Bruxaria.exe

5 Capítulo 5 - Pesadelo


Notas iniciais
Atenção: Este capítulo contém cenas de tortura. Boa leitura!

Ao final do quarto mês, quinze aprendizes compunham as linhas da formação. Cinco equipes de três membros. Melissa, Anita e Esmeralda se reuniam com uma equipe diferente em cada dia da semana e convocavam uma reunião geral na noite antes do combate contra as criaturas para discutir as estratégias. O desempenho de todos melhorara bastante, e só mais um aprendiz fora perdido em dois meses e meio. O apoio mútuo, a criação de uma comunidade entre eles, também resolvera a questão dos suicídios. Estavam todos focados na sobrevivência.

No primeiro dia do quinto mês, o comandante apareceu acompanhado por uma mulher fardada com mais insígnias brilhantes do que ele. Os aprendizes fitaram-na apreensivos. Sabiam que o tipo de combate contra as criaturas a que tinham se habituado terminara com o final do quarto mês. Que novo tipo de horror os aguardaria? Melissa suspeitava e temia que fosse algo que não permitisse mais o trabalho em equipe.

– Bom dia a todos – a mulher saudou-os num tom quase alegre, intensificando o mau pressentimento de Melissa. – Em primeiro lugar, parabéns por terem sido escolhidos para o treinamento da equipe preta. Nós selecionamos apenas os melhores em termos físicos e mentais para vir para cá. Em segundo lugar, parabéns por terem sobrevivido ao treinamento físico. Vocês todos se provaram capazes de suportar boa parte das dificuldades da profissão. E por último, mas não menos importante, eu gostaria de desejar boa sorte a todos na última etapa do treinamento. Agora vocês aprenderão o valor e a importância do trabalho árduo da equipe preta, e descobrirão se têm a resistência necessária para servir satisfatoriamente ao país.

Melissa arquejou. Já estavam em condições extremas, fisica e mentalmente. Se os aprendizes não tivessem se apoiado nas últimas semanas, o número de suicídios teria voltado a aumentar depois dos massacres que seriam todos os combates e não haveria ninguém ali para ouvir aquelas palavras. Ainda assim, todo mundo ali estava no limite. Se pretendia apresentar algo pior do que o que já tinha acontecido, aquela mulher sorridente só podia estar trazendo a morte. Ou algo pior.

– Por favor, dirijam-se à cúpula de treinamento de magia – a mulher de alta patente sorriu novamente.

As três fileiras de aprendizes marcharam para a construção sem questionar. Melissa reparou que os soldados com coletes púrpura estavam todos do lado de fora. Não havia ninguém lá dentro. Olhou para Esmeralda, que estava com a expressão carregada – também já tinha percebido que algo estava errado. As pesadas portas fecharam-se assim que os últimos aprendizes entraram.

Esmeralda olhou ao redor. Realmente não havia nenhum soldado ali dentro. Os informantes da sua família tinham sido bastante vagos em relação ao último teste. De acordo com eles, aquela parte só fora inclusa dois anos antes. Três aprendizes tinham passado, e os três tinham descrito aquilo como “algo horrível, que jamais deveria ser feito”. Provavelmente algum tipo de tortura psicológica, ela supôs. Sua melhor chance de sobreviver era se apegar a algo querido.

Já tinha passado todas as informações que tinha sobre o assunto para Anita. A irmã também tinha sido adotada pela família Paz ainda criança. Não tinha a mesma obrigação oficial de Esmeralda – escolhida à dedo para a missão – de se infiltrar na equipe preta para passar informações importantes à família, mas já sabia da espionagem, fazia parte da conspiração.

– Você vai falar com ela? – Anita fez um gesto em direção à bruxa, de quem Esmeralda não tirara os olhos desde o fechamento das portas.

– Ela não faz parte da família. Foi muito útil nos combates, mas não sabemos se é confiável – Esmeralda continou fitando Melissa.

– Ela salvou a sua vida e a minha na primeira vez que enfrentamos as criaturas – Anita lembrou-a. – E, de verdade, olha pra ela. Não fez nenhum amigo por conta própria, não iniciou contato com ninguém. Se ela não tivesse algum objetivo em mente, você acha que ela faria isso? Todo mundo aqui está falando com algum amigo. Todo mundo está buscando conforto e segurança em algum outro ser humano, menos ela. Tem que haver algum motivo pra isso.

– Se você quer tanto assim falar com ela, vá em frente – Esmeralda mordeu o lábio inferior.

– Eu só não quero que você tenha algum arrependimento que possa dificultar a sua sobrevivência, trancinhas. Por mim, eu a consideraria só uma pessoa esquisita e antissocial. Vai lá, fala com a azedinha e para de fazer essa carinha de cachorro perdido.

Esmeralda lançou um olhar grato para Anita antes de começar a andar na direção de Melissa. Os quinze sobreviventes estavam espalhados em pequenos grupos, temendo por suas vidas. Melissa estava sozinha, encostada em uma parede, com o olhar perdido no nada. A alquimista parou a dois passos dela, hesitante.

O que via à sua frente era um dos enigmas mais intrigantes com que já se deparara. Uma mulher um pouco fria e distante, que às vezes deixava escapar lampejos de uma personalidade gentil e vibrante. Uma flor azul em meio a um espinheiro afiado. Por quê? Conhecia bastante gente amarga e indiferente, e bastante gente desesperada, mas parecia haver algo mais naquela bruxa. Gostaria de ter tido coragem de fazer todas as perguntas que queria, mas era tarde demais.

– Você parece preocupada – Melissa levantou os olhos para ela. – Diga, você tem alguma lembrança feliz ou alguém querido te esperando lá fora? Algum objetivo, pelo menos?

Esmeralda arregalou os olhos. Era exatamente aquilo que viera perguntar à bruxa. A melhor técnica para aguentar a pressão psicológica. Melissa sorriu, provavelmente imaginando que Esmeralda simplesmente estranhara a pergunta.

– Seria uma pena se você morresse. Todo mundo aqui deve a vida à sua capacidade de fazer estratégias – Melissa continuou, sem se mover. – Eu não sei o que vai acontecer, mas sei que vai ser pior do que o que nós passamos até agora. Se você sentir que não vai aguentar, tente se lembrar de algo pelo que valha a pena viver.

– Eu ia te dar o mesmo conselho – Esmeralda desviou o olhar e deu um sorriso fraco. – Quando isso tudo acabar, se nós tivermos algum tempo, será que nós podemos conversar?

Melissa considerou a questão por alguns momentos, então deu de ombros.

– Eu não queria fazer amigos aqui, mas não me importo em formar laços depois que esse maldito massacre acabar. Não vejo por que não poderíamos conversar.

– Isso quer dizer... Que nós somos amigas? – a alquimista surpreendeu-se.

– Não. Quer dizer que podemos ser, caso você sobreviva e eu também – Melissa desviou o olhar, deu uma palmadinha no ombro de Esmeralda e afastou-se.

Esmeralda viu-a ir até Anita e trocar algumas palavras e um aperto de mãos com a ilusionista antes de ir procurar outro canto isolado. Se já não fosse sua missão sobreviver para servir de informante à sua família, ela o faria apenas para descobrir quem realmente era aquela bruxa.

Melissa encostou na parede e escorregou até estar sentada no chão. Não levantou o olhar. Já tinha falado com Esmeralda e Anita, aquelas duas que tinham transformado seu quarto num quartel-general dos aprendizes e com quem passara todas as noites das últimas semanas. Tinha desenvolvido uma certa simpatia pelos outros doze colegas, mas dentro dos limites que ela estabelecia para si mesma. Aquelas duas, por outro lado, insistiam em ultrapassar as barreiras que a bruxa colocava entre si e qualquer pessoa. Não admitiria ainda que gostava delas, mas sabia que se sentiria devastada caso uma delas morresse.

Deu um soco no chão, irritada com sua incompetência. Não deveria ter se aproximado de ninguém. Não podia deixar que alguma coisa tirasse seu foco do real objetivo do seu esforço. Na verdade, não deveria nem ter interagido com seus colegas no treinamento inicial, nem retomado a amizade com Lilena. Deveria ter criado barreiras impenetráveis desde o início e treinado o suficiente para não depender de alianças para sobreviver.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de gás escapando de algum lugar. Olhou para cima e viu uma fumaça preta saindo de trás das lâmpadas do teto e descendo na direção dos aprendizes. As luzes se apagaram logo em seguida. Melissa ouviu gritos desesperados e batidas nas paredes. Alguém tentou usar uma bola de fogo para criar uma saída. Inútil. Aquele lugar fora construído para ser à prova de feitiços.

Melissa sentiu ânsia ao começar a respirar aquele gás escuro. Virou-se para o lado para vomitar, sentindo-se grata pela primeira vez por não receber alimentos antes dos treinos matinais. Pelo que podia ouvir, mais aprendizes estavam na mesma situação. O gosto amargo de bile invadiu sua boca mais uma vez quando seu estômago se contraiu violentamente. Seria aquele gás uma toxina letal? Por que os soldados perderiam tanto tempo com aquele teatro se o objetivo fosse matar todos os aprendizes? Seria mais fácil fuzilar todo mundo logo no primeiro dia.

Os sons dos outros aprendizes começaram a ficar distantes e Melissa sentiu-se zonza. Afastou-se engatinhando do lugar em que vomitara duas vezes e deixou-se cair no chão frio. Luzes vermelhas passaram diante dos seus olhos como relâmpagos antes de uma tempestade. Pouco a pouco, o mundo tornou-se um borrão negro e escarlate.

Melissa olhou ao redor. Tinha a impressão de ter perdido os sentidos por algum tempo. Estava em pé no meio de uma praça desconhecida. O céu era cor de sangue, as nuvens, negras. A cidade toda tinha uma iluminação avermelhada doentia. Viu pessoas correndo em desespero, sem realmente saber para onde ir. Criaturas malignas apareceram de todos os lados, maiores e mais assustadoras do que as que a bruxa enfrentara até então. Tentou se mover para ajudar as pessoas e descobriu que não conseguia se mover. Teve que assistir as criaturas agarrarem-nas e rasgarem seus corpos como se fossem de papel. Teve que ouvir os gritos. Uma das criaturas, uma fada em decomposição, veio na direção de Melissa, que não pôde fazer nada para se defender quando as garras da criatura atravessando sua pele. Sentiu o sangue morno escorrer e gritou quando o pedaço de pele foi arrancado. O processo se repetiu tantas vezes que Melissa não conseguia entender por que ainda não tinha morrido. Quando a fada arrancou seus olhos, o ataque parou e a dor diminuiu.

– Eu devo ter morrido – Melissa pensou. – Me desculpe, Nique, eu não consegui te encontrar.

A bruxa sentiu o mundo girar. Sua visão recuperou-se e ela pôde constatar que seu corpo fora restaurado. Olhou ao redor e se viu novamente no bosque de Sharvod, no momento em que tinha sido capturada pelas árvores corrompidas. Os galhos prendiam seus braços, suas pernas e sua cabeça, impedindo-a de se mover. À sua frente, Monique se debatia e tentava se livrar dos galhos que puxavam seus membros em direções opostas. Melissa gritou e tentou se desvencilhar dos galhos que a prendiam, mas o aperto amentava conforme a bruxa se mexia. Sentiu seus ossos se quebrarem enquanto lutava para alcançar a amada e urrou de dor. Ouviu os gritos de Monique quando os tendões e ligamentos dela começaram a se romper. Fechou os olhos, não aguentaria ver aquilo. Dois ramos de era forçaram suas pálpebras a ficarem abertas. Os pedaços separados de Monique foram largados na terra depois de serem removidos do corpo enquanto a ruiva agonizava no chão. Melissa teve que assistir até o último espasmo do corpo.

Morta ou pior. Melissa finalmente compreendia o que aquilo queria dizer.

O mundo girou e ela se viu novamente em uma praça. Estava amarrada a um poste de madeira, sobre uma pilha de lenha. Outras catorze pessoas estavam na mesma situação, todas elas eram os colegas de treinamento da bruxa, e todas tinham uma placa em que se lia “traidor” pendurada no pescoço. O fogo começou a crepitar sob seus pés. Depois do que tinha visto, Melissa imaginou que abraçaria a morte de bom grado, mas a dor lancinante das chamas subindo pelas suas pernas e os gritos dos seus colegas não deixavam espaço para gratidão. Quando seu corpo foi consumido pelo fogo, Melissa vi-se novamente na primeira praça.

Dor. Desepero. Dor. Desespero. Dor. Desespero. Dor. Dor. Dor. As três cenas repetiam-se infinitamente, com o mesmo requinte de crueldade. O mesmo desespero. A mesma dor. Sabia que gritava, mas nem conseguia mais ouvir o som da própria voz. Só havia a dor e o desespero de saber que mais dor viria em seguida.

– Melissa! – uma voz suave a chamou depois de a bruxa presenciar mais uma vez a morte horrenda de Monique. – Melissa, sou eu! Olhe pra mim!

O mundo ficou escuro e girou mais uma vez, mas ao invés de ir parar na fogueira, Melissa viu-se em sua casa no bosque de Sharvod. A luz ainda era de um vermelho doentio, mas o resto, até os cheiros, eram do seu lar. Oscilou, não conseguindo manter-se em pé sem apoio, e caiu na rede que gostava de compartilhar com Monique. Imaginou que deveria sentir alegria, nostalgia, saudade ou qualquer coisa do tipo, mas sair do ciclo de dor e desespero só a deixara vazia. O corpo se tornara uma casca oca.

– O que aconteceu, Mel? – Monique entrou na sala e andou até ela. – Você está com uma cara horrível.

– Nique... – Melissa levantou os olhos para ela num movimento letárgico. Não conseguia sentir nada. Não conseguia pensar em nada para dizer.

– Ah, Mel! Eu vou ficar tão feliz em destruir cada um daqueles malditos que fizeram isso com você! – Monique juntou-se a ela na rede e envolveu-a em seus braços. – Eu sinto muito por não ter te protegido, mas eu não podia fazer nada por você. Preciso que você me encontre para que eu possa te dizer a verdade sobre o que está acontecendo.

– Do que você está falando, Nique? – Melissa ergueu uma das mãos e passou as pontas dos dedos pelo rosto sardento à sua frente. Sentiu seu coração bater como se fosse pela primeira vez em sua vida.

– Não desista de mim ainda. Seja feliz como e com quem você quiser, mas me encontre, por favor – Monique segurou a mão que tocava seu rosto e pressionou-a delicadamente contra seus lábios. – Volte para casa, para a nossa casa. Nós precisamos conversar, amor.

Melissa piscou. A letargia desapareceu completamente. Todos os pensamentos dormentes emergiram de uma vez, como ma explosão. Tinha tanto para dizer, tantas perguntas que queria fazer. Ficou algum tempo tentando escolher alguma coisa e acabou soltando a primeira coisa que escapou até os seus lábios:

– Eu estou aqui, Nique. Eu vou ficar aqui com você pra sempre.

– Você sabe que não pode – Monique colocou uma mecha de cabelo de Melissa atrás da orelha dela carinhosamente. – Eu vou te esperar aqui. Não se preocupe, eu não estou sofrendo. Só preciso que você venha, está bem?

– Está bem – Melissa olhou para o rosto de Monique, concentrando todos os seus esforços em guardar aquela imagem para sempre em sua mente. – Eu te amo, Nique.

– Eu também te amo, Mel – Monique plantou-lhe um beijo na testa. – Mas agora você precisa acordar e continuar sobrevivendo para me encontrar.

Melissa puxou-a delicadamente para um último beijo. Monique transformou-se em fumaça assim que os lábios se tocaram, e o mesmo aconteceu com os móveis, a casa e o bosque. A bruxa ficou sozinha na escuridão. Teve a sensação de estar debaixo d’água, mesmo conseguindo respirar. Mexeu os braços e pernas para tentar nadar em alguma direção. Vagou sem rumo por algum tempo até avistar uma luz ao longe. Rumou para lá tão rápido quando pôde. Ao aproximar-se, esticou os braços para tocar a luz. Acordou imersa em um líquido azulado.

Estava nua, com uma máscara de oxigênio presa ao rosto, dentro de uma esfera transparente grande o suficiente para que ela pudesse abrir completamente os braços e ficar em pé sem esbarrar em nada. A tampa da esfera se abriu e uma garra metálica entrou ali para retirar Melissa do líquido. Quando seus pés tocaram o chão, Melissa teve medo de não ter forças para se manter em pé, como acontecera ao acordar na ala hospitalar, mas seu corpo parecia estar bem.

A esfera estava dentro de uma área cercada por biombos. Havia ali uma mesa de metal com rodinhas, contendo um uniforme branco, roupas de baixo, chinelos de pano, um copo de plástico e uma jarra de água. Melissa vestiu-se rapidamente, finalmente notando o quanto sua garganta estava seca, e tomou metade da jarra de uma vez. Olhou ao redor e viu um espaço entre os biombos que dava em um corredor. Bebeu mais um copo de água antes de seguir por ali. Passou por uma porta e deparou-se com uma sala bem-iluminada e cheia de pessoas e jaleco e computadores.

– Temos mais uma acordada aqui – alguém de jaleco anunciou.

Um rapaz aproximou-se de Melissa com um estetoscópio, um esfigmomanômetro e uma lanterna tão pequena que parecia uma caneta. Ele guiou-a até uma cadeira confortável e verificou seus sinais vitais e seus reflexos. Depois de se certificar de que estava tudo bem, deu-lhe instruções de como chegar à ala dos aprendizes. Melissa estranhou a educação e a gentileza das pessoas da sala e apressou-se para chegar ao local indicado. Precisava saber se seus colegas também tinham conseguido escapar daquele horror.

Esmeralda encolheu-se em sua poltrona. Sua mãe não tinha exagerado ao dizer que ela enfrentaria algo pior do que a morte em prol da família. Fora muito difícil conseguir se focar em lembranças felizes e pessoas importantes enquanto era destroçada por um monstro, queimada em uma fogueira e obrigada a ver uma multidão furiosa linchar todos os seus amigos. Pelo menos aquilo tinha acabado.

– Você está pensando nisso de novo. Não pense nisso ainda – Anita advertiu-a da poltrona ao lado. – Deixe essas lembranças pra depois que a gente sair daqui e conseguir se livrar do peso do ambiente.

– No que você pensou para escapar? – Esmeralda encolheu-se ainda mais, colocando os pés na poltrona e abraçando seus joelhos.

– Eu me iludi. Bem que você disse que eles poderiam tentar usar tortura pra quebrar a gente antes do fim do treinamento. Quando vi aquela fumaça preta, imaginei que fosse uma droga alucinógena e usei um feitiço em mim mesma – Anita olhou para o carpete macio. – Eu consegui me poupar de muita coisa, considerando o que você descreveu, mas foi bem ruim mesmo assim. Não passaria por algo assim de novo, a não ser para salvar minha própria vida.

– Se eu tivesse que passar por aquilo de novo, eu escolheria morrer – Esmeralda fechou os olhos com força. – Será que a Melissa vai conseguir acordar?

– Se você abrisse os olhos e olhasse ao redor, a vida seria um lugar bem mais cheio de certezas do que de dúvidas, trancinhas – Anita riu. – Nossa mãe vivia me dizendo isso.

Esmeralda levantou a cabeça e olhou para a porta. Seu coração deu um salto. Lá estava ela, com um uniforme branco e uma expressão abatida, mas os mesmos olhos azuis que tinham quebrado o padrão de cores do mundo vermelho criado pelo gás tóxico. A alquimista sentiu o rosto ficar quente. Tinha planejado se concentrar em momentos alegres da infância compartilhados com seus irmãos, mas a lembrança que a tirara de fato do caos vermelho tinha sido bem mais recente. Seria uma pena se você morresse, tinham dito aqueles olhos azuis.

– Melissa! – ela exclamou, levantando-se tão desajeitada e apressadamente que quase caiu. – Melissa, você acordou!

A alquimista abraçou a bruxa com força, afastando-se logo em seguida, envergonhada.

– Me desculpe, eu sei que eu não deveria. Você não quer criar laços, e provavelmente não gosta de contato humano, mas eu fiquei tão preocupada... – Esmeralda murmurou nervosamente, perguntando-se por que não conseguia falar como um ser humano comum.

– Tudo bem. Talvez eu precise mesmo de um abraço agora – Melissa deu um passo adiante e passou os braços ao redor dos ombros de Esmeralda.

A alquimista demorou alguns segundos para conseguir reagir, então devolveu o abraço. Melissa soluçou, e logo suas lágrimas começaram a molhar seu rosto e o de Esmeralda. A mais baixa apertou um pouco mais o abraço e esperou. Sabia o quanto ela mesma precisara de um abraço ao acordar, mas não imaginara que Melissa teria a mesma reação.

– Vem, senta com a gente – quando a bruxa começou a se acalmar, Esmeralda conduziu-a até uma das poltronas cor de creme perto das portas de vidro que davam para um jardim florido.

– Ei! É bom ver você acordada, azedinha – Anita deu-lhe um sorriso bondoso.

– É bom ver vocês duas vivas – Melissa respondeu enquanto enxugava as últimas lágrimas do rosto. – Vocês acordaram faz tempo?

– Eu fui a primeira a acordar, graças ao meu feitiço, e mesmo eu demorei uma semana. Essa aí demorou três semanas, né, trancinhas? – a ilusionista brincou com o próprio cabelo. – Eu fiquei morrendo de medo de ela não acordar. Você demorou só três dias a mais do que ela.

– E quem mais acordou? – Melissa olhou ao redor, vendo apenas estantes de livros, alguns tabuleiros de jogos e poltronas vazias dispostas ao redor de mesas de vidro.

– Mais quatro pessoas. Duas estão no refeitório, aproveitando os bolinhos de chocolate – Anita apontou para uma porta, então indicou uma outra. – As outras duas estão tirando um cochilo no dormitório. Aqui nós temos liberdade para ir para qualquer parte desses aposentos e fazer qualquer coisa a qualquer hora.

– E onde fica o banheiro? Eu acho que vou vomitar – Melissa sentiu seu estômago se contrair.

– Ah, é o seu corpo tentando se livrar da toxina. Se você beber bastante água, passa mais rápido. Mas você ainda vai ficar uns dois dias fazendo xixi verde – Anita avisou. – Se precisar de alguma coisa, eu e a trancinhas estaremos aqui. O banheiro fica ali do lado do dormitório.

– E você ainda me deve uma conversa – Esmeralda tentou parecer animada.

– Eu não esqueci – Melissa balançou a cabeça e levantou-se.

Anita esperou a bruxa se afastar antes de olhar para Esmeralda com uma expressão divertida e levantar uma sobrancelha.

– Mesmo?

– Eu não sei do que você está falando – a alquimista encarou-a. – Ela foi muito útil e sabia exatamente o que fazer para aguentar essa última... etapa, na falta de uma palavra melhor. Tem muito mais ali do que alguém maginaria só de olhar, e eu quero saber o que é.

– Mesmo? – Anita repetiu no mesmo tom incrédulo.

Esmeralda bufou e levantou-se, rumando para o refeitório e deixando Anita e seu sorrisinho besta para trás. Não tinha tempo para perder com besteiras, simplesmente queria respostas. Afinal, obter respostas era basicamente a sua função desde que tinha idade suficiente para conseguir contar a alguém sobre coisas que vira e ouvira.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Até o próximo capítulo! Críticas são bem-vindas.