Broken Heart.

1 Eu estou aqui, pequena.



(...) Eu queria poder dizer que a escuridão não me assusta, que os gritos de sofrimento e dor das pessoas não me incomoda, que o fato de haverem monstros nos seguindo me deixa tranquila... Queria poder dizer de todas as maneiras possíveis que eu era e sou uma criança feliz, e não uma escrava com apenas sete anos de idade totalmente tomada pela dor, pelo sofrimento.

O que eu tenho? Cicatrizes no coração tão profundas que mesmo com meus poucos sete anos de vida posso afirmar com toda a certeza que nunca irão me deixar. Amigos? Posso dizer que tenho um ou outro, e posso confirmar que isso não é um ponto tão positivo quando a cada piscada corremos o risco de sermos levados um dos outros e dizer oi para a morte, para a tortura.

Não é fácil viver em meio disso, da violência, da tortura, da completa falta de sentimentos e amor ao próximo... Independente de idade, sexo, e o que mais puder ser acrescentado, tudo isso torna-se um inferno quando você mesmo está vivenciando, ainda mais quando se é criança, parece que de certa forma o peso de tudo aumenta. Afinal, '' ser criança '', cujo principais significados vem a ser: — brincar, se divertir, aprender, fazer amigos -, não existe quando se trata da escravidão...


Erza? — ... Exceto quando você tem um outro amigo que se arrisca por você mesmo sabendo das consequências que podem vir a acontecer.

J-Jellal! — Mesmo com a pouca claridade, o garoto de cabelos azuis podia ver o brilho em meus olhos por conta da emoção.

Ei, pequena! — Suas pequenas mãos castigadas por cortes e inchaços passavam pelos meus cabelos de modo que rapidamente meus pensamentos horríveis fossem embora, deixando apenas a certeza de que no final disso tudo haveria uma luz e finalmente seriamos livres.

V-Você veio... — Cochichei envergonhada.

Ei, eu sempre venho, não venho? — Eu assenti o abraçando. Aos poucos lágrimas iam caindo sobre meu rosto, minhas próprias lágrimas.... Ah, Jellal, se ele soubesse o quanto eu me sentia tranquila e segura em seus braços, certamente ele jamais me deixaria novamente.

S-Sim... — Dei de ombros.

Hoje não seria diferente, Erza. — Ele sorriu.

Aqueles dois... Eles com certeza estão aqui, mestre! A ruiva e o azulado sempre estão juntos, e ele acabou de entrar aqui, os dois estão aqui! Posso lhe garantir!

Que seja, Phillip. Se eles não estiverem aqui, não serão eles que serão castigados, será você. Não é de hoje que o Senhor vem me desapontando.

Claro mestre...

A conversa vinda do lado de forma da pequena caverna nos fez desfazer o abraço, sabíamos que agora seria nosso fim.

Erza... Eu achei isso por ai, quero que fique com você, pequena. — Ele colocou sobre minha mão uma pequena bonequinha de pano e novamente as lágrimas invadiram meu rosto.

O-Obri... — Não tive tempo de agradecer, os vigias foram mais rápidos. A pequena portinha de madeira foi bruscamente removida e jogada para dentro da pequena caverna em que estávamos, senti-me ficar de pernas bambas.

Ora Ora se não é o casalzinho mirim da torre... — Minhas mãos tremiam. Sentia Jellal tentando pegar na minha mão, eu sabia que ele estava tentando me proteger.

Digam logo, qual de vocês teve a brilhante ideia de enfrentar nossos vigias? — Eles se aproximavam cada vez mais de nós.

Deve ter sido o de cabelo azul, mestre. — Um dos vigias palpitou.

Não se meta, Phillip. — Se a boneca fosse de pó ela já estaria toda esfarelada de tanto que estou a apertando. — Foi a ruiva, é visível no modo como ela está nervosa. Leve-a, Phillip.

NÃO! Ela não tem culpa! — Droga, Jellal! — Ela NÃO tem culpa! Fui eu, fui eu! — As lágrimas escorriam dos olhos de Jellal e dos meus na mesma frequência.

Cale a boca, garoto! — E ele deu um tapa em sua cara.

Aos poucos eles iam me arrastando para fora da caverna, deixando-me cada vez mais longe de Jellal.

Eu vou ficar bem... Eu vou ficar bem! — Gritei de um modo confiante. Apesar de saber que eu poderia morrer como consequência de um plano de Jellal que não havia dado certo, era minha obrigação protege-ló e tranquiliza-lo.

E-Eu te amo, Erza! — Ele gritou.

E-Eu também... Jellal...- Consegui cochichar pouco antes de apagar em um sono que não tenho ideia de quantas horas durou.

Então a ruivinha decidiu acordar? HAHA — Minha visão... Eu não enxergava absolutamente nada de um dos lados.

Eu gritei. Gritei como nunca antes. O que eles haviam feito? Acabaram de arrancar o olho de uma criança... De uma CRIANÇA. Poucas as lágrimas que agora escorriam pelo meu rosto, eu estava sendo completamente tomada pela dor.

Não grite, ruivinha. Isso não irá trazer seu olho de volta, não irá. — Meu corpo inteiro tremia, eu estava jogada sobre o chão gélido da caverna cuja denominada ''minha''. Mesmo com dificuldade por conta da dor, percorri com meu único olho toda a extensão da pequena caverna a procura da boneca que Jellal havia me dado pouco antes de tudo acontecer. Não a vi em lugar nenhum.

Agradeça por não termos lhe matado, garota. Tome isso! — Ele jogou um tapa olho em minhas mãos e saiu.

Meu mundo inteiro havia desabado, eles haviam arrancado um dos meus olhos pouco depois de um dos momentos mais incríveis que eu já havia vivenciado com Jellal.... Sem qualquer pena.

E-Erza! E-Erza! — Eu ouvia os gritos do azulado se aproximando da entrada da porta. Tentei me recompor e sentei colocando o tapa olho em uma tentativa impossível e ignorar a dor.

ERZA! — Ele gritou ao passar pela porta vindo ao meu encontro. Por sorte, pelo menos uma coisa não havia mudado: Estar em seus braços me confortava. — ERZA! O que... O que eles fizeram com você? E-Erza! ERZA! — Ele gritava em desespero.

Está tudo bem, Jellal. — Eu sorri.

Está tudo bem? Por favor, Erza! Seus olhos... — Novamente sorri com dificuldade.

Está tudo bem, Jellal. E-Eu... Eu ainda tenho você. — E o abracei.

Mesmo com tudo, com toda a dor, com todo o sofrimento em que vivíamos, a única coisa capaz de me tranquilizar era estar nos braços do azulado.

Eu estou aqui, pequena. — Ele me apertava contra seu corpo. — E ela também. — Disse abrindo um sorriso em meio ao choro e me entregando a bonequinha de pano. — Sempre estaremos com você, Erza, independente do que aconteça.

Novamente nós nos abraçamos.

Jellal Fernandes... Só conseguia ver meu final feliz ao seu lado e longe da Torre do Paraíso. A única pessoa que me fazia enxergar luz em meio a escuridão e a sorrir nos momentos mais impossíveis. Eu jamais esqueceria o garoto da cicatriz vermelha, jamais esqueceria o garoto que me apelidou de Erza Scarlet.



Notas finais
Eu juro que tentei começar da melhor maneira possível.