Brûlé
2 Ritmo Uniforme
Notas iniciais
Ao chegar ao restaurante, despediu-se de seu irmão e entrou pela porta de funcionários, descendo as escadas em direção à cozinha. Passou pelos armários onde pegou sua bandana e avental, e após propriamente vestido e higienizado encarou a pilha de louça suja acumulada do dia anterior. Pôs-se a lavar sem pestanejar, panela após panela, até que após quase uma hora, já partia para outras tarefas de limpeza enquanto outros funcionários começavam a chegar.
— O que está fazendo aí? — Disse o novo encarregado da limpeza.
Eram 5 funcionários ao todo. Haviam aumentado a frota recentemente após o sucesso repentino que o restaurante ganhara devido à boa crítica de uma revista. Além de Ted, havia o Chef Marcel, os cozinheiros Louis e Lisa e o recentemente contratado Bill na limpeza.
— É o hábito, desculpe — Respondeu Ted sem graça.
Claro que não era apenas isso. Ted era muito habilidoso e sabia o quanto seu recém-chegado companheiro era desajeitado. Ajudava no começo do dia para que o pobre garoto conseguisse se acostumar num ritmo mais razoável, sem que houvesse tensão com o Chef. Ele havia sido contratado basicamente para ajudá-lo, afinal, embora isso nunca tenha sido dito explicitamente. Isso não era trabalhoso para Ted de forma alguma, mas Bill não conseguia deixar de se sentir incomodado por ajuda não requisitada.
— Pode vazar daí, eu já cheguei e consigo lidar com isso perfeitamente. Vá fazer suas coisas.
— O que está acontecendo aqui? — Perguntou Louis com um ar de genuína curiosidade, tendo acabado de chegar.
— Não é nada Lou, a gente só 'tava batendo papo. — Disse Ted casualmente e dirigiu-se à sua praça. Não era uma cozinha muito grande, e 5 pessoas parecia o seu limite. Louis o seguiu e ficou ao seu lado na bancada vizinha, fazendo seu próprio mise-en-place¹.
— Você sabe que devia parar de se sacrificar pelos outros, não é?
— Não exagera, isso não foi esforço nenhum.
— Isso ainda vai te fazer mal, guarde minhas palavras.
— Eu discordo.
Os dois se sobressaltaram com a chegada sorrateira de Lisa.
— Não nos assuste desse jeito chèrie! Nós estamos usando facas! — Disse Louis batendo a extremidade sem fio de sua faca contra seus dedos para dar ênfase à sua fala.
— Eu acho ótimo seu jeito de ser, Ted. Não escute esse bobalhão.
— Quem é o bobalhão? E o que você está fazendo aqui? Sua praça é no Garde Manger²!— Bravejou Louis com divertida irritação. E ainda segurando o riso: — Você só fala isso porque quer se aproveitar desse coração de panna cotta do Ted.
— Ei! — Ted deu uma cotovelada em Louis — Você é muito mais manipulável com esse seu cérebro de panna cotta.— e sorriu. — Bom dia Lisa.
— Que maldoso! Por que só ela recebe bom dia? — Louis perguntou dramaticamente.
— Okay, chega de conversa. — Ouviram a voz do Chef e ao mesmo tempo Lisa correu para sua bancada dizendo um bom dia apressado à todos. — Eu tenho muitos compromissos hoje, e não quero ninguém nadando na minha ausência. Caso não consiga voltar até que o restaurante abra, Monsieur Brouillard, acha que dá conta de ficar na minha praça?
— Ele acabou de chamar o Ted para ser Sous-chef?— Cochichou Louis para Lisa pela janela que separava suas estações. Lisa deu de ombros e logo seguiu com seus afazeres.
— Chamei sim, Monsieur Couteau, alguma objeção?
— Nenhuma Chef, acho mais que devido. — Respondeu Louis de prontidão, dando tapinhas orgulhosos nas costas de Ted discretamente.
— Muito bem. Estarei de volta em algum momento entre 5 e 8 horas da noite. Au revoir!— E saiu pela porta assoviando uma canção infantil.
— Ele parece estar de bom humor hoje. Quer apostar quanto que é um encontro e ele não quer nos dizer? — Louis disse em tom baixo para que só Ted e Lisa ouvissem, e talvez Bill também.
— Por que não pergunta diretamente à ele? — Sugeriu Ted friamente.
— Você quer mesmo que eu morra.
Continuaram no ritmo uniforme de suas rotinas, sem se preocupar com o que acontecia na superfície das ruas da cidade, mesmo que vez ou outra Ted sentisse um calafrio ou uma sensação desconfortante, ignorava-os e continuava a trabalhar arduamente para servir todos os exigentes clientes que passavam a frequentar o restaurante. Serviu as aproximadas 300 refeições do brunch, e à 5 minutos do primeiro curto intervalo do dia ouviram Lisa ofegar em sua praça e o barulho de objetos metálicos caindo no chão.
— Lisa? O que houve? — Disseram Louis e Ted ao mesmo tempo.
Lisa saiu de sua estação e dirigiu-se até Ted com o celular em mãos.
— Eu preciso falar com você agora, é muito importante.
— Agora? O expediente ainda não acabou! — Disse Louis.
— Não tem mais clientes. Eu sei que você consegue dar conta Lou, é muito importante. Vamos. — Disse Lisa séria como Ted havia visto pouquíssimas vezes, puxando-o pelo braço e levando-o até a área de descanso e banheiros-vestiários.
— O Ryan... — Começou Lisa
— O que houve com ele? Ele está bem? — Ted perguntou interrompendo a frase. Conhecendo Lisa, sabia que se acontecesse algo com seu irmão isso a afetaria severamente, e não conseguia imaginar outro motivo para que ela abandonasse o trabalho desse jeito. Ou pelo menos não queria pensar nele.
— Não houve nada com o Ryan. Ele me deixou uma mensagem para repassar à você. Ele disse que tentou impedir mas... Seu irmão... — Antes de completar sua frase o rosto de Ted já estava completamente branco. Ele não queria ouvir o resto, mas continuou em silêncio esperando o pior. — Levaram ele.
— Como assim levaram ele!? — Vociferou Ted. O ar começou a esquentar. Lisa sabia que seria melhor deixá-lo afastado da cozinha ao falar um assunto delicado como este. O conhecia à muito tempo. Não compreendia direito, mas sabia que era algo que deveria impedir de ser exposto.
— Eu sinto muito mesmo, eu demorei demais para ver as mensagens. Eu não tive tempo. Já fazem horas. Ele tentou seguir seu irmão, mas o perdeu de vista. Ele me disse que ficaria bem, mas parou de me mandar mensagens à um tempo. E já chamou a polícia.
— O quê...? Eu não... O que eu 'to fazendo nessa cozinha... enquanto meu irmão... E eu nem... Preciso fazer alguma coisa...
Ted sentia que sua cabeça estava a ponto de explodir. Não estava mais branco, e sim vermelho. Seus olhos castanhos apresentavam um brilho avermelhado como o de rocha incandescente. Lisa já vira isso acontecer apenas duas vezes antes em sua vida, e entendia que era hora de se afastar, por experiência, além do calor que quase queimava sua pele. Voltou apressadamente para a cozinha para ajudar Louis. Sabia que o garoto precisava de espaço, e que se afastar agora seria o melhor para ambos.
Chegando à cozinha, viu um Louis atrapalhado tentando limpar a bagunça de tigelas que derrubara com o susto.
— Você me deve uma, mademoiselle. — Comentou Louis ofegante, limpando o suor da testa com a manga. — Como está quente aqui, não é?
Lisa percebeu que se sentia muito quente. Secou-se com um lenço que guardava no bolso do avental e começou a arrumar. Suas mãos hábeis conheciam cada prateleira, e guardaram tudo em uma velocidade impressionante, terminando em segundos. Percebeu então que o ambiente parecia mais claro, como se as lâmpadas estivessem brilhando mais forte.
— Posso saber sobre o que falaram lá fora? — Perguntou Louis com ar sério.
— Foi o irmão do Ted. Aparentemente raptaram ele. Eu acho que ele está pensando em procurá-lo.
— Mon Dieu, c'est terrible! E agora? Ele não pode sair do trabalho assim sem mais nem menos. Agora que o Chef deu uma tarefa dessas pra ele. Ele pode até ser demitido! Vocês pelo menos chamaram a polícia?
— Não acho que ele se importe com isso no momento. E a polícia foi contatada.
Se entreolharam por um momento com o olhar de preocupação aparente e seguiram para a cozinha quente, afim de ajudar com o que fosse preciso na praça de Ted. Mal chegaram lá quando ouviram sons de passos muito rápidos, viraram-se e viram Ted na porta, apoiando o corpo na parede como se não conseguisse se manter direito.
— Eu preciso achar meu irmão... Por favor... Vocês conseguem me cobrir não é...? Eu não tenho tempo a perder...
Louis caminhou calmamente em sua direção.
— Ted, escute. Isso é trabalho para a polícia. Se você sair agora, mesmo que a gente consiga lidar com tantos clientes, o que o chef vai pensar se chegar e não te ver conosco?
— Louis... Eu não tenho tempo para discutir isso... Vocês podem me cobrir até o Chef chegar não é? Eu não pretendo demorar mais que isso, eu juro. — Ted deu um sorriso doloroso enquanto tentava se acalmar. "Entrar em pânico só vai prejudicar a busca" pensou consigo enquanto a temperatura do lugar diminuía.
— Certo. Mas você sabe que não vamos poder fazer nada a partir do momento que o chef entrar na cozinha, certo? Acha que vale a pena arriscar perder um contato tão brilhante? — Louis disse com calma. Lisa apertava a quina da bancada com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos.
— Espero que você não tenha nenhuma dúvida de que meu irmão vale mais que qualquer contato.
— Me desculpe, não quis dizer isso.
Sem aguentar mais um segundo de impotência naquele lugar, Ted dirigiu-se a saída.
— Ted! — Ouviu-se a voz de Lisa, cheia de ternura e preocupação. — Tenha cuidado.
Ted não haveria de encontrá-los novamente como colegas de equipe, e no fundo todos sabiam disso. Mas em sua cabeça nada disso importava. Precisava organizar seus pensamentos e se acalmar antes que causasse algum acidente. Saiu na rua e correu até sua casa, aonde arranjou dinheiro e uma mochila velha aonde enfiou vários objetos que julgou úteis. Voltou à rua o mais rápido possível e correu em disparada, em direção ao fim de sua pacata vida, claro, sem que o soubesse.
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