Northampton,

Fevereiro de 1985.

Já era noite na cidade e as ruas, como eram de se esperar, estavam vazias e silenciosas. Todos se encontravam em suas casas com as famílias aproveitando a volta após um longo dia com exceção de um casal que saía de uma residência apressadamente e com bagagens em mãos.

''Vamos depressa, logo eles estarão aqui. Espero chegarmos a tempo ao aeroporto, de forma nenhuma podemos deixar que nos encontre.''

''Não estamos nos arriscando demais?'' - disse a moça assustada — ''Digo, é a sua família! Você está abandonando a sua família!''

''Eu abandonaria qualquer coisa para ficar junto de ti, meu amor. Não vou abandoná-la e muito menos abandonar meu filho. Eles não vão fazer nada contra o NOSSO filho.''

O casal ficou em silêncio.

''Ouça-me'' - falou o rapaz enxugando as lágrimas da moça– ''Eu te amo. Nós vamos sair daqui e fazer a nossa própria história, longe de todos eles. Vai dar tudo certo e eles nunca mais vão nos incomodar, ok? Eu prometo.''

Ela apenas concordou com a cabeça e entrou no carro, olhando através do vidro sua casa e cidade sendo deixados para trás e imaginando como seria o futuro deles e do filho que esperava.

Cardiff,

Agosto de 2000.

A poucos meses de nosso aniversário de quinze anos, Sarah era a mais animada com os preparativos para a tão esperada festa do ano. Devido ao enorme entusiasmo dela a era o que mais ouvíamos na nossa escola, a Howell's School, e praticamente todos foram convidados para a festa.

Sarah é a minha irmã gêmea e foi ela que insistiu para fazermos uma festa de quinze anos juntos. Como era a princesinha da família, seu pedido foi atendido e eu, convencido a fazer parte dela. Nós nos dávamos super bem, sempre nos apoiando e, quando necessário, dando esporro quando alguém fazia algo errado. Ela possuía um longo cabelo castanho e seus olhos eram, assim como os meus, de um azul bem claro, o que atraía bastante atenção das pessoas principalmente na escola, mas para ela, bastava ter a atenção de apenas uma pessoa... Henry.

Henry era um ano mais velho que eu e um dos meus melhores amigos, o que não me agradava nem um pouco a aproximação de Sarah. Ele era o típico garoto playboy e mimado que sempre conseguia tudo o que queria e, para variar, sempre saía com várias garotas ao mesmo tempo. Fiquei surpreso quando Sarah pediu para ajudá-la a conquistar Henry, mas, mesmo assim, a apresentei ao garoto, achando que ele nem ia se interessar pelo simples fato de sempre preferir garotas da idade dele ou mais velhas. Para meu desapontamento, os dois passaram a se falar cada vez mais e um tempo depois a saírem juntos. O nome Henry passou a se tornar comum em nossa casa já que ela vivia comentando dele para mim ou para as amigas quando estavam no telefone.

Na festa eu ia ser o par e dançar a valsa com ela, mas com o recente namoro de Sarah e Henry, perdi meu posto. O namoro dos dois não me agradava, sempre achei que ele ia magoá-la, pois uma pessoa não muda tão rápido. Ele sempre dava toda a atenção, presentes e até mesmo tinha ataques de ciúmes. Não era o tipo dele acredite, eu o conhecia muito bem e por isso mesmo sempre alertava e ficava de olho no garoto. Mas toda a vigilância e cuidado não deu em nada, não consegui ajudá-la quando ela precisava, ao contrário, piorei ainda mais a situação.

Tudo o que achava a respeito de Henry se confirmou durante a preparação dos casais para a grande entrada, quando avistei Henry e mais alguns garotos conversavam discretamente, mas a única parte que consegui ouvir foi:

''É hoje que ela vai ser minha...''

Ao notar que estava por perto mudaram totalmente de assunto, dizendo o quanto a festa estava incrível e blá blá blá. Mas sei muito bem o que ouvi e foi o que bastou para prestar atenção em tudo o que fazia, principalmente quando estava junto à Sarah.

A pista de dança ficava sempre cheia de gente e as músicas eram ótimas. Enquanto observava os dois dançando, uma garota, provavelmente amiga de minha irmã, tomou a liberdade de me convidar para dançar. Tentei de todas as formas dispensar a dança, era péssimo nisso, mas a mesma era insistente demais. No final acabei cedendo e prometi apenas uma música à ela, o que foi pior coisa que pude ter feito. Perdi os dois de vista. Percorri os olhos ao redor do salão, mas eles já haviam sumido. Uma sensação de desespero e angústia passou a tomar conta de mim e, pode até parecer obsessão, paranoia ou qualquer coisa do tipo, sentia que algo ruim estava para acontecer.

Apenas algum tempo depois consegui encontrá-los próximo aos fundos do salão, uma das salas de vidro que não estávamos utilizando para a festa, sendo portanto, o local mais vazio, escuro e escondido que podiam escolher. Mas ao invés de encontrá-los aos beijos e amassos me deparei com Sarah sendo prensada sob a parede de vidro e Henry numa tentativa tomá-la à força. Ele havia rasgado parte de seu vestido e a segurava pelos braços enquanto usava suas pernas para afastar as coxas dela. Minha irmã soluçava enquanto inutilmente tentava se soltar dele e ao ver a cena, senti um misto de raiva e pavor. Corri na direção deles, libertando-a e logo em seguida deferindo um murro em seu rosto. Henry agora estava caído no chão se recuperando do golpe, algo que ele não teve como fazer, pois assim que estava prestes a se levantar parti para cima dele e comecei a socar seu rosto. Vi Sarah se aproximando para apartar a briga, implorando para tudo isso acabar, porém quando estendi meu braço para detê-la senti uma corrente elétrica percorrer por todo meu corpo e uma energia fluir sob meus membros superiores, fazendo com que tal energia a lançasse em direção a parede de vidro.

Sarah se chocou com a parede feito uma boneca, fazendo com que o vidro rachasse e logo em seguida quebrasse em mil pedaços. Estilhaços foram lançados por toda a parte, inclusive sob o corpo inconsciente de minha irmã. Olhei ao redor e tudo o que via era destruição. Henry estava desacordado devido aos socos e Sarah estava inconsciente sobre os pedaços de vidro caídos no chão.

Eu não conseguia acreditar no que havia feito. O que foi aquilo? Como consegui fazer aquilo? Fui até Sarah, apoiando sua cabeça em meu colo e tentando fazer com que acordasse, mas nada. Senti um desespero imenso ao vê-la daquela forma, ela não podia morrer, eu não podia perdê-la. É como dizem, irmãos gêmeos possuíam uma ligação inexplicável, algo dentro de mim dizia que ela ficaria viva, mas como? Tentei ouvir seu coração, mas não havia nenhum som. Seu coração já não estava batendo.

Encostei minha testa na sua implorando para que ficasse viva, para que não me abandonasse. Os momentos seguintes ocorreram de maneira meio que inconsciente, sentia que havia algo que poderia ser feito. Eu podia salvá-la. Me concentrei, respirei fundo e com a mão encostada em seu peito próximo ao coração, deixei a mesma energia que senti anteriormente fluir sob a palma de minha mão. Pude sentir logo depois o coração que antes batia fracamente pulsar novamente.

Lágrimas de felicidade começaram a rolar por todo o meu rosto, não estava acreditando no que havia feito. Não acreditava que Sarah estava viva. Percebi que ela estava recobrando a consciência e logo depois começava a abrir os olhos. Ela olhava fixamente para mim. Nenhuma reação, apenas ficava me olhando.

''Seus olhos...'' — falou– ''O que você fez?''

Em um primeiro momento não havia entendido. Pensei que ela estava meio confusa devido ao choque, mas havia sim, algo diferente. Só que saberia disso futuramente. O barulho da parede de vidro se quebrando fez com que a festa praticamente parasse. Meus pais vieram correndo para saber o que tinha acontecido e, assim que avistaram Sarah desacordada por entre os pedaços de vidro espalhados, entraram em pânico. Minha mãe soluçava enquanto ligava para a emergência, mas meu pai não parecia tão assustado, ele simplesmente me agarrou pela camisa e me puxou para longe da confusão já que, com o barulho da parede se quebrando os convidados da festa começaram a se amontoar. Fomos para o estacionamento e logo em seguida para o carro. Ele estava me levando para casa.

Seguimos o caminho todo em silêncio e assim que entramos em casa meu pai me encaminhou diretamente para a biblioteca. Estava desolado, não sabia o que falar e muito menos o que meu pai viria a dizer. Ele puxou uma cadeira para ficarmos frente a frente e olhava para o chão como se estivesse organizando seus pensamentos.

‘’Logan, me diga, o que aconteceu lá? ’’ – disse ele, interrompendo o silêncio- ‘’Por favor, me fale que você não fez tudo aquilo que aconteceu na festa...’’

‘’Eu... eu...’’ – minha voz não saía, eu não sabia o que falar, ou melhor, como explicar.

‘’Escute meu filho, sei que aconteceram algumas coisas que você não sabe explicar, mas confie em mim, preciso saber o que houve para te ajudar. Tudo, exatamente tudo. ’’

A princípio, não quis contar sobre aquele poder que senti e que ainda fluía dentro de mim. Contei a ele sobre como tudo aconteceu naquela sala, incluindo a hora em que acidentalmente joguei Sarah contra a parede de vidro e como minutos antes de chegarem havia conseguido trazer minha irmã de volta à vida.

‘’Por favor pai, sei que pode parecer estranho, maluco e impossível, mas o senhor precisa acreditar em mim. Não me leve a um manicômio ou coisa do tipo...’’ – implorei já soluçando e me ajoelhando a seus pés – ‘’Por favor, por favor...’’

‘’Não vou meu filho, eu acredito em você...’’ – falou, segurando em meus braços e me ajudando a sentar no sofá novamente – ‘’Escute, preciso lhe contar algo... ’’

Meus pais vieram de Northampton e, segundo meu pai, foi amor à primeira vista. Minha mãe vinha de uma família simples e modesta enquanto meu pai era de uma família muito tradicional e com uma diferença: ele era de uma família de bruxos. Uma longa linha linhagem de bruxos que habitavam aquela região há séculos. Claro que, por serem tão tradicionais, a família dele não aprovava o casamento com minha mãe. Tempos depois, mesmo desafiando a família, meu pai passou a morar junto com minha mãe em uma pequena casa e logo depois ela engravidou. Eles achavam que a família dele poderia fazer algo contra o bebê e então resolveram partir. Foi assim que vieram à Cardiff e, ao invés de terem um filho, tiveram dois. Gêmeos. Eu e Sarah.

Meu pai achava que nenhum de nós teríamos herdado os poderes da grande linhagem de bruxos, mas no final, eu herdei e, possivelmente ainda no útero de minha mãe, roubei os poderes que Sarah viria a ter. O único problema foi ter descoberto da pior forma possível.

Eles nunca falavam do passado deles e agora sabia o motivo. Tentei absorver o tanto de informação e acontecimentos que tive por dia só. Era demais para a minha cabeça. Segui as recomendações dele e fiquei em casa tentando colocar a cabeça em ordem e descansar enquanto tentava arranjar alguma solução, o que foi praticamente impossível já que a cena de Sarah sendo atirada contra a parede e logo depois morta não saía da minha cabeça. Eu me sentia culpado demais. Meu pai acabou indo para o hospital, pois minha mãe havia ligado e informado que também havia policiais querendo informações de Sarah sobre o que havia acontecido.

Não aguentando mais a falta de informação, liguei para meu pai. Sarah colocou a culpa em Henry por tudo o que aconteceu, me inocentando. Segundo ela, eu estava apenas ajudando-a enquanto Henry tentava se aproveitar dela.

Não podia mais suportar aquilo. Queria sair daquela casa, daquela cidade, queria fugir. Imaginei que meus pais fossem demorar em chegar e assim, comecei a arrumar uma mochila apenas com o necessário para sair dali.

Já estava amanhecendo quando saí de casa. Não deixei nenhum bilhete, apenas peguei todas as minhas economias e parti.

Londres,

Abril de 2014

Era mais uma sexta-feira chuvosa em Londres. Jensen havia ligado e insistia para que saísse com ele e mais dois amigos para o bar, alegando que eu quase nunca saía e que precisava me distrair mais e fazer novos amigos. Na boa, não queria fazer amigos, ainda mais se fossem bêbados como geralmente eram os amigos de Jensen. Gostava de ficar quieto em meu apartamento, sem ninguém para ficar falando e me irritando. Mas depois de tanto insistir resolvi aceitar o convite.

Foi um porre. O bar era a algumas quadras de meu prédio, o que me possibilitava ir e voltar a pé, mas os amigos dele eram realmente uns bêbados e que falavam apenas asneiras e me irritava constantemente com as brincadeiras idiotas. Jensen percebeu minha irritação e para se desculpar até prometeu me levar sem eles ao bar novamente, e claro, recusei. Quando resolvemos ir embora chovia muito e à medida em que íamos caminhando pelas ruas a chuva aumentava cada vez mais. Os rapazes, amigos de Jensen, andavam como se nunca tivessem visto a chuva, rindo e fazendo ainda mais brincadeiras e chutando poças d’água que se formavam. Fiquei a alguns passos atrás do grupo, me dando chance de observá-los melhor e ficar na minha. Do outro lado da rua, um rapaz tentava acender um cigarro em meio a chuva, desistindo logo depois de perceber que seria uma tentativa inútil para aquele momento. Notei que ele nos observava enquanto passávamos pela rua, mas pressenti que havia algo diferente nele. Não consegui ver seu rosto, era como se ele não fosse comum como os humanos normais... Era como se ele fosse igual a mim.

Ele não poderia ser outro bruxo, poderia? A chuva aumentava cada vez mais, puxei meu capuz e segui a caminho de meu prédio, tentando arranjar alguma explicação, mas não me vinha nada em mente. Já estava próximo ao prédio quando me despedi do grupo, preferia seguir o restante sozinho.

Um doce e envolvente aroma de rosas invadiu minhas narinas e instintivamente ergui o rosto na direção de uma bela jovem que caminhava na direção oposta a minha, mas ela já estava próxima demais, e nossos ombros se chocaram. Durante este breve contato que parecia passar em câmera lenta, meus olhos se chocaram contra o belo par de olhos esmeraldas que ela possuía e eu fiquei hipnotizado por sua beleza tão incomum. Ela tinha longos cabelos ruivos que contrastavam com sua pele alva e seus lábios naturalmente rubros e carnudos. Sem proferir uma palavra sequer, ela voltou seu caminho em um passo apressado. Mais por instinto do que qualquer outra coisa, olhei novamente para o local onde o homem com o cigarro estavam, mas ele não se encontrava mais ali. Virando-me de frente para a direção onde a mulher havia seguido, ponderei se deveria segui-la. Levando minha mão em direção ao ombro que havia trombado com ela, pensei no que havia sentido no momento em que nossos olhos se cruzaram. Assim como o homem com o cigarro, tive certeza que ela não era normal. Sem hesitar, e sendo vencido pela curiosidade, mudei meu trajeto, seguindo o mesmo caminho que a mulher ruiva, indo em direção à Westminster Bridge, sem saber o que me esperava a seguir.

Notas finais
Capítulo por AyuumiK