Bruxaria.exe
15 Capítulo 15 - Armadilha
Notas iniciais
Melissa fitou o céu estrelado, insone. Não conseguia parar de pensar em como fora banida do único lugar que um dia conseguira chamar de lar. Ficou imaginando como teria sido para Monique passar aquele tempo todo sozinha, descobrindo mais e mais abismos entre ela e Melissa, se sentindo triste sem ter ninguém para consolá-la. O quão doloroso fora para ela tomar a decisão de banir Melissa completamente do seu bosque e da sua vida? O quão desesperada ela estava para realmente achar que Melissa conseguiria ser feliz em qualquer outro lugar?
As lágrimas quiseram vir, mas a bruxa as conteve. Ela não pudera consolar Monique, não pudera impedir que as lágrimas dela caíssem, então não tinha mais o direito de derramar as suas próprias ou de aceitar consolo de quem quer de fosse. Se ela tivesse protegido Monique e o bosque da forma que sempre prometera que faria, nada daquilo teria acontecido. O banimento era um castigo justo.
Lançou um olhar a Esmeralda e Anita, que dormiam sob seus cobertores, tendo a grama da pradaria como colchão e suas mochilas como travesseiro. Melissa se tinha se recusado a falar pelo resto do dia, e a dupla achara melhor que ela descansasse um pouco. Tinham combinado de partir de manhã, assim que todas estivessem acordadas. Esmeralda prometera explicar às suas duas companheiras o que descobrira em sua usina. Melissa se perguntava o que seria.
O amanhecer demorou uma eternidade para chegar, com as árvores do bosque observando cada minuto de ansiedade de Melissa. Anita e Esmeralda acordaram com a primeira luz da manhã, o que foi um alívio. A bruxa achva que enlouqueceria se tivesse que esperar muito mais para ter qualquer coisa que tirasse os seus pensamentos do bosque, mesmo que parcialmente.
– O que você descobriu na usina? – Melissa disparou assim que a alquimista se sentou na grama, ainda esfregando os olhos.
– Bom dia pra você também – Anita resmungou, bocejando em seguida. – Café da manhã, alguém?
Melissa negou com a cabeça. Não estava com fome, e nem sequer podia pensar em comida; a sua única refeição do dia anterior ainda parecia revolver em seu estômago. Esmeralda lançou-lha um olhar de repreensão e obrigou-a a comer algumas bolachas antes de começar a contar sobre suas descobertas.
– Saco vazio não para em pé – ela ralhou. – Agora, antes de eu começar a falar... Como é que você está, Melissa?
– Não quero falar sobre isso. Quero descobrir o que está acontecendo e resolver o problema da magia. Quero qualquer coisa que não seja pensar naquilo – Melissa indicou o bosque com um gesto. – Então explica logo o que é que você descobriu.
Anita abriu a boca para fazer um comentário ácido sobre a educação de Melissa, mas desistiu. Tinha que se lembrar do que tinha acabado de acontecer com a vida dela. Esmeralda suspirou, fazendo o mesmo. Por pior que fosse a sua situação – e por mais que soubesse que não poderia contar com o apoio da sua família caso falhasse, mesmo sendo a herdeira –, ela ainda tinha Anita, sua irmã adotiva e melhor amiga, ao seu lado. Melissa não tinha mais ninguém.
– Apesar de ter sido pega, eu tive chance de ver uma boa parte da nova pesquisa que os soldados estão desenvolvendo. Os pesquisadores de usina que participam do projeto são selecionados a dedo e são fortemente vigiados para que as informações não vazem, mas isso um pouco de ouro resolve – Esmeralda arrancou uma folha de grama do chão para ocupar as mãos, tentando não se lembrar das consequências de ter sido apanhada em sua espionagem. – Pelo que eu pude ver, a nova magia caótica é um dos resultados dessa pesquisa, mas não consegui concluir se é indesejado. Ao que parece, o governo está desenvolvendo uma tecnologia para criar magia sintética que pode ser usada para gerar energia elétrica... E para outras coisas. Eu não entendi direito essa parte, mas parece que dá pra controlar tão bem essa magia sintética que uma pessoa que não nasceu com o dom pode usá-la, se tiver o equipamento e o treinamento certos.
– Eu achei que o governo odiasse magia – Melissa franziu o cenho.
– Ele odeia qualquer coisa que pareça ser uma ameaça, e a nossa magia é isso. Mas essa nova magia sintética, completamente controlável, é uma arma perfeita – Esmeralda respondeu.
– E o que é que eles vão fazer com o povo mágico quando nós não formos mais necessários para ajudar a controlar a magia e os dejetos das usinas? – Anita perguntou.
A resposta pairou no ar, pesada demais para que alguém ousasse dizê-la. O que uma pessoa prática fazia com coisas inúteis? Mas não dá para simplesmente descartar pessoas; dá para aniquilar, por outro lado.
– Você acha que vão destruir a magia em si também, ou só as pessoas? – Melissa engoliu em seco antes de indagar.
– Provavelmente só as pessoas. Pelo menos até descobrirem um jeito de fazer essa magia sintética numa escala grande o suficiente para controlar a natureza – Esmeralda fechou os olhos e suspirou. – E eu acho que isso não vai demorar tanto assim.
– E qual é o plano, então? – Melissa olhou para a alquimista.
– Primeiro, nós precisamos chegar a alguma cidade para eu poder mandar um dos nossos informantes levar a informação até a minha mãe. Eu ainda tenho o pendrive com alguns dos arquivos aqui comigo – Esmeralda tirou um objeto pequeno de metal e plástico do bolso. Melissa já tinha visto alguns daqueles, mas não fazia a menor ideia de como usar, não gostava muito daquilo que sua avó chamava de “novas tecnologias”. – Espero que ainda esteja funcionando depois de toda aquela coisa com as fadas. Foi uma sorte eu ter escondido isso na minha meia e ninguém ter visto quando eu fui presa... E também foi uma sorte a gente recuperar as nossas coisas ao voltar para este mundo.
– E depois? A gente volta pra casa e espera o exército tentar invadir a fortaleza? A gente começa uma guerra de revolução? – Anita soltou um suspiro frustrado.
– Não. Depois a gente vai até o Monte Rapina e espera novas instruções. Se ninguém aparecer em três dias, a gente traça um novo plano de ação, levando em consideração a possibilidade de termos que agir sozinhas – Esmeralda parecia já estar tecendo uma teia de planos. Típico.
– A cidade mais próxima fica para aquele lado – Melissa levantou-se, mantendo uma expressão neutra. Uma espécie de vazio estava começando a tomar conta dela. A dormência do luto, exatamente como quando perdera a sua família. Era melhor do que continuar se torturando com o pensamento de que as coisas poderiam ter sido diferentes para ela e Monique.
Esmeralda olhou seu reflexo na vitrine de uma loja. Estava com a aparência de uma menina de doze anos – uma piada sem graça de Anita sobre a sua altura – de cabelos claros e lisos. Anita estava com o cabelo vermelho-cereja e a aparência de uma mulher na casa dos sessenta anos. Melissa era uma mulher que poderia se passar facilmente pela mãe de Esmeralda. Quem visse o trio não conseguiria ligar suas aparências às duas fugitivas das usinas e à bruxa supostamente morta. Era perfeito para entrar em uma cidade sem chamar atenção.
Melissa mantinha sua expressão neutra e seu tom de voz monótono. Esmeralda conhecia aqueles sintomas. Lembrava-se de como a sua vida parecera um borrão insosso, com poucos pontos de luz aqui e ali, quando seu primeiro amor tivera que se mudar para uma cidade distante. Quando aquela dormência passasse, Melissa teria que ser capaz de seguir em frente, ou então cairia em desespero. Esmeralda esperava que fosse a primeira opção. Pessoalmente, não suportaria ver Melissa sofrendo mais por causa de algo que não podia ser mudado. Em termos táticos, era melhor que a bruxa permanecesse emocionalmente estável o suficiente para que sentimentos não interferissem no seu desempenho na missão.
Esmeralda entrou em uma confeitaria e fingiu tentar escolher um dos doces à mostra. Anita entrou no jogo, dizendo que sua neta podia escolher o que quisesse. Melissa teve a presença de espírito de fazer o papel da mãe preocupada e advertir sobre o rico de cáries.
– Eu acho que vou querer a torta de limão com maçã e cristais ácidos que explodem na boca – Esmeralda anunciou num tom ligeiramente mais alto do que o necessário para que apenas a suas falsas avó e mãe ouvissem.
– Ah, um pedido especial para uma mocinha especial, hein? – um homem gorducho do outro lado do balcão sorriu. – As senhoras vão querer o mesmo? Ou será que eu deveria oferecer a nossa famosa torta de cereja com licor de cacau?
– Nós preferimos balinhas de coco com menta, se você ainda tiver – Anita deu um sorriso adorável. – Tudo para viagem, está bem?
– Sim senhora. Só um instante – o homem saiu por uma porta branca, a da cozinha.
Um sistema quase perfeito de senha e contra-senha para informantes. Limão, algum alquimista. Torta ácida, informações altamente relevantes. Qualquer fruta vermelha, urgência. Licor, problemas graves ou conflitos. Coco, confirmação. Menta, ajuda. Só seria um problema se alguém descobrisse que aqueles doces não existiam no menu, mas o confeiteiro estava na área há tempo suficiente para saber como lidar com aquilo.
– Aqui está o pedido de vocês. Mais alguma coisa? – o homem gorducho voltou com um saco de papel com o nome da confeitaria estampado em vermelho e entregou-o a Esmeralda.
– Não, está perfeito. Aqui está, pode ficar com o troco – Esmeralda enfiou o pendrive na mão dele como se estivesse depositando ali uma cédula dobrada. – Pelo bom serviço.
– Você mima demais essa menina – Melissa resmungou para Anita enquanto as três saíam da loja.
Esmeralda sorriu. Mesmo em seu estado atual, Melissa compreendera o disfarce criado na pradaria e estava cumprindo bem a sua parte. Se ela tivesse interesse em participar de uma rede de espionagem, conspirações e mercado negro, a família Paz a aceitaria de braços abertos.
As três deram mais uma volta pelas duas ruas que compunham o centro comercial da cidade. Anita comprou um chapéu de abas largas para si e um cachecol amarelo para Melissa. Esmeralda comprou um pacote de elásticos de cabelo. Antes de irem para a estação rodoviária, a alquimista pegou a terceira carteira que roubara naquele dia, com a ajuda do charme mágico de Anita. Contou as cédulas e suspirou, ignorando a expressão de reprovação de Melissa.
– Temos o suficiente para irmos até Guarena ou Ovinara. As duas cidades ficam mais ou menos à mesma distância do Monte Rapina, o que quer dizer uns dois dias à pé. O que vocês acham?
– Eu acho que estou ridícula com essa coisa – Melissa ajeitou o cachecol amarelo-canário, embora aquilo não fosse a real causa do seu incômodo. Esmeralda estava ligeiramente irritada com a incapacidade dela de aceitar que, na situação atual, roubo era o menor e o mais aceitável dos crimes que elas já tinham cometido.
– Eu vou encantar isso aí depois, então faça o favor de não perder – a alquimista murmurou entre dentes, para que os transeuntes não escutassem.
– Vamos para Ovinara. Tem bastante granjas perto daquela cidade, e eu adoro ovos. Além disso, Guarena é uma cidade grande demais e com pessoas demais. É melhor que a gente continue em zonas mais rurais por enquanto – Anita interrompeu um discussão que parecia prestes a começar. – O prazo para resposta de casa é de três a cinco dias, o que quer dizer que não vamos precisar esperar muito no meio do mato para receber novas instruções, de qualquer forma.
– Por que a gente simplesmente não vai pra uma outra usina e não faz o que eu fiz na última? – Melissa sugeriu, sem nenhuma convicção. Talvez ela tivesse esperança de levar um tiro e morrer numa nova ação como aquela.
– Nós temos que esperar novas ordens. Um ataque só aumentaria o nível de segurança das outras usinas e dificultaria o nosso provável próximo passo – Esmeralda balançou a cabeça. – Vamos, eu quero chegar lá antes que fique escuro pra gente poder comprar qualquer coisa que possa nos ajudar a passar quatro dias vagando por aí ou esperando numa montanha.
– Com mais dinheiro roubado?
– Faz diferença? Nós podemos roubar as coisas em si também, se você preferir. Só não fizemos isso aqui para manter as aparências de pessoas que foram às compras e pra não dar na cara que nós só viemos aqui para ir em um lugar específico – Anita respondeu. – Escuta, eu sei que você está passando por uma fase difícil e tudo o mais, azedinha, mas será que dá pra parar de implicar com cada coisinha que a gente faz só porque você precisa extravasar a sua raiva? Ou, pelo menos, será que dá pra calar a boca e só criticar mentalmente?
Melissa desviou o olhar. Esmeralda suspirou e começou a andar até a rodoviária. Também conhecia aquela raiva – e sabia que a bruxa já tinha passado por aquilo ao menos uma vez antes. Aquelas discussões meio cochichadas se repetiriam, com certeza, por alguns dias. Ela e Anita precisariam de paciência.
O ônibus para Ovinara demorou quarenta e três minutos para chegar. Havia quarenta lugares. Sete estavam desocupados. Durante a viagem, dezessete passageiros desceram do ônibus e seis subiram nas várias paradas que o veículo fez. Precisamente cinco horas e dezesseis minutos depois, o trio desceu na plataforma coberta que Ovinara chamava de estação rodoviária e Esmeralda chamaria de ponto de ônibus com uma cobertura ligeiramente mais ampla que o normal e uma máquina de venda de passagens, tudo à beira de uma estrada quase deserta e longe do centro da cidade.
Anita bocejou e se esticou para aliviar a tensão dos músculos. Melissa desceu logo atrás, com um ar melancólico. Esmeralda supôs que ela já tivesse passado pela parte da raiva e estivesse entrando na aceitação. Era surpreendente o quão rápido ela estava lidando com a perda de Monique, considerando o quanto ela chorara antes. Talvez ela tivesse se preparado bem, talvez ela já soubesse – lá no fundo – que perderia a namorada. Talvez ela já estivesse acostumada à dor da perda.
– E então, como você está? – a alquimista dirigiu-se à bruxa pela primeira vez desde a discussão antes de entrar no ônibus.
– É, você já se acalmou um pouco? – Anita disparou à guisa de desculpas ou condolências.
– Eu perdi minha casa e o meu amor, e agora estou viajando com vocês numa missão suicida para descobrir o que causou tudo isso. Como vocês acham que eu estou? – a resposta teria sido mais rude se Melissa não a tivesse dado com os olhos baixos e um suspiro. – Me deem um tempo, está bem? Uns dias, talvez menos do que isso. Só me deixem pensar um pouco no assunto até eu conseguir entender que, afinal, eu consegui salvar Monique e o bosque, só não consegui ficar com eles...
– Pelo menos você já está na linha de pensamento certa – Anita desistiu da postura agressiva e deu-lhe uma palmadinha nas costas.
– Vamos lá, as lojas devem estar pra fechar, se já não estiverem fechadas – Esmeralda apressou-as.
– Deixa que eu cuido disso enquanto vocês saem da cidade. Me esperem a, sei lá, uns cem ou duzentos metros naquela direção. Eu vou trazer comidas práticas e vou ver o que mais eu consigo. Essa coisa de manter uma ilusão decente para três pessoas ao mesmo tempo, durante um dia inteiro, está me cansando muito – Anita tirou seu cobertor da mochila e estendeu-o para Esmeralda. – Aqui, enfia isso na sua mochila, porque na da nossa amiga já tem um corvo e eu preciso liberar espaço.
– Voê vai ficar bem? – Esmeralda segurou uma das mãos dela ao receber o cobertor.
– É claro que sim. Eu sou praticamente invisível – Anita sorriu, então virou-se para Melissa. – Cuide bem da minha irmã até eu voltar, ouviu? Agora vão, eu vou esperar vocês acharem um bom esconderijo do lado da estrada antes de ir invadir alguma loja.
A bruxa balançou a cabeça e permitiu-se dar meio sorriso de volta. Esmeralda guardou o cobertor na mochila e afastou-se com Melissa. O mato alto que ladeava a estrada era um lugar tão bom para se esconder quanto qualquer outro, então as duas passaram por uma cerca tosca de arame farpado e se sentaram sob uma árvore caduca, tomando o cuidado de se manterem tão abaixadas quanto possível. O corvo de Melissa saiu da mochila e empoleirou-se num galho caído, aproveitando para esticar suas asas.
– Ah, eu me esqueci de dar isso aqui pra Anita – Esmeralda suspirou, tirando o pacote da confeitaria de dentro da mochila. – Ele deve ter dado três kits. É, foi isso mesmo. Aqui, pega um.
Esmeralda enfiou a mão no saco de papel e tirou de lá uma faca com uma bússola no cabo, um vidro com um líquido prateado e um pacote de bolachas salgadas. Alguém da família Paz teria que saber se virar com aquilo para sobreviver até conseguir chegar a outro posto de informações e apoio, ou até a central.
– A garrafinha é uma poção de cura? – Melissa tirou a tampa para sentir o cheiro.
– Mais ou menos. Não é muito eficiente em ferimentos, apesar de poder salvar a sua vida numa situação extrema, mas é ótima como antídoto de venenos em geral – a alquimista ficou feliz por aquele fragmento de conversa. Parecia que as coisas estavam voltando ao normal. Melissa era mais resiliente do que parecia.
– Legal – Melissa fez uma pausa. – Olha, me desculpe por andar agindo desse jeito, eu só...
– Melissa, está tudo bem – Esmeralda interrompeu-a com um sorriso leve. – Sério. Eu perdi a minha família de sangue quando era muito pequena, então não me lembro como é ficar sozinha nesse sentido, mas eu nunca vou esquecer de como foi quando levaram Erina pra longe de mim. É ruim, e você tem todo o direito de ficar meio estranha por uns dias.
– Não seja tão condescendente comigo ou eu posso acabar ficando insuportável – Melissa riu baixinho. – Erina... Você não tinha me dito o nome da sua ex-namorada ainda, eu acho.
– Ah, você vai ver daqui a algum tempo. A dor passa e tudo o mais, mas você se esforça tanto para não pensar na garota que evita dizer até o nome dela. Se bem que agora já não me incomoda tanto – Esmeralda fungou. – E pensar que, no começo, eu genuinamente acreditei que não conseguiria viver sem ela...
As duas ficaram em silêncio novamente, mas sem nenhum sentimento incômodo. Estavam tão à vontade uma com a outra quanto tinham estado nas madrugadas insones da área de recuperação do treinamento ou na terra das fadas. Esmeralda considerou as opções novamente e concluiu que Melissa realmente estava se recuperando rápido. Talvez o ano que passara longe de Monique, passando por tanta coisa, tivesse ajudado. Um outro pensamento, bem mais tímido, sugeriu que talvez e presença de Esmeralda também tivesse ajudado; esse pensamento foi rapidamente descartado, mas não sem deixar para trás uma centelha de esperança.
Um grito agudo interrompeu o momento bucólico da dupla. As duas mulheres ergueram-se apenas o suficiente para enxergar por cima do mato alto. No ponto de ônibus que a população local chamava de estação rodoviária, uma mulher de cabelos vermelho-cereja tentava se desvencilhar do aperto de um soldado com um colete púrpura. Esmeralda sabia que aquela era Anita.
– Corvo, vá na frente. Ataque o rosto dele enquanto ela tenta se soltar. Eu vou tentar chegar até ele e ajudar Anita a escapar – Esmeralda ouviu Melissa falar ao seu lado.
– Você pelo menos tem um plano? E se houver mais soldados? – Esmeralda sussurrou, enquanto tentava desesperadamente descobrir quais eram suas possibilidades de ação.
– Você não escutou o que eu disse para o corvo? É claro que eu tenho um plano. Um plano, um corvo e duas facas. Me dê cobertura – Melissa sibilou de volta, esgueirando-se até a cerca e levantando-se ao chegar na estrada.
Esmeralda pegou-se seguindo Melissa, tendo o cuidado que ela não tivera de levar sua mochila consigo. Precisava pensar rápido. O corvo e Melissa iriam atacar o mesmo alvo. Se mais soldados viessem – o que era provável, já que Anita fora pega e ela jamais seria subjugada por apenas um homem –, de onde viriam? Do lado do mato ou da cidade? Do lado da cidade, o mesmo lugar onde tinham encontrado Anita. Quantos seriam? Uma unidade comum contava com seis. Qual a melhor estratégia? Se todos estivessem usando aqueles malditos coletes púrpura, ataques mágicos diretos teriam pouco efeito, mas aquelas coisas não os defendiam de um corvo, duas facas e um pouco de química.
Enfiou a mão na sua mochila e tirou desajeitadamente dali uma das coisas do saco da confeitaria, um pacote de meio quilo de sal não-iodado. Apesar de ser extremamente perigoso – e cansativo o bastante para já ter deixado alguns conhecidos de Esmeralda em coma por até três dias – aquele pacote era uma das armas mais poderosas que um alquimista podia ter em mãos. Cloreto de sódio. Ela sabia que conseguia usar sua magia para separar o sódio do cloro de ficar com um estoque de sódio metálico para usar em outra ocasião – havia até um guardanapo de alta absorção envolvendo o pacote para que o sódio fosse armazenado ali. O problema seria o cloro – ou melhor, o ácido clorídrico.
Fazer aquilo sem alquimia provavelmente seria mais trabalhoso, mas o gênio da boa fortuna estava, afinal, do lado de Esmeralda. A quantidade de hidrogênio no ar não poderia nem ser comparada à de nitrogênio e oxigênio, mas o elemento existia ali, fosse numa molécula de gás hidrogênio, de metano ou de vapor de água. Com o seu talento para alquimia e os anos de estudo e treinamento, Esmeralda sabia que conseguiria desencadear as reações necessárias para que esses hidrogênios se ligassem aos seus cloros. Também sabia como arranjar o ácido em cristais e como sublimá-lo a qualquer momento. Só restava saber se ela teria energia suficiente para conter quaisquer reações indesejadas e induzir as desejadas.
Com o novo plano arquitetado, ela juntou-se a Melissa, que acabara de se alcançar o soldado. Ao ver a faca da bruxa aproxmiando-se do braço dele e o corvo arranhando seu rosto, Esmeralda passou pela briga e olhou ao redor. Os outros soldados estavam ali em algum lugar. Onde? O barulho de botas batendo no pavimento respondeu a sua pergunta. Anita provavelmente correra em zigue-zague pelas ruas para despistar os inimigos mais lentos, o que queria dizer que eles não chegariam todos ao mesmo tempo ali. Melhor assim.
Esmeralda tirou um punhado de sal do pacote. O processo de separação dos elementos causou um formigamento desagradável nos seus dedos, mas nada que já não lhe fosse familiar. Tirou tanto sódio quanto pôde da sua mão direita para colocá-lo no guardanapo, deixando apenas os cristais de ácido clorídrico e o sal que ela não tivera tempo de transformar na mão.
– Ei, você! Mãos ao alto! – o soldado barulhento apareceu numa esquina, bem à frente de Esmeralda. Estava esbaforido por causa da corrida, então levou um instante a mais do que o normal para empunhar seu rifle e apontá-lo para a alquimista. Um instante a mais do que ele tinha para fazer isso.
A mistura de pós brancos voou na direção do seu rosto, e parte dela se transformou em fumaça no meio do caminho. Ele gritou, levando as mãos aos olhos e deixando a arma cair. Esmeralda xingou em voz baixa; a sublimação acontecera rápido demais, o que faria com que o estrago não fosse tão grande. Jogou-se para a frente para pegar o rifle antes que o soldado se recuperasse, recuou e preparou mais um punhado de cristais de ácido, tendo tempo para ajeitar o saco de sal e o guardanapo com sódio em sua mão esquerda, e a alça do rifle em seu ombro, antes que o soldado seguinte aparecesse. Dessa vez, Esmeralda teve mais sucesso, e quase sorriu quando o inimigo levou as mãos também à boca e ao nariz, tossindo e lutando para respirar.
– Esmeralda! – a voz de Anita fez com que ela se virasse. – Esmeralda, você precisa fugir! Os soldados são o menor problema aqui!
A alquimista correu até ela, ainda carregando o sal e a arma. O soldado que a segurara estava no chão, gemendo em posição fetal, tentando inutilmente conter alguns sangramentos. Parecia que Melissa e seu corvo tinham um certo gosto por sangue. Mas Anita também estava ferida, e não parecia que aquele soldado seria capaz de ter lhe causado todos aqueles arranhões, o corte logo abaixo do seu olho esquerdo e um talho em sua perna esquerda com quase um palmo de comprimento.
– O que foi que aconteceu? – seus olhos verdes percorreram o rosto da irmã com preocupação enquanto Anita voltava à sua aparência normal. – Qual é a ameaça então?
– Droga! É aquela coisa ali – trêmula, Anita apontou para algo atrás de Esmeralda.
Ela virou-se e viu a criatura surgir na esquina. Era difícil dizer se aquilo era um ser de luz com um esqueleto bastante sólido que parecia ser feito de renda, ou um esqueleto bem sólido que parecia ser feito de renda e projetava luz. Os padrões dos ossos poderiam ter sido tecidos por uma ótima artesã ou por uma aranha particularmente criativa. A luz tinha a forma de um corpo humano nu de gênero indefinido, e parecia haver uma leve indicação de asas saindo das costas da coisa. Quando se movia, deixava um suave e efêmero rastro de luz, que se desprendia do corpo luminoso como se fosse a fumaça de um incenso. Era bonito demais para não ser perigoso.
– Corre, Esmeralda! Corre! – Anita empurrou-a na direção da escada. – Melissa! Melissa, por favor, tira a minha irmã daqui!
– Espera aí, e você? – Esmeralda arregalou os olhos, não acreditando no que a irmã estava implicando com aquele pedido. – Ou você vem com a gente agora, ou nós três vamos lutar juntas!
O corvo crocitou e agitou as asas.
– Quatro – Melissa pigarreou. – Anita, o que essa criatura é capaz de fazer?
– Não deixe aquilo encostar em você – Anita teve tempo de dizer. – Vamos sair daqui, rápido!
Esmeralda passou o braço de Anita sobre os seus ombros e andou o mais rápido possível para a estrada. Melissa foi atrás, com as duas facas na mão, preparada para despertar o poder de Morrigane dentro de si ao menor sinal de que aquela criatura fosse atacar. O corvo voou acima do grupo, preparado para dar um sinal caso visse algum perigo à frente. Esmeralda torceu para que a criatura não conseguisse correr, ou então elas estariam perdidas. O que quer que aquilo fizesse, tinha assustado Anita, e isso, como seus irmãos mais velhos bem sabiam, não era fácil de fazer.
O corvo crocitou num tom mais agudo que o normal, várias vezes seguidas, dando o alerta. Sem ver nenhum perigo à sua frente, Esmeralda virou cabeça para ver se havia algo atrás do trio, e então percebeu o tramanho do seu problema. Era claro que a criatura podia correr, nem ela podia ter tanta sorte assim. E era claro que a criatura também podia voar.
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