Broken Inside
3 Money, the only battle
Notas iniciais
JAMES POV
Assistir Audrey entrar na escola era algo apreensivo para mim. Acho que sempre terei a sensação do primeiro dia no qual ela, tão pequena, esguelava-se para Celine pedindo por colo. As primeiras vezes dos nossos filhos são momentos que durarão para sempre: o primeiro sorriso, a primeira palavra, o primeiro choro, o primeiro engatinhar, a primeira aulinha, dentre outras. Acredito que dentro de mim todas as vezes será como a primeira, pois em todas elas tenho a vontade de ainda mantê-la perto de mim como se estivesse jogando-a aos leões. Sei que isso é protetor demais da minha parte, mas quando se tem um pequeno ser que cresceu de ti, que é um prolongamento seu e que é fonte do amor mais puro que possa sentir, essa preocupação acontece de maneira natural e inconsciente.
Ainda angustiado pela situação em que ela se encontrava — um estado novo, cidade nova, pessoas desconhecidas -, tentei me concentrar em tudo que tinha planejado para o dia: pagar algumas contas, ir ao mercado para fazer as compras do mês, tentar entender porque a merda da antena de tv não estava funcionando bem — o que seria um puta sacrifício — e ainda ir a uma entrevista para dar aulas em uma pequena academia. Claro que eu não seguiria necessariamente essa ordem, ainda bem. Quer dizer, não sou o tipo de pessoa que funciona com horários certos e tudo milimétricamente programado. Todavia, tenho que agradecer diariamente pela disciplina que o Muay Thai me ensinou. Não que a luta que pratico seja melhor que qualquer outra modalidade, não é isso. Mas quando se entra no tatame muitos valores são aprendidos e ter essa obediência é fundamental.
Segui minha rotina tendo meus pensamentos no Kentucky, na família que possuía e na vida estabilizada. Eu, que fora um adolescente um tanto quanto inconsequente e brigão, havia encontrado meu equilibrio no esporte e minha força de vontade no amor da minha esposa. O rapaz com skate sob os pés jamais se imaginaria cuidando de uma casa e agora eu me desdobro em mil para manter o lar. Quando a hora marcada foi anunciada pelo relógio, eu já estava sentado tamborilando as pontas dos dedos na cadeira ao lado. Não estava nervoso pelo meu potencial ser testado, mas sim pelo medo de falhar com minha filha e suas necessidades.
Uma hora e meia depois, no entanto, a resposta acalentaria meu nervosismo:
– Fico realmente muito feliz que tenha me dado essa oportunidade — Agradeci mais uma vez a Kendall, o dono da academia. Ele era magro, alto e parecia bem definido. Era o tipo de homem que se espera que tenha qualquer profissão, menos a de personal trainner.
– Não há de que, cara. Nosso melhor professor, o Carlos, teve a oportunidade de lutar contigo e tenho que dizer: é algo impressionante. Tem certeza que nunca foi profissional?
– Tenho — Menti — Eu tenho uma filha para criar, não posso me dar ao luxo de ser um lutador.
– Infelizmente. Algumas equipes estão perdendo um excelente atleta.
– Eu que tenho que agradecer, saio ganhando — Carlos, que preferia ser chamado de Los, se vangloriou em um tom de brincadeira
– Engraçado, eu que ganhei nosso embate — Rebati entrando no divertimento
– Só porque eu estou lesionado da última luta, tá? — Se fez de ofendido, cruzando os braços para ajeitar a postura logo em seguida.
– Eu sei cara, você é realmente bom — O cumprimentei dando dois tapinhas em suas costas
– O que acha de começar hoje...? — Kendall deixou a frase incompleta — Desculpe, me esqueci.
– Jay.
– Jay? Jay vem de que? — Los interrogou
– Jayden.
– Isso não é feminino? — Ele erguera uma sobrancelha
– Pois é, ideias da minha mãe — Deixei escapar um riso nervoso, com medo de que em algum momento os falsos documentos que apresentei fossem descobertos — Prefiro que me chamem de Jay, sabe como é, me sinto mais eu mesmo.
Claro que eu me sentia mais eu mesmo, esse fora meu apelido a vida toda!
– Pode deixar. Mas o que acha de começar hoje? — Kendall repetiu
– Por mim, parece ótimo.
– Nós temos uma turma iniciante de mulheres, é coisa fácil. O Carlos a assumiu na primeira aula, mas vocês podem dividir a classe sem problemas.
– Excelente. Hm, na verdade, tem um problema: tenho que buscar minha filha no colégio pelo menos hoje.
– Não se preocupe, essa aula começa às 15h. Esse seu horário está disponivel?
– Completamente.
– O treino é longo.
– Estarei aqui.
– Duas aulas seguidas.
– Eu estou dentro! — Reafirmei, cansado do bate-bola que estavamos tendo.
– Nesse caso, não há o que contestar. Os valores estão bons para você?
– Para um começo, é bem considerável, sim.
– Então estamos acertados. Vou te passar os detalhes finais da contratação. Pode me acompanhar?
Kendall explicou-me todo o processo. Apesar de ser uma academia pequena no meio de tantas outras de Sacramento, ele gostava de seguir as coisas de maneira correta e isso sempre foi algo que prezei. É claro, você deve estar se perguntando que pessoa é capaz de ser honesta e ao mesmo tempo estar a ponto de parar atrás das grades. No entanto, sei que mais a frente comentarei sobre meu crime, agora isso não é pertinente. O que vale é que eu e Audrey teremos sustento para mais alguns meses e esse salário, apesar de bem curto, pode ajudar nas principais despesas. Como as turmas me possibilitam uma maior flexibilidade de horário, sei que a oportunidade de conseguir um segundo emprego aparecerá em breve e com isso poderei complementar a renda.
SOPHIA POV
– O que diabos você está fazendo? — Vivian perguntou assim que me viu parada na porta da faculdade com sacolas de compras.
– Aproveitei uma aula livre e dei uma passada no shopping para comprar algumas coisas de academia. Você sabe que não sou de me exercitar, então não tinha quase nada.
– Podia ter pegado algumas peças minhas.
– Ah não, não precisava.
– Me conta, o que comprou?
Caminhamos até seu carro, ela destravou a porta e me sentei no banco do carona colocando nos bancos traseiros as sacolas. Aproveitei para despejar o material pesado que carregava todos os dias.
– Uma calça nova, o top e bandagens para enfaixar as mãos. — Numerei — Hm, acho que faltam as luvas, né?
– Calma, você vai ter tempo para ver tudo isso.
– Será que tem problema ter comprado rosa?
– Fútil — Ela ironizou pronunciando em um tom cantado
– Engraçadinha — Rolei os olhos com sua provocação
– Sério, acho que não tem problema algum.
– Mesmo? Eu sou feminina. Não sou do gênero que se preocupa com a beleza acima de tudo, mas também não vou me transformar em uma brutamontes. O que eu quero é desestressar, ganhar agilidade e sei que posso fazer essas coisas continuando eu mesma. Só, pelo amor de Deus, não faça como a minha mãe que insiste que eu devo ir para o balé.
– Do jeito que você fala parece que vai dançar o Lago dos Cisnes. — Ela brincou, recebendo um olhar reprovador vindo de mim. — Relaxa, foi só para descontrair.
Vivian puxou assuntos aleatórios durante todo o trajeto. Meu coração estava acelerado como em todas as vezes que me atrevo a fazer algo novo. Eu estava começando a me arrepender da ideia absurda de me propôr a fazer uma luta que nem era a que eu mais gostava. Talvez minha mãe estivesse certa, afinal de contas — e era justamente essa ideia que me amedrontava -, mas não queria dar o gostinho de voltar para casa tendo desistido da minha mais nova aspiração. Paramos em frente a academia e eu congelei. Céus, o que eu estava fazendo aqui? Respirei fundo pronta para enfrentar meu mais novo combate: tomar as decisões por mim mesma. O que eu não esperava era que muitas outras batalhas estariam por vir e elas não seriam apenas físicas.
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