Brûlé
1 Nós dois.
Notas iniciais
Ted mergulhou sua perna na água cristalina da lagoa, mas não sentiu o frio. Foi puxado para o fundo, aonde postou-se de pé e caminhou até uma porta horizontal como a de um alçapão. Se perguntou onde estavam todos os peixes. Não sentia nenhuma vontade de abrir a porta, então seguiu andando. O contato com a madeira na sola de seus pés era desagradável, mas não deu importância à isso. A porta por outro lado, se contorceu como se incomodada pelo peso ou descaso do rapaz. Gritou em protesto e ao abrir-se, afundou-o para dentro de seu compartimento para a surpresa de ambos. Ted rolou a escadaria misteriosa envolta em escuridão enquanto a porta murmurava um pedido de desculpas que ele não ouviu. "Cordas vocais viriam à calhar" pensou a porta, frustrada, mas não havia nada que pudesse ser feito quanto à isso. Não sentiu dor enquanto rolava, mas uma sensação desagradável e um tanto desconcertante. Parou de rolar no último degrau, antes de tocar o chão, mas uma pressão em suas costas o derrubou no chão frio, que ao entrar em contato sua pele o fez abrir os olhos, assustado.
A primeira coisa que viu foi a lateral queimada de seu colchão, do qual havia caído enquanto dormia. O colchão postava-se diretamente sobre chão, então não foi uma queda dolorosa, mas estava frio e ele voltou apressadamente para de baixo dos cobertores, deparando-se com a causa de sua queda. Seu irmão mais novo estava estirado de braços e pernas abertas, e muito provavelmente o havia empurrado em seu sono. Não se incomodava muito por ter seu bizarro sonho interrompido, mas não podia deixar de se sentir desgostoso com a falta de espaço e o frio. Empurrou o corpo mirrado de seu irmão para um canto delicadamente e esticou o braço para alcançar seu celular. Checou as horas e para seu descontentamento percebeu que não poderia dormir mais, e já devia se arrumar e seguir para o trabalho.
Dirigiu-se à cozinha ainda em seus pijamas, ligou a torradeira e pôs-se a preparar o café-da-manhã. Três ovos. Dois na frigideira, mexidos com sal, manteiga e orégano para ele e um para preparar rabanadas para seu irmão. Bateu-o com leite, açúcar, baunilha e conhaque enquanto esquentava óleo e água separadamente. Misturou açúcar com canela e noz-moscada em um prato e ajeitou guardanapos em outro. Fatiou o que restou do brioche que preparara à dois dias em quatro partes. Duas para si mesmo e duas para seu irmão. Colocou duas na torradeira e mergulhou as restantes na mistura de leite, fritando-a em seguida. Escorreu-as no papel, passou na mistura de açúcar e deixou servida para seu irmão que já havia acordado com o cheiro de comida e dirigia-se à cozinha. Retirou a água fervente do fogo e despejou parte dela sobre o coador de café abastecido.
— Que cheiro bom. — comentou seu irmão ainda sonolento.
Ted sorriu de canto. Aquela frase tornara-se o "bom dia" de seu irmão desde que seus pais sumiram. Ao lembrar-se disso seu sorriso se desfez rapidamente. À quase dois anos não havia conseguido nenhum progresso em descobrir seus paradeiros. Era quase impossível arranjar tempo para isso entre cuidar do irmão e trabalhar, mas não havia outra escolha. Não deixaria que o levassem e não havia como sustentar à ambos somente com o dinheiro que seus pais o deixaram antes de partirem... Afastou esses pensamentos como se fossem moscas pairando sobre sua cabeça, sacudindo-a brevemente e concentrou-se em terminar de preparar o café. Estava quase na hora de ele e seu irmão saírem.
— Obrigado Tony, fiz seu favorito hoje. — Disse sorrindo novamente.
Comeram em silêncio enquanto o barulho de chuva começava e aumentava gradualmente lá fora. Ao terminar de comer, Ted foi trocar de roupa enquanto seu irmão arrumava a cozinha e lavava a louça com auxílio da água quente que sobrara. Quando terminou, dirigiu-se ao quarto para trocar-se também, enquanto seu irmão escovava os dentes. Encontrou seu uniforme escolar separado e dobrado em cima da cama. Agradeceu seu irmão mentalmente. Ele sempre era tão atencioso. Enquanto isso o mais velho voltou para a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma sacola cheia de ossos bovinos frescos conseguidos no açougue por alguns centavos, que havia tostado no forno na noite anterior, cascas de legumes, algumas sobras de vegetais e despejou-os rapidamente na maior panela que haviam, enchendo-a de água em seguida. "Quase me esqueci" pensou. Deixou-a no fogo mais baixo que podia, entre o mais alto e o desligado, para que esquentasse o dia todo.
Saíram de casa juntos, e andaram na mesma direção por alguns minutos, até que Ted chegou em seu trabalho, num restaurante próximo de sua casa, e seu irmão seguiu até chegar no ponto de ônibus, que o levaria até sua longínqua escola. Seu irmão matriculara-o nela por ser a escola pública de maior qualidade de ensino da cidade, talvez uma das poucas que estivesse a altura de sua mente brilhante.
Ao chegar no ponto ouviu uma voz familiar ao longe.
— Hey Antony, pontual como sempre!
Seu amigo Ryan vinha correndo em sua direção com um sorriso estampado no rosto, do qual raramente se desfazia, impressionantemente mesmo tão cedo numa manhã de segunda.
— Incrível, você conseguiu chegar quase ao mesmo tempo que eu dessa vez. — Tony falou embora não demonstrasse nenhuma surpresa. — O que houve? Não dormiu esta noite?
— Você me conhece bem demais. — Respondeu com um sorriso falsamente envergonhado. — E tem açúcar no seu nariz. — Disse já esfregando a manga de sua blusa na face de seu amigo sem rodeios.
— E você não devia esfregar a cara das pessoas assim repentinamente. Isso pode te causar problemas algum dia.
— Mas você não é qualquer pessoa. — Disse como se o provocando.
— Tem razão, eu sou pacífico demais, mas isso vai mudar. — E logo após o dizer, agarrou o amigo pelo pescoço com um braço enquanto esfregava os nós dos dedos em punho no couro cabeludo do mesmo.
— Okay, okay! Eu entendi, me desculpe! — Ryan ainda sorria mas com uma expressão de dor.
Se afastaram ao ouvir o barulho de um ônibus subindo a rua ao longe. O dia estava frio e nublado, e a chuva recente deixava um cheiro peculiar nas ruas da cidade. Tony espirrou, o que fez Ryan lembrar-se subitamente de algo. Enfiou a mão na mochila e sem procurar muito tirou um pacote embrulhado em papel de presente.
— Aqui, minha irmã me mandou te dar isso. — E enfiou a mão no bolso, tirando outro pacote menor que o último e entregando-os juntamente. — E este é o meu, só que você só pode abrir ele depois de amanhã. Feliz aniversário adiantado!
— Obrigado! — Tony disse alegremente. Abriu o presente da irmã de Ryan rapidamente, podia sentir que era um tecido. Segurou-o com as duas mãos e observou um cachecol azul e branco. Enrolou-o no pescoço feliz, sentindo-se quente e confortável.
— O que tem nesse? — Perguntou sobre o pacote menor para o amigo.
— É surpresa. Prometa que não vai abrir até o dia do seu aniversário!
Tony era curioso por natureza. Seu amigo sabia que seria uma grande tortura esperar dois dias sem abri-lo, mas não ligava. Achava até divertido.
— Ah, eu não sei se consigo... — Disse Tony inquieto, mas Ryan ficou com um semblante sério e decidido.
— Se você abrir antes eu vou ficar muito decepcionado. — Disse duramente, o que não era de seu feitio, mas Tony não se incomodou com isso.
— Okay, eu prometo... — Assim que o disse, seu amigo voltou com o sorriso de sempre.
O ônibus então parou na rua com a porta de entrada em sua frente, abrindo-a com um barulho de ar comprimido se soltando.
— Pode entrar garoto — Disse o motorista de seu assento. Tony distraidamente entrou como entrava de costume, sem reparar nas palavras que nunca trocara com algum motorista.
— Até mais. — Se despediu de seu amigo Ryan, que não pegava o mesmo ônibus por estudar em uma escola diferente. — E muito obrigado de novo. Agradeça sua irmã por mim.
— Tony...? — Disse Ryan meio confuso e alarmado.
— O que foi? — Disse ao por o pé no segundo degrau.
— Por que você está subindo aí? Esse não é seu ônibus.
Antony olhou para dentro do ônibus em que acabara de subir. Tinha uma cortina preta onde deveria ser a catraca. Olhou para o motorista, cujo rosto estranhamente familiar sorria com malícia em sua direção, mas percebeu que não era para ele. Olhou para trás e viu seu amigo encarando mutuamente o motorista enquanto mudava de expressão. Choque, raiva e desespero passaram por seu rosto, olhando do motorista para seu amigo e então gesticulando para que saísse.
Quando virou seu corpo, antes de dar o primeiro passo para fora, as portas fecharam-se mais rapidamente do que se abriram. Ryan pulou em sua direção, tentando abrir a porta com a força de suas mãos, mas o ônibus arrancou e em segundos seu amigo estava se distanciando rapidamente, embora corresse em sua direção, não conseguiria alcançar o veículo.
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