Bruxaria.exe
2 Capítulo 2 - Morta ou Pior
Notas iniciais
Melissa acordou em uma cama que não era a sua. Sentiu cheiros desconhecidos e fortes invadirem seu nariz sem piedade. Não era de nenhuma planta ou animal, claramente. Seu corpo inteiro doía, e ela tinha certeza de que havia algo fincado em seu braço direito. Havia também algo no seu rosto que abafava sua respiração, apesar de não torná-la mais difícil; era muito estranho. Um outra coisa apertava sua perna direita.
Sentiu as pálpebras pesadas, mas precisava saber onde estava. Viu um monitor com linhas verdes que subiam e desciam – era dali que vinha um som repetitivo, agudo e irritante. Uma bolsa plástica com algum remédio líquido estava pendurada logo ao lado, e seu conteúdo era despejado nas veias de Melissa através da agulha em uma das veias do seu braço direito. A coisa em seu rosto era uma máscara de plástico ligada a um cilindro de oxigênio. Suas pernas e seu tronco estavam ocultos sob a coberta, mas era possível ver que seus braços estavam enfaixados. Tentou olhar mais um pouco ao redor, mas não havia muito a ser visto além do equipamento comum de uma UTI e as cortinas separadoras de leitos. Uma enfermeira parou ao lado da sua cama com uma prancheta e uma caneta para fazer anotações.
– A paciente RX-640 acordou, doutor – ela anunciou num tom que Melissa julgou ser alto demais para alguém lidando com pacientes em estado crítico.
Um senhor na casa dos sessenta anos foi até o lado da maca da paciente e checou a bolsa de soro, as informações das máquinas e o esfigmomanômetro preso na perna de Melissa. Usou uma pequena lanterna para testar a reação das suas pupilas e anotou algumas coisas num papel da prancheta da enfermeira.
– Paciente RX-640, você está consciente? – ele perguntou-lhe, por fim.
– Meu nome é Melissa Gardênia – a paciente conseguiu responder com dificuldade.
– Seu nome é irrelevante, bruxa. Você agora é propriedade do Estado e deverá servir-nos pelos próximos dez anos. Durante este período, você será RX-640. Você será lembrada disso posteriormente, quando sua consciência estiver estável – o médico pareceu indiferente.
– Onde está Monique? – Melissa esforçou-se mais do que deveria para falar e tossiu, o que só agravou a dor na sua garganta e no tórax.
– Não foi encontrada mais nenhuma bruxa na região. Você fez essas perguntas assim que chegou aqui. Se bem que, no estado em que chegou aqui, eu não me surpreendo que você tenha esquecido – o médico fez mais uma anotação na ficha. – Você foi encontrada no meio de um bosque morto em chamas. Mais ninguém estava lá, ou, se estava, foi carbonizado ao ponto de não poder mais ser reconhecido enquanto algo como um ser humano. No momento, você se encontra na unidade de tratamento intensivo da ala hospitalar institucional do departamento de segurança de uma das usinas de energia mágica. Você deve receber alta em breve, e começará seu treinamento assim que sair daqui. Alguma dúvida?
– Que dia é hoje? – Melissa franziu o cenho. Seu período de trabalho para as usinas não deveria começar antes do outono.
– No calendário de Novadália, estamos no quinto dia do primeiro mês do quarto ciclo do ano. Para o seu povo, isso equivale ao quinto dia do outono. Você está aqui há um mês, aproximadamente. Foi trazida pela unidade especial que te resgatou no bosque. Se você não quiser perguntar mais nada, eu tenho mais o que fazer. Se tiver algum problema, chame a enfermeira – o médico virou-se e desapareceu atrás das cortinas divisórias.
– O que aconteceu comigo? – Melissa conseguiu dizer à mulher ao seu lado.
– Você foi encontrada com queimaduras leves, escoriações por todo o corpo, alguns ossos quebrados e sinais claros de estrangulamento. Passou por duas cirurgias para corrigir alguns dos problemas e terá que fazer algumas sessões de fisioterapia quando a sua consciência se estabilizar. Precisa de mais alguma informação?
Melissa balançou a cabeça negativamente, sentindo que não teria forças para falar mais. A enfermeira afastou-se, deixando-a sozinha com seus pensamentos. Monique não tinha sido encontrada, o queria dizer que ou ela conseguira fugir – e agora estaria no treinamento – ou que algo muito ruim acontecera. Morte, ou pior. Melissa teria que se esforçar tanto quanto pudesse para terminar logo o período de fisioterapia, e assim descobrir se sua ruivinha estava segura naquele lugar detestável.
Os dias seguintes envolveram muita dor, pelo que Melissa se lembraria mais tarde. Seus músculos, atrofiados depois de um mês de confinamento naquela cama, não respondiam direito aos seus comandos. E doíam. O médico recomendara que a dose de analgésico fosse diminuída para que Melissa corresse menos risco de voltar ao seu longo sono. De fato, a dor a mantinha acordada, até mais do que o necessário, e o pouco de sono que ela conseguia ter era cheio de sonhos com árvores negras assassinas e fogo. Até aquele momento da sua vida, Melissa diria que seus dias finais daquela internação tinham sido algo bem próximo de um inferno.
Uma semana depois, a bruxa foi liberada com um par de muletas, um uniforme, um guia de instruções e um papel com seu cronograma impresso nele. O uniforme consistia em um conjunto de camisa e calça de algodão e sapatos de ponta de ferro, tudo branco, menos o metal. As meias e roupas de baixo também foram fornecidas pela instituição.
Com suas muletas e muito esforço, Melissa conseguiu se locomover até o seu dormitório, no quarto andar – o mais baixo dos andares residenciais. Quarto número 403. Dois leitos. Companheiro de quarto, RZ-125. Abriu a porta e entrou.
– Hey! Até que enfim você chegou aqui! – uma moça saudou-a alegremente, estacando ao ver as muletas. – Você precisa de ajuda? Quer que eu ajeite a cama pra você? Se quiser, eu posso te emprestar o meu travesseiro pra você apoiar suas pernas.
– Lilena? – Melissa parou no beiral da porta. A outra estava um pouco mais alta do que ela se lembrava, e com os cabelos mais curtos, mas era, sem dúvida alguma, a aprendiz de curandeira que ela vira nos dois últimos invernos, nas reuniões.
– Melissa?! – a outra sorriu, surpresa. – Céus! Você está uma vareta! O que aconteceu?
A bruxa claudicou até a cama que parecia ser a que estava vaga e deixou-se cair ali. Respirou fundo e, depois de esperar Lilena despejar todas as perguntas que queria fazer, contou sua história. A curandeira abraçou-a carinhosamente no final, com lágrimas nos olhos.
– Eu achei que a Monique estivesse na ala hospitalar com você – Lilena afastou-se, fungando. – Tem um bom número de nós aqui, mas eu já conversei com quase todo mundo e não vi nem um sinal dela.
Melissa engoliu em seco e fitou o teto, lutando contra as lágrimas. Já se preparara para a possibilidade de a sua ruivinha não estar ali. Só não queria pensar na outra opção. Morta ou pior. Morta. Ou. Pior. Aquilo não parava de ecoar em sua mente.
– Você precisa de companhia ou precisa ficar um pouco sozinha para processar a informação, Melissa? – Lilena fitou-a com um misto de preocupação e pena, a bruxa detestou aquela expressão.
– Se eu pedir pra ficar sozinha, você tem pra onde ir?
– Eu posso ir para a biblioteca, para as salas de treinamento que estiverem vagas, para as piscinas... Tenho opções, contanto que eu não saia do prédio nem entre em alas restritas – Lilena deu de ombros. – Eu volto em uma hora para ver como você está.
Melissa assentiu com a cabeça e esperou a curandeira sair do quarto para enrolar-se como uma bola e deixar as lágrimas rolarem. Morta ou pior. Teria sua querida Monique errado na dose de magia e consumido a si mesma numa tentativa de se livrar das árvores assassinas? Teria ela feito isso para salvar Melissa? Então a morte dela seria culpa de Melissa? E se não tivesse morrido? Que fim teria tido a adorável quase bruxa do bosque de Sharvod?
– Eu vou descobrir a verdade por você, Nique... – Melissa soluçou, agarrando os lençóis com força. – Eu vou ficar forte, descobrir a verdade e fazer o que for possível para resolver isso. Só não sofra... Eu nunca quis que você sofresse, Nique... Nique...
Lilena demorou mais que o previsto para voltar, e até lá Melissa já tinha chorado até adormecer. A curandeira compreendia sua dor. Seu noivo tinha entrado no treinamento dois anos antes; morrera em seis meses. Seus parentes tinham morrido a serviço de Novadália ou nas fogueiras. Restavam apenas uma prima, um tio e uma avó. A maioria das famílias mágicas tradicionais tinha uma história trágica naqueles tempos.
Por pura curiosidade, aproveitou a oportunidade para dar uma olhada nas marcas nos braços da bruxa. Linhas finas onde os galhos tinham rompido a pele, marcas ligeiramente mais claras onde as chamas tinham alcançado. Se a ala hospitalar permitisse o uso de magia em pacientes, Lilena sabia que poderia tê-la curado sem deixar nenhum sinal em sua pele. Mas, estando ali, tinha que se contentar com o melhor resultados que poderia obter ali. Mesmo não gostando dos medicamentos artificiais tanto quanto gostava das suas ervas curativas, queria trabalhar na área de cuidados hospitalares nos dez anos que se seguiriam.
Melissa acordou por volta da hora do jantar e Lilena acompanhou-a até o refeitório. As opções do dia eram sopa de ervilha e sopa de tomate. Os temperos não pareciam ruins, e o cheiro era mais apetitoso do que a bruxa esperara. Apesar de tudo, parecia haver algum padrão de qualidade no que era oferecido aos escravos mágicos – como muita gente costumava se referir às pessoas com o dom da magia que estavam cumprindo o tempo de serviço obrigatório.
Sentada à mesa, olhou ao redor. Reconheceu vários rostos vistos nas reuniões de inverno, mas não chegava nem à metade da quantidade de gente ali. Perguntou-se por que havia tantos trajes de cores diferentes e resolveu fazer a pergunta para Lilena.
– Uniformes brancos são para quem está em fase de treinamento. Os curandeiros vestem verde-claro. O pessoal do suporte geral veste azul. Quem usa vermelho, é porque trabalha diretamente na parte de refino de magia. O pessoal da pesquisa é amarelo. E preto... – em meio às centenas de pessoas ali, não parecia haver muito mais do que meia dúzia de pessoas de preto. – Preto é a cor de quem lida direto com todos os problemas que surgem a partir do refino de magia para produção de energia. É a cor com maior taxa de mortalidade. Um rapaz me disse que essas pessoas usam preto porque estão constantemente de luto.
– Essas consequências do refino de magia são energias negativas, às vezes monstros, não são? – Melissa estreitou os olhos, fitando uma dupla de preto duas mesas à frente.
– Acho que sim. Eu nunca tive muita curiosidade no que se refere ao refino de magia, na verdade – Lilena admitiu.
– Nem todo mundo gosta de perder tempo pensando sobre um futuro horrível que não pode ser mudado – a bruxa disse no tom mais reconfortante que conseguiu encontrar no momento, o que não foi muito. Lilena pareceu entender a intenção, pelo menos.
– Mas muita gente parece achar que é um futuro que, de alguma forma, pode ser evitado. E então, quando vêm pra cá... – uma sombra pairou sobre o semblante da curandeira. – Tivemos quinze suicídios na primeira semana de treinamento. O pessoal mais velho disse que essa taxa diminui bastante depois dos dois primeiros meses, mas, mesmo assim... Você consegue imaginar tudo isso de gente preferindo morrer a trabalhar aqui por dez anos?
– A maioria desses suicídios é um protesto. É a única forma de não se entregar a quem insiste em subjugar as mais grandiosas forças da natureza, destruindo o mundo no processo – Melissa encarou sua sopa de ervilhas. – Antes de a Monique ir morar comigo, eu cogitava fazer isso também. Eu não queria entrar nesse sistema.
– E o que fez você mudar de ideia?
– Agora eu tenho que descobrir o que realmente aconteceu no bosque, e não dá pra fazer isso morta. Além disso... – Melissa engoliu em seco e comprimiu os lábios. – Depois que a Nique foi morar comigo, eu comecei a ter esperança de ter uma vida feliz quando esse pesadelo acabasse.
Lilena desviou o olhar e tomou mais uma colherada da sua sopa de tomate. Nunca discutira muito com outras pessoas sobre o período de serviço obrigatório. Para ela, aquilo era algo que simplesmente tinha que acontecer. Jamais imaginaria que pessoas tomariam medidas tão extremas contra algo que lhe parecia tão simples. Não era como o período em que uma borboleta fica confinada ao seu casulo e se metamorfoseia para, depois, ganhar o céu?
Na manhã seguinte, Melissa começou a frequentar as aulas com todos os outros novatos durante a manhã. As tardes, em geral reservadas para descanso ou estudo, ela dedicou ao seu condicionamento físico, usando as salas de treinamento vagas e as piscinas sempre que possível. Voltava para o dormitório com os músculos doendo e precisava da ajuda de Lilena para conseguir alongar-se e relaxar o suficiente para dormir, mas não se importava. Desde o momento em que acordara naquela maca e ouvira que sua Monique não fora encontrada, preparara-se para a dor. Para descobrir o que acontecera com a sua ruivinha, viveria dez anos de dor sem reclamar.
As muletas se foram antes do esperado, graças aos esforços da bruxa. Ao final do segundo mês de treinamento, ela estava no topo da classe. A dor dos seus treinos diminuíra, e ela passara a estudar à noite. Estava determinada e entrar na equipe amarela ou na equipe preta; nenhuma das outras parecia tão propícia a encontrar respostas. Lilena sabia o que ela pretendia fazer e, apesar de advertí-la com frequência dos inúmeros riscos que Melissa se propunha a correr, jamais deixava de ajudá-la. Como a própria curandeira sempre repetia, a comunidade mágica era pequena e frágil demais para que um negasse apoio ao outro.
No quinto mês, Melissa tinha alcançado os melhores aprendizes em termos de preparo físico e formara um grupo de treino especial extra-oficial com seus colegas. Teria formado um de estudos também, não fosse o toque de recolher para os aprendizes após o jantar.
O sexto e último mês passou depressa demais para a bruxa. Ela queria ter tempo de aprender mais, de se preparar mais. A semana de testes, por outro lado, arrastou-se infinitamente. Melissa sabia as respostas para todas as perguntas, mesmo que essas respostas gerassem ainda mais perguntas na mente da bruxa. Os testes físicos também não foram um problema. Ela estava se mostrando a pesquisadora perfeita, a lutadora perfeita, tinha que conseguir uma vaga em uma das equipes que queria.
– E aí? Saiu o resultado? – Lilena perguntou ansiosa na manhã seguinte ao último teste.
– Está pregado o lado do refeitório. Me desculpe por não ter te acordado pra ir comigo. Eu estava muito nervosa – Melissa sentou-se em sua cama. Lilena jamais comentara isso com alguém além de si mesma, mas a bruxa parecia ter se tornado uma pessoa completamente alienada a sentimentos nos seis meses em que passara ali. Saber que ela ficara nervosa era um alívio, uma demonstração de humanidade.
– E então?
– Você conseguiu seu posto na área de saúde, e eu consegui o meu – o olhar brilhante, ainda ligeiramente desesperado, era o segundo sinal de que Melissa ainda era capaz de sentir alguma coisa, para Lilena – na equipe preta.
– Que bom! Se você se machucar, eu vou poder te ajudar rapidinho, que nem você me ajudou a estudar.
– Não. Aparentemente, não há instalações adequadas aqui para que os novatos da equipe preta passem pelo treinamento específico. Nós vamos ficar seis meses sem contato. Mas eu espero aidna poder contar com a sua amizade quando eu voltar. Foi muito bom poder passar esse tempo com alguém conhecido e útil como você.
– Foi muito bom poder passar esses seis meses com alguém como você também. Por favor, volte bem, está bem? – Lilena estendeu a mão para que Melissa a apertasse. A bruxa não andava aceitando abraços muito bem.
Dois dias mais tarde, Melissa estava no ônibus blindado que a levaria até a central de treinamento da equipe preta. Outros ônibus, de outras usinas, também estavam indo para lá. A bruxa jamais contaria à curandeira as últimas palavras ditas por um dos instrutores à meia dúzia de aprendizes escolhidos para a equipe preta.
– Eu estou mandando seis de vocês. As outras cinco usinas estão mandando mais ou menos esse tanto de gente também. Nenhum de nós espera que muitos de vocês sobrevivam, mas tentem garantir que no final tenhamos pelo menos um trabalhador de preto para cada usina. Não queremos que o fiasco do semestre passado, em que ninguém sobreviveu, se repita – um sorriso cruel tinha acompanhado os lábios dele naquela breve pausa. – Se bem que, indo para onde vocês vão, a morte pode parecer a melhor opção.
Melissa estava a caminho da morte ou de algo pior. De uma forma estranha, aquilo a aproximava de Monique. Morta ou pior. Mas, até descobrir a verdade sobre o desaparecimento de Monique, Melissa só podia ter para si o pior.
Fale com o autor