Bruxaria.exe
18 Capítulo 18 - Encantamento de Sangue
Notas iniciais
Melissa acordou com Esmeralda aninhada em seus braços. Como tinham perdido os outros dois cobertores e as noites estavam cada vez mais frias, estavam dividindo o cobertor restante. Nos últimos dois dias, não tinham feito nada além de vagar em uma direção escolhida ao acaso e parar para descansar de vez em quando. Esmeralda tentava lidar com os últimos acontecimentos e pensar em um plano para atacar os sistemas das usinas; Melisa estava fazendo o melhor que podia para oferecer conforto a ela.
A bruxa fechou os olhos novamente, aproveitando a sensação de proximidade com o corpo de Esmeralda. A imagem do dia na terra das fadas retornou à sua mente e seu coração acelerou. Em outra situação – em um mundo em que ela não estivesse prestes a morrer, em que ela e Esmeralda não estivessem sendo perseguidas por duas forças poderosas, em que a magia não estivesse gravemente ameaçada, em que as circunstâncias fossem completamente diferentes –, nada a faria mais feliz do que ficar ali o dia todo. Era uma pena que ela nem mesmo pudesse ter a esperança de dar uma chance ao que quer que fosse aquela sensação.
Um barulho nos arbustos mais próximos a fez abrir os olhos, sobressaltada, e olhar ao redor. Era apenas o corvo se interessando por algumas frutinhas vermelhas. Melissa pensou que também sentiria falta dele, se realmente houvesse algum tipo de vida após a morte – algo como a Terra do Verão em que uma das suas tias acreditava, um lugar de aprendizado para os que já tinham passado pela vida e pela morte.
A bruxa levantou-se e tomou um gole de água do cantil da mochila que um dia fora de Anita. Como é que aquilo tinha acontecido com ela? Apesar do desastre da luta contra o esqueleto brilhante, a missão delas estava indo bem. Então, sem nenhum aviso prévio, tudo ruíra e o aliado inesperado se revelara um traidor covarde. Um covarde! Anita era o tipo de pessoa que merecia uma morte memorável no auge do seu esplendor ou uma morte tranquila no fim da vida, não uma garganta cortada por um falso amor em um ponto qualquer de uma mata pouco conhecida.
Esmeralda acordou pouco tempo depois. Melissa ajudou-a a refazer suas tranças antes do café-da-manhã. Ela parecia ter se recuperado do que quer que tivesse feito com o pacote de sal, pois não tivera um único tremor no dia anterior. Após a refeição frugal com parte do que ainda restava nas mochilas e as frutinhas vermelhas pelas quais o corvo se interressara, era hora de voltar a andar. Depois do que acontecera no acampamento, as duas concordavam que era melhor não ficar mais tempo do que o necessário em algum lugar.
– Para que lado hoje? – Melissa perguntou.
– Para o leste. Pelas minhas estimativas, nós devemos estar mais ou menos na altura de uma cidade próxima a uma usina. Se andarmos rápido, podemos chegar lá hoje à tarde ou amanhã cedo. Na usina, claro.
– E o que a gente vai fazer lá? Você acha que consegue desfazer o que eles estão fazendo se tiver acesso aos computadores?
– Não, é impossível. Eu tenho certeza de que eles têm cópias de segurança. O que eu quero fazer é bem menos sofisticado, e é a única coisa que nós duas temos capacidade para fazer no momento – a expressão de Esmeralda ficou sombria. – Nós vamos destruir as usinas. Todas elas. Vamos fazer o que você fez quando você me salvou. Aqueles traidores da minha família estão se unindo para espalhar o caos pelo país, não estão? Então vamos fazer isso antes deles. E vamos acabar com o material de pesquisa dessa magia sintética.
– São muita usinas – Melissa observou. – E é perigoso. A gente pode acabar morrendo antes de terminar de salvar o mundo. E aí, o que acontece?
– Eu passei os últimos dois dias inteiros pensando nisso, Melissa. Até onde eu sei, não existe uma usina central que a gente possa invadir e usar para desativar todas as outras, o nosso governo é esperto demais para fazer uma coisa dessas. Todas as usinas são capazes de continuar as pesquisas por si mesmas e eu não entendo o suficiente de informática ou qualquer coisa do gênero para desativar os sistemas de cada uma delas. Se a gente morrer, por mais que eu deteste isso que eu vou dizer, teremos que confiar nos revolucionários para terminar o nosso trabalho. Eles são nossos inimigos, mas estão lutando pelo mesmo que nós – Esmeralda esbravejou, com os olhos marejados. – Enquanto qualquer uma das usinas existir, mais daqueles esqueletos brihantes serão fabricados, mais aprendizes serão transformados em marionetes como aquelas que a gente teve que matar na mata do rei do carvalho, mais magia natural será consumida e mais magia sintética será criada! A nossa única chance de fazer alguma coisa, na situação em que estamos, é nos esgueirarmos para dentro das usinas e destruir pelo menos as partes de pesquisas, entendeu?
Melissa engoliu em seco e piscou algumas vezes, surpresa. Ainda tinha a impressão de que aquele plano de Esmeralda tinha grande chances de dar errado, mas realmente não conseguia pensar em nenhuma alternativa. Assim como fizera durante o treinamento, teria que confiar nela. E em uma coisa a morena tinha razão: se elas morressem, não faria muita diferença; outras pessoas ainda podiam cumprir aquela missão. O próprio Onabe lhe dissera que outros espíritos livres estavam procurando pessoas com potencial para proteger a magia. Mesmo assim, o fato de Esmeralda ter perdido a esperança ao ponto de propor algo tão desesperado a incomodava.
– Como você quiser, mas pelo menos tente sobreviver – Melissa suspirou.
– Antes de invadirmos a usina mais próxima daqui, eu preciso terminar de encantar o seu cachecol. Eu comecei o trabalho quando você estava dormindo depois de lutar com o esqueleto, mas não consegui avançar muito – Esmeralda estendeu a mão e tocou a peça amarela que Anita comprara, mudando de assunto.
– Não passe dos limites. Eu não quero que você passe mal daquele jeito de novo – Melissa tirou o cachecol e estendeu-o para a alquimista com uma expressão preocupada e ligeiramente irritada.
– Qual é a diferença? Nós duas vamos...
– Chega! – Melissa agarrou-a pela gola da blusa. Por causa da diferença de altura, Esmeralda teve que ficar na ponta dos pés. – Nós vamos morrer, é verdade, e daí? Pode ser que a gente morra nessa bosta de missão estúpida, pode ser que não. A vida é assim! Então eu não quero saber o tamanho das nossas chances, eu quero que você faça o melhor que puder para sobreviver, entendeu? Eu já perdi todo mundo que eu tinha, e não vou perder você também!
Esmeralda fitou-a em silêncio enquanto o medo desaparecia do seu olhar, deixando apenas a surpresa. Não demorou para que o brilho que antecede as lágrimas surgir, então Melissa soltou-a, temendo que ela mesma também começasse a chorar.
– Eu vou sobreviver, então – Esmeralda dobrou o cachecol com um cuidado exagerado. – E você também, por favor. Parece que eu preciso de você para voltar à razão de vez em quando. O que você acha de a gente parar por aqui pra eu poder terminar o encantamento do cachecol e pensar melhor no nosso plano?
– Eu acho uma boa ideia. Vou ver se acho água fresca e algo mais apetitoso do que essas bolachas que estão ficando meio velhas – Melissa conteve-se para não puxá-la para um abraço. – Se perceber algo suspeito, mande o corvo ir atrás de mim.
– Eu sei me cuidar – Esmeralda levantou uma das sobrancelhas. – Mas eu mando o corvo, se isso te deixar mais tranquila.
– Ótimo – Melissa afastou-se rapidamente dali, envergonhada por ter brigado com Esmeralda num momento de luto.
Esmeralda suspirou e sentou-se numa pedra. Passou os dedos pelo cachecol, sentindo as fibras do tecido e as finas camadas de encantamento que conseguira aplicar. Sentiu o coração apertar ao lembrar do chapéu de Anita, que ela jamais tivera a oportunidade de aprimorar, mas lembrou-se que aquela não era a hora de se permitir sentir sua própria dor. Se se deixasse levar pelos seus sentimentos, conduziria a si mesma à morte e ao fracasso, e arrastaria Melissa consigo. Passou os dedos pela peça amarela mais uma vez.
Hesitou antes de começar a camada seguinte de encantamentos. Melissa jamais a perdoaria por aquilo, mas não ficaria realmente segura de Esmeralda não o fizesse. Parte do feitiço era aumentar a resistência de Melissa a ataques físicos, o que não era tão complicado. A outra parte, era aumentar as chances de sobrevivência da bruxa, o que tinha um preço bem mais alto.
Com uma faca, a alquimista furou a ponta de um dos dedos da mão esquerda e deixou três gotas de sangue caírem sobre o tecido amarelo. Como esperado, o sangue desapareceu assim que tocou o cachecol. Esmeralda passou os dedos da mão direita sobre os lugares onde as manchas deveriam estar, selando aquela camada do encantamento.
Um feitiço de sangue, um tabu da comunidade mágica. Nem Anita sabia que Esmeralda tinha encontrado e lido os livros proibidos até mesmo pela família Paz. Ela não tinha intenção de usar aquilo para lutar, sabia que faria mais mal do que bem levar um feitiço de sangue para o ataque. Mas como proteção, não havia nada mais forte. O que quer que tentasse matar Melissa teria que matar Esmeralda primeiro, contanto que a bruxa estivesse usando o cachecol. A alqumista torcia para que as camadas de resistência ao dano fossem suficientes em batalha, mas estava pronta para se sacrificar caso algum golpe letal atingise a bruxa. Estava determinada a não viver o suficiente para perder mais alguém. Anita também teria que perdoá-la por aquilo.
– Pelo menos a primeira usina nós duas vamos destruir, eu prometo – Esmeralda sussurrou para o vazio ao seu lado. – E eu espero que Melissa chegue à segunda, mesmo que a gente não consiga avançar mais do que isso...
Ela cerrou os punhos, pensando que jamais deveria ter concordado em deixar que Anita a acompanhasse na missão de se infiltrar na equipe preta. Mesmo que a irmã provavelmente acabasse fazendo isso com ou sem permissão, Esmeralda deveria ter tentado convencê-la do contrário. Deveria tê-la poupado do campo de treinamento, deveria tê-la convencido a ficar em uma equipe que tornaria sua fuga da usina mais difícil. Se Anita ainda estivesse na usina, talvez ainda estivesse viva. Se Esmeralda não tivesse sido incompetente o suficiente para ser pega espionando, Anita ainda estaria viva.
– Não... Eu quero que todas as usinas caiam. Eu devo isso a você – ela murmurou. – Talvez eu morra já na primeira usina, mas eu tenho certeza de que a nossa amiga consegue ir mais longe do que isso. Temos que confiar nela para vingar todos os mortos da comunidade mágica, então é melhor eu pensar num plano melhor, não é?
Melissa voltou algum tempo depois com algumas frutas e dois ovos um pouco maiores que ovos de galinha, encontrados no ninho de alguma ave que nadava num lago não muito distante.
– E então, conseguiu pensar em alguma coisa? – a bruxa perguntou no tom mais bondoso que conseguiu encontrar, disposta a apagar o conflito da manhã.
– Sim, algumas coisas – Esmeralda parecia novamente aquela etrategista genial do campo de treinamento. – Acho que a nossa melhor estratégia é viajar através das sombras até o setor de pesquisas. Você se lembra de onde isso ficava na sua usina, não é? Todas as usinas foram construídas a partir da mesma planta, então não deve ser difícil encontrar o lugar. Nós entramos, destruímos o que encontrarmos pela frente, e saímos de lá antes que eles consigam se dar conta do que aconteceu, o que você acha?
– Não dá pra sair das usinas usando a magia das sombras, segundo o que o Onabe me disse – Melissa balançou a cabeça, colocando os ovos dentro de uma caneca com água no pequeno fogo que acendera para cozinhar.
– Eu considerei essa possibilidade também. Nesse caso, nós entramos, vamos direto para o setor de pesquisas, destruímos o lugar e lutamos até a saída – Esmeralda pegou um graveto e fez um desenho bastante simplificado de uma usina. – Aqui é o setor de pesquisas, certo? As saídas mais próximas são essa e essa, que estão sempre muito bem guardadas. Mas a gente pode virar à esquerda aqui, bem perto dessa primeira saída, ir até as cozinhas e escapar para o pátio através da abertura para entregas do depósito de comida. Se formos rápidas, conseguiremos chegar ao portão, que eu acho que consigo abrir.
– E se o portão for à prova de magia?
– Eu posso usar o rifle. Posso alterar uma bala com alquimia e explodir o portão. E, é claro, pode acontecer de eu falhar miseravelmente e a gente ter que escalar os muros para fugir – Esmeralda encolheu os ombros. – A não ser que a gente consiga capturar um dos soldados que tenham uma patente alta o suficiente para que seu cartão de identificação inclua a possibilidade de uma abertura emergencial dos portões, mas essa é uma chance muito pequena para que se possa contar com isso. De qualquer forma, uma vez que nós estejamos dentro da usina, temos que ser rápidas, muito rápidas. Não quero que mais algum esqueleto tenha tempo de vir atrás de nós.
– Eu também não – Melissa fez uma careta, seus ferimentos ainda doíam. – Bem, vamos ver o que acontece nessa primeira usina, e vamos sobreviver e usar o que aprendermos nas próximas. É o melhor que dá pra fazer.
Esmeralda balançou a cabeça em concordância e lhe entregou o cachecol amarelo encantado. A bruxa sentiu as pontas dos dedos formigarem ao tocar a peça, detectando as camadas de feitiços. Havia bastante proteção ali, mas também havia mais alguma coisa. Melissa já se deparara com aquilo em festividades do meio de outono, quando alguns animais de eram abatidos para que a carne fosse estocada e consumida no inverno. A energia do ritual a atterrorizava quando ela era criança, e continou parecendo sinistra quando a bruxa cresceu. Vestiu o cachecol rapidamente para que Esmeralda não percebesse que ela havia descoberto o segredo.
– Quando atacamos? – Melissa perguntou.
– De madrugada é melhor, o setor de pesquisas estará vazio e há mais chances de haver soldados dormindo em seus postos. Vamos aproveitar o resto do dia para descansar. Eu não sei como eu pensei em sugerir que a gente atacasse ainda durante o dia...
– Ainda bem que você não fez isso. Nesse caso, você se incomoda se eu tirar um cochilo?
– Fique à vontade.
Melissa deitou-se com a cabeça apoiada na mochila e fechou os olhos. Não pretendia dormir – sabia que não conseguiria, mesmo se tentasse; só queria um tempo para meditar. Concentrou-se no ritmo da sua respiração para limpar a mente antes de poder se focar no fluxo de energia em seu corpo. Estava diferente. Ela não tinha prestado muita atenção àquilo fora dos momentos de conflito, mas agora que parava para refletir sobre isso, percebia que tinha sido um processo rápido, mas gradual. Quase não havia mais traços daquela energia suave e bucólica que costumava correr por ela antes da invasão do bosque de Sharvod, e vibrações antigas e perigosas dominavam o fluxo. A bruxa não sabia como ainda podia ser considerada humana com tudo aquilo. Seu estômago ficou embrulhado quando o pensamento surgiu: o que seria dela quando tudo aquilo acabasse, caso ela sobrevivesse?
Algo como um zumbido invadiu os seus ouvidos, e foi crescendo até se tornar um coro de vozes cochichando centenas de coisas diferentes ao mesmo tempo. Melissa quis abrir os olhos e procurar a origem do som, mas descobriu que não conseguia se mover. Uma imagem se formou em sua mente e ela soube, talvez graças à dádiva de Aine Frigg, que estava olhando para o futuro. Não conseguia distinguir direito as coisas ao seu redor, pois havia sangue cobrindo os seus olhos e a iluminação era fraca demais. Teve a estranha sensação de ter dentro de si uma energia desconhecida, que intensificava-se mais e mais, até perceber que ela mesma estava chamando aquela energia para si. Houve um clarão repentino, e então tudo ficou na mais completa escuridão. A próxima coisa que Melissa sentiu foi a energia se espalhando como uma teia até lugares tão distantes que ela mesma não sabia como conseguia sentir algo àquela distância, e a bruxa era o centro da teia.
As vozes cessaram de repente, e Melissa abriu os olhos, assustada. O sol já estava baixo no horizonte. Esmeralda deu um sorriso fraco ao vê-la acordada e estendeu-lhe uma caneca de chá quente.
– Me desculpe por ter dormido tanto. Você quer tirar um cochilo agora? – Melissa pegou a caneca e segurou-a com força, tentando controlar o tremor das mãos.
– Se você não se importar. Se eu não acordar sozinha, me chame daqui a algumas horas, tudo bem? – a alquimista esticou-se ao lado de Melissa, puxando o cobertor para si.
A bruxa levantou-se para dar uma olhada nos arredores e se certificar de que não havia nenhum inimigo oculto nos arbustos, atrás das árvores ou nas sombras. Sentou-se novamente ao lado de Esmeralda quando se convenceu de que a área estava segura e evitou olhar diretamente para a pequena fogueira que tinha que ser alimentada de tempos em tempos.
Observou a morena que dormia tranquilamente ao seu lado. Sentia uma pontada no coração toda vez que se lembrava que não era capaz de protegê-la das coisas que poderiam lhe ferir, assim como não pudera proteger Monique. Queria abraçá-la e levá-la para algum lugar onde nenhum mal ou tristeza pudesse alcançá-la, mas o melhor que podia oferecer era a esperança de destruir algumas usinas. Desviou o olhar da alquimista rapidamente. No que é que estava pensando? As vidas de ambas terminariam em breve, não fazia sentido começar ali algo como aquilo. Passou as mãos pelo cachecol amarelo. Não era o momento de deixar seu coração guiar o caminho, mas aquilo não queria dizer que ela simplesmente permitiria que Esmeralda se sacrificasse por ela – tinha que pensar em um jeito de impedir que o encantamento de sangue fizesse efeito.
A madrugada chegou fria e encontrou Melissa ainda presa em seus pensamentos e sentimentos conflitantes. A bruxa acordou a alquimista, que ficou pronta para partir em poucos minutos. Não levariam suas mochilas, nem o cobertor. Se sobrevivessem, voltariam ali para pegar as coisas, se não, não precisariam mais delas; de qualquer forma, não queriam levar nenhum peso extra desnecessário.
– Não é esforço demais me levar com você, não é? – Esmeralda perguntou.
– Não. Agora que eu peguei o jeito, levar uma pessoa só não é problema – Melissa balançou a cabeça e se absteu de dizer que levar duas pessoas é que era cansativo. Não queria lembrá-la de que não havia mais uma segunda pessoa a ser carregada.
Esmeralda indicou a direção da usina e Melissa concentrou-se. Avançou rapidamente pelas árvores e parou por alguns momentos no campo aberto do lado de fora do muro branco, lembrando-se de Onabe. Era uma pena que provavelmente ninguém estivesse prestando atenção na dupla parada ali. Ela adoraria ver o terror que um novo ataque feito por dois indivíduos causaria. Concentrou-se novamente para alcançar o setor de pesquisas.
– Estamos aqui. Por onde começamos? – Melissa olhou ao redor, vendo um monte de computadores e máquinas que lhe eram estranhas. Havia ainda portas que davam em subdivisões do setor. Era mais trabalho do que ela tinha estimado.
– Vá para aquele lado e eu vou por esse. Nem precisa pensar muito, é só arrebentar tudo o que você puder – a alquimista respondeu, avançando para uma das portas.
Melissa assentiu e correu na outra direção. Gostaria que seu corvo estivesse ali para alertá-la caso alguém se aproximasse, mas não vira a ave antes de partir, então não a trouxera consigo. Dentro de uma das salas, encontrou esferas de vidro como aquela em que acordara do mundo vermelho. Olhou ao redor e encontrou uma mesinha de metal com rodinhas, contendo uma bandeja de pequenos utensílios que ela não conhecia. Sem hesitar, atirou a mesinha contra a esfera mais próxima e pegou-a de volta para atingir a esfera seguinte. A próximasala tinha mais computadores, que ela prontamente jogou no chão e chutou, usando uma das cadeiras para arrebentar os afixados nas paredes. Aquilo era quase tão bom quanto uma boa luta, e era suficiente para fazer o seu sangue ferver com a energia de Morrigane. Não demorou para que a selvageria reinasse absoluta nas suas opções para quebrar coisas. Pelos barulhos que vinham do outro lado, Esmeralda também estava se divertindo. Elas já deviam ter acordado a usina toda com aquilo, a não ser que aquele setor tivesse um ótimo isolamento acústico.
A última sala em que Melissa entrou tinha um objeto grande que parecia ser um gerador. Algo luminoso girava furiosamente em seu interior, e tubos brilhantes saíam da máquina e iam para o teto e para o chão. A bruxa aproximou-se e sentiu a vibração estranha da magia sintética. Era justamente aquilo que queria encontrar. Pensou em enfiar a faca nos tubos, mas teve medo de acabar atingindo algo elétrico e levar um choque letal. Rodeou o gerador, imaginando o que fazer para destruir aquilo. Aproximou-se e arriscou um feitiço de calor na extremidade de um dos tubos. Graças ao poder de Morrigane, um ponto do envólucro do tubo derreteu e um gás esbranquiçado escapou por ali. Melissa repetiu a operação nos outros tubos e a coisa dentro do gerador desacelerou. O gás tinha um cheiro adocicado que a deixou agitada; era como ter tomado um bule de café inteiro sozinha. Melissa tossiu e puxou a gola da blusa para cima para cobrir o nariz e a boca enquanto a coisa luminosa dentro do gerador parava de girar e de brilhar.
– Melissa! – o grito agudo de Esmeralda veio da sala central.
A bruxa precipitou-se para lá, deixando o gerador e a fumaça para trás. Um trio de esqueletos rendados aproximava-se de Esmeralda. Nenhum deles tinha a cobertura luminosa ou as asas da criatura enfrentada pela bruxa. Melissa supôs que Esmeralda tivesse encontrado a sala de desenvolvimento dos esqueletos, e tivera sorte o suficiente para não se deparar com os produtos finais.
Urrando, Melissa agarrou a cadeira mais próxima – uma coisa bastante desconfortável com rodinhas desniveladas – e atirou-a na direção dos esqueletos, derrubando um deles. Os outros dois voltaram-se para ela, o que só fez com que seu coração acelerasse com a expectativa de mais uma batalha.
– Melissa, nós temos que sair daqui agora! – Esmeralda gritou, correndo para a porta.
A bruxa balançou a cabeça, a contragosto, e acompanhou-a, embora preferisse ficar e quebrar os ossos irritantes que chacoalhavam atrás dela. A dupla não encontrou muita resistência na rota de fuga planejada – a equipe de segurança da usina certamente não se preparara para um ataque noturno. Do lado de fora, Melissa surpreendeu-se com uma ave escura saindo de uma das guaritas. Ela gostaria de descobrir como aquele corvo sempre a alcançava tão rápido.
– Rápido, para o portão! – Esmeralda puxou-a pela mão, correndo.
Melissa ouviu gritos ao seu redor, misturados ao som de tiros sendo disparados. Uma bala passou de raspão no seu ombro, doendo bem menos do que ela se lembrava. Como que numa epifania, descobriu como usar os encantamentos de Esmeralda a favor da alquimista. Aproximou-se mais dela e jogou uma das pontas do cachecol sobre os seus ombros, quase dando uma volta ao redor do pescoço; naquele arranjo, ambas estariam protegidas e, caso Melissa achasse que tinha chances de morrer, seria fácil livrar-se da peça e impedir o sacrifício de Esmeralda.
– O que é que você está fazendo? – a alquimista protestou.
– Cala a boca e corre! A gente ainda precisa sair da usina!
A dupla parou a pouco mais de três metros do portão para que Esmeralda pudesse atirar com o rifle. Permitindo-se sentir o calor do desejo de batalha novamente, Melissa olhou ao redor. Relâmpagos cruzaram o céu e um raio atingiu uma das guaritas no muro. Os poucos soldados que já estavam acordados e a postos assusstaram-se; eles certamente tinham ouvido falar do massacre na outra usina. O barulho de uma explosão chamou a atenção da bruxa de volta para o plano e ela correu para fora. Segurando a mão de Esmeralda, viajou pelas sombras até um ponto a uma distância segura, e dali para o acampamento.
– Eu não acredito que a gente conseguiu! – Esmeralda não sabia se ria ou se mantinha uma expressão de extrema descrença.
– Eu não acredito que foi tão fácil. Tinha pelo menos o triplo de soldados naquele dia em que eu invadi a usina com o Onabe – Melissa coçou a cabeça. – A gente fez alguma coisa errada? Eles deixaram a gente ir embora de propósito?
– Não, nós só escolhemos o momento certo para atacar – Esmeralda sorriu. – Vem cá, deixa eu dar uma olhada no seu ombro. Parece que nem os meus melhores encantamentos conseguem te manter completamente a salvo.
– Por falar em encantamentos, eu só queria avisar que eu sei o que você fez – Melissa aproximou-se e olhou direto nos olhos verdes da outra. – E que eu jamais vou deixar você se ferir no meu lugar. Por que você fez um encantamento de sangue?
– Eu não quero perder você, Melissa. Eu tenho medo de ficar sozinha.
– E você nem sequer considerou que eu também tenho medo? – Melissa suspirou e, ignorando a dor no ombro, puxou Esmeralda para um abraço. – Nós conseguimos passar pela primeira usina sem morrer, isso é ótimo. Pode ser que a gente consiga passar pelo resto, pode ser que não, mas eu realmente quero ter você ao meu lado até quando for possível... Então, por favor, não tente jogar a sua vida fora assim...
Esmeralda ficou em silêncio, mas correspondeu o abraço. Ali, no meio do nada, na madrugada fria, o calor do corpo de Melissa e as batidas do seu coração eram mais coercivos do que quaisquer palavras que a bruxa pudesse pronunciar. Ela também queria ficar ali por tanto tempo quanto possível. Mas continuaria não hesitando em fazer o que fosse preciso para manter aqueles olhos azuis a salvo.
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