Bruxaria.exe
19 Capítulo 19 - Corvo de Morrigane
Notas iniciais
Melissa caiu de quatro no chão e cuspiu a mistura de sangue e saliva que enchia sua boca. Esmeralda abaixou-se ao seu lado, preocupada, mas num estado não muito melhor que o da bruxa. Tinham acabado de sair da quarta usina.
– Parece que eles finalmente perceberam o que nós estamos fazendo – Melissa inclinou-se para o lado e desabou no chão. – As defesas estão bem melhores.
– Eu achei que a gente fosse morrer dessa vez – Esmeralda sentou-se ao seu lado, estremecendo – E o portão quase não cedeu...
– Talvez a gente precise melhorar um pouco a estratégia ou aprender a fugir mais rápido – a bruxa fez uma careta de dor ao tentar rir. – Esse seu encantamento de proteção é quase uma blindagem, sério. Eu acho que teria morrido umas três vezes hoje se não fosse por ele.
– Ainda bem que não morreu – a alquimista suspirou. – Eu fiquei com medo de você fazer alguma bobagem hoje. Às vezes você fica assustadora quando entra em batalha.
– É essa a intenção – Melissa fechou os olhos e procurou a mão de Esmeralda com a sua. – Mas aqueles esqueletos também são assustadores. Aquele último soco ainda está doendo, e eu tenho medo de pensar no que ele teria feito se eu não estivesse com o cachecol.
– É, sua boca sangrou bastante – a alquimista comprimiu os lábios.
– Parece até que eu voltei para o campo de treinamento – Melissa limpou os cantos da boca com as costas da mão. – Mas tudo bem. Já estamos na metde do caminho, não é? Talvez a gente até consiga terminar...
Esmeralda entrelaçou os seus dedos aos da bruxa e deitou-se ao seu lado, cansada. O cachecol amarelo, costumeiramente enrolado desajeitadamente nas duas, escorregou dos seus ombros. Um trovão soou ao longe.
– Acho que vai chover. Será que a gente devia procurar abrigo? – a morena perguntou, bocejando.
– Eu não sei que contos de fadas você anda lendo, mas eu não derreto com um pouco de água – a bruxa respondeu. – Por outro lado, a caverna que a gente viu mais cedo não é tão longe assim.
A alquimista concordou e, com esforço, as duas se levantaram, recolheram as mochilas e caminharam até a caverna, assustando meia dúzia de morcegos e alguns roedores. Na penumbra, checaram as provisões que tinham roubado de uma loja na madrugada anterior – o estômago de Melissa falara mais alto que os seus valores morais, afinal. Algumas latas de comida, um novo cobertor e um novo kit de primeiros socorros.
Com cuidado, as duas trocaram as ataduras uma da outra. Melissa notara que seus ferimentos andavam cicatrizando mais rapidamente desde a luta com o esqueleto luminoso, e aquilo a assustava. Ao aceitar completamente a bênção de Morrigane, o que teria concordado em permitir que fosse feito consigo? Ela também deixaria de ser humana? Os sonhos cada vez mais frequentes e vívidos com a visão enviada pela bênção de Aine Frigg também a incomodavam. O que aquela coisa toda de teia de energia queria dizer?
Sem ousar colocar seus temores em palavras, Melissa estendeu um dos cobertores sobre o chão da caverna para que ela e Esmeralda tivessem um pouco de conforto e deitou-se para dormir. A alquimista aninhou-se ao seu lado e puxou o outro cobertor sobre ambas. Melissa brincou com uma das tranças dela antes de fechar os olhos e se deixar levar pelo sono. Em seu sonho, enfrentou novamente a confusão de não conseguir enxergar por causa do sangue em seus olhos, ouviu o barulho de grandes asas se abrindo – esse detalhe tinha surgido três noites antes – e sentiu a energia estranha indo até ela e se transformando na teia gigantesca. Acordou com o cheiro de sardinha frita e com a visão de Esmeralda improvisando um café-da-manhã para as duas com a comida enlatada.
– Dormiu bem? – Esmeralda sorriu, sem saber das estranhas visões da bruxa.
– Parece que sim, considerando a altura do sol – Melissa esfregou os olhos.
Ao olhar novamente para Esmeralda, sentiu uma pontada no coração, como se uma parte de si estivesse gritando que perderia a alquimista em breve. Perdeu o fôlego diante daquela perspectiva. Esmeralda era o centro da sua existência naquele momento. Sabia desde o começo que aquela parceria não duraria muito, mas se apegara demais à companheira para que estivesse preparada para uma separação. Não, aquilo era mais que apego a uma companheira. Era mais que a consideração devida a uma amiga. Melissa sabia o que era aquilo, mas tivera medo de dar-lhe o nome correto.
– Você está bem? – os olhos verdes fitaram-na com preocupação, vendo a expressão triste da bruxa.
Melissa jogou o cobertor para o lado e aproximou-se de Esmeralda, envolvendo-a num abraço desesperado. Queria sentí-la em seus braços, queria ter a ilusão de que poderia segurá-la ali para sempre, precisava dela ali. Sem entender tudo, Esmeralda retribuiu o abraço.
– A gente podia desistir da missão e ficar assim pra sempre – a alquimista brincou.
Melissa encarou-a por um instante, então aproximou seu rosto do dela. Aquilo era um erro terrível e destroçaria o coração de qualquer uma das duas que ficasse para trás, mas ela não queria perder sua última oportunidade de se permitir dar vazão aos seus sentimentos. Os lábios se encontraram timidamente, então mais uma vez, longamente. A bruxa não pôde deixar de comparar a sua situação presente – cabelos desgrenhados, roupas em um estado terrível e imundas, em uma caverna malcheirosa – com a situação do seu primeiro beijo trocado com Monique, sob os galhos floridos de uma árvore, em plena primavera. Novamente a ironia dos ciclos se abatia sobre ela: a primavera, o despertar do mundo, lhe trouxera um amor cheio e esperanças; o inverno lhe dera um amor fadado a terminar em tragédia, selado por aquele primeiro e último beijo desesperado. Os dedos de Esmeralda roçaram carinhosamente o seu rosto quando os olhares se encontraram novamente. Ela tinha compreendido tudo.
– Obrigada por ter sido a melhor coisa que podia ter me acontecido nessa tragédia toda – Esmeralda plantou um beijo rápido na testa da bruxa.
Melissa afastou-se dela com um suspiro, sem saber o que responder, e nenhuma das duas disse mais uma palavra. Estavam saboreando o peixe do café-da-manhã quando o corvo assustou-as com seu crocitar, quebrando violentamente o silêncio.
– Ataque! Ataque! Ataque! – a ave bateu as asas com tanta força para chamar a atenção que algumas das suas penas se soltaram e flutuaram até o chão da caverna.
– Um ataque? Será que os soldados conseguiram nos encontrar? – Melissa levantou-se já empunhando suas facas.
– Eles devem ter emitido um alerta, saído com seus radares de magia, procurado sinais de acampamentos – Esmeralda lançou um olhar culpado à fogueira e ao cachecol amarelo. – Nós não temos sido cuidadosas em relação a isso.
– Vamos fugir, então. Rápido, me ajude a pegar o que for essencial! – Melissa passou uma faca para a mão esquerda e, com a direita, começou a enfiar um dos cobertores dentro da sua mochila.
Esmeralda precipitou-se na direção da sua mochila para fazer o mesmo apenas um momento antes das criaturas aparecerem no campo de visão limitado proporcionado pela entrada da caverna. Melissa avistou seis esqueletos brilhantes, com suas asas abertas e preparadas para alçar voo. Sem perguntar se Esmeralda estava pronta para partir, agarrou seu braço e olhou para a floresta, tentando concentrar-se num ponto além dos esqueletos. Sentiu a estranha leveza que sempre acompanhava suas viagens pelas sombras e começou a mover-se na direção do lugar escolhido, mas chocou-se com uma barreira invisível no meio do caminho e foi jogada violentamente para trás.
Levantou-se, confusa, e olhou ao redor. Esmeralda tinha caído a aproximadamente um metro dela. Procurou um sinal da barreira, mas não viu nada estranho até perceber que os esqueletos luminosos estavam andando de mãos dadas, avançando num semicírculo que só deixava livre a direção da caverna. Se aquelas coisas podiam absorver magia, fazia sentido que um feitiço não conseguisse simplesmente atravessar aquela barreira. Melissa sentiu-se idiota por não ter pensado naquilo.
Recolheu suas facas rapidamente e correu na direção dos esqueletos, ciente de que aquela era a hora da separação. Esmeralda e Monique jamais a perdoariam por aquilo. Que Morrigane lhe desse forças e Aine Frigg a protegesse por tempo suficiente.
– Corvo! – a bruxa gritou, enroscando uma das facas entre o úmero e o rádio de um dos esqueletos para forçá-lo a se separar do outro.
Como de costume, Melissa não precisou comunicar verbalmente suas intenções à ave, que prendeu o cachecol amarelo em suas garras e o levou até Esmeralda, que voltara à caverna para pegar o rifle. Melissa continuou provocando os esqueletos, quebrando a barreira e atraindo-os para si. Quando a alquimista tentou aproximar-se para ajudá-la, o corvo voejou à sua frente, batendo as asas em seu rosto, fazendo-a recuar cada vez mais, apesar dos protestos veementes e das tentativas de Esmeralda de tirar a ave do seu caminho.
Melissa concentrou-se na ira de Morrigane e naquela sensação gelada que as tempestades lhe traziam. Ouviu os trovões, sentiu o sangue ferver e tomou o cuidado de recuar após cada ataque; queria aproveitar as vantagens das dádivas de Morrigane por tanto tempo quanto pudesse. Apesar dos seus esforços, não demorou para que um dos esqueletos brilhantes agarrasse seu braço direito, imobilizando-o e dando uma chance aos seus companheiros para atacar a bruxa. Melissa revidou como um animal ferido enfurecido enquanto tentava verificar a que distância Esmeralda estava. Em meio à confusão de ossos, luz e sangue, conseguiu vislumbrar a alquimista, que ainda estava perigosamente perto do combate, apesar dos esforços do corvo.
Os cortes causados pelo contato com os esqueletos ardiam como se estivessem em chamas, mas Melissa se debateu e se contorceu até escapar das criaturas e recuou, esperando conseguir atrair todos os inimigos. Precisava levá-los para longe de Esmeralda para que ela tivesse uma chance de escapar. Não demorou para que as criaturas a alcançassem e a prendessem em suas garras rendadas novamente. O fogo de Morrigane extinguiu-se rapidmente, e nem todos os esforços desesperados da bruxa foram capazes de formar uma tempestade a tempo de destruir seus inimigos com raios. Sua cabeça ficou leve, o mundo pareceu girar, sua visão ficou turva e a dor dos cortes começou a diminuir. Melissa teve consciência de que estava morrendo.
Ouviu ao longe uma voz familiar que a chamava. Monique? Não, não se parecia com a voz da ruiva. Era Esmeralda. Mas Esmeralda não deveria estar ali, ela tinha que ter fugido com o corvo. Por que Esmeralda a estava chamando? Se ficasse ali, morreria também. Os pensamentos confusos se organizaram na mente de Melissa com uma mensagem bastante clara: Esmeralda esstava em perigo. A bruxa tentou lutar contra o torpor que tomava conta de si, mas era tarde demais, ela já estava próxima demais do abraço da morte para conseguir se afastar dele.
– Morrigane! – ela pensou, esperando que a senhora da guerra pudesse escutá-la. – Morrigane, conceda-me mais uma dádiva, só mais uma. Eu não posso deixar essas coisas matarem a Esmeralda. Por favor!
Uma dor excruciante em suas costas a fez gritar, o que queria dizer que ela ainda estava viva. Debateu-se para se livrar dos esqueletos que a seguravam e caiu de joelhos no chão, ainda gritando. Seus ossos pareciam em chamas, seu sangue parecia gelo, seus dedos doíam. Em qualquer outra ocasião, ela teria implorado para ir para o mundo vermelho para escapar daquela dor, mas naquele momento precisava ficar ali, aguentar e salvar Esmeralda. Forçou-se a se levantar e a abrir os olhos. Viu os esqueletos, que tentavam segurá-la novamente, e viu Esmeralda com uma expressão horrorizada. Olhou para as próprias mãos e constatou que suas unhas haviam crescido e se tornado garras. Em suas costas, movendo-se descoordenadas, asas negras soltavam penas ao se chocarem com os esqueletos. Linhas negras traçavam o mapa das suas veias em sua pele clara. Morrigane dera-lhe a última dádiva e transformara-a num monstro.
– Fuja! Rápido! – Melissa gritou, numa voz rouca que não se parecia muito com a sua.
O corvo voltou a tentar afastar Esmeralda dali, e a alquimista não resistiu daquela vez. Melissa sentiu-se grata por ela ter resolvido sair dali, mas uma parte do seu coração ruiu. Esmeralda não amaria um monstro. Voltou sua atenção novamente para os esqueletos. Se realmente quisesse garantir a segurança da sua pequena alquimista, teria que destruir aquelas criaturas. Suas novas garras se provaram mais úteis que as facas, e as asas a protegiam bem dos ataques, mas os inimigos eram muitos para uma bruxa enfrentar sozinha, e não demorou para que Melissa fosse novamente dominada e perdesse os sentidos.
Já conhecia aquela rotina. Primeiro vinha uma vaga consciência, então a dor, a lembrança da última batalha e o despertar. Abriu os olhos com cuidado, incomodada com a luz excessivamente forte do lugar. Tentou se levantar, mas algo prendia seus pulsos e tornozelos. Olhou ao redor pra se situar melhor. Era uma sala branca, com paredes acolchoadas, chão e teto emborrachados. Havia uma janela espelhada e uma porta branca com a mesma textura da parede. Melissa estava deitada sobre uma maca, o único objeto existente ali. Seus membros estavam presos por algemas acolchoadas. Nada daquilo a surpreendeu ou incomodou mais do que a visão do seu próprio corpo nu.
A pele das mãos e do antebraço da bruxa tinha se tornado cinzenta e enrugada como as pernas de um pássaro; o mesmo acontecera aos seus pés e as suas pernas, até a altura dos joelhos. O resto do corpo estava coberto por penas escuras como a noite. Ela não sabia se seu rosto também tinha penas ou uma pele cinzenta e enrugada, mas havia algo ali atrapalhando sua visão. Tentou mover seus lábios e a coisa se moveu para cima e para baixo. Era escura, brilhante, afiada e um tanto cônica ou arredondada. Melissa descobriu que tinha um bico. Lembrou-se da expressão de horror de Esmeralda na emboscada e perguntou-se o que ela faria se visse a bruxa naquele estado. Talvez ela tivesse fugido por imaginar que os esqueletos fossem os responsáveis pela transformação e que Melissa se tornara uma criatura como eles. Talvez ela tivesse finalmente entendido que não adiantaria lutar ali e que seria melhor continuar a missão sozinha. Talvez... Melissa não queria pensar nas outras opções.
A porta foi aberta e uma pessoa com uma prancheta entrou. Apesar do jaleco branco, Melissa a reconheceu como a mulher de alta patente que enviara todos os sobreviventes para aquele inferno que fora o último teste. Ela ainda tinha aquele leve sorriso de falsa bondade no rosto. Melissa estremeceu, perguntando-se que tipo de horror a aguardava.
– É bom ver que você acordou, RX-640 – a mulher anotou algo na prancheta. – Como se sente?
– Por que eu estou aqui? – Melissa rosnou na sua nova voz rouca. Não estava particularmente interessada em onde estava ou como havia sobrevivido.
– Porque você tem me dado muito trabalho, RX-640. Você e três outros casos apresentaram níveis incomuns de magia, coisas que eu só havia visto em livros e contos antigos. Eu fiquei bastante curiosa e, como todos vocês causaram problemas por aí, eu finalmente obtive permissão para estudar e fazer testes – ela apoiou a prancheta sobre a barriga emplumada de Melissa e removeu as algemas que a prendiam na maca. – Venha.
Melissa tentou se mover, mas seu corpo estava completamente paralizado. Então, sem que ela tivesse qualquer controle sobre o movimento, suas pernas deslizaram para o lado da cama e seu tronco se ergueu. Seus braços deformados deram um pequeno impulso para frente e seus pés com garras tocaram o chão. Melissa estava em pé.
– Isso é o chip que nós implantamos na sua nuca. Ele nos permite controlar completamente os movimentos do seu corpo. No momento, o seu controlador está bem longe daqui, mas pode te ver através da câmeras e ouvir através dos microfones que estão em todos os lugares do nosso centro de pesquisas – a mulher parecia realmente animada com o seu trabalho. – Controlador, por que você não dá um oi?
O braço de Melissa ergueu-se e acenou animadamente. A bruxa estava aterrorizada. Tentou impedir o movimento, mas era impossível. Ela se tornara uma marionete.
– É perfeitamente seguro, não se preocupe. E você e seus colegas terão um papel fundamental na preparação da base para o futuro – a pesquisadora sorriu com confiança. – Graças a vocês, nós conseguiremos acelerar o processo de construção de um novo mundo! Agora que sabemos como controlar a ordem e o caos, podemos criar um lugar perfeito, sem doenças ou desastres naturais, sem escassez de energia ou alimentos, um paraíso para a humanidade.
– Mas não para toda a humanidade – Melissa estreitou os olhos. – E nem para todos os seres vivos. Só para aqueles que vocês acharem relevantes. Eu estou errada?
– Sacrifícios são necessários para o progresso. Você provavelmente vai acabar entendendo isso, embora a sua compreensão seja irrelevante para o avanço do projeto – a mulher deu de ombros e saiu da sala acolchoada. Sem escolha, Melissa seguiu-a.
As duas passaram por um corredor com poucas portas, até alcançarem uma barreira púrpura, que só se abriu com o cartão magnético da pesquisadora. Melissa entrou em uma ampla sala circular, onde três outras criaturas aguardavam, imóveis. Havia um licantropo cinzento, um lagarto gigante cor de areia, e um arbusto antropomórfico de gênero indefinido. A bruxa ficou chocada ao vê-los, não por suas aparências, mas pelo fato de todos terem sido transformados em monstros. Teria sido aquele o plano dos grandes espíritos da magia? Todos os que aceitaram a missão, independente dos motivos, teriam sido amaldiçoados? Teriam sido eles transformados em meras armas descartáveis, agora roubadas pelos inimigos e apontadas para os seus donos originais? E os espíritos que tinham sido os intermediários dos contratos? Eles sabiam daquilo? Onabe sabia que Melissa se transformaria naquela coisa?
Seu corpo posicionou-se no círculo e ficou imóvel enquanto a mulher passava uma espécie de detector de metais por ele. Pelo que Melissa pôde ver no pequeno visor da coisa, aquilo media seus sinais vitais – a tecnologia das usinas a surpreendia incessantemente. Depois do rápido exame, a pesquisadora dirigiu-se ao centro do círculo e anunciou:
– Sejam bem-vindos ao nosso mais novo subdepartamento de pesquisas. Nos próximos dias, testaremos os limites dos seus poderes. Queremos colocá-los em ação asim que possível. Em nome de toda a equipe, eu gostaria de agradecê-los pelos seus esforços, não importa o quão involuntários sejam.
Melissa viu-se fazendo uma reverência e afastando-se do círculo. Suas asas se abriram e fecharam algumas vezes, e depois de algumas tentativas ela fez um voo rápido ao redor da sala. Após um rápido aquecimento, seu corpo fez algumas séries de movimentos que ela supôs serem de artes marciais que ela desconhecia. Seu bico e suas garras foram destados contra as paredes de metal, e ela ficou igualmente satisfeita e horrorizada ao ver que conseguira deixar sulcos no material. Em algum ponto daquilo tudo, ela sentiu fome, e logo foi conduzida de volta ao seu quarto, onde uma refeição sem graça numa bandeja de plástico a aguardava. Ela precisou de algumas tentativas para descobrir uma forma eficiente de comer com um bico.
Algum tempo depois da refeição e de um rápido cochilo, Melissa foi conduzida de volta à sala circular. Não saber que horas eram, se era dia ou noite, estava começando a incomodá-la. Tinha plena consciência de que o tempo ali pareceria um ciclo infinito de testes, refeições insossas e períodos indefinidos de sono. Já conseguia sentir a angústia crescendo dentro de si, aumentada pelo fato de que ela nem sequer podia tentar fugir ou resistir. Na sala circular, viu-se criando chamas e manipulando eletricidade, e percebeu que havia desapontado o seu controlador ao não manifestar a dádiva de Morrigane – ficou feliz pelo seu pequeno ato involuntário de rebeldia, mas se perguntou se o grande espírito da guerra a havia abandonado.
Mais ciclos de testes e descanso se passaram, e Melissa prestou cada vez menos atenção a eles. Seu corpo monstruoso e emplumado se movia de acordo com os comandos do titereiro e das máquinas infernais que ele usava, mas sua mente vagava sem restrições. Entre reflexões desesperadoras sobre os planos das duas grandes forças que estavam envolvidas naquela guerra, surgiam lembranças alegres. O orvalho fresco brilhando nas folhas do bosque de Sharvod ao amanhecer, o riso de Monique ecoando em seus ouvidos, os olhos incrivelmente verdes de Esmeralda, os cachos flamejantes de Monique, as adoráveis trancinhas de Esmeralda. Uma delas a havia banido do seu lar para sempre para salvá-la de uma tristeza sem fim e a outra a abandonara ao vê-la transformada em um monstro, é claro, mas os momentos que passara ao lado delas tinham sido agradáveis demais para serem simplesmente esquecidos.
Num momento particularmente tedioso, Melissa lembrou-se novamente do seu primeiro beijo compartilhado com Monique. Como tinha sido maravilhosa a sensação! Algo como uma luz invadindo o seu peito e se espalhando pelo resto do corpo, preenchendo cada vazio da sua alma, iluminando os cantos mais escuros do seu coração, fazendo-a se sentir completa. Suspirou e tocou o bico com as pontas das garras, ansiando por sentir aquilo mais uma vez, desejando ser inundada mais uma vez por aquela energia. Depois de tanto tempo de sofrimento, nem os poucos momentos de paz que tivera ao lado de Esmeralda podiam se comparar à alegria contida naquela lembrança. Melissa se concentrou tanto naquela sensação que acabou realmente sentindo uma energia preenchendo o seu corpo, mas não aquela do seu primeiro beijo.
Melissa estacou ao perceber o que estava fazendo. As luzes da sala circular tinham começado a falhar, um alarme disparara ao longe e, o mais importante, a criatura que parecia um corvo não estava se movendo de acordo com os comandos do controlador. A bruxa tentou afastar as garras do bico. Foi necessário um esforço muito maior do que o comum, mas o movimento realizou-se. Em seguida, Melissa tentou se concentrar novamente na energia, que agora reconhecia como sendo a da magia sintética. Não era mais difícil absorvê-la do que era absorver magia natural, e, como bruxa, lidar com o fluxo de energias mágicas era algo que Melissa aprendera cedo.
A porta púrpura se abriu, revelando meia dúzia de soldados com coletes de proteção. A sensação estranha das visões surgiu na mente de Melissa. Era aquele o momento que selaria o seu destino trágico, então. Voltou-se para seus inimigos, concentrando-se unicamente em absorver mais energia – coisa que conseguiu fazer tão intensamente que lâmpadas explodiram nas salas mais próximas e a energia elétrica oscilou violentamente. Um dos soldados atirou, mas a bala se desviou do seu curso. Melissa assustou-se, percebendo finalmente o quão imensa era a quantidade de magia que ela estava acumulando em si. A segunda bala passou de raspão, ferindo seu supercílio e fazendo com que o sangue jorrasse dali e cobrisse sua visão.
– Matem aquela coisa! – a pesquisadora berrou de algum lugar.
Melissa permaneceu imóvel; não era mais o chip que a impedia de se mover, mas a magia sintética. Pela primeira vez, até onde conseguia se lembrar, a bruxa ultrapassou os limites de manipulação do fluxo da magia, criando uma reação que não era capaz de controlar. Não sabia dizer que era por causa dos seus próprios esforços, se o chip implantado nela tinha alguma influência, se alguma coisa de fora estava controlando aquilo tudo, mas a energia mágica sintética fluía para dentro dela mais e mais. Alguma outra coisa, bem maior do que uma lâmpada, explodiu em algum lugar.
A visão de Melissa ficou turva e escureceu, os sons ficaram confusos e distantes. Ela imaginou ter visto algo verde e ter ouvido um som agudo e conhecido, mas não conseguiu discernir o que eram aquelas coisas. Toda aquela energia a estava sufocando, e sua própria pele parecia apertada demais para o seu ser. Melissa precisava desesperadamente sair dali e ir para um lugar mais amplo. Sentiu tudo aquilo que compunha a sua existência física expandir-se, e a energia espalhar-se como uma teia para fora daquela sala infernalmente pequena. Uma parte de si tocou um riacho fresco, outra correu livre entre árvores verdejantes, outra aventurou-se entre as minúsculas gramíneas que desafiavam o concreto de uma cidade, e uma outra parte ainda elevou-se até o céu, saltitando entre nuvens e estrelas. Os mares quentes do do sul e os turbulentos do norte, as montanhas impiedosamente altas, os desertos, as savanas em chamas logo antes das chuvas, as tempestdes tropicais, as grutas de morcegos e as florestas densas, Melissa estava em todos os lugares.
Em algum ponto da sua consciência ampla e confusa, Melissa encontrou uma plantinha insignificante crescendo sobre o tronco de uma árvore caída no meio de um bosque morto. Um lobo dormia ao lado de uma mulher ruiva. Com os movimentos suspensos, os dois pareciam mortos. Melissa não se importou com o lobo, que a atraíra para aquele destino cruel, mas estendeu uma parte de si – já não conseguia diferenciar seus pés da suas mãos, ou de qualquer outra parte do seu corpo, mas supôs que estivesse estendendo uma mão – na direção da ruiva e tocou seus cabelos, despertando-a. Viu a sucessão de medo, espando, confusão, culpa e resignação evoluir no olhar do espírito da natureza.
– O quê...? Quem...? Melissa?! O que aconteceu? – Monique levantou-se.
A bruxa tentou responder, mas só conseguiu transmitir uma torrente de imagens, sons e sensações. Monique compreendeu tudo e, apesar de ainda temerosa, aproximou-se e permitiu que Melissa a envolvesse num abraço. No instante seguinte, ou no mesmo instante – a noção de tempo também começava a se tornar confusa para Melissa – as duas se espalharam juntas pela teia sem fim.
Em algum lugar agora insignificante para a dupla, um lobo dormia ao lado de uma planta seca, num bosque morto, num país em plena guerra civil e numa crise de energia elétrica. E num outro lugar igualmente insignificante do mesmo país, uma alquimista arrastava-se entre os escombros de um prédio em ruínas, acompanhada por um corvo, tentando alcançar ao menos uma das penas deixadas para trás pela criatura amada.
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