Notas iniciais
Minhas lindas, mil perdões por estar a mais de um mês sem atualizar. Eu tenho andado bem decepcionada com o desaparecimento das leitoras e, por isso, perdi todo o estímulo para seguir. Ainda assim, duas fofas vieram me perguntar sobre a história e decidi nos dar essa nova oportunidade. Estou atualizando e dependendo do que acontecer seguirei na quinta feira. Um beijo a todas e as amo.

– Hey, o que está fazendo parada aqui? — Perguntei aproximando-me. A brisa dava um ar suavemente frio que fez meus braços se arrepiarem e, por isso, decidi esquentar as mãos nos bolsos da calça enquanto caminhava em sua direção — Onde está sua amiga?
– Ela teve que ir embora antes, parece que aconteceu um imprevisto.
– E vai ficar aqui sozinha? — A vi erguer uma sobrancelha sem entender bem o que eu estava querendo dizer, então fiz questão de me redimir — Perdão, é que tenho um instinto um pouco protetor e sei que não é muito seguro uma garota ficar sozinha na rua ainda mais em um bairro deserto como esse.
– Eu não sou uma garota — Rebateu séria — Sou adulta.
– Tudo bem, eu não estou questionando sua idade e sim o perigo, nunca se sabe quem pode te atacar
– Você fala como se eu estivesse cara a cara com um criminoso.
E de fato ela estava, mas em meu intimo tive que manter a verdade antes que colocasse em risco minha segurança e a de Andrey. Tomando um outro rumo, desconversei:
– Quer que te chame um taxi?
– Não. Olha, você não tem uma aula para dar agora?
– Tenho sim, mas vou te fazer companhia até que seu ônibus chegue.
– Como sabe que estou esperando um?
– Hm, aqui é o ponto, certo? — Brinquei apontando para a placa atrás de nós dois
– Tem razão — Assumiu desconfortável
– Gostou da aula?
– Gostei sim, mas acho que terei algumas dores amanhã.
– Nada que não possa suportar. Daqui alguns meses vai estar mais preparada e em breve sei que vai estar competindo em um ringue.
– Eu? Competindo? Ah não, acho que não nasci para isso. E, por favor, não diga que percebeu ou vai desencadear uma crise de depressão.
– Como assim perceber? Acha que eu ia dizer o que? — Eu ri imaginando que tipo de pensamentos se passavam em sua mente
– Você sabe... Meu desempenho mais do que ruim.
– Está se referindo a se sair razoável na sua primeira aula? Isso é normal, Barbie Girl.
– Porque insiste em me comparar com uma Barbie? — Seu tom de voz mudara, devidamente irritada com o apelido.
– Cabelos loiros, bandagem cor de rosa. Preciso dizer algo mais?
– Pois saiba que eu não sou — Sofia bateu o pé de maneira rabugenta
– Quer saber, aposto que seu medo de lutar é ficar deformada — Frisei a última palavra como se estivesse contando sobre uma história de terror. Eu não sabia qual o motivo, mas estava adorando pressioná-la e testar até onde seria levada a pseudo antipatia que estava sustentando comigo.
– Só porque sou mulher tenho mesmo que ser uma menininha? Isso é tão machista da sua parte.
Ela revirou os olhos e eu tive que morder minha própria boca para evitar rir de seu comportamento. Mais centrado, conclui:
– Você me parecer ser gentil e forte. Isso lhe parece tão ruim assim?
– Gentil?
– É, do tipo doce. Sei que é primeira impressão, mas dizem que essa é a mais marcante.
– Imagino o que a sua esposa pensa de você dando em cima das suas alunas assim.
– O que? Eu não estou dando em cima de você — Retruquei chocado com a suposição.

Sofia corou, tão envergonhada que suas bochechas pareciam um degradê entre rosa e vermelho. Ela colocou uma mecha loira atrás da orelha e, rapidamente, cruzou os braços fingindo desdém.
– Conta outra!
– A respeito de estar dando em cima de ti? Eu não estou.
– Não, a respeito de não ser casado. Eu vi a marca de sol no seu dedo e ai indica que tinha uma aliança.
– Disse bem: tinha.
– E por que não tem mais?
– Sou viúvo, se isso te importa tanto.
"Que diabos isso teria de relevância, afinal?", me questionava. Mais do que o passado que tento omitir, tocar no nome de Celine e em tudo que lhe ocorrera causava um efeito devastador. Era como se sua presença estivesse ali questionando o porquê não pude fazer algo mais para ajudá-la.
– Não me importa, só estou avaliando seu caráter.
– Meu caráter vai muito além de uma aliança. O casamento é uma instituição importante para mim.
Parecendo perceber o que havia iniciado, Sofia se redimiu:
– Desculpa, eu realmente não tive a intenção.
– Tudo bem, deixa para lá.
– Como ela faleceu?
– Acho melhor deixarmos essa conversa para outro dia. Até porque a senhorita ainda tem que ir para casa e sentir umas dores musculares para lembrar o quanto sou um professor cruel
Manter-me encarcerado em meu próprio sofrimento não traria Celine de volta e muito menos facilitaria as coisas. Eu estava em uma nova cidade, precisando de novos amigos e todos eles seriam bem vindos. Por isso, assumir uma postura mais leve com Sofia pareceu adequado.
– Está certo. De qualquer maneira, saiba que eu sinto muito. Sinto mesmo.
– Obrigado, isso é reconfortante.
– Ah, aliás, desculpe também por achar que estava dando em cima de mim. É que você é todo bonitão, malhado e cercado de mulheres. Alguns homens se aproveitam desse tipo de coisa, sabe?
– Então quer dizer que acha mesmo isso de mim? — Resolvi provocá-la para aumentar o nível de sua aflição.
– Ai Jay, você pode ser menos irritante ao menos por alguns segundos? — Explodiu e isso eclodiu uma enorme gargalhada que não pude conter.
– Desculpe, Barbie, é apenas brincadeira.
– Eu não sou uma barbie.
– Claro, tem toda razão do mundo. Olha, tem um ônibus vindo. Não é o seu?
– Merda, eu não enxergo bem — Ela dissera apertando os olhos para contornar a miopia. O transporte se aproximava ao passo em que Sofia tentava a todo custo ler as informações.
– Quer que eu veja?
– Não, espera — Murmurou e logo mordeu os lábios prendendo a atenção — É o meu, é o meu! — Gritou dando tapinhas em meus braços — Faz sinal antes que eu perca.
Estendi o braço realizando seu pedido e o motorista diminuiu a velocidade parando aos poucos. Sofia correu até a porta do coletivo esperando que se abrisse e ameaçou subir.
– Espera! Vai estar aqui na próxima aula?
– Quem sabe — Respondeu misteriosamente seguida de uma piscadela.

Antes que eu pudesse respondê-la, o veículo arrancou interrompendo nossa despedida. De dentro do ônibus, a vi acenar com alegria para mim. Seu sorriso parecia brindar o belo rosto que sustentava e a felicidade que carregava — mesmo intercalada com momentos de mau humor e rebeldia — foi capaz de me dar energia para seguir o resto do dia. Eu estava determinado a vê-la de novo, nem que fosse apenas para implicar com seu jeito, mas sei que precisava.