Broken & Bounded
2 Lilith Scopelli, La Signora della notte
Notas iniciais
Um vento frio soprava nos arredores de Roma fazendo as poucas pessoas que circulavam pelas ruas desertas naquela noite se encolherem dentro de seus casacos. Uma pálida mulher, via-se exposta ao vento gelado que cortava sua face, trajando apenas um vestido cinza esfarrapado. Ela estava agarrada junto a um xale azul cobalto velho e comido pelas traças que enrolava um pequeno embrulho em seus trêmulos braços. Era um bebê, uma menina recém nascida que chorava com toda a força de seus pequenos pulmões devido ao frio e a fome certa, pois sua mãe, a pálida mulher que a carregava, atravessava a La Piazza delle Quattro Fontane(1) em direção a pequena igreja de Santa Maria della Vitoria(2), sabia que iria morrer e ali era o único local que ela sabia que iriam cuidar bem de sua filha.Há poucas horas ela havia dado a luz em um beco escuro e abandonado sem contar com nenhuma ajuda. O sangue seco ainda impregnava seu vestido e sua tez pálida evidenciava todo o sangue que havia perdido. Ela deu três batidas na porta da igreja e suas pernas falharam, lhe fazendo cair de joelhos, com a criança protegida em seus braços, tão fraca. A mulher olhou para os lados, assustada e deixou a pequena – ainda embrulhada em farrapos – na porta da igreja. Antes de partir, a jovem arrancou um pingente de prata em forma de serpente com pequenos olhos esmeraldas enquanto enrolava todo seu corpo em uma adaga. Ela colocou o pingente sob o pequeno embrulho, junto a um bilhete com o nome da menina recém-nascida e desapareceu na escuridão.
Giovanni Scopelli, um jovem padre de curtas madeixas negras desgranhadas que parcialmente cobriam seus olhos azuis cristalinos apareceu a porta da igreja após as batidas desesperadas da mulher, já certo de que era alguém querendo confessar seus pecados. Porém, ao se deparar com um pequeno par de olhos verdes lhe encarando fixamente dentre o pequeno embrulho azul, ele ficou estarrecido, se abaixando de imediato e envolvendo a pequena criança em seus braços, a levando para dentro da Igreja. O padre tão jovem e inexperiente pediu auxilio a um Cardeal ancião da igreja e este lhe permitiu cuidar da pequena. Giovanni retirou a pequena criança do embrulho e ficou encantado com sua beleza. Suas feições eram angelicais e ela possuia um belo par de olhos verdes que lhe deixaram estagnado, fazendo com que ele se apegasse a ela imediatamente. Naquela noite o jovem padre alimentou, banhou e ninou a pequena criança, se perguntando do porquê teriam largado um bebe tão lindo na porta de sua igreja. Enquanto mantinha a criança já adormecida em seus braços, ele notou um pequeno pedaço de papel preso ao tecido azul cobalto, esticando uma das mãos para pegá-lo e notando que nele havia apenas um nome, Lilith. Ele arqueou as sobrancelhas, aquele não era um nome comum e estava ligado a cutuada deusa da noite, Lilith, que na mesopotâmia era comparada a Luna nera(3), à sombra do inconsciente, ao mistério, ao poder, ao silêncio, à sedução, à tempestade, escuridão e a própria morte. Enquanto ele analisava o bilhete, seus olhos foram de encontro ao pingente de serpente com a adaga envolto no tecido em farrapos, aquilo só poderia ser algum tipo de sinal.
Na verdade, Giovanni não era um padre qualquer, ele fazia parte de uma legião de hunters contratados pelo próprio Vaticano para assegurar a proteção de Roma e de seus habitantes contra tudo que acreditavam ser seres demoniacos. Ele era o mais jovem e exímio caçador, o melhor e mais habilidosos de toda a Europa, porém ele estava agora em poder do Vaticano e seus serviços estavam limitados apenas aquela região. O padre ponderou por um longo tempo até que finalmente decidiu cuidar da garota, resolvendo batizá-la com o nome que lhe fora destinado juntamente com seu próprio sobrenome, Scopelli. Os anos se passaram e a garota ficou aos seus cuidados na Igreja e ele a criou como se fosse sua filha. Lilith era uma criança com uma beleza extremamente incomum. Mio dio (4), como era linda aquela criança frágil com seus sedosos cabelos ruivos e seus olhos verdes vívidos que enchiam aquele homem antes tão infeliz de vida e esperança. Quando a pequena completou cinco anos já sabia falar Italiano e Latim graças as incontáveis missas realizadas por dia na Santa Maria Della Vittoria, uma Igreja muito procurada pelos habitantes e turistas que poderia passar desapercebia pela sua sobriedade tanto exterior quanto interior se não fosse pelo fato de possuir um dos conjuntos artísticos mais bonitos de todo o Barroco: a capeta Cornaro. Além de participar de todas as missas, Lilith era submetida as aulas de Latim que o Cardeal, Raziel, lhe oferecia todos os dias, sendo muito rigoroso quanto a seu aprendizado e compreendimento da linguagem.
Certa madrugada, quando Giovanni voltava aos seus aposentos logo após uma longa e cansativa pesquisa em seus numerosos arquivos, ele se deparou com a porta do quarto da pequena semiaberta, desconfiando de imediato. Ele levou sua mão até o pingente de crucifixo em seu pescoço e acionou um pequeno dispositivo neste, fazendo com que a ponta deste mudasse e ele se tornasse uma espécie de adaga de prata. O padre entrou no cômodo sorrateiramente e se deparou com uma silhueta de uma criatura desfigurada e horrenda, com uma aparência falsamente humana. Aquela criatura estava próxima a cama da pequena e já esticava uma das mãos para tocá-la, porém antes que o padre pudesse intervir o pingente em forma de serpente no pescoço da menina brilhou, transmitindo uma luz incandescente que iluminou todo o cômodo. A criatura grunhiu violentamente e foi completamente dizimada pelo estranho brilho emitido pelo pingente, o que foi um alívio e um mistério para o jovem caçador. E durante o resto da madrugada ele se limitou a pesquisar sobre o pingente de serpente, porém nada encontrou e aquilo lhe fez ter certeza de que deveria começar a treinar a pequena para além de ter a capacidade de se defender, quem sabe algum dia ocupar seu lugar no Vaticano como caçadora de demônios.
No dia seguinte, Giovanni levou a pequena para conhecer a sala de treinamentos – que se localizava no interior da Igreja – era um salão revestido por pedras escuras e uma gigantesca plataforma repleta de armas. Ali tinham arcos, armas de fogo, adagas de prata, balas de prata e outros objetos sangrentos que tinham inúmeras funções. O caçador resolveu começar os treinos com a pequena lhe ensinando primeiramente o básico no combate corporal. Ele a ensinou como imobilizar, derrubar, desnortear e até mesmo confundir o oponente e a garota pareceu ter uma habilidade nata para esse tipo de combate, o que de fato lhe impressionou e o fez continuar com o árduo treino.
Com dez anos, Lilith já havia se tornado habilidosa tanto com o combate corporal quanto com as armas que lhe foram disponibilizadas e o próprio Vaticano resolveu aceitá-la como um membro da legião de caçadores que tinham por responsabilidade proteger os habitantes da cidade. Aos quinze anos ela sozinha já havia ficado cara a cara com inúmeros vampiros que aterrorizavam as redondezas e os matado sem nenhuma piedade e sem que eles próprios pudessem detectá-la, deixando seus corpos destroçados e decapitados para trás, assim sendo considerada como a melhor e mais jovem caçadora do século por toda a legione di cacciatori (5).
Giovanni estava muito orgulhoso com o novo título de sua filha, mas ao mesmo tempo, preocupado com o que aquele tipo de responsabilidade poderia trazer a ela. Então, ele próprio decidiu que a garota deveria utilizar outro nome enquanto caçava para que seus inimigos não conseguissem detectá-la, a batizando como Artémis – a deusa da caça e da luz da lua, o que veio a calhar com Lilith já que ela só costumava caçar durante a noite, sendo denominada por seus próprios inimigos como La signora della notte. Quando completou dezoito anos, Giovanni deu a sua filha um inestimável presente para comemorar sua passagem como adulta – um par de adagas feitas de prata com um punhal em formato de serpente incrustado de pequenas esmeraldas e rubis, claro que jóias não eram necessárias em uma arma, mas ele fazia questão de entregar um objeto como aquele nas mãos de sua filha tão amada. Na lâmina de ambas, as iniciais da garota estavam gravadas junto de seu pseudonimo, Artémis e do outro lado, estava escrito, mai rinunciare alla lotta (6), para que ela nunca se esquecesse de quem era e qual era seu objetivo. Algum tempo depois, filha e pai foram convocados pela vossa santidade, o papa, para realizarem uma árdua tarefa. Eles foram designados a eliminarem uma alcatéia de lobisomens que, além de se aproveitar das vítimas – as estuprando e violentando, as devoravam logo após os atos horrendos. Giovanni e a filha partiram para o norte da Itália, em uma cidadezinha de 357 hab/km², chamada Marostica e localizada próxima da região do Vêneto, na província de Vicenza. Ambos vasculharam toda a cidade a procura das terriveis criaturas e durante a sétima noite de exaustiva caça, eles finalmente perceberam que não estavam sozinhos naquela mata. Uivos puderam ser ouvidos e olhos dourados embrenhados na mata finalmente puderam ser vistos pelos dois caçadores.

Nós estavamos em menor número, mas eu estava certa de que conseguiríamos derrotá-los, afinal, éramos os melhores caçadores de toda a Europa e meros lupinos não eram nada contra nós. Foi o que eu pensei. A alcatéia nos cercou e começou a nos atacar, fazendo com que nós revidássemos a altura. Um dos lobos pulou em minha direção e me derrubou, fazendo com que meu pai ficasse alarmado e perdesse a concentração no que fazia, porém antes que ele se aproximasse de mim eu consegui me soltar das garras do monstruoso animal e finquei a adaga de prata diretamente em seu peito, no lado esquerdo. A fera emitiu um uivo de dor mas logo se silenciou, caindo sob o meu corpo. O empurrei e me levantei, ficando novamente em posição de ataque. O lobo alpha uivou enfurecido e todos vieram para cima de nós, travando uma luta mortal conosco. Um dos lobos se esgueirou pelas árvores próximo de Giovanni e outro se posicionou logo atrás de mim – aproveitando minha distração. Meu pai desviou o olhar momentaneamente para onde eu me encontrava e exclamou meu nome para que eu prestasse atenção no animal. Me virei e cravei ambas adagas no pescoço do lobo, porém antes que eu pudesse me vangloriar, escutei meu pai urrar de dor. Assim que o encarei, fiquei completamente atônita – os dentes afiados de um dos lobos estavam cravados contra seu braço esquerdo e ele tentava inutilmente retirar o animal dali. Ele gritou de dor quando o animal cravou as presas em seu bíceps e o dilacerou como se não fosse nada. Corri em sua direção, mas fui impedida de prosseguir por uma das feras que bloqueou meu caminho. Trinquei os dentes e fuzilei a besta com os olhos esmeraldas, mas assim que pensei em atacá-la ouvi meu pai gritar novamente – desta vez, muito pior. Meu olhar percorreu as árvores até que eles se chocaram contra o outro caçador repleto de sangue. O monstro havia imobilizado Giovanni e cravado as presas novamente contra seu corpo, agora, diretamente na jugular. Pude observar a jugular ser perfurada e o sangue jorrar contra o pêlo do animal, me fazendo expelir um grito agonizante que ecoou pelas árvores.
Os lobos uivaram e partiram para cima de mim de uma única vez, despertando em mim o ódio e a raiva que até então estavam adormecidos. Eles rosnavam alto enquanto partiam para cima de mim e eu me esquivava de seus ataques, os deixando cada vez mais furiosos. Eu estava completamente fora de mim, queria matá-los logo para conseguir salvar o meu pai, eu precisava salvá-lo. Saquei a arma e disparei as balas de prata contra os animais, derrubando e matando três deles de imediato. Os outros dois me atacaram furiosos e eu aproveitei o momento para fincar a lâmina de ambas as minhas adagas contra seus imundos corações enquanto eles urravam de dor, para o meu deleite. Por ultimo e não menos importante, eu desviei o olhar para o lobo alpha, aquele que havia causado os ferimentos no meu pai e ele estremeceu assim que meus olhos fuzilaram os seus. Pressionei os dedos contra o punhal e corri na direção da horrorosa criatura, dilacerando sua jugular antes mesmo que ele pudesse me atacar. Ele ganiu de dor e eu terminei de cortar sua garganta assim que ele voltou a forma humana, fazendo com que eu terminasse o serviço e o decapitasse.
Assim que terminei, corri até onde meu pai estava e me ajoelhei ao seu lado, levando ambas as mãos envoltas por luvas negras contra sua jugular, pressionando o ferimento na tentativa de estancar o sangramento. Ele estava terrivelmente pálido e seus lábios já estavam roxos. Ele tremia muito e expelia grunhidos inteligíveis. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, mas eu me mantive forte, eu tinha que salvá-lo, eu não queria ficar sozinha, afinal, ele era a única família que eu tinha.
“Papà, você vai ficar bem... Eu não vou deixar que você morra, eu não vou deixar, tá bem? Confie em mim.” – falei engasgada, temendo que ele já estivesse prestes a entrar em choque por conta da perda de sangue – “Andrà tutto bene (7).”
Ele utilizou suas últimas forças para pousar uma de suas mãos contra minha face, a acariciando com a ponta dos dedos enquanto fixava os olhos azuis cristalinos contra os meus. Giovanni esboçou um pequeno sorriso orgulhoso e seus lábios tremeram, ele tentava falar, mas as palavras não conseguiam sair como ele queria.
“Estou tão orgulhoso de ser seu pai, mia rosa... Você está tão linda, tão crescida...”
“Não se esforce, por favor... Vai perder mais sangue assim!” – exclamei em prantos e ele alargou o sorriso.
“Ti amo, Lilith. Mia... Figlia.”
Aquelas foram suas ultimas palavras, suas ultimas e tão sinceras palavras. Naquele momento um exímio caçador e pai havia ido embora e eu estava sozinha, desamparada. Seus olhos antes tão vívidos e cristalinos agora estavam vítreos como os de um brinquedo enquanto me encaravam e eu entrei em prantos, o agarrando e escorando meu rosto contra seu peito, tão desolada e solitária. Eu o amava muito como se ele fosse realmente meu pai de sangue, era minha única familia e assim que ele partiu foi como se uma parte de mim fosse embora com ele.
Assim que comuniquei as autoridades do Vaticano sobre termos concluido a missão e o ocorrido no campo de batalha, eles se predisporam a transportar o corpo do meu pai até a Igreja de Santa Maria della Vitoria, onde foi realizado sua missa e velório, em seguida sendo levado para a cripta, no subterrâneo.Logo após meu pai morrer, eu assumi as tarefas na Igreja mas logo percebi que aquele lugar só me trazia ainda mais desgosto e tristeza, não conseguiria mais viver ali sem a presença do homem que tornou tudo que conquistei na vida, possível. Permaneci ali até completar vinte e cinco anos, vagando os corredores e os jardins da igreja todos os dias, vme martirizando por não conseguir salvá-lo naquela noite. Outro padre foi convocado para assumir a Igreja e eu pude finalmente sair de lá. O Vaticano me convocou assim que soube da minha retirada da Igreja e me designou uma missão, fora do país. No início aquilo foi um choque, mas logo em seguida eu concordei com a ideia de visitar outro pais, aquilo com certeza faria bem para mim. Eu fui contratada para viajar até Londres, na Inglaterra, tendo a garantia de que teria um local para morar e missões diárias para serem postas em prática. Não pensei duas vezes e voltei até a Igreja onde passei toda minha vida, arrumando minhas malas e me despedindo do local e do meu amado pai. Dois dias depois eu estava dentro do avião, aterrissando no aeroporto de Londres, meu novo local de trabalho. Na primeira semana em que fiquei na cidade eu senti um terrível aperto no peito, sentia saudades da Itália e me sentia insegura, mas logo me acostumei com a solidão.
Eu resolvi reconhecer o terreno justo em uma noite chuvosa e gélida. Me enfiei dentro de um casaco preto que ia até meus joelhos e prendi meus longos e lisos cabelos ruivos em um rabo de cavalo falso, colocando em seguida o capuz. Eu caminhei pelas ruas, observando o movimento e os hábitos dos britanicos até que algo incomum chamou minha atenção enquanto eu atravessava a Westminster Bridge – um homem extremamente atraente, porém, com feições diferentes de um londrino comum e meu instinto me ordenou para seguí-lo. Eu me aproximava dele de forma sorrateira pela escuridão até que ele parou abruptamente, se virando em minha direção. Eu enfiei ambas as mãos contra o bolso do casaco, pronta para retirar as adagas. Um relâmpago disparou nos céus e iluminou toda a ponte, fazendo com que eu tivesse a chance de estudar as feições do homem mais detalhadamente.
Em meio a escuridão, dois pares de olhos se chocavam. O brilho dos meus olhos eram verdes e luminosos como as folhas das árvores e as estrelas, eram olhos ternos que transmitiam tanta calma e ao mesmo tempo, tristeza. Ouvi a maneira ousada dele se dirigir a mim e pulei do peitoril da ponte, pousando alguns metros a frente dele. Retirei o capuz para fitá-lo melhor, deixando minha pele alva como a neve os longos cabelos ruivos contrastarem contra meus lábios carmesim. Fiquei em silêncio enquanto analisava as expressões do homem, finalmente percebendo o que ele realmente era, a criatura que eu mais detestava e enojava, um lobisomem. Eu esbocei um sorriso cínico após sua resposta e respondi com uma voz tão suave quanto a melodia dos pássaros durante as manhãs ensolaradas.
“Scusate, pensei que animais irracionais não falavam, mas olha só, eu estava enganada.” – pendi a cabeça ao lado enquanto o encarava – “Você é adestrado, cãozinho.”
Dei outro sorriso cínico e passei ao lado dele lentamente, tentando transparecer calma apesar de o ódio e a fúria me consumirem sempre que meus caminhos se cruzavam com os de um lupino, eu definitivamente tinha de me controlar, mas era quase impossível. De alguma forma, aquele lupino me deixava nervosa e ao mesmo tempo tão aflita, eu só não sabia exatamente o porquê.

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