Bruxaria.exe

1 Capítulo 1 - Chamas em Sharvod


Notas iniciais
Uma pequena aliteração para dar sorte no início da história.
Boa leitura!

O cheiro de chuva recém-caída enchia o ar morno de verão no bosque de Sharvod. Em uma clareira, uma casa de madeira erguia-se com seu telhado que parecia um cogumelo e um jardim de plantas com propriedades mágicas. Arruda, lavanda, manjericão, louro, rosas e uma infinidade de outros ingredientes úteis. Uma bruxa andava entre elas, murmurando algo para as folhagens aqui e ali, passando as pontas dos dedos pela terra, garantindo que tudo se mantivesse tão viçoso quanto possível até a época mais propícia para a colheita.

Dentro da casa, no fogão da cozinha, uma chaleira de chá preto aguardava. Na sala de magia, um caldeirão borbulhava sobre o fogo de uma lareira, exalando um aroma suave de anis-estrela e cravo – um pedido de uma senhora bastante agradável da cidadezinha próxima dali. Na sala pequena sala de estar, uma estante abarrotada de livros tinha espaço para uma figura esculpida em madeira de Sharvod, o espírito protetor do bosque, conhecido no folclore local como a grande árvore que protegia a região de forças malignas. Todos os anos, no meio do verão, os moradores das cidades e vilarejos próximos iam ao centro do bosque e deixavam flores e bolinhos de milho para a árvore de Sharvod e as bruxas do bosque.

A bruxa suspirou e voltou para dentro de casa. Ainda se lembrava da primeira vez que sua família a tinha deixado participar da comemoração de um festival de Sharvod. Tinha passado um mês fazendo bonecos de milho e guirlandas de flores e folhas para distribuir aos visitantes – havia um feitiço para manter as guirlandas frescas até o dia certo. Ela, suas duas tias, seu tio e sua avó tinham cantado com os visitantes, distribuído presentes, bênçãos e pequenos feitiços de sorte e prosperidade, e tinham dançado em volta da fogueira mágica até ficarem ofegantes demais para continuar. Na época, seus pais ainda estavam vivos e traballhando para a companhia de energia elétrica. Bem, suas tias, sua avó e seu tio também estavam vivos naquela época, é claro.

Um dia – uma ou duas luas depois da celebração da última colheita do outono daquele ano – uma carta chegara. Havia acontecido um acidente grave em uma das usinas de refino de magia. Mais de cem mortos, entre civis, oficiais e trabalhadores. Dos membros da comunidade mágica, no grande encontro de inverno, ouvira outras coisas – fora um massacre, não um acidente. Alguns anos depois, o bosque de Sharvod fora invadido por criaturas malignas e coubera à família de bruxas do bosque eliminá-las. A avó a proibira de participar do combate – a pequena bruxa acabara de completar quinze anos naquele inverno, ainda era inexperiente demais.

Na manhã seguinte, a pequena bruxa preparara três funerais dignos dos servos do bosque. Sua avó, a única sobrevivente do quarteto que defendera o território de Sharvod, ficara doente com a intoxicação por criaturas malignas e caíra de cama. Dois dias depois, soldados tinham aparecido no bosque para levar a matriarca da casa das bruxas. Uso de magia de combate sem autorização. Pena de morte. Execução em uma fogueira, em praça pública. A jovem bruxa nem sequer tivera a oportunidade de tentar defender sua avó; os soldados tinham equipamentos contra magia e treinamento, ela tinha seus feitiços e encantos de flores e ervas.

A jovem bruxa se tornara a única responsável pelo bosque depois daquilo. Já tinha completado dois ciclos e meio de estações sem sua família desde aquela sequência de acontecimentos. Pelo que sabia dos encontros invernais, não era a única com uma história assim. A situação era brutal tanto para as famílias mágicas quanto para os solitários.

— Como estão as coisas no jardim? – uma voz suave e melodiosa encheu seus ouvidos quando a bruxa entrou em casa.

— Está tudo tão bem quanto deveria estar nesta época do ano. Você deveria ir ver também – a bruxa limpou a terra das mãos na calça de algodão verde e bateu os pés descalsos no tapete de lã crua. – Se vai ser uma bruxa do bosque, tem que entender como funciona a vida do bosque. Ah, e eu achei essas penas, vão ser úteis para fazer flitros de sonhos mais tarde.

Monique sorriu, colocando uma mecha da massa de cachos ruivos atrás da orelha. Seus olhos castanho-claros se demoraram nas penas brancas malhadas de castanho, quase combinando com sua pele sardenta.

— Nós estamos quase na idade de sermos recrutadas, mas eu fico feliz em saber que ainda dá tempo de eu me tornar uma bruxa de verdade antes disso. Eu também vou ganhar o sobrenome Gardênia?

— Só se você quiser, Nique. Você pode continuar sendo Monique Rhoventini, se preferir – a bruxa mordeu o lábio inferior. – Só de ser bruxa, iniciada no bosque de Sharvod, você já se torna parte da minha família. Não é um acordo legal, como um casamento ou uma adoção, mas é uma decisão sagrada, para o resto da vida.

— Eu ficaria feliz em ter o sobrenome da única família que me aceita. E de assumir esse compromisso sagrado com você – Monique desviou o olhar. – O que você acha, Mel?

A bruxa sorriu. Conhecia Monique desde criança, e, sendo a bruxa que era, sempre soubera que a ruiva tinha o dom da magia em si. Costumava vê-la com frequência, pois Monique morava a cerca de duas horas de caminhada da casa de Melissa, a jovem bruxa. Sempre lhe dera conselhos sobre como controlar e ocultar seu dom – ela mesma era muito boa nisso, conseguira frequentar os cinco anos de escola obrigatória sem que seus colegas soubessem quem Melissa realmente era. Os pais de Monique não toleravam bruxaria; quando acidentalmente descobriram-na treinando seus poderes em seu quarto, expulsaram-na de casa e entregaram seu nome às autoridades. Melissa a acolhera sem titubear. Naquele verão Monique completaria um ano no bosque de Sharvod e se tornaria uma bruxa do bosque, como Melissa, e seu lar seria aquele até o fim dos seus dias.

— Olha só o que eu fiz! – Monique fez um gesto amplo na direção da mesa da sala. Uma pilha de guirlandas de flores amontoava-se dentro de um círculo feito com giz cor-de-rosa.

— Você é rápida – Melissa pegou uma das guirlandas e girou-a em seus dedos. – Minha avó ficaria orgulhosa de você, se pudesse ver isso. Minhas tias provavelmente ficariam de boca aberta também – ela parou e farejou o ar. – Isso é cheiro de pão de milho?

— Eu fiquei com vontade depois de fazer tantas bonecas, e achei apropriado para a ocasião – Monique colocou agilmente as últimas flores na guirlanda que estava fazendo e levantou-se. — Você gosta, né?

— Eu adoro pão de milho – Melissa sorriu e devolveu a guirlanda que tirara da pilha. – Era por isso que você não queria que eu entrasse na cozinha hoje cedo? Eu achei que era por causa da catástrofe da manteiga de erva doce.

— Todo mundo erra um pouquinho de vez em quanto – Monique riu e puxou Melissa para uma rede no canto da sala. Desde que elas eram crianças, nas raras ocasiões em que a ruiva conseguia escapulir para visitar o bosque, aquela rede era o lugar favorito de ambas.

Monique fitou os olhos azuis de Melissa e brincou com seus cabelos castanhos e lisos demais para parar em uma trança por muito tempo. Não precisavam de palavras para se comunicar naquele momento, já se conheciam bem o suficiente para saber o que a outra estava pensando. Assim que o verão terminasse, alguém do exército viria buscá-las para levá-las a um campo de treinamento, onde receberiam suas funções e instruções do que fazer nos próximos dez anos. Era possível que fossem separadas e não se vissem por uma década. Era provável que apenas uma delas, ou nenhuma, sobrevivesse tanto tempo. No início do outono do ano em que elas completariam dezoito anos, aquela vida idílica no bosque terminaria. Melissa achava irônico que o exército levasse os possuidores do dom da magia na mesma época de uma das festividades de colheita do ano.

— Se a gente conseguir voltar, eu quero continuar vivendo aqui, exatamente assim, pro resto da minha vida – Monique entrelaçou seus dedos aos de Melissa.

— Dez anos é muito tempo, você pode mudar de ideia. Mas eu ficaria feliz em ter você aqui comigo, caso eu consiga voltar para casa. A solidão não é tão boa quanto algumas pessoas acham.

— E tem gente que acha que a solidão é uma coisa boa?

— Dizem que sim. Eu nunca encontrei alguém que achasse isso de verdade – Melissa deu um sorriso divertido. – Talvez porque esse tipo de gente ame tanto a solidão que tenha dominado a arte de evitar pessoas.

Monique riu e fechou os olhos, encostando a cabeça no ombro de Melissa. Uma declaração de amor silenciosa pairou no ar. Aquela era a outra coisa que a família da ruiva não aceitara, e o motivo original de a família Rhoventini ter proibido as visitas de Melissa – e a outra coisa tão natural que fazia as vidas das duas moças tão plenas.

— Você acha que as outras bruxas aceitariam o nosso casamento, se a gente se casasse um dia? – Monique puxou Melissa mais para perto.

— É uma questão meio polêmica, mesmo no meio mágico, mas é irrelevante. O amor em si já é a bênção necessária para que um casamento seja legítimo – Melissa farejou o ar. – Acho melhor tirar seu pão do forno, senão ele vai queimar.

A ruiva levantou-se de um salto e correu para a cozinha. Melissa se expreguiçou antes de se levantar e ir para a sala de magia. Respirou fundo e limpou sua mente antes de entrar, aquele era um ambiente sagrado. Mexeu a mistura que borbulhava no caldeirão e acrescentou duas pitadas de canela em pó e um quartzo rosa. Levaria ainda doze horas para aquilo ficar pronto, então colocou mais lenha no fogo. Um feitiço para fortalecer o amor. Não entendia por que as pessoas pediam coisas como aquela. Sorte, prosperidade, saúde, vá lá, mas amor? Melissa achava que o amor era poderoso demais para ser controlado por magia; felizmente, a maioria das pessoas se contentava com um feitiço como aquele, focado majoritariamente na parte física do amor.

— MEL! – o grito de Monique cortou o ar e foi acompanhado pelo barulho de algo metálico caindo no chão, provavelmente a forma do pão.

Melissa chegou à cozinha em dois saltos, bem a tempo de ver um galho entrando pela janela da cozinha e começando a enroscar seus ramos na parede, como hera, e exalando um odor marcante. Parecia cheiro de magia, mas era pungente, nauseante – muito parecido com o cheiro que sentira quando as criaturas malignas tinham invadido o bosque de Sharvod.

— Nique, você precisa sair daqui. Agora! – Melissa interpôs-se entre Monique e a janela. – Vá para a árvore de Sharvod ou para qualquer lugar habitado mais próximo!

— E você vai fazer o quê? E o que é essa coisa? – Monique olhou aterrorizada para a crescente área verdejante na parede. – Eu tenho uma sensação muito ruim sobre isso, Mel...

— Nique, confia em mim – Melissa olhou para ela por cima do ombro. – Eu quero descobrir o que é isso e vou te seguir assim que eu conseguir descobrir.

— Eu não vou sair daqui sem você, Melissa! – a ruiva segurou o braço da bruxa e fez menção de puxá-la, mas parou ao ouvir o som de vidro quebrado vindo da sala. – O que é que está acontecendo?

— Fique perto de mim – Melissa rumou de volta para a sala de magia, sem se preocupar com a cerimônia; com o atual clima de terror na casa, aquele feitiço do amor já estava estragado. Pediu para Monique apagar o fogo da lareira com areia e pegou duas adagas cerimoniais, dando uma à sua companheira. – Vamos tentar sair daqui. Não importa o que aconteça, não use a sua magia. Se for necessário, eu uso e você corre, está bem?

— Isso não é justo, Mel. Você sabe que eu não...

— Shh! Nós precisamos sair daqui agora.

As duas rumaram para a sala, o único cômodo com uma porta para o exterior. As janelas estavam tomadas pela hera estranha. Melissa puxou Monique pela mão e correu para a porta, que estava emperrada; a madeira parecia ter inchado. Melissa apoiou o pé na moldura da porta e puxou a maçaneta com força, repetidamente, até conseguir uma abertura grande o suficiente para que pudesse passar. Sentiu o sangue gelar em suas veias ao olhar para o lado de fora da sua casa. O jardim, perfeitamente viçoso até minutos antes, estava completamente seco e morto. As árvore ao redor da casa tinham folhas amareladas que ameaçavam cair à primeira brisa. A terra escura e fértil se tornara clara e quebradiça. A hera maldita que estava quebrando as janelas parecia estar crescendo ao redor da casa toda e, ao que tudo indicava, suas raízes estavam tão próximas à construção de madeira quanto possível.

— Mel... – Monique murmurou num tom choroso, puxando de leve a blusa de Melissa e apontando para o limite da clareira.

— Calma, é só um... – a bruxa não completou a frase. Aquilo no limite da clareira era um enorme lobo negro. Mas não havia lobos naquele bosque. A coisa rosnou e o chão pareceu tremer. Um cheiro de carniça exalava daquilo. – Corre!

Melissa agarrou o pulso de Monique e puxou-a enquanto corria para fora da clareira. Precisava encontrar Sharvod. O guardião do bosque protegia suas bruxas, ou assim sua avó havia dito, assim como suas bruxas o protegiam. Talvez as chances de sobrevivência fossem maiores perto da velha árvore. No pior dos casos, o caminho para a cidade mais próxima passava perto da árvore de Sharvod, e a rota de fuga ainda estaria disponível.

Guiou a companheira através das árvores, que pareciam mais próximas do que de costume. Primeiro achou que fosse apenas impressão sua, então viu um galho se mover para entrar em seu caminho. Algo arranhou seus braços e ela continuou correndo, tropeçando ocasionalmente nas raízes que se punham em seu caminho. Sentiu as pernas arderem e o peito doer com aquela corrida, mas forçou-se a continuar.

Escorregou nas folhas secas fora de época que cobriam o chão e caiu ao chegar ao lugar onde se encontrava a árvore de Sharvod. Soltou a mão de Monique para se apoiar no chão e se levantar, sacudindo a cabeça para se livrar das folhas que grudaram em seu rosto. Seus ombros caíram e seus olhos se arregalaram com o horror da visão à sua frente.

Sharvod estava morto.

A árvore milenar estava totalmente despida de suas folhas e do musgo. Os galhos estalavam de tão secos. O tronco, agora oco, estava rachado de cima a baixo, e enormes lascas ainda caíam. O que quer que tivesse atacado o bosque no passado, voltara muito mais bem preparado.

— Mel, ele está aqui – Monique pôs a mão em seu ombro, trêmula.

Melissa desviou o olhar da árvore, piscando rápido para se livrar das lágrimas que se acumulavam em seus olhos. As outras árvores, as que tinham arranhado as duas bruxas, agora abriam caminho para o lobo. A bruxa mais experiente levantou-se e segurou sua adaga com as duas mãos, concentrando-se na energia do objeto. Se o lobo atacasse, Melissa teria que matá-lo antes que Monique pudesse intervir, ou ambas correriam o risco de ir parar na fogueira por usar magia de combate.

— O que você quer aqui? Foi você quem causou tudo isso? – ela falou num tom tão grave que sua voz quase se confundiu ao rosnado da criatura.

— Sharvod – o lobo respondeu num tom rouco.

— Ele está morto! – Melissa grunhiu. – Será que você não está vendo?

As árvores aproximaram-se mais um pouco da dupla, deixando sulcos no chão onde suas saízes estiveram fixas por tanto tempo. Melissa recuou um passo, mantendo-se entre o lobo e Monique o tempo todo. O cadáver de Sharvod despedaçava-se lentamente atrás delas.

— Sharvod – o lobo repetiu, e um som alto, como uma trovoada, saiu de dentro do tronco oco e rachado.

Assustada, Melissa virou-se para ver o que acontecera. Deparou-se com o que parecia ser uma cópia de Sharvod nascendo e crescendo, tomando o lugar da antiga árvore, destruindo-a em seu crescimento inacreditável. A diferença era a cor da madeira. Sharvod era de madeira clara. Aquela árvore era tão escura quanto ébano. Levou menos de um minuto para a nova planta tomar o lugar da antiga. E aquela árvore não produziu uma folha, uma flor ou um fruto sequer. Os galhos escuros se agitaram freneticamente, como que movidos por um vendaval que ninguém mais podia sentir, e árvores menores voltaram a avançar, mais rápido do que antes.

As duas tentaram encontrar uma saída daquele círculo cada vez mais apertado de árvores, sem sucesso. Não havia mais espaço suficiente para que elas passassem entre os troncos. Era como se as árvores já soubessem que o primeiro instinto de uma bruxa do bosque seria procurar o espírito guardião e tivessem armado uma armadilha. Um galho enroscou-se na mão de Melissa, torcendo-a e derrubando a adaga. Monique foi pega por outra árvore.

— Mel! Mel, socorro! – a ruiva esganiçou, estendendo a mão para sua amada companheira.

— Nique! – Melissa tentou alcançá-la, mas as árvores as puxavam em direções opostas.

Mais e mais galhos envolviam-nas, imobilizando seus braços e pernas. Melissa sentiu a madeira enrolar-se em seu pescoço, apertando cada vez mais. Tentou gritar o nome de Monique, ou pedir socorro, mas não conseguiu produzir mais do que um ruído rouco quase inaudível. Sua visão começou a ficar turva, seus membros perderam a força para lutar, seus pensamentos ficaram confusos e se aquietaram.

Então houve fogo.

Notas finais
Obrigada pela leitura!
Críticas são bem-vindas.