Bruxaria.exe

7 Capítulo 7 - Sombra no Espelho


Notas iniciais
Capítulo especial de sexta, como prometido. Boa leitura!

Melissa acomodou-se no banco do ônibus e apoiou sua cabeça na janela. Não poderia mais fazer aquilo quando o veículo fosse ligado, a não ser que quisesse ficar com dor de cabeça, então tinha que aproveitar o momento de contato com o vidro frio naquele dia quente.

Ao final da semana em que ela tinha acordado, umas das pessoas simpáticas daquele lugar confortável anuciara que cada um voltaria à sua própria usina e entregara uniformes pretos a todos. Caso houvesse duas ou mais pessoas da mesma usina, haveria um sorteio para determinar quem daquele grupo iria para onde. Duas das usinas não receberiam ninguém.

A bruxa tinha acordado e tomado chá todas as noites com Esmeralda. Sentiria falta daquilo. Também tinha jogado jogos de tabuleiro com a alquimista todas as noites. Gostaria de não ter que fazer aquilo de novo, mas consideraria jogos com cartas numa próxima oportunidade. A outra pessoa de quem sentiria falta era Anita, com aquela língua ferina e o ar despreocupado da alguém que aceita que seu destino pode incluir uma morte precoce e que não há nada a ser feito quanto a isso.

Tente não morrer, Melissa tinha dito novamente a Esmeralda. Sobreviva, ela tinha respondido. Nenhuma promessa fora feita, seria pueril demais, mas as esperanças estavam ali. Em nove anos, Melissa poderia ter uma amiga em algum lugar no mundo esperando-a para contar mil coisas sobre o que ela vira e vivera.

Alguns soldados entraram no ônibus e sentaram-se no fundo. O motorista deu partida no motor. Os outros ônibus começaram a sair do pátio; o de Melissa ficou no meio da fila e se separou dos demais na primeira rotatória que havia no caminho. A bruxa se perguntou se valeria a pena tentar lembrar o caminho, mas desistiu da ideia, não pretendia voltar para aquele lugar.

Já estava escuro quando o automóvel entrou na garagem da usina de magia número quatro. Melissa foi escoltada até a área de habitação dos aprendizes e trabalhadores e deixada lá. Depois de seis meses, era estranho ver gente vestindo cores como amarelo, verde-claro, azul e vermelho. Quem passava por ela olhava com um misto de admiração e medo para o uniforme preto. Melissa imaginou que cara eles fariam se soubessem o que era necessário para conseguir aquilo.

Subiu as escadas até o seu quarto, apreciando um pouco de exercício depois dos dias ociosos nos aposentos confortáveis. Ainda deveria ocupar o quarto que dividira com Lilena, o que seria bom. Lilena era uma boa amiga, e era disso de Melissa precisava depois dos últimos seis meses. Pensou em Esmeralda, então abanou a cabeça para tirar a alquimista da mente; aquela amizade tinha potencial para ser boa, mas não no momento.

Entrou no quarto e jogou-se na cama, lembrando-se de tirar os sapatos depois. Jogou-os no chão e tentou relaxar. Precisava desesperadamente descansar em algum lugar conhecido e acolhedor, e – surpreendeu-se com a ironia daquilo – aquele quarto era o mais próximo disso que ela tinha em sua vida no momento.

– Melissa? – a voz veio da direção da porta, vestida em um uniforme verde-claro e com cheiro de remédios. – Melissa?! Você voltou!

Lilena pulou para o lado da cama e enterrou Melissa em um abraço enquanto esta tentava se levantar. Foi um choque para a bruxa, que estava acostumada a ter longas conversas com a curandeira e quase nenhum contato físico.

– Você parece tão surpresa – Melissa devolveu o abraço.

– Eu achei... Depois de tudo que eu ouvi, eu achei que você tinha... – os olhos de Lilena ficram marejados. – Me disseram que só quinze pessoas, de quarenta e cinco, tinham sobrevivido, e que só sete dessas tinham acordado de um coma. O que aconteceu lá, afinal?

– Um massacre – Melissa desvencilhou-se do abraço e sentou-se com os pés no chão. – Ninguém mentiu nem exagerou, Lilena. Vestir o preto é pior do que a morte. Honestamente, eu não acho que as pessoas da minha equipe vistam isto por estarem de luto por causa de colegas atuais mortos, e sim pelo aprendizes assassinados.

– Eu não duvido – Lilena sentou-se em sua própria cama, ficando de frente para a bruxa. – Tentei conversar com as pessoas de preto daqui quando você partiu. Eu fiquei preocupada, sabe? E as coisas que eles me contaram...

– Talvez seja melhor nós não discutirmos isso – Melissa ajeitou-se para sentar de pernas cruzadas sobre a cama, apoiando as costas contra a parede. – Me fale sobre a sua carreira de curandeira.

Lilena se empertigou e começou a despejar sobre Melissa os detalhes sobre os seus seis meses de treinamento e sua recente aprovação para trabalhar na ala hospitalar oficialmente. Houvera algum acidente na usina dois meses antes, com nenhum morto e muitos feridos, e ela se destacara ao ser uma das primeiras a correr para socorrer as vítimas e organizar a triagem.

– Deve ter sido incrível. Eu queria ter visto isso. Não o acidente, eu já vi bastante sangue para uma vida inteira. Queria ter visto você lá, nas linhas de frente, salvando o mundo.

– Parece que valeu a pena virar aquelas noites estudando – Lilena riu. – E então, quer ir fazer alguma coisa para matar a saudade daqui? Podemos jogar alguma coisa na sala de lazer.

– Ah, não, obrigada. Eu não aguento mais jogos de tabuleiro. Preciso descansar um pouco, e amanhã vou procurar alguém da minha equipe para me apresentar. Depois... Bem, segundo o que me disseram, é só esperar alguma emergência acontecer e ir fazer o meu trabalho – Melissa deitou-se novamente.

– Bem, boa noite então. Eu vou tomar um banho e vou, hã... – Lilena ficou vermelha. – Eu não tenho dormido muito aqui, pra dizer a verdade... Aquele rapaz de quem eu tinha te falado antes de você ir embora...

– Seja feliz com o seu namorado – a bruxa fechou os olhos e relaxou os músculos. – Só se certifique de que ele tenha uma família que possa cuidar de um bebê, caso você engravide aqui.

Lilena resmungou alguma coisa num tom envergonhado, mas Melissa não entendeu. Dissera aquilo de brincadeira, mas realmente esperava que a curandeira não engravidasse. Bebês nascidos nas usinas eram separados dos seus pais e mandados para os familiares que já tinham cumprido o tempo de serviço, ou para orfanatos, na ausência de parentes elegíveis. Quando Lilena saiu do quarto, a amiga já tinha adormecido.

Em seu sono, Melissa caiu novamente no mundo escarlate e negro. Não era mais nenhum resquício de toxina, aquela coisa simplesmente se agarrara à sua mente. Acordou suando frio e levantou-se, trêmula. O quarto estava escuro. Foi até o banheiro para lavar o rosto. A água fria lhe fez bem depois do calor infernal da fogueira. Enxugou o rosto com a toalha e relanceou o olhar pelo espelho.

Parou.

Olhou mais uma vez para o espelho.

Monique.

– Sentiu a minha falta? – a ruiva piscou.

Melissa não respondeu, sentindo cada pêlo do seu corpo arrepiar-se. Estaria sonhando? Delirando? A mão de Monique tocou seu ombro e pareceu bem real. O abraço que ela lhe deu foi quente, confortável. A sensação dos cachos passando pelo seu rosto foi mais do que reconfortante.

– Nique... – ela virou-se e devolveu o abraço da amada com força, desespero, até. – Nique, você está mesmo aqui?

– Sim e não – havia um toque de tristeza em sua voz.

– Você é um fantasma? – Melissa perguntou com a voz estrangulada, lutando contra as lágrimas.

– Não, eu não sou um fantasma – Monique riu, enchendo o ar com aquele riso dourado como um girassol.

– Então como...? – Melissa foi interrompida pelos lábios cálidos e macios que foram de encontro aos seus. De repente, não havia mais mundo, tempo ou qualquer outra coisa que não fosse Monique e aquele beijo cheio de saudade.

Seus dedos se enroscaram nos cachos flamejantes enquanto a mão livre puxou a cintura conhecida para perto de si. Sentiu a parede fria às suas costas e buscou ainda mais o calor à sua frente. Quando Monique afastou-se, tentou seguir seu movimento, mas lembrou-se de que tinha alguma coisa importante para discutir com ela – qualquer coisa que escapava à sua mente naquele momento.

– Eu sou e não sou a sua Monique.

Melissa procurou os olhos castanhos, esperando ver um sinal de brincadeira ali, mas só encontrou um olhar vermelho encarando-a de volta. As íris dos olhos já não combinavam com as sardas graciosas do rosto, pareciam duas poças de sangue fresco. A bruxa segurou o rosto da namorada entre as mãos com delicadeza.

– O que aconteceu com você?

– É complicado explicar, Mel, mas eu preciso que você me escute, isso é importante – Monique tomou as mãos de Melissa entre as suas. – Tem algo grande acontecendo, e não é só uma coisa. É grande demais para que a maioria das pessoas perceba, mesmo com muita concentração, então ninguém sabe ainda, a não ser quem já está envolvido com isso. Eu preciso que você dê um jeito de voltar pra casa antes do próximo inverno. Isso é importante, está bem?

– Nique, por favor, eu preciso de algumas respostas!

– E eu preciso ir – Monique soltou as mãos de Melissa e deu um passo para trás. – Me encontre em casa.

Melissa estendeu os braços para segurar a ruiva ali, mas Monique simplesmente se transformou em uma fumaça escura que se fundiu com as sombras do banheiro escuro e desapareceu. A bruxa tateou os cantos sombrios da parede, tentando obter qualquer prova ou resquício da presença da sua amada naquele lugar, mas não havia nada.

– Nique! NIQUE! — ela continuou passando as mãos pelo azulejo inutilmente. Monique não estava mais ali.

Apoiou as costas na parede e escorregou até o chão, sentindo o rosto ficar quente com as lágrimas enquanto os pés e as mãos esfriavam com o contato com os azulejos. Perguntou-se novamente se a apariçao de Monique tinha sido um sonho, uma ilusão ou qualquer coisa do tipo. Morta ou pior, a ideia invadiu sua mente novamente, Monique estava morta ou pior. Mas aparecera ali, beijara-a... e desaparecera completamente usando um tipo de magia que Melissa jamais imaginara que ela seria capaz de usar.

Respirou fundo pela boca, levantou-se, assoou o nariz e lavou o rosto mais uma vez. Não podia se dar ao luxo de ficar chorando encolhida em um canto como se fosse uma criancinha indefesa. Precisava sair dali e encontrar Monique, e precisava estar preparada paa enfrentar o que quer que aparecesse em seu caminho para ficar com ela.

Calçou seus sapatos e desceu para as salas de treinamento, todas vagas àquela hora da noite. Se lembrava bem daqueles sacos de areia e dos bonecos emborrachados que serviam de alvos, e mal podia esperar para descontar toda a ira e ansiedade neles, mas precisava de um bom aquecimento primeiro. Ficou satisfeita ao notar que o tempo em coma no líquido estranho não deteriorara suas capacidades físicas, ao contrário do tempo de internação na ala hospitalar. Depois de alguns exercícios para aquecer os músculos, tirou novamente seus sapatos e partiu para cima de um dos sacos de areia grandes.

– Impressionante. Parece que eles elevaram o nível esse ano – uma voz masculina surpreendeu a bruxa.

Melissa abaixou-se, transferiu o peso do corpo para a perna que estava mais atrás e colocou os braços numa postura defensiva, instintivamente preparando-se para um ataque.

– Me desculpe, eu não queria te assustar – o homem de cabelos e barba castanho-claros aproximou-se. – Mas é bom ver uma colega de equipe se esforçando tanto. Você é garota nova?

A bruxa fitou o uniforme preto do homem, então confirmou a informação com um aceno de cabeça.

– E parece que você não consegue dormir. Ainda está com a cabeça naquele maldito campo de treinamento?

– Eu não sei se algum dia vou conseguir dormir de novo – Melissa relaxou sua postura. – E parece que você também está acordado, apesar da hora.

– Bem observado – o homem deu de ombros. – Mas eu estou acordado porque vim me preparar para sair em uma missão. Devo partir em meia hora. Em dias comuns, eu durmo bastante.

– Como você consegue dormir depois de ter passado por aquele mundo vermelho? – Melissa procurou os olhos dele.

– Que mundo vermelho? – a surpresa dele parecia genuína, o que por sau vez surpreendeu Melissa. – Isso é alguma parte nova do treinamento? É por isso que tanta gente morreu no ano passado e no retrasado? Honestamente, eu estou aqui há oito anos anos e aquela foi a primeira vez que eu vi algo do tipo acontecer. Eu quero dizer, vinte pessoas morreram na minha época de treinamento naqueles combates contra criaturas malignas, mas não foi um número de perdas tão grande quando os dos últimos anos...

– Quem é você, mesmo? – a bruxa interrompeu-o e desviou o olhar.

– Bryan Flamethorn – ele pôs as duas mãos na cintura e sorriu, a moça supôs que ele fosse algum tipo de mago ou ilusionista solitário e que aquele fosse seu nome artístico ou algo do gênero. – E a quem eu tenho o prazer de me dirigir?

– Melissa Gardênia. Se você fizer questão de usar esta sala, eu posso ir para outra. Prefiro treinar sozinha quando quero esvaziar a cabeça.

– Não, não. Me desculpe pela intrusão, eu só estava curioso para ver quem mais seria louco de estar acordado e treinando a uma hora dessas – Bryan riu. – Foi muito bom conhecer você, Melissa Gardênia. Espero te ver em alguma missão em breve.

Melissa concordou com um gesto vago da cabeça e esperou o homem sair do recinto antes de voltar a atacar o saco de pancadas mais próximo. Aquele cara vestia o uniforme da equipe preta e era bastante experiente no que fazia, mas não tinha ideia do que era o mundo vermelho. Além disso, só comentara sobre mortes nos combates, e não em execuções. Ela precisava encontrar mais pessoas da sua equipe para tentar descobrir o que estava acontecendo. Não que ela desejasse que mais pessoas tivessem passado por aquilo, mas não fazia sentido que alguém que deveria ter feito exatamente o mesmo treinamento que ela não saber sobre os efeitos da toxina e das ações dos soldados. Seria Bryan Flamethorn uma exceção ou a regra?

Desistindo de continuar a treinar para gastar suas energias, Melissa voltou para o seu dormitório e tomou uma longa ducha. Sentiu uma pontada de desapontamento ao passar os olhos pela sua imagem no espelho e não ver Monique atrás de si, por mais vã que aquela esperança tivesse sido. Enfiou-se em seu pijama – um conjunto de roupas pretas confortáveis, assim como o resto do seu novo guarda-roupa – e voltou para a cama. Não conseguiria dormir, mas ao menos teria paz para pensar um pouco. Monique e Bryan Flamethorn. Dois enigmas na mesma noite.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Críticas são bem-vindas