Broken Inside
5 Cupid
Notas iniciais
Me posicionei novamente em meu lugar anterior. Jay pediu que formassemos duplas e, com toda certeza, escolhi pela minha melhor amiga. Eu não me arriscaria a ser dupla de algumas das garotas que minutos atrás me fuzilavam com os olhos. Ficamos frente a frente e Vivian tentou explicar como eu deveria me portar no que dizia respeito a posição de pés e mãos. Não sei se já mencionei em algum momento, mas tenho uma dificuldade enorme de entender as coisas. Ou melhor, sou até bem prática para entender quando outras pessoas demonstram, mas quando me pedem para reproduzir... Bem, digamos que meu talento desaparece.
– Hey, Carlos! — Vi abanou as unhas avermelhadas chamando atenção do moreno musculoso. Porra, quando ele chegou mais perto percebi o quanto seus braços eram realmente enormes. — Pode nos dar uma ajudinha?
– É sua primeira aula? — Ele perguntou direcionando-se para mim e, colocando uma mecha atrás da orelha, assenti. — Relaxa que não é nada absurdo. Precisava ver sua amiga na aula anterior, deu o melhor de si.
O homem com sotaque um pouco latino deu um leve soquinho no ombro de Vivian a cumprimentando pelo feito e eu ri ao perceber que ela corou.
– Vou te ensinar todos os golpes que precisa, está bem?
Carlos começou a explicar e seu passo a passo parecia confuso o suficiente para mim. Apoiei a mão direita na cintura prestando atenção a cada detalhe enquanto minha testa estava tensionada ao mesmo tempo em que eu mordiscava minha boca. Puxa, isso parecia mesmo complicado.
– Ok, agora tente fazer.
– Olha, isso não vai dar certo... — Tentei trocar o foco brincando
– Vamos lá, você consegue.
Tentei atingir um soco que eles chamavam de Direto. Para mim, era apenas um soco.
– Você precisa girar mais seu quadril. — Jay intrometeu-se de longe. Por acaso a fonte do meu estranhamento estava me observando de longe? O observei pedir licença à dupla que ajudava e aproximar-se. — Posso assumir? — Pediu a Carlos.
– Fique a vontade.
– Como é seu nome? — Perguntou com seus olhos tão malditamente intensos. Jay era muito alto e tê-lo me observando de cima fazia com que sua íris penetrasse ainda mais nas janelas da minha alma.
– Sofia — Respondi gentilmente
– Você já sabe o meu, não é?
– Sim, sim. — Estranhamente, eu estava monossilábica
– Já fez boxe ou algum tipo de luta antes?
– Ah, não mesmo.
– Certo. Você é destra, né? Então coloque seu pé esquerdo a frente.
O obedeci e meu instrutor elogiou com um "ótimo" bem espontâneo. Ele demonstrou como minhas mãos deveriam estar e quando tentei reproduzi-las fui surpreendida pelas suas que envolveram meus punhos colocando-os na altura adequada. Na sequência, Jay ensinou-me uma série de golpes com nomes que não decorarei tão cedo e insistiu sobre como meus quadris deveriam mover-se. A impressão que eu tinha é que deveria ter uma enorme bagagem de dança antes de começar a lutar, porque eu estava como Shakira com todo aquele "my hips don't lie" e, nesse caso, os meus não mentiam mesmo: eu era um fracasso.
– Mova-os desse jeito, Sofia. — Explicou girando seu corpo em um twist perfeito. Meus olhos prenderam-se naquela área em particular e desviei o olhar depressa.
– Dessa maneira? — Perguntei imitando
– Um pouco mais suave — Pediu colocando as mãos dessa vez em meu derriére para girar-me com habilidade. Para Jay poderia ser apenas uma aula, para mim era um contato diferente. Toda essa conversa sobre ir mais devagar, mover minha pélvis e tudo mais, fazia com que eu sentisse um tipo de arrepio até então desconhecido.
– Você vai pegar o jeito! — Alegrou-se em dizer — Por que não treina um pouco com a Vivian agora, hum?
Assenti e comecei com minha dupla não só de aula como também de vida. Fizemos quase uma hora de repetições e séries variadas, eu estava exausta.
– Bom, pessoal, acho que por hoje já foi o suficiente.
Carlos anunciou e pude observar Jay ao seu lado com uma expressão levemente cansada. Ele ergueu um pouco a camisa abanando-se com o próprio tecido, o que proporcionou a todas nós uma visão privilegiada do seu abdome trincado. Respirei fundo. Que caralho é esse?
JAY POV
A aula havia sido produtiva o bastante. Para uma turma de iniciante, posso afirmar que muitas tem talento para um dia, quem sabe, subir em um ringue. No entanto, há também as que parecem um completo peixe fora d'água e nesse caso a loirinha se encaixava perfeitamente. "Como era mesmo seu nome?", questionei a mim mesmo conforme minha mente fazia um esforço para lembrar. Qualquer que fosse sua intenção de estar ali, era evidente pelas bandagens rosa e pelo top minúsculo que ela não estava apta ao esporte.
– Jay, Jay. — Carlos me chamava repetidamente. Tirei os fones de ouvido e passei novamente a toalha no rosto.
– Oi, cara. Foi mal, me desliguei.
– Nem percebi — Ironizou — Vamos? Tem outra turma agora.
– Com certeza, só vou lá fora dar uma ligada rápida para Audrey e já volto.
– Audrey, é? Hm, novo na cidade e já arrumou um lanche.
– Deixa de ser idiota — Bati de leve com minha toalha no meu mais novo parceiro de trabalho — Ela é minha filha.
– Não vou nem perguntar a idade.
– Não mesmo. Ela é uma criança, seu pedófilo! — Brinquei enquanto me dirigia à saida
Disquei os números do telefone de casa. Após alguns toques, minha filha finalmente atendeu.
– Onde estava? Por que demorou tanto? — Questionei preocupado
– Calma pai, estava dormindo. — Explicou-se e eu percebi sua voz sonolenta
– Desculpe, não me assuste assim.
– Foi mal!
– Como foi a aula?
– Foi boa, acho que fiz amizade com uma menina.
– E ela é gente boa?
– Muito e você não vai acreditar: a mãe dela é di-vor-ci-a-da! — Cantou a última palavra animadamente
– Uhum, bacana né... — Desconversei
– Ah pai, você entendeu bem.
– Audrey você tem nove anos. Não acha que é nova demais para se meter na minha vida?
– Vamos pensar assim, pai: você vai arrumar uma mulher em algum momento, nada mais justo do que eu escolher.
– HA HA HA — Forcei uma risada — Conversamos sobre isso quando chegar em casa, ok?
– E se eu já tiver dito para a Cassie marcar algo com a mãe dela no final de semana?
– Você vai estar de castigo, mocinha.
– Por onde começo? Um mês sem sair do quarto ou duas semanas lavando a louça?
– Nos falamos em casa, Audrey — Respondi mais sério
– Ai, você é realmente chato. Tchau, pai.
Por vezes não a entendo. Hoje mesmo de manhã minha filha insistia para que não a acompanhasse sem camisa porque tinha ciúmes dos olhares, no entanto, deseja arduamente ser minha cupido profissional. Isso faz com que eu me questione se quando a mulher certa aparecer, ela estará de acordo. Será alguém gentil? Alguém doce e honesta, capaz de criá-la bem? Ou uma mulher que me satisfará como homem? Será que ela seria da mesma idade que eu ou... Mais nova? A conclusão do meu pensamento explodiu em minha mente quando vi Sofia parada na esquina.
Fale com o autor