Notas iniciais
Sofia começando a se abalar com as atitudes do James. E ai, será que ele faz sem perceber o quanto a afeta? Opinem, amo saber o que pensam. Ah, se tiverem alguma reclamação, digam! Por favor.

SOFIA

– Fico tão aliviada que não tenha se chateado por eu ter te deixado sozinha. Fiquei desesperada quando meu pai me ligou contando que Bentley estava passando mal — Vivian dizia enquanto caminhávamos pela rua em direção a aula
– Mas você o levou ao veterinário pelo menos?
– Levei. Ele come aquelas porcarias no jardim e depois sai vomitando a casa toda.
– Coitadinho. Mas eu não fiquei chateada mesmo, prometo. — Dei minha palavra de honra
– Jura? Fiquei tão preocupada de te deixar sozinha.
– Relaxa, eu não fiquei.
– Não? Como não? Quem te fez companhia? — Indagou rondando-me em busca de respostas
– Não foi nada demais, só não fiquei sozinha.
– Desembuche, dona Sofia, desembuche — Insistiu cutucando minha barriga levemente, o que me fez cócegas.
– Para, Vi — Pedi em meio a risos conforme entravamos na academia.
– Boa tarde, meninas.

Escorado na parede com fones de ouvido pendurados nas orelhas, Jay mantinha os braços cruzados tornando seus bíceps mais evidentes sob a camisa meia manga. Um dos pés estava apoiado com o solado na pintura impecavelmente branca enquanto o outro permanecia no chão. Isso me fez rir por dentro pensando que minha mãe o mataria se visse uma cena como aquela.
– Ah, oi Jay — Sussurrei um pouco tímida escondendo-me da presença marcante de seus olhos sobre mim. Vivian ergueu a sobrancelha para mim em um olhar que dizia: "entendi exatamente quem te fez companhia e você terá que me contar todos os detalhes" e eu me senti em casa por saber que nos conhecíamos tão bem.
– Oi, profe! — Ela zombou batendo de leve em seu ombro esquerdo — Cadê o Carlos?
– Eu vou dar a aula sozinho hoje, ele ligou para cá avisando que teve uns problemas pessoais.
– Que pena... — A ouvi resmungar seguida por um suspiro pesado.
– Vocês chegaram cedo.
– A Sofia insistiu, sabe-se Deus o por quê.
Senti minhas bochechas corarem, achei que meu argumento horas atrás tinha sido discreto o suficiente para que ela não considerasse que eu tinha uma razão fútil para chegar antes de todo mundo.
– É mesmo? O que houve, Barbie?
Jay finalmente desencostou da parede e veio em minha direção. Seu forte perfume masculino parecia inebriar-me envolvendo toda a atmosfera de uma maneira surreal.
– Nada, só queria espairecer — Desconversei — Dia estressante, sabe.
– Entendo, mas nada que socar algumas pessoas não resolva — Brincou — Vamos esperar pelas outras garotas e começamos, tudo bem?

Sentei-me em um colchonete azulado sobre o chão e, calmamente, dei inicio ao processo de enfaixar minhas mãos com a bandagem cor de rosa. James preparava alguns instrumentos de seu trabalho, mas volta e meia nossos olhares
encontravam-se e um sorriso era oferecido em minha direção.
– Ele está te encarando e você também está — Vivian falou bem baixinho enquanto olhava para suas mãos, disfarçando o assunto principal.
– Não estou não.
– Mentirosa — Acusou ainda tentando extrair respostas — Me conta o que houve?
– Tudo bem, vou dizer. Jay ficou me fazendo companhia enquanto esperava o ônibus e conversamos um pouco.
– E ai? — Arregalou os olhos esperando por mais detalhes
– Não tem "e ai". — Murmurei em um tom quase inaudível por medo que Jay pudesse nos ouvir
– Tem sim, você quis até chegar mais cedo.
– Está bem. — Exitei antes de abrir um pouco do conteúdo — Ele me contou que é viúvo e pareceu bem agradável, se preocupou em não deixar-me sozinha e, em alguns momentos, agia até como se estivesse testando meus limites.
– Como assim?
– Parecia querer me provocar, sabe? Me chamando de Barbie e ao mesmo tempo sendo doce. Se alguém poderia dar um nó na minha cabeça, esse alguém era ele.
– Por acaso não são os homens que quando mais novos implicam com as meninas que estão interessados?
– Sim, quando são crianças. Não é o caso, viu. Aliás, um homem já com bagagem de vida não vai olhar para uma universitária.
– Você quer que ele olhe, não é?
– Eu o que? — Me assustei — Não!
"Não mesmo", neguei até a morte, mesmo sem ter certeza.
– Uhum... — Cantarolou
– É você que está interessada no Carlos. Eu vi muito bem que perguntou por ele logo que chegou!
– Foi um interesse comum e nada além — Vivian garantiu dando de ombros enquanto se levantava. — Pare de especular, loira.
– Olha quem fala! — Brinquei em meio a risos, segurando sua mão para me erguer
– Estão todas prontas? — Jay perguntou e um coro feminino ressonou — Hoje vamos trabalhar um pouco dos chutes, joelhadas e caneladas. Formem duplas, por favor.

Como de costume, eu e Vi nos escolhemos. Ficamos frente a frente como nos foi instruído em seguida e observamos com atenção qual seria a próxima ordem. Diante do saco de pancadas vermelho, Jay concentrou-se focando um ponto em específico. Sem aviso e surpreendendo a cada uma de nós, sua canela direita atingiu com precisão o objeto causando um estrondo que ocasionou em alguns murmúrios de espanto.
– Isso, senhoritas, é uma canelada. Para realizá-las, vou precisar que tenham um grande domínio de seus quadris. Dessa vez demonstrarei mais devagar, sendo assim, fiquem atentas.

Desde a maneira como minha perna esquerda deveria se manter no chão até o ângulo e inclinação que teria que a direita teria que fazer, cada movimento fora apresentado como em um manual de passo a passo. Olhando de uma maneira teórica, tudo parecia simples e fácil de ser compreendido. No entanto, quando me vi diante da realidade de colocá-la em prática, congelei.
– Porra, Vivian, eu não vou conseguir — Supliquei
– Temos que fazer ou ao menos fingir que estamos fazendo. Vai, você consegue. Levanta essa perna, garota!
– Isso não vai adiantar — Falei entre os dentes — Minha perna tá dura, pareço um soldado de chumbo.
– Tenta.
– Ok, lá vai heim...
Fechei os olhos e tentei levar minha perna em direção ao instrumento que Vivian segurava para amortecer o impacto. Infelizmente não houve impacto ou nada do tipo. Eu fazia tudo, menos o que havia sido pedido. Em meio ao meu fracasso, percebi Jay observando e julgando a qualidade dos meus golpes e isso só aumentou a intensidade do meu constrangimento.
– Ei, não olhe para cá — Pedi em voz alta atraindo a atenção de todas as alunas
– O que? — Ele questionara já rindo do meu pedido
– Não olha. Isso me trava e só vai piorar a situação. Quero dizer, já não está saindo bom e eu sei que está errado, mas se você ficar analisando cada movimento, eu vou querer cavar um buraco e me esconder.
– Ah, você sabe que está errado? — Brincou erguendo uma sobrancelha — Como sabe?
– Bem, não é igual ao que todo mundo está fazendo — Respondi encolhendo os ombros
Jay permaneceu calado e, ao contrário de fazer o que pedi, continuou encarando-me.
– Vai ficar olhando mesmo?
– Como posso corrigir se você não me deixa olhar?
– Só... Só não olhe, tá?
– Vivian! É Vivian, certo? — Referiu-se à minha melhor amiga que assentiu com um "uhum" — Poderia me ceder a sua parceira por um minuto?
– Com toda certeza do mundo. Vai lá, gata! — A última frase fora murmurada enquanto senti um empurrão um tanto quanto forte em minhas costas
– O que está fazendo? — Perguntei assim que Jay segurou meu pulso, guiando-me a um canto a parte da sala.
– Você vai fazer aula comigo.
– O que? Como assim?
– Você será minha dupla ou eu serei a sua, acho que a ordem não altera.
– Wow, não mesmo! É vergonhoso demais já pagar mico com a minha melhor amiga.
– Ainda bem que pagar mico comigo já é algo que está acostumada né?
Forcei uma risada para logo depois responder:
– Engraçadinho.
– Veja, primeiro tem que aprender a soltar seu quadril movendo desse jeito.

Jay atraiu minha atenção para uma área em particular em seu corpo e isso apenas piorou tudo. Já tenho uma grande dificuldade em colocar em prática todo o ensinamento e quando as demonstrações partem de um corpo como esse, fico propensa a estar mais... distraída, eu diria. Momentaneamente, parecia que eu havia me desligado de todo o resto. Era como se tudo tivesse ficado desfocado ao seu redor e todos os sons desaparecessem. Não havia como prestar atenção em nada e quanto mais minha cara de interrogação permanecia, mais o instrutor insistia em reforçar os detalhes. A repetição continua dava a mim uma característica particularmente tola, no entanto, eu não conseguia evitar perder-me em sua anatomia. Jay era cheiroso, a maneira como socava ou chutava os sacos de pancadas me deixavam em alerta e a forma como seu corpo se mexia de um jeitinho todo particular tornava as chances de lerdeza ainda maiores. Em meu universo particular, ele poderia repeti-las por cerca de sessenta vezes e, ainda assim, eu continuaria babando. Quem sabe, inconscientemente, esses erros apareciam justamente para tê-lo por perto? Essa atenção era algo que eu não estava acostumada a ter nem mesmo em casa e recebê-la de um homem com tantos atrativos causou um frisson diferente dentro de mim.