Notas iniciais
Ah :') Já falei que vocês são as melhores do mundo? Já? Se não falei, vou dizer: VOCÊS SÃO! Caramba, que gratificante tê-las aqui comigo novamente, me apoiando, mandando recados no facebook e comentando aqui. Isso me dá um baita orgulho - e a autora mega educada disse "baita" para não falar outra coisa ;) Amo vocês, Brokens da tia Ju. Opa, e agora? Vocês eram Heavenators. Mudo para Brokens ou criamos um fandom pra autora? Vish '-' KKKKKKKKKKKK

UM MÊS DEPOIS

– Ai, tá machucando. — Audrey reclamava enquanto eu tentava fazer um rabo de cavalo em seus cabelos. Aquilo parecia mais difícil do que eu parecia e a hipótese de que essa era uma tarefa humanamente impossível já rondava minha mente.
– Desculpe, acho que ainda não peguei o jeito, não é? — Lamentei
– Tudo bem, papai, eu sei que você não é a mamãe.

Minha filha sorriu gentilmente para mim, os lábios semi-cerrados, os olhinhos amendoados perdidos em meio a algumas lágrimas que o deixavam marejados. Falar da morte de Celine não era algo proibido em nossa casa, no entanto, evitávamos ao máximo tocar nesse motivo de tanta dor. Perdê-la há quatro anos foi o tipo de sofrimento que não esperávamos. Aliás, quem espera? Ninguém está pronto para perder um ente querido e quando esse falecimento acontece de maneira repentina, sentimos como se um caminhão nos atingisse de frente tão velozmente que fomos incapazes até de anotar a placa. É perder o chão, os sentidos, ter a sensação de desamparo, a culpa por não estar com ela naquele dia e poder ajudá-la, o receio de como enfrentaria sozinho os próximos anos. Eu estava sem suporte. Era como se alguém tivesse me desafiado a correr uma maratona logo após arrancar sem pudor minhas duas pernas. Respirei fundo. Remoer o sentimento do acidente de carro que a tirou de mim não traria os bons anos de volta.

Voltei a pentear seus cabelos com paciência até alcançar a altura desejada e envolvi a quantidade com um elástico cor de rosa. Quão irônico! Eu que era expert em arrancá-los dos cabelos de todas as mulheres com quem me envolvi, agora estava aqui me esforçando ao máximo para tentar colocá-lo no lugar. Olhei para Audrey, o penteado não havia ficado bom, mas ela parecia satisfeita olhando no espelho.
– Está ótimo, pai, obrigada.
A pequena inclinou-se sobre mim beijando minha bochecha com toda sua piedade em relação aos meus dotes de cabeleireiro.
– Preparada para voltar às aulas?
– Um pouco. Espero que as pessoas sejam legais comigo.
– Vão ser e se não forem...
– Dou um cruzado na cara delas — Ela completou
– Sim... Quer dizer, NÃO. Audrey! — Repreendi e minha filha caiu em uma gargalhada gostosa que ecoou pelo seu quartinho
– É brincadeira, papai. Vai me deixar na escola?
– Como, hm? Nosso carro ficou no Kentucky.
– Ah é... — Desanimou
– O que acha de uma caminhada até lá?
– Vai apostar corrida comigo?
– Quantas vezes quiser.
– Oba! — Comemorou dando pulinhos — Vou pegar minha mochila.
– Está certo, eu te espero.
– Ah, pai! — Chamou-me, obtendo minha atenção de imediato — Posso pedir uma coisa?
– Claro.
– Coloca uma camisa? Sabe como é... As mães das outras garotas ficam babando em você.
Audrey fez uma careta engraçada e não pude resistir a abraçá-la, enchendo seu rosto de beijos babados.
– Tudo pela minha magrela.
– Mas é sério, papai.
– Também to falando sério. Você pega sua mochila e eu pego uma camisa, ok?
– Sim, mestre — Brincou e correu até o guarda roupas enquanto eu ia até o outro cômodo.

Nossa casa era pequena. Foi uma sorte conseguir dois quartos e tudo isso porque sabia a importância de Audrey ter seu próprio espaço. Fora isso, todos os cômodos eram pequenos demais e menor ainda estava a quantia de dinheiro que tinha guardado. Sobreviver um mês com nossas economias não havia sido um problema, mas agora a verba estava começando a ficar curta e em breve passaríamos por problemas financeiros.

Fizemos a caminhada até a escola de Audrey e em alguns pequenos percursos aproveitávamos para correr. Lógico que eu diminui meu ritmo, não faria com que ela se esforçasse em excesso e chegasse suada na aula, mas gostava de tê-la como companheira de atividades físicas. Apesar de estar preocupado com nossa situação econômica, não podia deixar transparecer e vê-la sorrir enquanto disputávamos era uma maneira de afastá-la dos problemas.
– Pronto, chegamos. Cadê o meu beijo?
Audrey abraçou-me com seus pequenos bracinhos e abaixei-me para receber seus lábios em meu rosto.
– Boa sorte no trabalho novo, papai.
– E você tenha um excelente dia de aula. Te busco assim que acabar, tudo bem?
– Não precisa, pai. Eu já voltava sozinha no Kentucky.
– Mas aqui é um novo lugar e você ainda não conhece bem o caminho.
– Então só hoje, tá? — Tentou argumentar
– Veremos, pequena — Sorri dando um puxão extremamente leve em seu rabo de cavalo.
Minha filha apenas mostrou a língua como se me desse bronca e acenou antes de correr para a grande porta de entrada. Para nós dois seria um dia novo e, se Deus quisesse, nada daria errado.

SOPHIA POV

– Nem pensar, você não vai entrar numa aula de luta — Minha mãe reclamava pela milésima vez. Como sempre, ela estava disposta a ir contra todas minhas convicções e ideias mirabolantes.
– Por que não? — Retruquei ciente de que aquela não era a melhor resposta
– Você vai ficar musculosa. Isso é um esporte masculino, Sophia. Por que não escolhe balé ou sapateado?
Revirei os olhos diante da hipótese de usar sapatilhas que deformassem meu pé.
– Minha filha — Ela insistiu — Você é tão bonita. Veja o seu rosto! Poderia ganhar concursos de miss, fazer carreira como modelo e ser uma grande mulher. Quer mesmo perder sua beleza voltando para casa com olho roxo, dentes e ossos quebrados, além de dores musculares?
– Mãe, eu não estou dizendo que vou tomar isso como profissão. Tudo que quero é ter um lugar para extravasar, colocar minha raiva para fora e poder descontar no saco de pancadas de vez em quando.
– Você ficou assim desde que as coisas não deram certo com Decker.
– E lá vem essa história de novo... — Resmunguei irritada enquanto partia a passos rápidos para outro cômodo. Eu não ficaria ali para vê-la argumentar novamente.

Decker sempre fora meu melhor amigo e, sem dúvidas, aquele em quem eu poderia confiar de olhos fechados e com o pé nas costas se fosse preciso. No entanto, parece que ele não estava disposto a se manter leal e presente quando decidi declarar o que sentia. Fazer o que, né? Algumas pessoas se apaixonam e outras não. Nesse caso, a única tola que recebeu uma flechada do cupido fui eu.
– Soph, eu já lhe disse o quanto é deselegante deixar uma pessoa falando sozinha. — Repreendeu vindo atrás de mim
– Já, mãe. Assim como já me mandou acertar a postura, disse que meu cabelo está precisando ser cortado e que minhas unhas estão cheias de cutículas. Algo mais?
Vociferei ao mesmo tempo em que colocava com agilidade os materiais na minha mochila. Não estava disposta a ter que aguentar a série de inquisições e criticas que seriam bombardeadas nos próximos minutos.
– Você não entende mesmo que tudo que eu digo é para o seu bem, não é? Você tem vinte anos, uma vida pela frente e eu espero de verdade que não esteja planejando passá-la trancada em uma ONG fazendo serviço social.
– Mas foi o que eu escolhi como carreira.
– E como pode uma assistente social, que hipoteticamente é bondosa, estar interessada em se engalfinhar com um bando de homens num tatame?
"E voltamos à luta", pensei.
– Quem disse que vou brigar com homens? É com mulheres.
– Ah, ótimo. Agora tenho uma filha que quer estar trepada em cima de mulheres.
– O que? Eu não sou gay.
– Tem certeza? Porque, verdadeiramente, já está passando da hora de se casar.
– Ih mãe, to fora desse assunto. Oh, estou indo para a faculdade, viu? Nos falamos de noite.
– Sophia, espera. Você não vai vir em casa nem para almoçar?
– Não — Respondi irritada enquanto colocava a mochila sobre os ombros.

A passos largos atravessei meu quarto e a sala, atingindo a porta de saída. Leia-se: liberdade. Caminhei devagar sentindo minhas sandálias arrastarem pelo caminho enquanto a brisa refrescava meu rosto. Era sempre assim: mamãe aproveitava os momentos mais inoportunos para puxar assuntos que resultariam em "você não é a filha troféu que sonhei". Também pudera, meu sonho nunca foi ser uma estrela de cinema. Sim, estamos na Califórnia, mas isso não significa que Los Angeles seja minha meta. Quero ajudar as pessoas, me interesso por resgatar essas almas perdidas em poços escuros e sei que tenho uma função muito maior do que ser um rosto bonito na tv. Desculpe quem sonha com o estrelato, mas acredito que não preciso ser famosa para um milhão de pessoas quando posso mudar a vida de pelo menos dez.

Como havia saído bem adiantada devido à tentativa de fugir da Bruxa da Branca de Neve, aproveitei para fazer o caminho mais longo até o ponto de ônibus. Por vezes me pergunto porque não me mudei para uma república, mas a conveniência de estar em casa ainda pesa no meu bolso de quem faz trabalho voluntário. Observei o comércio e as pessoas que, simpaticamente, cumprimentavam umas às outras. Aquele tipo de gentileza me inspirava a transpirar amor por todos os meus poros, a retribuir tamanha bondade e isso me fez abstrair os problemas que tivera logo de manhã. É, estava decidido: eu iria exercer a minha vontade independente do quanto isso fosse incomodar. Procuraria uma aula de boxe mais perto o possível de casa e tudo ficaria resolvido. É, seria assim. Não é?

Os toques incessantes do meu celular me fizeram interromper meu ensaio de auto estima e assim que o peguei no bolso da mochila pude perceber quem era: Vivian, minha melhor amiga. Desbloqueei a tela ouvindo seu grito histérico do outro lado.
– VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!
– Hm, não mesmo — Brinquei — O que houve? Saiu com o Robbie de novo?
– Ah não, isso é passado.
– Então?
– Comecei meu projeto Vivian Gostosa no Verão.
– O que vem a ser isso?
– Você sabe, né? Estou fazendo nutrição, não posso ter esse corpinho de rata de sofá.
Rata de sofá? O corpo dela era tão cheio de curvas quanto o de uma Kardashian.
– E o que resolveu fazer para mudar isso?
– Sabe aquela academia pequena perto da escola primária?
– Uhum, sei sim.
– Pois então, menina, parece que abriu uma turma de Muay Thai por ali. Eu fiz a aula experimental com um dos professores e é maravilhosa. Você precisa ir.
– Ah Vi, eu não sei não. Você sabe que eu prefiro mil vezes boxe.
– Você por acaso sabe a diferença?
– Não — Admiti envergonhada ao ver meu argumento ir ralo abaixo.
– Pois é, foi exatamente o que pensei. Poxa, vem comigo. Aposto que quando você ver como minha barriga está dura que nem pedra vai querer na hora.
– Jura? Dá essa definição toda? Em uma aula? — Ironizei
– Para de ser descrente. Vai comigo ou não?
– Que horas?
– Depois da aula. Passo na sua casa para te buscar, o que me diz?
– Eu não vou estar em casa.
– Fugindo de novo da sua mãe?
– Sou filha da rainha do baile da maior High School daqui, acho que por mais que corra não tenho como fugir do meu DNA de beauty queen.
– Ainda bem que você sabe, projeto de Barbie.
– Nem. Pense. Nisso. — Ameacei com o apelido que odiava
– Sim senhora — A ouvi rir — Nos encontramos lá então?
– Pode ser. Até mais tarde.
– Ah, não se esqueça: roupa de academia!

Roupa de academia? Isso significava passar horas dentro de calças legging apertadas que colocariam minha bunda ainda maior do que já era? Rolei os olhos com a ideia. Ambientes de academia nunca me agradaram muito e sempre fiquei constrangida pelo fato desse tipo de roupa marcar meu corpo justamente em um local cheio de homens que ficariam me secando como se eu fosse um oásis em meio ao deserto. De qualquer forma, se eu queria trabalhar meu condicionamento físico teria que vencer esse aperto — literalmente! Em último caso, uma coisa era certa: eu não estaria perdendo nada e talvez ficar um pouco ofegante não fosse nada ruim. Quer dizer, não é como se o cara da minha vida fosse estar lá me vendo suar que nem um porco, não é? Lutadores tem orelhas deformadas, são ogros, brutamontes e filhotes de Shrek. Apenas isso. Apenas.