impossível (ou, ao menos, precipitado) esconder os sentimentos.

— Estou péssimo — disse ele, com as lágrimas já se acumulando. — Mas tento fingir que não.

— Pelo Taehyung — ela adivinhou, e Namjoon apreciou sua sabedoria.

— Sim. Ele está muito abalado com isso tudo. Eu não sei o que posso fazer além de ficar ao lado dele.

— Ficar ao lado dele é o suficiente. Ele precisa de você, Namjoon.

— Eu sei.

— Olha, Namjoon… Não sei se vai querer prestar suas últimas homenagens, mas…

— Você está no velório?

— Sim. No de Jungkook, por enquanto. O de Yoongi começará à tarde. Te passei as informações por mensagem.

— Ah, obrigado. Eu queria ir, mesmo estando mal. Só que… Eu prometi ao Tae que ficaríamos em casa. Ele ficou muito chocado com isso tudo. Mas talvez eu dê um jeito de aparecer sem ele. Ainda temos três dias, não é?

— Sim. Está fazendo bem em não forçá-lo. Me avise se for vir, por favor.

— É claro.

— Vamos ficar aqui até a abertura do de Yoongi, então iremos para lá, e depois pretendemos alternar. Nunca imaginei que fosse precisar fazer isso. Mas já passamos por isso, e sabemos que precisa-se de forças.

— É verdade.

— Vou ter que desligar agora. Fique bem, Namjoon.

Namjoon não ficou bem. Depois de desligar o telefone, ficou dentro do carro parado, pensando. Ainda com o celular na mão, vasculhou sua galeria lentamente até achar uma foto de seu jovem Jungkookie, com seus dentinhos de coelho à mostra. Ele estava feliz.

Namjoon sabia que a culpa poderia destruí-lo, mas não podia evitar senti-la. Seria um completo hipócrita se cogitasse a possibilidade de não ser o culpado. Jungkook tinha estado sozinho, e tinha pedido sua ajuda. Naquela ligação a Taehyung, ele parecia implorar por socorro. Mas Namjoon tapou seus ouvidos. Como pôde ser tão tolo? Como pôde ignorar as tentativas de comunicação de seu maknae? Talvez devesse ignorar Yoongi, por exemplo, talvez tivesse algum direito de ignorar seus pais, ou qualquer outra pessoa, mas não Jungkook. Não aquela criança.

Uma lágrima desceu pelo rosto do antigo líder do Bangtan Sonyeondan de forma tão sutil que ele quase não se deu conta, mas depois começaram a lhe tomar o rosto. Desceram negras pelos olhos daquele rosto expresso na pintura que Jungkook observava. Ele sentiu sua dor.

— Me perdoa, Kookie — disse Namjoon de forma quase incompreensível. No fundo, sabia que não estava sendo ouvido — Eu fui um terrível amigo pra você. Nós três abandonamos você, a única pessoa no mundo a quem nós não tínhamos nenhum direito de abandonar. Por que fui tão idiota? Por que te ignorei? Eu estava me divertindo de forma sombria, fiquei alheio a tudo, como se você não fosse importante. Eu sou… — Namjoon abriu os olhos e respirou ofegante. Seu coração doía com sua próprias palavras ainda não verbalizadas. — Eu sou um monstro.



Yoongi sabia que Jungkook tinha cometido erros, mas também sabia que eles não haviam sido intencionais. Jungkook não era muito mais novo que os seis, mas era o mais novo, e isso fazia com que ele sempre fosse visto como uma criança. No fundo, ele o era: imaturo. Não tinha sabedoria para fazer certas escolhas, e não sabia nada sobre o amor. Era um jovem inocente se perdendo nos caminhos errados, e ele sabia disso. Yoongi sabia que Jungkook estava arrependido. Mesmo que seu amor tivesse causado aquelas mortes, não era como se o próprio tivesse atirado nos três. Definitivamente, Jungkook não o fizera; mas seus erros sim.

Ah, de que adiantava pensar nos erros de Jungkook, uma vez que ele estava morto? Seria julgado da forma correta. Mas, se aquilo coubesse a Yoongi, ele não pensaria muito. Jungkook era um menino apaixonado, e a paixão leva as pessoas a fazerem coisas que não deveriam, sem se dar conta. Yoongi tinha boas justificativas em sua mente para inocentá-lo, mas mesmo se não tivesse, não o condenaria. Jungkook, acima de todas as definições, era seu melhor amigo, e merecia seu perdão.



Jungkook abriu o envelope que um dia contivera o desenho de Yoongi destruído. Em vez disso, o desenho era de uma águia. Jungkook a observou e compreendeu que havia recebido o perdão de seu melhor amigo. Estava pronto para recomeçar, mas sentia que faltava algo. Olhou de relance para o quadro, pelas lágrimas de tinta preta que escorriam. Guardou o desenho no envelope. Naquele momento, ao mesmo tempo em que aceitava o perdão de Yoongi, enviava o seu perdão para outra pessoa.

Finalmente, ganhou suas asas. Estava salvo.

Jimin mordeu a maçã. Foi como se uma venda caísse de seus olhos. Ele podia ver a verdade. Ele sorriu para ela, e a verdade o libertou. Ele foi salvo.

Depois de tomar o remédio, tudo ficou estranhamente escuro, e quando se acendeu, as paredes estavam cobertas de tinta. Hoseok olhou para o lado, e viu por milésimos de segundos uma imagem projetada. Eram imagens do brevíssimo tempo áureo do Bangtan. Um momento que não existia mais.

Namjoon estacionou a caminhonete no lugar de sempre, e foi até o container onde morava. Ele bateu na porta de ferro e chamou Taehyung, mas não teve resposta. Ele a abriu. O container estava vazio. Ele ligou para Taehyung enquanto fazia café, mas não conseguiu nenhum resultado. Ficou muito preocupado, mas sabia que a única coisa que podia fazer era esperar.

Notas finais
No próximo capítulo começa o Prologue, galera. Até lá!