– E então, por que quis chegar mais cedo hoje? — Ele perguntou em meio a alguns dos exercícios
– Só não estava a vontade em casa.
Menti, ao menos em partes. Eu realmente não estava disposta a estar na companhia da minha mãe com toda sua intromissão, mas estava mais estimulada a ir à luta por causa de Jay. Algo me influenciava a estar perto dele e, por mais que tentasse, não conseguia encontrar a resposta para essa vontade repentina.
– Problemas? — Questionou enquanto eu me preparava para trocar socos com a manopla que ele segurava.
– Mais ou menos — Me esquivei
– Quer compartilhá-los?
– Hm.. Na verdade acho que não.
– Bem, eu te contei que sou viúvo. Me sinto em desvantagem sabendo que conhece algo sobre mim e eu não conheço nada sobre você — Argumentou respirando fundo devido ao esforço que estava fazendo
– E o que quer saber? — Perguntei erguendo uma sobrancelha. Fixando a atenção na manopla, levei meu braço esquerdo à frente acertando-a com um jab* (* tipo de soco)
– Espere, você não está indo com o braço muito reto — Interrompeu-me segurando meu pulso.
Aquele toque formigou sobre minha pele e eu me contive diante da possibilidade de tê-lo tocando qualquer outra parte do meu corpo.
– Tente novamente — Pediu
Acertei a posição como fui instruída e refiz o movimento. Jay sorriu logo após, confirmando que eu tinha acertado.
– Pois então — Retomou — Eu não sei bem o que quero saber. Deixe-me pensar: bebe, fuma ou coisas do tipo?
– Olha bem para mim — Brinquei — Acha mesmo que manteria essa pele de pêssego se fumasse?
– Depois não reclame quando eu disser que parece a Barbie — Respondeu com uma piscadela
– Você não reconhece ironia, Jay?
– Deveria reconhecer, senhorita Implicância?
– Vou errar esse soco e acertar seu rosto!
– Pois eu duvido, Barbie.
Sua risada graciosa se espalhou pela sala de aula e quando menos esperei, senti o impacto em minha perna. Jay havia me chutado. Não de uma maneira violenta e não porque era um movimento aprendido, era apenas... Diversão. Aproveitando-se do meu momento de distração, meu instrutor sentiu-se no direito de ser mais intimo e isso fazia com que eu me sentisse mais aceita. Não importava a dor da pancada ou o fato de eu ter me desequilibrado, ele poderia fazer de mim o novo saco de pancadas da sala e eu ainda estaria rindo pela proximidade adquirida.
– Ei, Jay — Uma aluna quase tão loira quanto eu o chamou — Eu estou tendo dúvidas, poderia me dar atenção? — O tom em sua voz indicava raiva e uma tentativa de monopolizá-lo. Ela estava devidamente incomodada com a atenção que eu estava recebendo e, infelizmente, não podia culpá-la. Todas estavamos pagando pelo serviço e eu não era melhor ou pior que ninguém para receber exclusividade.
– Se incomoda de voltar a ser par com a Vivian?
– De maneira alguma, obrigada pelas dicas.
– E pelo chute?
– Ah não, isso não — Fingi fugir dando um passo para a lateral e Jay brindou-me com mais um sorriso antes de sair.
– O que foi isso? — Vi perguntou aproximando-se
– Isso o que?
– Vocês estão ficando ou o que?
– Ninguém está tendo nada com ninguém, deixa disso.
– Desse mato ainda vai sair cachorro, escuta o que eu to dizendo — Ela repreendeu-me, provavelmente acreditando que eu estava escondendo alguma coisa.
– Você não tem jeito. Vamos continuar a sequência?
– Uhum.

Continuamos com as combinações antes apresentadas e seguimos toda a aula com as instruções de Jay. Por vezes, ele vinha nos corrigir, mas nada que ultrapassasse as barreiras profissionais. Eu ainda não conseguia entender o porquê dele soltar-se um pouco mais apenas quando estávamos sozinhos, no entanto, isso me dava a segurança de que minha companhia o agradava e isso era o bastante para um bom começo, mesmo que o final gerasse apenas uma amizade.

Quando a aula terminou, a loira empoleirou-se em seus biceps. Com supostas dúvidas e elogios, ela buscava arduamente atrair sua atenção e simular que se importava com as aulas, a carreira em um ringue e todo o resto. Ignorando suas investidas contra Jay, apenas arrumei minhas coisas, bebi um pouco de água e amarrei novamente o cabelo. Eu não iria até lá tentar disputar alguma coisa. Minha intenção ali nunca foi me interessar por alguém e não seria agora que isso aconteceria. Esperei que Vivian também arrumasse seus pertences e saímos, não tinha mais nada a fazer na academia.
– Deixei o carro aqui perto, vou te deixar em casa. Quero dizer, ou prefere que eu a deixe no ponto para que converse com o Jay de novo?
– Engraçadinha — Resmunguei revirando os olhos — Ele está ocupado agora.
– E você com ciúmes.
– Ciúme do que, heim? O cara é bonito sim, mas nada além disso.
– Você engana a ti mesma — Afirmou apertando um botão nas chaves do carro, fazendo-o destravar. Abri a porta e joguei a bolsa no banco de trás, entrando logo em seguida pela porta do carona. — Sabe, se continuar assim, a Brianna vai roubá-lo rapidinho.
– Bri quem?
– A loira baixinha que estava lá. Ao menos sabemos que ele gosta de loiras.
– Pode parar com as piadas? — Cruzei os braços
– Mau humorada... E ciumenta — Completou a última parte com a voz em uma oitava mais baixa.
Vivian começou a dirigir pelas ruas de Sacramento, batucando algumas vezes no volante de acordo com o ritmo da música que tocava no rádio.
– Admite, você ficou chateada por ela tê-lo tirado de onde vocês dois estavam né?
– Vi! — Pedi, quase implorei, para que parasse.
– Só estou querendo ajudar. Ei, olha ali. Não é o Carlos?
Minha amiga apontou rapidamente para a calçada na direção oposta a que íamos. Com um casaco comprido e jeans surrado, ele conversava com um homem alto de aparência duvidosa.
– Ele não disse que não podia dar aula? — Questionei
– Por problemas pessoais né? Vai que ele está resolvendo.
– Hm, não sei não. Para o carro, Vi.
– O que? Para que? Eu não posso parar assim do nada, né.
– Tive a impressão de que ele estava machucado.
– Você está alucinando, isso sim. Nós não temos nada a ver com a vida dele, vamos continuar porque tenho que te deixar em casa e ainda ir resolver algumas coisas.
– Tudo bem, mas eu achei isso estranho. Você viu o homem que ele estava falando?
– Você não é de julgar pelas aparências — Vivian ponderou
– Mas sei quando meu sexto sentido está aguçado e algo me diz que ai tem coisa errada. Oh se tem!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.