Bruxaria.exe
3 Capítulo 3 - Massacre
Notas iniciais
Esmeralda respirou fundo, tentando absorver qualquer aroma interessante no ar. Conseguiu metal, magia e sangue, mas este último cheiro podia ser da menina que comprara uma briga com Anita e ganhara um nariz quebrado no ônibus. Era mais interessante que uma excursão escolar.
Viu mais oito ônibus chegando. Uma média de quatro a seis pessoas por ônibus. Mínimo, trinta e seis. Máximo, cinquenta e quatro. Não valia a pena estimar a quantidade de soldados, havia um monte deles.
As instalações do tão famoso centro de treinamento da equipe preta consistiam em um prédio de três andares para alojamento, uma pista de corrida, um grande campo aberto de terra e uma cúpula de metal grande o suficiente para que pudesse conter o prédio de três andares, caso fosse posta sobre ele. Tudo cercado por muros altos encimados por arame farpado e guaritas com soldados armados a cada dez metros.
Pelo menos podia ver bem o céu dali. Parecia ainda mais azul, em contraste com as construções cinzentas.
– Se você já terminou de socializar, eu acho que nós precisamos ir para a fila – Esmeralda chamou Anita.
– Eu espero que a gente tenha aula de combate corpo-a-corpo aqui. Aquela idiotinha ainda pode aprender mais algumas coisas – Anita estreitou os olhos azul-escuros ameaçadoramente.
– Ótimo, ótimo. Vamos.
Na fila, todos os aprendizes tiveram que dizer em voz alta seus códigos para conferência. RX-976. Esmeralda torcia o nariz toda vez que era lembrada do seu código. Gostaria que fosse um número divisível por três, cinco ou sete, ou então que fosse composto por esses números. Pelo menos havia quarenta e cinco pessoas ali, um número divisível por três e por cinco.
– Agora cada um de vocês receberá um uniforme cinza. Quem completar o treinamento com sucesso receberá as vestes pretas – um soldado com a farda repleta de insígnias brilhantes berrou para os recém-chegados. – Vocês serão encaminhados aos seus dormitórios. Terão vinte minutos para ir, trocar suas roupas pelas novas e voltar. Atrasos não são tolerados aqui.
Uma onda de suspiros e muxoxos contidos se elevou no ar. Em poucos minutos o céu começaria a ficar alaranjado pelo ocaso. Todos tinham passado um longo dia dentro do ônibus. Queriam comer, descansar, relaxar um pouco.
“A morte vai até parecer uma coisa boa”, Esmeralda lembrou-se. Sua mãe lhe dissera aquilo antes de pedir que ela desse um jeito de ingressar na equipe preta, e o instrutor que a encaminhara para o ônibus dissera o mesmo. Dava para ter uma ideia do que estava por vir nos próximos seis meses.
Assim que recebeu o pacote com seu novo uniforme e a indicação do seu dormitório, Esmeralda disparou para o prédio de alojamentos. Estava sem calças quando, para sua alegria, Anita entrou.
– Colegas de quarto! – Anita de pulinhos de alegria, fazendo seus fios loiros se agitarem pouco acima dos seus ombros.
– A gente vai ter bastante tempo pra comemorar isso depois. No momento, temos onze minutos pra estar de volta na fila – Esmeralda respondeu, não sem um sorriso. – E eu não quero arriscar me atrasar logo no primeiro dia.
– Então vamos logo com isso, trancinhas! – Anita tirou a blusa branca e desdobrou a cinza num único movimento.
Esmeralda riu. Os alquimistas da família Paz era conhecida mundialmente por seus feitiços exóticos, seus mistérios e o peculiar penteado de quatro tranças. Os homens da família que decidiam manter suas barbas também as dividiam em duas tranças. E, no caso de Esmeralda, havia os olhos verdes que contrastavam com a pele escura e a deixavam com uma aparência ainda mais exótica. Uma perfeita Paz.
As duas correram de volta para a fila, chegando com dois minutos de folga. Ao final dos vinte minutos havia trinta e nove pessoas na fila. Os seis retardatários chegaram entre um e três minutos após o final do praso.
– Soldados, tragam aqueles seis à frente! – o homem cheio de insígnias apontou para a meia dúzia de aprendizes.
Uma dupla de soldados aproximou-se de cada um dos atrasados e arrastou-os para a frente do grupo, forçando-os a ajoelharem-se perante o comandante sem se incomodar em fazer um pedido verbal.
– Executem todos – o homem das insígnias ordenou num tom inexpressivo.
Anita e Esmeralda abraçaram-se. Anita escondeu o rosto no ombro da morena. Esmeralda forçou-se a continuar olhando. Os seis aprendizes tentaram implorar por suas vidas, mas não tiveram muito tempo para isso. Seis disparos foram feitos quase em uníssono. Seis corpos sem vida foram arrastados dali.
– Atrasos não são tolerados aqui – o comandante repetiu. – Eu quero todos em formação a partir de agora. Três fileiras!
Esmeralda apressou-se para entrar atrás de alguém. Ficou no meio da fileira central, ao lado de Anita e de um desconhecido. O comandante começou mandando que marchassem naquela formação em torno do grande campo aberto. Uma volta marchando, uma trotando, uma marchando, uma trotando e uma volta marchando para encerrar. Esmeralda terminou o exercício encharcada de suor e com o estômago zurrando de fome. Não comera nada desde o café-da-manhã.
O céu estava escuro quando os aprendizes foram liberados para retornarem aos seus aposentos. Anita jogou-se em sua cama. Esmeralda preferiu sentar-se no chão e alongar as pernas doloridas.
– Que tipo de lugar é esse? – Anita cobriu os olhos com o braço e estremeceu. – Aquelas seis pessoas...
– É horrível, eu sei, mas nós temos que aguentar. São seis meses, e depois a gente volta para as usinas. Não são dez anos aqui – Esmeralda fez uma careta ao puxar a ponta do pé. – Vai, se alonga aí, aproveita e toma um banho. A gente precisa disso agora. Ei, você viu que deixaram pijamas nas nossas camas enquanto a gente estava lá fora?
– Eu não quero saber de pijamas, caramba! – Anita sentou-se de supetão, tremendo e com os olhos marejados. – Esses caras são assassinos! Aposto que vão dar um jeito de matar todo mundo antes do final do semestre e anunciar que todos os aprendizes falharam de novo!
– Shh! – Esmeralda levantou-se de um salto e cobriu a boca da amiga de infância e irmã adotiva com sua mão. – Eles mataram seis pessoas por causa de um atraso de menos de cinco minutos. Você provavelmente não vai querer descobrir em primeira mão o que eles fazem com quem faz esse tipo de acusação em voz alta. O que nós temos que fazer é seguir as regras nesses seis meses e não nos deixarmos levar pelo que quer que seja. Eu te avisei que esse lugar seria a morte ou pior – a moça afrouxou a mão. – Agora você tem que aguentar até o fim.
– Eu não queria que você viesse sozinha pra um lugar ruim – Anita soluçou. – Mas se eu soubesse que era tão horrível assim, eu teria ficado com o Leyrah na usina.
– E é exatamente isso o que eu tinha te dito para fazer. Você veio de teimosa – Esmeralda puxou-a para um abraço. – Mas tudo bem, eu vou te proteger aqui. Afinal, eu não sempre cuidei de você e do Leyrah quando a gente era criança e vocês arrumavam briga na rua?
– Mas na época todo mundo tinha medo de você por ser a protegida, a futura grande alquimista. Ninguém vai se importar com isso aqui.
– O que só mostra o quanto são idiotas – Esmeralda deu de ombros. Estava com tanto medo quanto Anita, mas precisava se controlar. Tinha que ter sucesso se quisesse ser útil no grande plano. A família Paz tinha coletores de informações e sabotadores em todas as equipes, menos na preta. Cabia a Esmeralda conquistar esse território.
Melissa sentou-se de pernas cruzadas em seu colchão, de frente para a cama vazia cujo dono fora executado no primeiro dia. Logo aquilo começaria a parecer sorte. Quarenta e cinco pessoas tinham chegado ali. Um mês depois havia trinta. Naquele ritmo, não haveria mais ninguém vivo ao final dos seis meses.
Seis pessoas mortas por atraso. Um suicídio. Uma pessoa morta por tentar roubar comida da cozinha. Uma pessoa morta por se recusar a ser usada como saco de pancadas. Mais um suicídio. Uma pessoa morta por não comparacer ao treinamento por causa de um resfriado forte. Uma pessoa morta por acidentalmente atingir um soldado em um dos primeiros treinos de magia de combate, mas essa tinha morrido de tanto apanhar dos outros soldados. Um suicídio, da pessoa que amava o morto que atingira o guarda. Outro suicídio, da pessoa que amava o último suicida. Uma pessoa executada por ter falhado em sua tentativa de suicídio.
Melissa andava fazendo o melhor que podia para se manter distante de todos os outros aprendizes. A chance de que algum deles fosse morrer era muito grande, e ela não se arriscaria a perder mais alguém significativo. A solidão incomodava, mas era melhor do que o luto, e o cansaço físico ajudava a esquecer os sentimentos. A dor também.
Seu corpo todo tinha marcas roxas, verdes e amareladas. O comandante dissera que a equipe preta era uma equipe feita para combate, tinha que estar preparada para perseguir criaturas malignas, destruí-las... e não perecer facilmente. Todas as manhãs os aprendizes participavam do treinamento de condidionamento físico. Todas as tardes havia práticas de técnicas de combate sem magia. Todas as noites, técnicas de combate mágico dentro da estrutura abobadada de metal. Mesmo Melissa, que se obrigara a ter um cronograma rígido de treinos e estudos antes, se sentia exausta. E, é claro, uma vez por semana, os aprendizes passavam por uma longa e excruciante sessão de “treinamento de amortecimento de impacto”. O comandante insistia que todos deveriam ser capazes de continuar lutando mesmo que seus corpos recebessem golpes poderosos, então ordenava que os aprendizes não reagissem aos golpes aplicados por soldados.
Melissa criara a teoria que os soldados enviados para lá eram escolhidos a dedo. Talvez não bastasse odiar pessoas com o dom da magia; o ódio deveria vir declaradamente de pelo menos três gerações de apoiadores das fogueiras. Era impossível que nenhum deles fosse capaz de demonstrar qualquer tipo de empatia por pessoas comuns também.
– Só mais cinco meses, Melissa. Mais cinco meses e isso acaba – ela repetiu para si mesma pela quarta ou quinta vez naquela noite, fechando os olhos para tentar se lembrar da imagem de Monique sorrindo na rede da casa do bosque. Cinco meses. Ela esperava não ficar louca até lá.
Em algum momento adormeceu, acordando só na manhã seguinte com a sirene do despertar. Seu pescoço doía por ter dormido em uma posição desconfortável. Não seria a pior parte do dia, ela tinha certeza. Era sábado, dia to treinamento de amortecimento de impacto. Melissa obrigou-se a se levantar e trocar de roupa. Só tomava ducha à noite, para não correr o risco de se atrasar. Não se permitiria morrer por uma coisa tão banal.
As filas cinzentas se reuniram em frente ao prédio dos alojamentos, como acontecia todas as manhãs. O comandante apareceu com suas insígnias brilhantes e seu uniforme de cor de bosta de cavalo. Um homenzinho repugnante e detestável. Melissa adoraria esmagar a cabeça dele com um dos galhos caídos da árvore de Sharvod.
– Vocês sobreviveram ao primeiro mês de treinamento. Espero que estejam cientes de que ainda faltam cinco. Hoje começa o segundo mês. Eu não espero ver metade de vocês aqui em uma semana – ele fez uma pausa para admirar as expressões de desespero à sua frente. – A partir de hoje, vocês vão começar a ter contato com o que será o trabalho de vocês pelos próximos nove anos. Nós os trouxemos direto do sistema de descarte das usinas. Vocês têm até o pôr-do-sol para eliminar essas criaturas. Até lá, o acesso a todos os prédios é proibido.
Um zumbido de comentários indignados se ergueu timidamente. Eliminar as criaturas? Eles realmente iriam soltar criaturas ali? Melissa observou os soldados, que vestiam o mesmo colete púrpura que costumavam usar no prédio de treinamento de magia. Aquilo parecia protegê-los de magia até um certo ponto. Seus fuzis provavelmente resolveriam o resto, caso as criaturas ou os aprendizes se voltassem contra eles.
Os portões se abriram para permitir a passagem de um caminhão blindado. Um desesperado saiu correndo da formação, tentando escapar pela única brecha que aparecera até então. Melissa contou dez passos antes de ouvir o tiro. Vinte e nove aprendizes dividiram a atenção entre o cadáver e o caminhão. Dois soldados arrastaram o corpo para fora do que seria um campo de batalha em alguns minutos, os demais se postaram ao redor das construções, com rifles prontos para atirar em qualquer um que tentasse se refugiar ali. Vinte e nove seres vivos prenderam a respiração quando o caminhão estacionou e a porta do container começou a se abrir.
Melissa sentiu o cheiro mesmo cheiro nauseabundo que invadira seus narinas no bosque no dia do ataque. No dia do desaparecimento de Monique. As criaturas começaram a sair. Uma delas parecia uma fada nua, meio decomposta; a outra era a sombra de um sátiro; a terceira a sair era uma sucuri de cor nauseante; depois veio uma árvore andante. Todas as trinta criaturas eram formas deformadas das criaturas mágicas que outrora tinham existido em abundância em locais sagrados dos nascidos com o dom da magia.
– Comecem – o comandante fez um gesto amplo na direção do caminhão e afastou-se.
As linhas da formação desfizeram-se. Alguns correram à frente para cumprir logo sua missão, outros mantiveram distância para pensar em alguma estratégia, uns poucos recuaram antes de se lembrarem que a maior chance de sobrevivência estava em lutar contra as criaturas.
Melissa cogitou ir par a linha de frente, mas hesitou ao se lembrar do mago piromaníaco que quase queimara suas sobrancelhas num outro dia. Uma bola de fogo que atingiu a árvore andante fez com que ela se sentisse grata pela lembrança. E a ideia do mago provou-se ineficaz, conseguindo apenas fazer com que uma árvore maligna flamejante irritada perseguisse os combatentes.
Magia de combate. Ela detestava aquilo. Aprendera com sua família para proteger o bosque, mas parecia tão errado. Magia era para fluir naturalmente, não de forma tão brusca. Ainda assim, se quisesse encontrar a verdade sobre o destino de Monique, teria que aprender a conviver com aquilo. Sentiu sua energia se concentrar no centro do seu corpo e então se espalhar rapidamente, como uma onda de calor e eletricidade pulsante. Uma vez. Duas vezes. Na terceira, deu dois saltos à frente e agarrou o braço da fada em decomposição. A criatura silvou, furiosa, quando linhas vermelhas marcaram sua pele cinzenta e racharam-na. Melissa caiu no chão com o safanão da fada e se levantou como se nada tivesse acontecido, já tinha se habituado a coisas banais como aquela. Repetiu o processo, mirando dessa vez no coração da criatura. Precisou de quatro tentativas para acertar.
Com os dedos já formigando, Melissa finalmente acertou a região do coração. A fada guinchou num tom tão agudo que os ouvidos da bruxa doeram. A pele cinzenta rompeu-se e uma coisa escura e disforme saiu de dentro da fada, pulando na direção de Melissa. Parecia ser uma criatura de gosma preta oleosa. A bruxa tentou usar o mesmo ataque, mas sua mão simplesmente entrou na criatura e ficou presa lá. A gosma começou a subir pelo seu braço, imobilizando-o. Melissa tentou puxar seu braço para fora freneticamente, sem sucesso. Resolveu tentar o oposto de antes, frio e... Que raios seria o oposto de eletricidade? Teria que tentar o frio primeiro.
A bruxa parou de lutar contra a gosma e fechou os olhos para se concentrar melhor. Podia sentir a coisa morna e viscosa subindo pelo seu braço e já querendo dominar também seu pé. Pensou no inverno, neve, frio, nos sorvetes que tinha tomado com Monique. Parecia que um buraco tinha surgido em seu estômago e que algo o preenchera com gelo, mas a lembrança de Monique mantinha um pouco do seu calor. Sentiu a onda de gelo pulsar no mesmo ritmo que as batidas do seu coração. A coisa viscosa ficou rígida e Melissa conseguiu quebrá-la com alguns chutes da perna livre. Esperava que houvesse uma maneira melhor de destruir aquelas coisas.
– Anita, cuidado! – alguém gritou um pouco à direita.
Melissa virou-se a tempo de ver uma moça baixinha pular na frente de uma loira alta para protegê-la do ataque de uma das gosmas. A posição em que ela ficou acabou permitindo que a coisa prendesse sus dois braços e uma das pernas de uma vez. Sem pensar, a bruxa avançou e congelou a gosma, estilhaçando-a em seguida.
– Tomem mais cuidado, vocês duas! – ela ofegou, chutando para o lado um fragmento de gosma preta congelada. – E tentem usar cosias frias contra essas... coisas. Parece funcionar melhor do que calor.
– Obrigada, hã... – a morena baixinha ia responder, mas Melissa virou-se e entrou em conflito com outro monstro antes que houvesse tempo para isso.
O combate não durou até o ocaso. Melissa e uma dúzia de aprendizes – inclusive as duas que a bruxa salvara – se encarregaram de eliminar os monstros que seus colegas tinham falhado em derrotar. Ao final do dia, as fileiras foram compostas por dezenove pessoas. Dez cadáveres jaziam entre pedaços de monstos e gosma.
– Vocês passarão por isso uma vez por semana até o final do quarto mês, se sobreviverem até lá. Usem a noite para recuperar suas energias, o treinamento comum volta amanhã – o comandante anunciou, sem fazer qualquer comentário sobre o desempenho dos sobreviventes. – Estão dispensados.
Melissa mancou até o prédio dos alojamentos. Seu corpo inteiro estava dolorido, e ela se sentia exausta e nauseada por ter usado tanta magia de uma vez só. Precisava desesperadamente de uma ducha para lavar o sangue que escorrera de um pequeno corte acima da sobrancelha e secara em seu rosto.
– Ei, você! – a morena a chamou quando Melissa chegou à entrada do prédio. – Você me salvou. Por quê?
A bruxa virou-se para encará-la, surpreendendo-se com o par de olhos verdes que a fitava de volta. Respirou fundo, lembrando-se de se manter distante de quem quer que fosse.
– Se você queria morrer, há muitas maneiras de conseguir isso, não se preocupe. – Melissa virou as costas para a colega e subiu para o seu quarto.
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