Bruxaria.exe
14 Capítulo 14 - Adeus
Notas iniciais
Do lado de fora do carvalho ancestral, Esmeralda, Anita e Onabe esperavam sentados nas raízes das árvores, cobertos de gosma fétida e sangue. As três lanças jaziam quebradas no chão, parecendo bem menos impressionantes do que algumas horas antes – a magia de ordem devia estar realmente fraca para que o efeito mágico das armas durasse tão pouco.
– Você demorou. Achei que alguma coisa muito ruim tivesse acontecido! – Esmeralda foi a primeira a se levantar. – Céus! O que aconteceu com você lá dentro?
Melissa olhou para baixo, fitando suas mãos e as suas pernas. Os cortes e as queimaduras estavam começando a arder agora que a adrenalina estava baixando. Em pouco tempo, a dor seria quase insuportável – Melissa estava disposta a acreditar que não havia dor que fosse de fato insuportável depois de ter experimentado tantos tipos.
– Tive que matar Sharvod. Ou alguma coisa parecida com Sharvod que não era realmente ele – ela balançou a cabeça. – É complicado. Mas agora acabou, o rei do carvalho já pegou o cajado.
Onabe emitiu um ganido baixo e deixou sua cabeça cair. As três mulheres olharam para ele.
– Você está ferido? – Melissa aproximou-se dele.
O lobo não respondeu. Levantou-se e foi até a trilha de folhas frescas, o caminho para fora da mata do rei do carvalho, e o trio o seguiu. Anita tentou quebrar o silêncio com alguma piada sobre salvar o mundo e encontrar tesouros, e Melissa respondeu que o rei do carvalho lhe garantira que haveria pelo menos cura e comida para eles em algum lugar. Quando saíram da mata e cruzaram o riacho, ninguém sentiu vontade de olhar para trás. Não tinham visto a mata gloriosa das lendas, só um monte de árvores e alguns inimigos, e isso todos eles podiam encontrar em quase qualquer lugar.
– Decadência – o corvo crocitou quando Melissa pensou na decepção que fora aquela visita a um dos lugares mais sagrados para o seu povo.
– Realmente, a ordem está em decadência – ela suspirou, entrando na névoa depois do riacho.
Dez passos depois, estava em uma pradaria, sem névoa alguma à vista. Onabe já estava esperando e Esmeralda e Anita materializaram-se ali logo em seguida. À frente do grupo, sobre uma mesa de pedra, havia um banquete e três mochilas.
– Ah, que gracinha. Nós quatro provavelmente sendo caçados por todas as forças do país e esse cara fazendo surgir uma coisa dessas no meio do nada – Anita suspirou. – Discreto que nem um urutau bêbado.
– Pelo menos ele mandou alguma coisa. Eu estou morrendo de fome – Esmeralda aproximou-se da mesa e cheirou uma terrina e purê de batatas com ervilhas amanteigadas. – E não parece envenenado, então dá pra comer. Perfeito.
– Por que estaria envenenado? – Anita pegou um dos pratos dourados e começou a servir-se.
– Porque nem todo mundo parece estar demonstrando gratidão suficiente – Esmeralda provocou-a.
– Carne! Carne! – o corvo voou para a mesa, exigindo que alguém o servisse.
Melissa olhou para as próprias mãos mais uma vez. Os ferimentos estavam curados, mas as cicatrizes eram visíveis e as roupas estavam bem danificadas. Aparentemente, nem todo mundo tinha a delicadeza das fadas. Ainda assim, ela gostaria de ter conhecido a mata do rei de carvalho em outra época, uma em que fosse mais impressionante.
– Melissa Gardênia, será que nós podemos conversar? – o lobo estava mais sério e melancólico do que antes.
– Claro. Vamos, eu quero sentar um pouco e aquela pedra ali está bastante convidativa – a bruxa indicou o lugar com um aceno da cabeça. Era perto o suficiente para que ela pudesse correr para Anita e Esmeralda no caso de uma emergência e longe o suficiente para que as duas não ouvissem a conversa.
Os dois se sentaram, um de frente para o outro. Melissa cruzou as pernas e esperou o lobo começar a falar. Demorou um pouco, ele parecia estar lutando contra as palavras dentro de si, mas eventualmente o silêncio foi rompido:
– Melissa Gardênia, eu não pretendo mais compartilhar do seu destino. Acompanharei você até o bosque de Sharvod, que se encontra a poucas horas de caminhada daqui, e só até lá.
– Tudo bem, Onabe. Você é um espírito livre, e o nosso acordo era só para salvar o rei do carvalho, Monique e o bosque – Melissa não estava tão surpresa com a notícia, levando em conta o comportamento recente do lobo – Mas parece que você quer falar mais alguma coisa. Tem a ver com o que a fada-oráculo te disse?
– Sim. As palavras dela têm se mostrado tão verdadeiras quanto cruéis até aqui, então me parece importante que você saiba também – o lobo respirou fundo. – A primeira coisa que ela me disse foi que Sharvod não estava exatamente morto, mas que morreria em breve, e foi justamente isso o que aconteceu.
Melissa fitou-o em choque. Não precisou da ajuda do corvo para entender. Onabe tentara salvar Sharvod. Ao falhar, tomara uma atitude impensada para salvar ao menos o bosque. Vendo que o bosque morreria, enviou um chamado de ajuda. Ele dormia todas as noites sob os galhos da Sombra de Sharvod e soltara um ganido ao ouvir da verdadeira morte do espírito do bosque. E Onabe, um espírito do caos, conhecia os salões do rei do carvalho, um espaço exclusivo dos espíritos da ordem e seus convidados.
– Você e Sharvod tinham um laço? – ela arriscou-se a perguntar.
– Abençoado pelo rei do carvalho e pelo rei do azevinho, em uma época em que o bosque nem existia ainda. Mas Sharvod tornou-se importante na corte do carvalho e aceitou ficar preso a um mesmo pedaço de terra para sempre, enquanto eu... Bem, eu era jovem e curioso demais na época para me contentar em conhecer apenas um pedaço do mundo – Onabe baixou os olhos, triste e envergonhado. – Abandonei Sharvod para ser um espírito livre, mas o visitava às vezes, e ele sempre me recebia com a mesma ternura. Eu sempre achei que não merecia uma criatura tão maravilhosa...
– Eu sinto muito.
– Não é culpa sua, criança. O meu Sharvod morreu no dia em que fiz aquele acordo terrível com a sua namorada. O Sharvod que você matou era apenas uma versão distorcida dele. E eu já sabia que isso ia acontecer. Nós, espíritos, temos tanto poder contra o destino quanto vocês, mortais, se não menos – ele balançou a cabeça. – Mas não é sobre a minha tragédia pessoal que eu preciso falar com você. É sobre o que acontece daqui para frente.
– Quando eu chegar ao bosque, Monique já será um espírito, não é? – Melissa engoliu em seco. – Quanto tempo você acha que vai levar até que ela seja material como você?
– Mais tempo do que você e as próximas três gerações têm de vida – Onabe não levantou os olhos. – Ela é um espírito jovem, feito a partir de uma humana jovem. Demorará para entender a natureza do mundo, a natureza das coisas, a natureza dos espíritos... E ela só poderá seguir em frente quando deixar o passado para trás.
– Quando ela me esquecer.
– Quando ela aprender que o passado não pode ser recuperado e que ela não deve se prender às memórias do seu tempo como mortal – o lobo corrigiu-a. – E, Melissa Gardênia, essa não será a sua última provação...
– Eu sei. Depois de ver Monique mais uma vez, eu preciso descobrir o que está por trás da nova magia caótica. Pensei nisso enquanto estava no carvalho – Melissa suspirou. – E, depois disso, eu provavelmente vou ter que fazer alguma outra coisa. Talvez a minha sina seja nunca mais encontrar paz. Talvez seja esse o preço que o destino resolveu me cobrar por roubar uma das suas tragédias.
– Pelo menos o seu tormento terá um fim um dia – o lobo respondeu com um ar sombrio. – Mas você está certa em um ponto. O melhor a ser feito, no seu caso, é acompanhar suas duas amigas na missão delas. Acho que era por isso que eu sabia que o encontro na beira do penhasco seria tão importante.
– Eu imagino que você vá ficar no bosque de Sharvod, depois de tudo o que aconteceu – Melissa disse após uma breve pausa e esperou a confirmação do lobo. – Então, por favor, proteja Monique enquanto eu não estiver lá da mesma forma que você protegeria Sharvod.
– Assim será feito. É uma promessa – Onabe abaixou a cabeça.
Os dois ficaram em silêncio, olhando para o céu e para a grama, até Melissa sugerir que fossem comer com o resto do grupo. A comida era muito bem preparada, e a coisa mais deliciosa que Melissa tinha experimentado desde que saíra de casa. Havia um pato assado com mel e gengibre e uma terrina de batatas assadas com molho de manjericão, alho e pimenta. Monique tinha cozinhado os mesmos pratos no último solstício de inverno. Na verdade, Melissa comia aquilo todos os anos, mas da última vez que comera, fora preparado por Monique.
Tinha sido o primeiro inverno da ruiva fora da casa dos pais, e ela sentira a falta deles. Então, recusando-se a ficar triste, procurando algo com o que ocupar o seu tempo, ela reunira tudo o que encontrara na geladeira e na despensa e ocupara seu tempo fazendo um banquete grande o suficiente para seis pessoas. Melissa comera até estourar por uma semana e não se cansara de comer aquela comida tão carinhosamente feita pela amada. E, é claro, com a neve caindo do lado de fora da casa e o bosque adormecido, todas as refeições eram seguidas por uma boa soneca numa manta macia e confortável perto da lareira, uma enroscada nos braços da outra. Melissa ainda podia sentir o cheiro agradável e ligeiramente floral dos cabelos de Monique.
– Melissa, você está bem? – Esmeralda fitou-a do outro lado da mesa.
A bruxa se deu conta de que estava chorando com um pedaço de pato espetado num garfo a meio caminho da boca. Pôs o garfo de volta no prato e enterrou o rosto nas mãos, soluçando. Tinha deixado aquele sentimento de lado para poder ser forte para proteger Monique, e tinha se agarrado a uma esperança impossível para se obrigar a suportar qualquer coisa. Mas agora que Monique estava a salvo, a esperança e a força tinham se dissolvido. Melissa tinha que encarar a verdade antes do reencontro se não quisesse partir o coração de Monique com suas lágrimas.
Esmeralda colocou seus talheres no prato, incapaz de continuar comendo com Melissa chorando à sua frente. Seu próprio coração se partia com aquelas lágrimas. Imaginara que a bruxa já tinha lidado com seus sentimentos em relação àquela situação, mas errara. Não a julgaria como fraca por aquilo; pelo que sabia da vida de Melissa, Monique era a única coisa boa que lhe restara, a única esperança que a mantinha viva. Parecia que, até aquele momento, Melissa tinha se recusado a aceitar a perda.
Levantou-se e contornou a mesa. Envolveu Melissa em seus braços e puxou-a gentilmente para perto de si, como tinha feito na área de recuperação. Era doloroso demais ver aquela mulher tão desamparada e não fazer nada, mesmo que algo pouco útil, para ajudar.
Onabe também não parecia interessado no banquete. Deitara-se perto da mesa e não se movera mais, de forma que Anita achou melhor fazer companhia para ele enquanto Esmeralda cuidava de Melissa. Ela sentou-se na grama e passou as mãos pela pelagem escura e surpreendentemente macia do lobo.
– Me desculpe – Melissa tentou enxugar as lágrimas, sem sucesso. – Me desculpe, Esmeralda. Eu sou tão idiota. Por que é que não consigo ser como você e a Anita e deixar esse tipo de coisa estúpida de lado? Me desculpe por chorar o tempo todo, por te incomodar tanto assim...
– Você não me incomodaria nem se tentasse – Esmeralda acariciou os cabelos dela com cuidado. – Na verdade, eu tenho quase certeza de que é o contrário.
– Não, você tãmbém não me incomoda – Melissa balançou a cabeça, ainda soluçando. – Só não desapareça, por favor.
– Eu não vou desaparecer, Melissa. Eu prometo – Esmeralda engoliu em seco. Não desapareceria, mas provavelmente se separaria de Melissa em breve. Não queria pensar naquilo ainda, porque sabia que também acabaria chorando. Quando era criança, era severamente repreendida por chorar em público, então aprendera a esconder seu choro e os sinais dele, mas conhecia bem demais o sabor salgados das suas próprias lágrimas.
– Eu sei que é egoísta da minha parte dizer isso, mas eu estou grata por ter que continuar com vocês depois que eu me despedir da Monique. Eu sei que eu aguento a solidão, mas ela é tão horrível... – Melissa fungou.
Esmeralda parou de acariciar os cabelos dela, espantada demais para mover um músculo sequer. Enviou uma pequena prece silenciosa abençoando o gênio da boa-fortuna que lhe dera os olhos verdes e que parecia continuar a favorecê-la. Melissa queria ficar com ela! Não, ela tinha dito que iria continuar com a dupla. Isso só queria dizer que a bruxa sabia que havia mais a ser feito além de salvar o rei do carvalho e que ela queria ir mais a fundo naquela coisa toda. Esmeralda não era um fator importante naquela decisão.
– Eu e a Anita vamos ficar felizes em ter você com a gente, Melissa – a alquimista forçou-se a sorrir para ocultar suas emoções conflitantes. – Imagine só o que a gente pode fazer usando a estragéia do treinamento e os seus novos poderes.
– Pois é, imagine só... – a bruxa respirou fundo, finalmente conseguindo se controlar, e deixou escapar uma risadinha. – Ah, me desculpe por isso, de verdade. Não vai acontecer de novo.
– Tudo bem – Esmeralda voltou para sua cadeira.
– Seria muito cansativo se a gente fosse para o bosque assim que terminar de comer?
– Não tem nenhum problema para mim. Mas, se eu fosse você, eu comeria essas ervilhas com manteiga antes que ficassem frias – a alquimista respondeu com a boca cheia de purê, fazendo Melissa rir.
Aquele riso. Quando Melissa ria, o ar se enchia e Esmeralda se sentia mais leve, exatamente como quando Erina ria. Mas Erina, o primeiro grande amor da sua vida, tinha se casado com um cara qualquer em uma cidade sem importância. E Melissa estava perdidamente apaixonada por um espírito. A alquimista parecia ter que se contentar com sua sorte material.
Depois de empurrar a refeição para dentro, simplesmente porque não sabia quando teria a oportunidade de comer aquele tipo de comida novamente, Melissa foi checar as mochilas. Havia uma para cada uma, e todas continhas as mesmas coisas: um pequeno kit de higiene pessoal, uma toalha média, uma troca de roupas, um casaco de lã, dois pacotes de bolacha salgada, três barrinhas de ceral doces, um cantil cheio de água, um pequeno kit de primeiros socorros, uma caneca de metal, um rolo de barbante e uma faca. Provavelmente fora um duende ou um gnomo que organizara aquilo.
A mochila era um pouco pesada, mas com certeza faria com que a viagem fosse mais confortável em termos de suprimentos, e Esmeralda não teria mais que improvisar curativos com folhas por um bom tempo. Depois de distribuir as mochilas entre suas companheiras e decidir que era hora de partir, Melissa ficou suspresa ao ver a mesa, os bancos e os restos da refeição desaparecerem. Anita corou ao notar aquilo. O rei do carvalho merecia mais mérito do que o grupo lhe dera de início.
A caminhada de poucas horas pareceu durar poucos minutos para Melissa. Sua mente era um turbilhão tão confuso e incompreensível que ela nem notara os passos, embora tivesse uma vaga lembrança de cruzar a campo de mato. Parou na borda do bosque, lembrando-se do aperto no coração ao vê-lo naquele estado lastimável pela primeira vez. Agora doía mais ainda.
– É inverno, as coisas só vão florescer na primavera – Anita tentou animá-la. Melissa simplesmente acenou com a cabeça.
– Acho melhor eu entrar sozinha, se vocês não se importarem – a bruxa disse depois de algum tempo encarando o bosque.
Ninguém ousou se opor. Melissa deixou sua mochila no chão e avançou na direção das árvores secas. O laguinho, a velha árvore frondosa, os arbustos. Tudo continuava ali, exatamente como da última vez. Pensou em ir para casa, mas lembrou-se que Monique não estaria lá. Como o novo espírito do bosque, ela provavelmente estava perto da antiga árvore de Sharvod.
Apesar do frio, Melissa tirou suas botas. Estava entrando num lugar sagrado pela primeira vez, e para ela era duplamente sagrado, pois era a clareira do espírito do bosque que ela amava. Sentiu uma pontada no coração ao imaginar a dor de Onabe. Respirou fundo, tentando afastar sentimentos e pensamentos negativos. Queria chegar a Monique com a melhor energia possível.
Deixou suas botas atrás de um arbusto seco e entrou na clareira. A Sombra de Sharvod desaparecera e a antiga árvore do espírito parecia ter terminado de se quebrar em incontáveis pedaços, a julgar pelos fragmentos de madeira que cobriam todo o chão da clareira. Na cratera onde antes se enterravam as raízes de Sharvod, uma coisinha tímida e ainda toda verde, com apenas três folhas, destoava do resto do bosque. Melissa ajoelhou-se ao lado dela e tocou-a com delicadeza, dividida entre a alegria de saber que aquela plantinha era a prova de que Monique estava viva e o pesar de saber que levaria séculos para que ela se tornasse como Sharvod.
– Mel? – um sussurro tão suave quanto uma brisa chamou a sua atenção.
Melissa virou-se e viu a mulher atrás de si. Seus olhos, antes castanhos, então vermelhos, tinham se tornado dourados. A pele clara estava coberta por tatuagens verdes que lembravam o formato de samambaias. A túnica verde e dourada que ela vestia parecia fina e leve demais para o tempo frio, mas era graciosa o suficiente para um espírito da natureza.
– Nique? – a bruxa levantou-se e aproximou-se da aparição.
A ruiva balançou a cabeça, observando Melissa em silêncio. As duas se encararam, sem fazer menção de tentar fazer qualquer tipo de contato físico, por um tempo que nenhuma delas saberia definir. Melissa queria dizer um milhão de coisas; queria colocar para a fora todo o seu sofrimento desde que se separara de Monique, e todos os momentos felizes que tivera ao lado dela; queria segurá-la em seus braços, pegá-la no colo e levá-la para casa; queria dormir e acordar ao seu lado, levar café-da-manhã na cama para ela, e viver o resto dos seus dias numa vida pacata e feliz ao lado da pessoa que amava. Mas não havia mais casa, pessoa ou vida pacata. Não fazia sentido falar de tudo aquilo.
– Você conseguiu. Você me salvou. Obrigada – Monique finalmente decidiu fazer um movimento na direção de Melissa, erguendo a mão para tocar o seu rosto num gesto carinhoso.
– Eu jamais vou permitir que alguma coisa te faça mal de novo, Nique – Melissa sentiu um leve frescor roçar sua bochecha no momento em que as pontas dos dedos do espírito do bosque tocaram o seu rosto. Ergueu sua própria mão para tentar segurar a da ruiva, mas seus dedos atravessaram os dela e encontraram apenas ar.
– Acho que agora não importa mais, não é? Agora eu sou parte do seu passado, assim como você é do meu – Monique sorriu para tentar esconder a amargura por trás das suas palavras. – Meu futuro é somente o bosque, e o seu é a vida.
– Eu vou voltar para você, Nique. Eu ainda tenho que fazer algumas coisas, mas eu vou voltar. E Onabe te protegerá enquanto eu não estiver aqui – Melissa ajeitou sua mão no ar de forma a parecer que estava segurando a mão de Monique.
– Você tem que seguir em frente com a sua vida.
– Que tipo de vida eu posso ter longe da pessoa que eu amo? Não, Nique, eu vou voltar. Eu vou passar o resto dos meus dias te ajudando a reviver este bosque, eu vou ficar aqui com você. Eu prometo. Só preciso resolver...
– Não – Monique virou-se para esconder seu rosto de Melissa. – Se você ficar aqui, vai desperdiçar a sua vida, o que será um desperdício do meu próprio sacrifício. Eu quero que você saia daqui e viva uma vida feliz fora deste bosque.
– Eu não vou abandonar você, Nique! Quantas vezes eu tenho que dizer isso? – Melissa tentou tocar o ombro do espírito. – Eu te amo, Monique Gardênia!
Monique estremeceu ao ouvir seu nome com o sobrenome de Melissa. Quando era humana, quisera tanto aquilo. Passara dias e noites sonhando com aquele sobrenome. Melissa também sentia o mesmo, ela sabia, mas era tarde demais.
– Eu também te amo, Mel. Eu te amo mais do que qualquer coisa no mundo, e isso é terrível! Mas é por te amar tanto quanto eu te amo que eu preciso que você saia daqui e procure a sua felicidade em algum lugar onde você possa encontrá-la!
– Você acha mesmo que eu seria capaz de simplesmente virar as costas e enterrar você no meu passado, Nique? Você é o sol da minhas manhãs, a lua das minhas noites, a...
– Não – Monique aproximou-se de Melissa. Seus lábios tentaram tocar os dela por um momento, mas não houve mais do que uma vaga sensação de frescor no local. Com lágrimas cintilantes nos olhos, o espírito da floresta se afastou. – Eu sou o espírito deste bosque. Você é uma humana, uma mortal. E é para garantir que você possa procurar a sua felicidade ao invés de se enterrar numa mata de agonia que eu preciso fazer isso. Me desculpe, Mel, mas eu pensei muito sobre o assunto, e essa parece ser a melhor solução.
– O que você vai fazer, Nique? – Melissa sentiu-se como se tivesse levado um choque ao perceber o que estava prestes a acontecer. – Nique, não! Não faça isso, por favor! Eu preciso de você para viver, para ser feliz. Não faça isso comigo, Nique...
– Melissa Gardênia – Monique recitou numa voz trêmula. – A partir deste momento, e para toda a eternidade, você está banida deste bosque sagrado.
– Não! Nique! – Melissa berrou, tentanto agarrar Monique, que simplesmente se transformou numa névoa fina e desapareceu no ar. – Monique!
As árvores pareciam ligeiramente mais próximas. Elas sabiam que a bruxa não era mais bem-vinda. Estalos ameaçadores convenceram Melissa a calçar suas botas e se afastar dali. Assim que pôs os pés para fora da clareira, sentiu-se num labirinto, como se as árvores a estivessem guiando para fora do bosque e quisessem ter certeza de que ela não tentaria permanecer ali. Era realmente impossível tentar seguir por qualquer caminho que não fosse a rota mais curta até a saída.
Assim que saiu do bosque, desabou na grama. Ficou sentada ali por quase uma hora, ignorando completamente qualquer ação ou fala de Anita e Melissa. Onabe compreendeu a situação e entrou no bosque sem fazer perguntas ou dizer adeus – já tinha se despedido, de uma certa forma, na pradaria. O corvo aninhou-se sobre a mochila de Melissa e resolveu tirar um cochilo apesar da agitação ao seu redor.
– Agora eu realmente tenho que ir com vocês até o fim – Melissa finalmente conseguiu murmurar, sem emoção alguma.
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