Bruxaria.exe
16 Capítulo 16 - Jujuba e Caramelo
Notas iniciais
Melissa gritou para que o corvo voltasse para ela ao ver a criatura brilhante se aproximar dele. Tinha se afeiçoado ao animal e, considerando que no momento ele era uma das três criaturas em que ela podia confiar, não queria que ele se ferisse. Um momento depois de chamá-lo, lhe ocorreu que quem acabaria se ferindo seria ela se a criatura misteriosa resolvesse seguir o corvo para baixo também. Parecia que não havia alternativa além de lutar e torcer para que suas amigas conseguissem ir para algum lugar seguro.
– Esmeralda, corre! Leva a Anita com você! Eu e o corvo vamos atrasar essa coisa enquanto vocês fogem – Melissa gritou, apressando-se para ficar entre a dupla e o local de pouso da criatura brilhante.
– Melissa, não! – Anita tentou se soltar de Esmeralda. – Vocês duas têm mais chance de sobreviver juntas. Eu fico!
– Eu não pretendo morrer aqui, e se você ficar, a Esmeralda também fica. Você realmente quer colocar a sua irmã em perigo? – Melissa virou-se para a criatura antes de terminar de responder para Anita.
– Eu não vou deixar nenhuma de vocês duas pra trás! – Esmeralda berrou de volta.
Melissa trocou um olhar ligeiramente irritado com o corvo. Nenhum dos dois tinha intenção de morrer, mas ambos gostariam de ter um pouco mais de esperança de que Anita e Esmeralda ficassem a salvo. A bruxa achou engraçado como ela e a ave agora se entendiam tão bem.
– Morrigane – o corvo crocitou quando a criatura levantou-se do local do seu pouso desastrado e virou-se para o grupo.
– Morrigane – Melissa concordou.
Já podia sentir o calor espalhando-se pelas suas veias, queimando, ardendo, pedindo sangue. Um sorriso maníaco espalhou-se pelo seu rosto, intencionalmente deixando todos os dentes bem à mostra. Como ela pudera passar tanto tempo da sua vida sem apreciar a glória de uma boa batalha? Finalmente começava a entender o gosto de Onabe e de outros espíritos caçadores pelo sangue.
A criatura deu um salto para a frente, caindo pesadamente sobre um dos joelhos e agarrando o braço esquerdo de Melissa. Imediatamente, a sede por luta diminuiu e um ardor diferente surgiu onde os dedos da criatura se cerraram ao redor do seu braço. Chutou com força as costelas da coisa brilhante e puxou o braço, escapando daqueles dedos surpreendentemente fortes. Reparou que a manga do casaco de lã e a da sua outra blusa tinham sido cortadas onde os ossos rendados as tinham tocados. Pelo vermelho que se espalhava rapidamente pelos tecidos, ela concluiu que sua pele também fora atingida.
– Essa coisa corta e absorve energia – Melissa ofegou. – Que bosta é essa?
– Eu não sei, mas fez o mesmo comigo – Anita arfou, a perda de sangue estava começando a afetá-la.
Sem o toque da criatura, Melissa sentiu o poder de Morrigane voltar. Tentou se concentrar nele como nunca antes. Lembrou-se do que Onabe havia dito sobre as bênçãos uma vez, sobre como Melissa as receberia se as aceitase.
– Morrigane, senhora da guerra! – ela bradou, desviando a mão da criatura com um golpe de faca. – Morrigane, eu aceito as suas bênçãos incondicionalmente!
Podia não funcionar, mas era a melhor ideia que Melissa tinha. Até o momento, só conseguia bloquear pateticamente os golpes da criatura. Esmeralda tentou ajudar, atirando o que parecia ser sal na direção da criatura, mas aquilo apenas serviu para irritar os olhos de Melissa, então a alquimista parou. Anita caiu de joelhos na estrada, fraca demais para se manter em pé, e Esmeralda se viu obrigada a desistir completamente de ajudar Melissa para cuidar da irmã.
O corvo atacou o rosto do ser brilhante enquanto Melissa tentava se desviar daquelas mãos rendadas. A visão do bater das asas do corvo pareceu fazer o seu coração acelerar. Ela viu cada movimento da ave como se fosse em câmera lenta. E suas veias pareciam em chamas. Morrigane a ouvira.
Avançou com o sorriso sinistro em seu rosto. Enfiou a faca dada pelo rei do carvalho entre um par de costelas da criatura e a faca do confeiteiro em uma das mãos brilhantes. As lâminas pareceram tremer com a energia que Monique agora sabia que estava emanando, e deixaram manchas escuras no ser iluminado. A motivação para lutar da bruxa diminuiu momentaneamente, voltando assim que o contato com a criatura foi desfeito. Era uma pena não haver sangue.
Urrando, o esqueleto brilhante atirou o corvo ao chão e avançou na direção de Melissa. Mesmo com o resto do mundo em câmera lenta, a criatura lhe parecia tão rápida quanto era antes. Os dedos fortes agarraram o ombro direito de Melissa e roçaram pelo seu braço esquerdo novamente. A bruxa revidou com suas facas, tendo mais dificuldade para conseguir algum resultado, mas deixando faixas escuras na pele cintilante da coisa. Ela precisava de mais poder, mas, ao que parecia, enquanto a criatura tivesse as mãos nela, qualquer habilidade que Melissa recebesse, ela também receberia. Precisava de algo que a criatura já tivesse ou que não viesse de Morrigane ou dela mesma.
– Bruxa! Bruxa! – o corvo crocitou, levantando-se e ajeitando as penas.
Já sentindo sua vontade de lutar fraquejando novamente, Melissa lembrou-se da primeira vez em que usara a bênção de Morrigane. Tinha conjurado uma tempestade, assim como as bruxas ancestrais. Era disso que ela estava se esquecendo. Ela tinha as bênçãos da ordem e do caos, os poderes dos antigos arcanos e, talvez, um pouco do espírito de caça em si. Ela era uma Gardênia, uma bruxa capaz de controlar a fúria das tempestades e a ira da terra. E o melhor era que essas coisas eram forças da natureza. O que quer que aquele esqueleto luminoso fosse, não seria capaz de absorver algo tão grande. Ou, pelo menos, assim esperava Melissa.
Tentou se lembrar da sensação que tivera ao invocar a tempestade. Era como ter algo pressionando o ar dentro dos seus pulmões, e então se espalhando rapidamente para fora do corpo, mas deixando uma sensação de algo pesado em seu peito, o que não atrapalhava o fluxo do calor da energia de Morrigane. Era difícil fazer aquilo enquanto tentava esfaquear um esqueleto brilhante e seu ombro direito era dilacerado, mas ela tinha que tentar.
A primeira trovoada soou e Melissa relaxou um pouco. Quando uma lufada de vendo a atingiu, ela finalmente conseguiu se livrar das garras da criatura com um novo chute em suas costelas. Um relâmpago riscou o céu. O fogo de Morrigane cresceu novamente em suas veias. Fosse o que fosse aquela criatura, Melissa iria destruí-la. Usando a tática de se esquivar das mãos ósseas com sua faca, afastou o esqueleto de Esmeralda e Anita. O corvo ajudou-a, voando mais uma vez na direção do crânio. Um raio caiu a cem metros dali e as primeiras gotas de chuva começaram a cair. A criatura acertou o lado direito do rosto de Melissa, cegando-a temporariamente com seu próprio sangue. A chuva ficou mais forte. Já a uma boa distância das duas irmãs, a bruxa, o esqueleto e o corvo engalfinhavam-se numa confusão de água, luz e sangue.
E fogo.
Melissa viu Esmeralda aproximando-se um pouco e atirando um punhado de alguma coisa prateada que grudou na pele brilhante da criatura. O que quer que fosse aquilo, soltava um silvo estranho ao entrar em contato com a chuva. Dois pedaços que caíram numa poça que acabara de começar a se formar pegaram fogo e ficaram girando descontroladamente na água. Uma das coisas grudou no braço de Melissa, mas ela a chacoalhou para longe antes que causasse algum dano.
Apesar da energia de Morrigane que fazia o seu sangue ferver, Melissa percebeu que estava cansada. Pouco sono nas últimas noites, magia demais nos últimos dias. Não havia bênção de senhora da guerra que fizesse o seu corpo aguentar muito mais do que aquilo. Falhou ao tentar se esquivar da criatura e acabou sendo pega mais uma vez pela mão de ossos rendados. Antes que pudesse escapar, foi presa num abraço esmagador pelo esqueleto. Gritou ao sentir a pele se romper em tantos pontos ao mesmo tempo, e acabou derrubando suas armas com o choque. A criatura abriu suas asas cintilantes e bateu-as com força para ter impulso para sair do chão. Melissa sentiu sua cabeça girar e o corpo ficar mole. Seus pensamentos estavam confusos, mas havia duas coisas que ainda conseguiam registrar: a altura de pouco mais de dois metros em que a criatura resolvera segurá-la e a tempestade. Os olhos azuis, já fora de foco, fitaram o breu acima dela. Ela realmente não tivera planos de morrer ali, mas parecia que aquele era o fim.
Ela tinha perdido Monique, provavelmente para sempre, o que era uma pena, mas uma parte de si já sabia que aquilo terminaria em tragédia no dia do ataque a Sharvod. Pelo menos ela estava a salvo, e protegida para sempre por Onabe. Sua única preocupação em morrer naquele momento era a segurança de Esmeralda e Anita. Se a ilusionista sobrevivesse, ela conseguiria proteger a dona daquele par de olhos verdes inesquecíveis? Aqueles olhos tão brilhantes... Brilhante. Brilho, luz. Raios! Melissa precisava de um raio.
Uma linha brilhante cruzou o breu e atingiu o crânio, criando um padrão de linhas em toda a superfície luminosa da criatura. Melissa teve um insante para admirar a nova renda que cobria o esqueleto antes de ser cegada pelo clarão e jogada violentamente para trás e para baixo. Sentiu todo o ar escapar dos seus pulmões ao se chocar contra o cimento molhado e lutou para respirar antes de abrir os olhos. Estava tudo escuro demais. Por um momento, imaginou que tivesse ficado cega, então viu um relâmpago e se deu conta de que a criatura iluminada desaparecera, assim como as luzes da cidade. A tempestade devia ter derrubdo alguns cabos de luz. Ela estava genuinamente surpresa com o sucesso do seu plano.
– Melissa! – Esmeralda correu até ela e ajoelhou-se ao seu lado. – Melissa, você está bem? Fala comigo, por favor! Você não pode morrer, não agora, você ainda tem que viver bastante e...
– Eu estou viva – Melissa respondeu enquanto Esmeralda tentava colocar a cabeça da bruxa em seu colo. – E muito melhor do que eu achei que estaria, considerando a minha posição.
– Sua idiota! – Esmeralda tentou fingir irritação, mas riu ao notar que estava pressionando parte da cabeça de Melissa contra os seu seios. – Consegue se levantar?
– Acho que sim, mas não sei se consigo andar. Como está a Anita?
– Eu preciso fazer curativos nela. E em você também, pelo visto. Mas como é que eu vou levar vocês pra algum lugar seguro?
– Pra que lado fica o tal monte pra onde a gente tem que ir mesmo?
– Naquela direção, por quê?
– Eu vou tentar levar vocês duas até lá, ou até onde eu aguentar, se eu conseguir das alguns passos. Depois disso, é muito provável que eu fique inconsciente por um tempo, então vou precisar que alguém cuide de mim. Será que eu posso confiar em você? – Melissa conseguiu sorrir.
– Acho que você vai ter que descobrir, não é? Mas não vai te fazer mal?
– É claro que vai, mas qual outra opção a gente tem? Esperar os soldados aparecerem? Você sabe que ainda tem pelo menos três deles na cidade – Melissa virou a cabeça para o corvo – Você sabe me encontrar onde eu estiver, não sabe? Eu espero te ver por perto quando eu acortar.
O corvo crocitou algo ininteligível em concordância. Melissa precisou da ajuda de Esmeralda para se levantar e mancar até Anita. Usando o rifle da alquimista como bengala, a bruxa conseguiu se manter em pé por tempo suficiente para que esta erguesse Anita. Melissa passou o braço livre pelos ombros de Esmeralda e agarrou o colarinho da blusa da ilusionista. Esperava ter energia suficiente para levá-las até algum lugar seguro.
– Não se movam até eu soltar vocês duas – ela advertiu.
Olhou para a estrada à sua frente, tentando se concentrar o suficiente para ver mais à frente. Mais um pouco, mais um pouco. Sua visão começou a ficar fora de foco. Mais um pouco. Sua cabeça estava rodando demais. Mais um pouco. Os dedos perderam a força para segurar a blusa de Anita, era hora de parar. Vislumbrou uma pedra fracamente iluminada pelo luar antes de cair no chão e deixar de perceber o que estava acontecendo ao seu redor.
Quando deu por si, estava no mundo vermelho, mas as coisas tinham mudado. As criaturas mutantes da praça do primeiro suplício eram esqueletos brilhantes com asas. Nas fogueiras restavam apenas os seus ex-colegas que tinham acordado; os que tinham atacado Melissa e suas amigas no território do rei do carvalho dançavam ao redor das chamas e espetavam os condenados com varas de metal. No bosque de Sharvod, árvores malignas arrancavam as folhas de uma pequena planta no meio de uma clareira e Monique gritava que aquilo era culpa de Melissa. Ela não saberia dizer quantas vezes o ciclo se repetiu até ela se ver novamente dentro da sua casa na clareira – não, aquela não era mais a sua casa, o novo espírito do bosque a banira.
– Eu não acredito que você realmente está fazendo isso – a voz de Monique, suave, mas irritada, chegou aos seus ouvidos. – Eu te obriguei a sair daqui pra que você não ficar presa a um destino sem esperança alguma. Eu te forcei a ficar fora do bosque pra você não se sentir obrigada a ficar comigo, pra você ter a chance de ter uma vida feliz, e é isso o que você faz? Você simplesmente joga a sua vida fora na primeira oportunidade?
– Você já não brigou o suficiente comigo? – Melissa virou-se para fitá-la, cansada.
– Aquilo era uma ilusão da sua cabeça.
– E isso não é?
– Como é que você vai saber? – Monique sentou-se na mesa das guirlandas. – De qualquer forma, você tem que fazer alguma coisa importante e eu tenho que te esquecer, não é? Eu tenho um bosque inteiro para curar e você tem pessoas que precisam da sua ajuda, e de quem você também precisa. Se nós quisermos seguir em frente com as nossas vidas, você precisa aprender a não depender de mim pra sair dos seus pesadelos.
– Você pode pelo menos me dar um último abraço? – Melissa estendeu os braços na direção dela.
– Eu nem deveria estar aqui. E não vou voltar mais, então dê um jeito de sair desse tipo de coisa sozinha daqui pra frente, Mel – Monique lançou-lhe um olhar triste. – Adeus.
– Espera, Nique! – Melissa jogou-se para a frente, tentando alcançar a ruiva, mas ela se desfez em um punhado de folhas verde-esmeralda que ficaram flutuando na altura dos olhos da bruxa.
– Melissa? – uma outra voz, ligeiramente mais aguda, chamou-a.
Piscou algumas vezes, tentando se livrar da visão do mundo vermelho, e deparou-se com um par de orbes verdes preocupadas. Esmeralda estava ajoelhada ao seu lado, segurando-a no chão, com os cabelos novamente divididos em quatro tranças e as roupas sujas de sangue.
– Você está bem? – a alquimista soltou-a.
– O que aconteceu? Eu fiquei apagada por quanto tempo?
– Um dia e meio – Esmeralda sentou-se de pernas cruzadas. – Você teve um pesadelo ou alguma coisa assim? Agora a pouco você começou a se debater e a gritar o nome da Monique...
– É, um pesadelo... – Melissa passou as mãos pelo rosto, sentindo o suor frio.
– Bom, depois de tudo o que aconteceu, acho que eu ficaria surpresa se você tivesse dormido bem – Esmeralda balançou a cabeça. – Eu fiz ovos cozidos e chá. Você precisa se alimentar.
Melissa assentiu. Levantou-se, um pouco zonza, afastou-se um pouco na direção dos arbustos para se aliviar e então foi até a pequena fogueira que Esmeralda acendera. Os pacotes de biscoitos estavam ao lado dela, assim como a caneca com os ovos cozidos. Duas canecas de metal com chá, separadas para Melissa e Anita, estavam sobre as pedrinhas que delimitavam o espaço para os gravetos da fogueira. A bruxa estava faminta, mas esforçou-se para comer devagar. Não só havia pouca comida, como ela estava havia algum tempo sem comer, e ingerir qualquer coisa rápido demais poderia causar um mal-estar que ela não tinha o luxo e poder ter.
– Ei, olha só quem voltou dos mortos – Anita esfregou os olhos e bocejou, acordando com o som dos pacotes de biscoitos. – Você deu um susto e tanto na gente, azedinha. Mas você protegeu a minha irmã, e me protegeu também, então acho que eu posso te perdoar.
– De nada – a bruxa respondeu de boca cheia. – Tem chá aqui, a Esmeralda deixou pra você.
– Você já comeu alguma coisa hoje? – Anita olhou para a irmã.
– Já, mas vocês duas stavam dormindo. Tomei o meu chá na sua caneca e fiz outro pra você.
Anita arrastou-se até a fogueira e pegou sua caneca, ainda sonolenta. Aparentemente, a não ser que corresse o risco de ser fuzilada por perder hora ou estivesse sendo apressada por uma bruxa louca, ela não era o tipo de pessoa que já acordava disposta para encarar o dia. Também havia a possibilidade de a letargia ser um efeito da perda de sangue; a ilusionista ainda estava pálida demais.
– Eu tenho que dizer, azedinha, aquela dádiva da proteção de Aine Frigg salvou a sua vida lá na estrada. Acho que aquela coisa teria te cortado em duas quando voou com você, se não fosse pela proteção mágica – Anita comentou, bebericando seu chá. – Mas, mesmo assim, você está mais arrebentada do que eu.
– Já tive dias piores – Melissa deu um meio sorriso. Estava evitando mexer o braço direito, suas costas ardiam e seu antebraço esquerdo coçava por causa da cicatrização, mas aqueles tipos de dor já estavam se tornando rotina para ela.
– Pelo que eu vi até agora, eu não duvido – Anita sorriu de volta, e Melissa soube, naquele instante, que finalmente conquistara a confiança dela. Não que a ilusionista desconfiasse a bruxa antes, mas aquele olhar de camaradagem não era o tipo de coisa que vinha fácil para qualquer uma das duas. – Me passa essa bolacha aí que eu estou morrendo de fome.
Melissa tinha acabado de passar o pacote para as mãos de Anita quando Esmeralda desabou no chão, tremendo descontroladamente. A bruxa apressou-se para apoiar a cabeça dela em seu colo, para evitar que batesse em alguma pedra.
– Isso é uma convulsão?! – Melissa tocou a testa dela e assustou-se. – Céus! Anita, ela está ardendo em febre, eu preciso que você pegue água!
– Não vai adiantar, já tentei isso ontem. Ela usou magia demais lá na estrada. E alquimia não é como o seu tipo de magia ou o meu, é algo que vai completamente contra as leis naturais, na maior parte do tempo – Anita comprimiu os lábios. – Ela teve dois ataques desse ontem, equanto você dormia. Disse que sabia que ia passar mal, mas que não sabia que seria tão ruim.
– O que eu faço pra ajudar?
– Continua protegendo a cabeça dela e espera acabar – a iluionista respondeu num tom amargurado.
Melissa fez o que Anita disse e ficou apenas observando Esmeralda tremer. Não parecia as convulsões que vira em alguns trabalhos de cura que fizera com sua avó, mas era um tremor forte o suficiente para ser preocupante. Para ela, o pior era não poder fazer nada. Os tremores diminuiram gradualmente, até que Esmeralda ficasse completamente imóvel. Melissa checou sua respiração algumas vezes até que ela acordasse.
– Eu achei que os efeitos colaterais já tinham passado, mas parece que não – a alquimista sentou-se e levou uma das mãos à cabeça. – Ah, a febre também voltou...
– Esmeralda, você precisa se deitar e descansar. Onde fica o lugar de onde você pegou água? Eu vou fazer um chá pra você. Se você não descansar, não vai melhorar – Melissa grunhiu por causa do esforço de pegar a alquimista, ainda bastante leve, no colo e levá-la até o espaço confortável em que a bruxa estivera dormindo até pouco tempo antes. – Você precisa dormir. Quando acordar, também precisa comer bastante, mas primeiro precisa de descanso...
– Como é que eu vou conseguir descansar sem saber se vocês duas vão ficar bem? – Esmeralda protestou, mas seu corpo estava cansado demais para empurrar para longe o cobertor com o qual Melissa lhe cobria.
– Nós vamos ficar bem, e você também. Todas nós precisamos descansar, mas dá pra fazer isso em turnos. E nós temos um acordo, lembra? Nós duas temos que sobreviver – a bruxa passou a mão pela testa dela novamente, tentando avaliar a febre.
Esmeralda fechou os olhos sem responder. Anita aproximou-se e colocou uma gaze embebida em água do cantil sobre a testa dela. Também não conseguia se contentar em não fazer nada, mesmo sabendo que aquilo era inútil. A bruxa e a ilusionista ficaram sentadas uma ao lado da outra, observando com apreensão o sono da alquimista. Melissa queria se desculpar por alguma coisa, sem saber exatamente o que a estava incomodando tanto. Talvez ter dito a Anita que protegeria Esmeralda e ter deixado as coisas chegarem àquele ponto – não, não era isso, ela protegera Esmeralda da criatura alada. Talvez fosse...
– Você ouviu isso? – Anita virou a cabeça bruscamente e preparou-se para se levantar. Melissa viu uma leve movimentação nos arbustos mais próximos. O corvo finalmente emitiu um alerta de onde quer que estivesse. A dupla preparou-se para atacar ou perseguir o que quer que houvesse ali.
– Não me mate, por favor, Jujubinha! – uma pessoa levantou-se, com as mãos para cima.
Melissa levantou as sobrancelhas, perplexa. Muita coisa estranha tinha acontecido nos últimos dias, mas aquilo superava quase tudo.
– Caramelinho! – Anita levantou-se e pulou na direção da pessoa, quase derrubando-a – Céus, Caramelinho, o que é que você está fazendo aqui? Você tinha que estar em casa, onde é seguro!
– Talvez eu estivesse com saudades, depois de um ano – o rapaz passou os braços pela cintura de Anita e girou com ela, quebrando alguns galhos do arbusto. – Você não está feliz por me ver?
– Ah, Caramelinho, é claro que sim, mas o que é que você está fazendo aqui, de verdade? – Anita enroscou os seus braços no pescoço dele. Caramelinho tinha uma altura notável para que ela fosse capaz de fazer aquilo.
– Eu trago notícias sérias de casa. Preciso falar com a sua irmã – o sorriso dele desmanchou-se. – Estamos com problemas, Jujubinha.
– Nós aqui também – Anita indicou Esmeralda com um aceno de cabeça. – Vem, senta aqui perto do fogo, eu vou te fazer um chá. Você está gelado. Ah, aquela ali é a Melissa, uma bruxa e amiga. Ela não costuma morder, então não precisa se preocupar.
– Muito prazer, Melissa. Eu sou Jeremiah Noetlington. Jemima para a minha falecida mãe, Jamie para os amigos e Caramelinho para esse anjo que eu chamo de minha Jujubinha – o rapaz aproximou-se de Melissa e ofereceu-lhe uma mão, sem soltar a outra de Anita.
– Isso quer dizer que eu devo te chamar de...? – Melissa apertou a mão dele sem muita convicção. Aquele aparecimento repentino deixara uma impressão de desconfiança que, levando em conta as experiências pessoais a bruxa, demoraria a passar.
– Jamie seria bom – ele riu e sentou-se perto da fogueira, puxando Anita para junto de si. – Se isso te ajuda a se sentir mais confortável, eu também trabalho para a família Paz. Não na parte mágica, eu não tenho nenhum talento pra isso, mas em outras áreas úteis que vocês, usuários de magia, não costumam explorar muito. Tipo informática, sistemas de vigilância, e outras coisas do gênero.
– Se ela gosta de você, acho que eu não tenho muitos motivos para achar que você vai tentar matar a gente durante a noite – Melissa deu de ombros, tentando relaxar. – Mas que notícias são essas que você tem?
Jamie engoliu em seco e olhou para Anita com um ar de preocupação. Apertou as mãos dela gentilmente enre as suas e respirou fundo. Melissa sentiu um calafrio percorrer a sua espinha antes mesmo de o seu corvo voar de um galho de árvore para o eu ombro e se empoleirar ali, tenso. Ela conhecia aquele olhar.
– Jujubinha... – ele engoliu em seco de novo. – Eu... Eu não consigo... Depois de tanto tempo, depois de encontrar você aqui... Jujubinha, este é um dia feliz demais para o tipo de notícia que eu trouxe...
– O que aconteceu com a minha família? – a voz meio grogue de Esmeralda interrompeu-o.
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