Bruxaria.exe

6 Capítulo 6 - Mentira


Notas iniciais
Um pouco tarde, mas ainda no dia certo! Boa leitura!

Melissa acordou assustada. Jogou o cobertor para o lado e rolou para fora da cama, só percebendo que não estava mais sonhando quando sentiu o choque contra o chão. Sentou-se no carpete claro e olhou ao redor, ainda ofegante. Estava escuro, mas ainda era possível enxergar os contornos das coisas à luz da lua minguante. Arrastou-se até a parede, encolheu as pernas e enterrou o rosto nas mãos. O mundo vermelho a perseguira em seus sonhos, mas Monique não fora salvá-la. A bruxa soluçou enquanto as lágrimas molhavam suas mãos e escorriam entre os seus dedos. Não queria mais dor e desespero.

– Está tudo bem agora – alguém sentou-se ao seu lado e passou um braço pelos seus ombros. – Aquilo já acabou.

Levantou os olhos e deparou-se com duas orbes verdes e uma expressão vagamente melancólica que se esforçava para ser reconfortante.

– O que você está fazendo acordada a uma hora dessas? – Melissa inquiriu, e então acrescentou num tom mais brando – Teve um pesadelo também?

– Eu tenho tido pesadelos desde que saí da bolha de vidro. Não sei se é a toxina ainda fazendo efeito ou se é uma reação da minha mente ao estresse – Esmeralda desviou o olhar. – É horrível, de qualquer forma.

Melissa concordou com a cabeça. Mesmo que aquele pesadelo específico pudesse ter sido causado por algum resto de toxina que seu corpo ainda não processara, ela sabia que continuaria acordando daquele jeito por anos a fio, talvez até o fim da sua vida. Não importava com quem estivesse ou o quão longe de tudo aquilo conseguisse ficar, o mundo vermelho sempre a perseguiria.

– A gente pode tomar chá aqui? – a bruxa fungou e tentou enxugar as lágrimas na manga do pijama.

– Ninguém disse nada sobre não poder usar a cozinha, então acho que sim.

– Quer tomar chá, então? Mesmo que a gente não consiga voltar a dormir, relaxar um pouco vai fazer bem.

Esmeralda encarou a xícara à sua frente. Ninguém nunca lhe fizera chá no meio da noite por causa de um pesadelo, nem dela, nem de outrem. Ela sabia que esse tipo de coisa acontecia naturalmente com outras pessoas, mas nunca com ela. Uma Paz não se deixava perturbar pelos horrores noturnos, sua mãe dizia.

– Você não gosta de camomila? – Melissa inclinou a cabeça para o lado.

– Gosto. Obrigada. Eu só... – Esmeralda observou as tiras de vapor erguendo-se e dançando no ar. – Obrigada.

As duas ficaram em silêncio enquanto bebericavam a bebida quente. Esmeralda queria dizer alguma coisa, mas não sabia o que era. Alguma coisa importante, talvez, mas ela nem sequer sabia por onde começar a entender o que era que queria explicar. Melissa, apesar de abatida, aparentava estar mais tranquila depois de ter chorado tudo o que tinha para chorar.

– Me desculpe por aquilo – Melissa balançou a cabeça parecendo envergonhada e quebrando o silêncio. – Pelas duas vezes. Eu não costumo chorar assim.

– Você também não costuma passar por aquele tipo de turtura, eu espero. Eu acordei um pouco antes de você e também já chorei tudo o que eu consegui.

– Qual é o propósito deles de nos colocar aqui depois de tudo aquilo? Pra que tanto luxo depois daqueles meses todos de... Bem, você também estava lá – a bruxa bufou.

– Provavelmente queriam quebrar a gente. Elminar os traços de humanidade e empatia, nos transformar em máquinas de combate, entende? E isso aqui é uma mentira. Eles querem que a gente esqueça que o Estado fez a gente passar por tudo aquilo. Querem seres não-pensantes, não-sentientes e obedientes, e acreditam ser mais vantajoso transformar seus inimigos nessas coisas. É uma técnica de guerra mais comum do que se pensa.

– Técnica de guerra? – Melissa fitou-a. – Isso é uma guerra?

– É claro que é. O atual governo, que, na verdade, é composto pelos mesmos grupos já faz uns setenta anos, se sente ameaçado por quem tem o dom da magia. Se a principal fonte de energia elétrica é a magia, você faz alguma ideia do estrago que um bando de magos e bruxos revoltados poderia causar? A opção mais óbvia é conter e eliminar a ameaça – Esmeralda parecia concentrada na superfície do seu chá. – Até o ódio da maior parte da população, reforçado pela grande mídia e pelas execuções públicas em fogueiras, faz parte do jogo sujo para subjugar gente como nós.

– E o que é que nós podemos fazer contra isso? – a bruxa tomou mais um gole de chá. – Além de sobreviver, é claro.

Esmeralda não levantou os olhos e permaneceu em silêncio. Havia uma rede – aliás, uma teia – de conspiradores mágicos apertando o cerco. Ela e seus irmãos tinham sido criados para serem peças importantes naquele jogo. Não fosse pela quantidade de mortes, o combate contra criaturas malignas e a qualidade da última tortura, Esmeralda não notaria a diferença entre o campo de treinamento e sua casa. Exceto pelos sábados. Aos sábados, Esmeralda e seus irmãos eram liberados para ir brincar, passear em parques de diversões e comer algodão doce até ficarem enjoados, ou então para fazer qualquer outra coisa que quisessem. Ela tinha saudades daqueles sábados, mas não dos outros dias. Nos outros dias ela tinha que ser uma alquimista e espiã em treinamento, exatamente como naquele momento.

– Ah, o chá era pra distrair, mas parece que não deu muito certo. Acho que eu vou tentar dormir de novo. Preciso tirar a minha cabeça dessa coisa toda por um tempo – Melissa levantou-se.

– Espera! – Esmeralda não queria ficar sozinha com suas lembranças da tortura e da parte difícil da infância. – E se a gente jogasse um daqueles jogos de tabuleiro? É melhor do que se arriscar a ter outro pesadelo, não é?

A bruxa encarou-a por um momento, então levantou os ombros.

– Pode ser.

Melissa jogou os dados e moveu seu peão duas casas à frente, entediada. Contato humano era bom, claro, principalmente depois de tudo, mas passar uma hora jogando jogos de tabuleiro com alguém era exagero. O último ano a condicionara a estar sempre alerta, ativa, não sentada num carpete macio. Bocejou, mas resistiu à vontade de ir dormir. Um péssimo dilema: se entediar-se ali ou cair num sonho vermelho de novo. Pelo menos o sonho vermelho podia trazer a chance de ver Monique de novo...

– Então... – Esmeralda brincou com os dados em sua mão. – Nós não temos muito tempo aqui. Quando o período de recuperação acabar, nós vamos para usinas diferentes, muito provavelmente.

– É.

– E tem uma coisa que eu queria te dizer – Esmeralda terminou a frase de forma abrupta e engoliu em seco. Melissa se surpreendeu por não ter percebido antes o quanto a morena estava incomodada com algo, e com certeza não relacionado ao trauma recente.

A bruxa esperou Esmeralda decidir continuar. Viu-a lutar contra emoções conflitantes e decidir-se por algo diferente. Melissa ficou chocada ao perceber o quão intenso aquilo parecia – não pela intensidade real das emoções, mas por ela mesma ter se esforçado tanto para se isolar que quase perdera a capacidade de ter empatia por outros seres humanos. A essência de ser uma bruxa era ser capaz de sentir! Ela mal podia acreditar naquilo, mas aqueles últimos seis meses – não, em todo o último ano, contando a partir do desaparecimento de Monique – tinham conseguido roubar uma parte dela. Melissa ainda não era uma casca vazia, mas pela primeira vez percebia que estava a meio caminho disso.

– Quem é você afinal, Melissa? – a alquimista suspirou e deu um sorriso vago. – Desde aquele dia em que você me salvou, eu não consigo parar de pensar no seu enigma. Afinal, você é uma alma solitária que tolera companhia, e até precisa dela às vezes, ou você é do tipo de pessoa que precisa ter alguém por perto, mas está isolando do resto do mundo de propósito?

– A solidão foi imposta a mim primeiro. Depois eu a escolhi. Agora eu não sei mais – Melissa evitou o olhar de Esmeralda.

– E por que você se isolou?

– Acho que agora é a minha vez de fazer uma pergunta, não? Estamos jogando um jogo em turnos – a bruxa apontou para o tabuleiro. – Se quiser que eu responda a sua pergunta, responda isso primeiro: por que você escolheu a equipe preta?

– As pessoas não escolhem as equipes, você sabe disso – Esmeralda encolheu os ombros. – Eu só vim parar aqui.

Mentira. Melissa fora capaz de entrar em uma das suas duas equipes de escolha depois de conversar com algumas pessoas, descobrir seus desempenhos e deduzir o quão bem teria que se sair em quê. Uma pessoa como Esmeralda não teria a menor dificuldade em fazer o mesmo, e provavelmente de maneira ainda mais eficiente. Melissa não duvidava que ela nem sequer tivesse uma segunda opção; quisera a equipe preta e aplicara exatamente a quantidade de esforço necessária para entrar ali.

– Agora acho que é a sua vez de responder a minha pergunta – a alquimista levantou aquele par de olhos verdes e brilhantes para ela.

– Ah, pois é. Ninguém escolhe se isolar – Melissa também deu de ombros. – Acho que foi só uma coisa que aconteceu.

– Isso não é verdade – Esmeralda torceu o nariz.

– Eu não preciso dizer a verdade enquanto você não fizer o mesmo – Melissa finalmente encarou-a. – O que nós tivemos no campo de treinamento foi muito útil. Servimos de apoio psicológico e emocional uma para a outra e, graças a isso, sobrevivemos. Agora que vamos nos separar, não vejo por que tentar estreitar laços com mentiras. Tenha uma boa noite.

– Espera! Eu escolhi entrar na equipe preta por questões de família – Esmeralda estendeu o braço para detê-la, aproximando-se. – Me desculpe, eu realmente não posso dizer essas razões. Elas não são minhas, e eu não posso revelar segredos dos outros, entende? Se eu disser, algo ruim pode acontecer com a minha família.

– Tá, motivo familiar. Entendi – Melissa sentou-se novamente. – Quer falar sobre a sua família ou alguma coisa assim?

– Minha família é grande, tradicional e antiga. Nós estamos em todos os ramos de comércio, exceto eletrônicos e automóveis. Eu tenho irmãos de sangue e de criação, muitos deles. A Anita é minha irmã de criação – Esmeralda olhou para o chão. – E a minha mãe não é minha mãe de verdade. Eu nem sei quem é a minha mãe de verdade ou o que aconteceu com ela, e meus irmãos de sangue nunca disseram nada. Enfim, é isso. Você tem que responder uma pergunta também.

– Por que eu me isolei? – Melissa pegou um dos dados que caíra perto da alquimista a brincou com ele entre os dedos. – Porque eu já estava sozinha, de qualquer forma. Alguns anos atrás, o que restava da minha família morreu. Um ano antes de eu ser levada para o treinamento inicial, minha namorada foi morar comigo. Foi o ano mais feliz da minha vida, até o meu bosque ser atacado e ela desaparecer. Eu já estava habituada à solidão antes, então voltar para ela foi o máximo de conforto que eu consegui. Agora é a sua vez, e é bom contar algo que valha essa história.

– Eu, hã... Namorada?

– Ah, ótimo, um pouquinho de julgamento para terminar a noite – Melissa levantou-se, chutando o tabuleiro para o lado e esparramando as peças no processo.

– Não, não! Eu só fiquei surpresa, eu juro! Eu não imaginava que você fosse... – Esmeralda, avançou para tocar o braço dela, então hesitou e recuou.

– Que eu fosse o quê? – Melissa cerrou os punhos. Realmente tivera esperança de cultivar algo como uma amizade com Esmeralda, mas aquela noite ruíra suas ilusões. Primeiro a mentira deslavada, depois aquilo. – Anda, diz pra mim! Você não imaginava que eu fosse o quê?

– Como eu – Esmeralda respondeu tão baixo que sua voz pareceu um sussurro.

Melissa estacou, piscando perplexa por alguns instantes. Quando finalmente conseguiu absorver e processar a nova informação, relaxou os ombros e deixou as mãos caírem ao lado do corpo.

– Ah – ela desviou o olhar. – Me desculpe, eu não sabia...

– Não, tudo bem – a alquimista balançou a cabeça e ergueu as mãos, tentando abrandar a conversa novamente. – Hã, uma história que valha a sua? Quando eu tinha uns doze anos, descobri que estava apaixonada pela filha do dono de uma butique perto da minha casa, uma menina uns dois anos mais velha do que eu. Nós namoramos durante três anos, até os pais dela descobrirem da pior forma possível e mandarem ela pra longe.

– Da pior forma possível? – Melissa levantou uma sobrancelha. – Vocês duas estavam...?

– É. Pois é, eu comecei cedo – Esmeralda soltou uma risadinha divertida. – Eu senti muita saudade por muito tempo, e nós trocamos cartas por mais quase dois anos. Aí ela se apaixonou por um cara e uns meses depois me mandou uma carta dizendo que estava grávida. E quer saber o pior? Ela ainda perguntou se eu queria ser a madrinha da criança e do casamento dela.

– E você aceitou?

– Aceitei. E depois tive que cancelar porque ia vir pra cá – Esmeralda suspirou e deixou-se cair em uma poltrona. – Patético, não?

– Sei lá. Eu nunca passei por isso, então acho que não posso julgar – Melissa deu de ombros e abaixou-se para recolher as peças que espalhara pelo carpete. – Mas eu imagino que tenha doído pra caramba.

– Bom, pelo menos agora eu posso dizer que já passei por coisa pior – Esmeralda deu um meio sorriso.

– Somos duas – Melissa dobrou o tabuleiro e guardou-o dentro da caixa. Percebeu que Esmeralda estava fazendo aquela coisa de novo. Estava, por ou sem querer, invadindo suas barreiras. – Bem, você queria me perguntar mais alguma coisa?

– Ah, bem... Quando tudo isso acabar, se nós duas estivermos vivas, será que a gente pode se ver de novo? – Esmeralda inclinou-se na poltrona para ficar mais perto de Melissa. – Eu adoraria poder te conhecer melhor sem ter que me preocupar com o fato de que em alguns dias eu e você estaremos arriscando nossas vidas em lugares diferentes.

– Claro, claro – Melissa balançou a cabeça. – Eu vou precisar de amigos, ou de algo como isso, eu acho.

Esmeralda fechou os olhos e balançou a cabeça, com um sorriso tênue nos lábios. Melissa pensou ter visto algo ali, uma emoção reprimida, um segredo que lutava para se libertar. Achou melhor deixar as coisas do jeito que estavam do que arriscar começar algo que poderia causar ainda mais danos às duas.

– Eu não sei você, mas acho que eu preciso dormir – a bruxa esticou-se e bocejou novamente.

– Se tiver algum pesadelo, pode me chamar – Esmeralda balançou a cabeça novamente, ainda com os olhos fechados. – Boa noite, Melissa.

– Boa noite – ela afastou-se em direção ao dormitório.

Esmeralda abriu os olhos ao ouvir o som da porta do dormitório se fechar. Quase perdera toda a estima que conseguira conquistar de Melissa depois de tudo o que tinha acontecido, e não conseguira colocar em palavras o que realmente queria lhe dizer. Mas afinal, o que ela queria dizer? Com certeza não o que ela achava que queria. Não cometeria aquele erro. Precisava se concentrar em coisas mais importantes.

Até o momento, sete pessoas tinham acordado. Sete pessoas para nove usinas. Ela e Anita seriam separadas, a não ser que mais três pessoas acordassem nos próximos dias. Talvez a separação fosse até melhor para a família Paz, pois haveria mais informações sendo transmitidas ao mesmo tempo. De qualquer forma, Esmeralda precisava encontrar o contato da família assim que chegasse à sua usina designada para informar como estava a operação. Seus dez anos de escravidão serviriam para fortalecer a teia que sufocaria os opressores da comunidade mágica.

E Melissa ficaria para trás, com seus mistérios e seus olhos azuis.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Espere um capítulo especial amanhã! (Motivo: Eu tenho a impressão de que amanhã será uma boa sexta-feira) Críticas são bem-vindas.