Broken & Bounded

4 Alexander Scherbítsky


A mulher ruiva passou pelo meu lado, fazendo com que eu me virasse para poder encará-la. Embora minha expressão e meu corpo houvessem relaxado, eu mantinha meus músculos das pernas tensos, preparado para pular em sua direção, ou para me esquivar de um possível ataque o mais rápido possível. Coloquei minhas mãos nos bolsos da minha jaqueta camurça bege enquanto analisava seu comportamento corpóreo em busca de qualquer sinal que pudesse indicar quais eram suas intenções.

– Como se em 15 anos, eu nunca tivesse ouvido esse trocadilho... Deixe-me poupar seu tempo. — Tirando minhas mãos dos bolsos, comecei a contar utilizando meus dedos — Cachorrinho, Vira-Lata, Saco de Pulgas... Já ouvi todos, e nenhum deles me afetam mais. A grande pergunta é: O que a 'grande' Signora della notte (1) está fazendo sozinha à noite na chuva em uma ponte em Londres? Uma pessoa tão delicada como você pode se machucar, ou pior, quebrar uma unha.

Estampei em meu rosto um sorriso sarcástico, esperando pela resposta da caçadora à minha frente. Quando não se é humano, é necessário conhecer o maior números possível de pessoas que possam querer nos ferir e, durante minhas conversas com outros lobisomens, o nome de Artémis, a mulher à minha frente, surgiu diversas vezes. Entretanto, haviam divergências com relação à periculosidade que ela impunha em nossa sociedade. Alguns dos lobisomens achavam que ela era apenas mais uma daquelas pessoas que viam filmes e liam livros, e já se achavam na capacidade total de procurar e matar criaturas sobrenaturais, portanto, esses poucos que tinham essa linha de pensamento, riam dela em silêncio, e forjavam situações nas quais ela poderia aparecer no intuito de colocá-la em seu lugar. O resto da população lupina, entretanto, sabia melhor. Eles haviam ouvido as histórias, e acreditavam nelas. A mais contada era a de quando ela sozinha derrotou um bando inteiro no dia em que seu pai adotivo fora morto. Isto apenas era motivo o suficiente para que os seres não-humanos mantivessem distância. Eu fazia parte deste segundo grupo, e durante minha estadia com o meu bando ouvi Dimitry falar uma frase todas as vezes que algum Alpha vizinho tentava nos provocar para começar uma guerra: "Nunca entre em uma briga a não ser que tenha certeza absoluta de que pode ganhar." Eu sabia que com Artémis, essa frase se aplicava perfeitamente. Ela esboçou um largo sorriso enquanto eu falava, fitando-me diretamente nos olhos quando acabei, estreitando as pálpebras e transformando seu sorriso largo em um cínico.

– Tutto bene(2). Ficou preocupado, lobinho? Interessante... Seria melhor você não me subestimar... Você ficaria impressionado com o que eu posso fazer.

Coloquei novamente minhas mãos em meus bolsos olhando-a de cima. Umedeci meus lábios, sem quebrar o contato visual, mas dando passos para traz, tentando aumentar a distancia entre nós. Quando estava a uma distancia que eu considerava segura, abaixei minha cabeça, e abri meus braços, como que fazendo uma reverencia.

– Isto é um convite, notchnaya dáma (3)?

Seu sorriso se desfez instantaneamente, e seu rosto ficou sério. Pude notar também sua mandíbula travar quando ela cruzou os braços em cima do peito.

– Eu nunca convidaria um lobo para uma briga. Não me rebaixo a este nível.

Levantei meu tronco, voltando a colocar as mãos nos bolsos da jaqueta mais uma vez, estampando um sorriso torto em meu rosto.

– Agora é você quem esta errando ao me subestimar, e eu adoraria ficar para te mostrar como você está errando, mas eu odiaria que você pegasse um resfriado por ficar nesta chuva. Podemos remarcar então?

Tirei com a mão o cabelo que caia de cima de meus olhos devido à intensa chuva que não dava sinais de parar.

– Erro é algo inadmissível para alguém como eu. Você deveria morder a língua e ficar calado. Não é o primeiro e não será o último que me enfrenta desta forma, lobo.

– Esquentadinha, não? Sei que não sou o primeiro, mas tem certeza de que não serei o último?

Novamente fixei meus olhos nos dela, e parte de mim se surpreendeu quando não a vi oscilar nem um segundo com a minha indagação. Aquela mulher tinha mais fibra do que todas as historias contavam.

– Absoluta certeza. Agora, se me der licença, eu tenho outros assuntos a resolver. Vamos marcar um reencontro. — Ela deu um sorriso suave, e pude ver um ar brincalhão alcançar seus olhos — Vou adorar te ver novamente, cachorrinho."

Coloquei minha mão direita espalmada em cima do meu peito, e fiz uma expressão chocada ao ouvir as palavras que saíram de sua boca.

– Oh! Me sinto lisonjeado! E qual seria este assunto que irá retirá-la de minha ilustre presença?

Seu sorriso se alargou, e seus olhos brilharam de diversão. Esta mulher que a instantes estava tensa e preparada para me atacar, agia agora como uma simples garota normal de sua idade. Realmente, ela parecia ser cheia de surpresas. Ela me encarou com uma expressão de mágoa que era nitidamente fingida.

– Que indelicadeza de sua parte. Nunca se deve perguntar a uma dama algo desse tipo. — A mágoa fingida sumiu rapidamente de seu rosto, dando lugar à uma expressão confusa. — Huumm. Você tem um nome, ou vou ter que de chamar por apelidos?

O sorriso torto voltou a enfeitar meu rosto, enquanto ponderava se devia ou não responder sua pergunta verdadeiramente.

– Lobos nunca foram conhecidos por sua educação, neste ponto devo concordar com você. Mas ainda assim, melhor ser mal educado do que ser tedioso e antiquado como os vampiros. — Dando de ombros, e novamente tirando de minha vista o cabelo que estava sendo prensado contra a minha testa, arrisquei me aproximar alguns passos dela. — Além disso, é muito mais divertido ser assim. E sobre o meu nome, talvez você devesse me torturar para eu revelá-lo para você... Afinal, esta é sua especialidade com lobos, não? Ou você possui outras 'especialidades' que eludiram às histórias?

Com uma expressão pensativa ela quebrou o contato visual, olhando para o céu escuro de onde a chuva continuava a cair torrencialmente, e levando uma das mãos ao queixo, Ártemis ponderou na minha frente, pesando as palavras que eu havia falado.

– Nisso você tem razão, lobo. — Ela voltou seu olhar para mim, com um sorriso que escondia quais quer que fossem suas intenções. — Te torturar? Talvez isso seja uma boa ideia... Eu gostaria de um privilegio como este."

– Novamente você me lisonjeia. — Eu respondi, mais uma vez levando uma mão espalmada sobre o peito. — Considera que me torturar seria um privilégio! Mas não será necessário. Minhá zavut Alexander Scherbitsky (4).

– Alexander. — Ela repetiu, com um ar pensativo, sentindo como meu nome soava em sua boca, e em sua própria pronúncia. — É um belo nome, devo dizer. Como já ouviu falar de mim, acredito que saiba o meu também...

– Como não conhecer a infame notchnaya dáma (1)? Seu nome já corre através de contos e lendas da sociedade sobrenatural... — Levantei a mão esquerda até meu rosto e cocei meu queixo. — Devo dizer que fiquei impressionado com a velocidade com a qual fez sua fama..."

– Grazie (5). Não foi o único quem ficou impressionado. Ouvi isso diversas vezes já. É bom saber que meu nome está presente nos contos e lendas. Acho isso revigorante.

Pela terceira vez naquela noite, passei a mão pelos cabelos, começando a me irritar com aquela maldita chuva que permanecia insistentemente.

– Revigorante? Eu acharia isso um empecilho. Deve ser extremamente irritante você sair pela rua e todas as pessoas conhecerem você, ou pelo menos conhecerem seu nome. Sou muito mais a favor do anonimato. Dessa forma... — Fixei mais uma vez meus olhos nos dela, e desta vez, mesmo embaixo de toda aquela água que não parava de cair, pude jurar que a vi corar sutilmente — ... é mais difícil ser pego, se você fizer algo errado.

Observei quando ela arqueou as sobrancelhas e me encarou diretamente nos olhos, estreitando as pálpebras.

– Nisso eu não posso concordar com você. Gosto de ter a minha "fama", como você diz. Afinal, sempre existem aqueles que não acreditam na minha capacidade e eu acho divertido quando eles descobrem por si próprios. — Ela esboçou um sorriso travesso, mordendo suavemente o lábio inferior — Eu gosto de caçar aqueles que preferem o anonimato, eles são os mais interessantes.

Foi então que eu percebi seu jogo. Inconscientemente eu havia abaixado todas as minhas guardas, relaxando todo o meu corpo enquanto me envolvia na conversa com Artémis. Observando-a com um olhar mais clínico, percebi o que eu via nela que havia me afetado. Ela era ridiculamente parecida com Aniya, podendo até serem consideradas irmãs. Entendendo seu jogo, voltei a tencionar meus músculos pronto para uma eventual fuga, ou ataque, e comecei a pensar em uma forma de sair dali, me afastando desta mulher que cada vez mais fazia jus à sua fama.

– E eu adoraria lhe dar o prazer de uma boa caçada, mas, como você disse, você tem um compromisso, e eu também tenho os meus. Além do mais, — Corri uma mão pelos cabelos ensopados, deixando-a ali, na intenção de deixar minha franja fora de meu rosto permanentemente — essa chuva infernal parece que nunca irá parar, e...

– Talvez eu possa ajudar com isso...

Tanto eu quanto Artémis nos viramos para olhar na direção de onde a voz emanava. Devido à intensidade da chuva, consegui ver apenas um vulto parado no meio da rua. Vi também este mesmo vulto levantar um dos braços, e logo em seguida, dois pontos amarelos surgirem e desaparecerem quase instantaneamente, mas que conseguiram iluminar de forma tênue o rosto do rapaz. Ao nosso redor, e apenas ao nosso redor, a chuva parou de cair. Era como se estivéssemos em baixo de um enorme guarda-chuva que nos guardava da tempestade que ainda assolava Londres naquela madrugada. Olhei para cima para tentar entender o que havia acontecido, mas o céu continuava igual à antes. Completamente forrado com pesadas nuvens de chuva. Olhando de relance para Artémis, pude ver que ela estava tão chocada quanto eu, e nós dois nos viramos quando o homem entrava em baixo do 'guarda-chuva invisível' que, aparentemente, ele havia criado.

– Então, eu estava certo... Nenhum de vocês são humanos normais...

Ele, que agora se fazia visível, estava completamente seco, mas não possuía nada em suas mãos que pudesse protegê-lo da chuva. Tinha o cabelo preto espetado, os olhos de um azul cristalino, e aparentava ter a mesma idade que eu. Enquanto eu abria e fechava minha boca tentando entender o que estava acontecendo e o que este homem queria, Artémis tomou as rédeas da situação.

– Isso que vocês fez... Eu nunca vi isso antes... — Eu me virei para ela, ainda tentando achar palavras, e reparei que ela tinha o cabelo todo por sobre um ombro, e o torcia, tentando livrá-lo de toda a água que ele havia acumulado durante a chuva. — Isso com toda a certeza é magia, mas... Eu nunca havia me deparado com isso durante todos estes anos... Quem é você afinal?

– Espere um momento. Você quer me dizer que magia é real? Acredito em vampiros e, obviamente, lobisomens, mas... Magia...? Então Harry Potter é uma história verídica? Devo começar a me preocupar com Comensais da Morte, e procurar Lupin por ai para trocarmos dicas sobre 'Como Viver Na Sociedade Moderna Sendo Um Lobisomem'?

O homem de olhos azuis começou a rir, parando do meu lado direito, enquanto Artémis me encarava com uma sobrancelha erguida e descrente com o que eu havia acabado de falar.

– Obviamente que não. Magia existe, mas não do modo que é retratado nos filmes e livros atuais. Além do mais, caso você não se lembre, Lupin morre na guerra em Hogwarts, portanto seria inútil você ir atrás dele de qualquer forma. Magia no mundo real é algo absurdamente raro. A maioria dos ilusionistas são apenas isso, pessoas que controlam ilusões, mas alguns poucos deles realmente tem o poder de fazer as coisas mudarem de cor, ou se teletransportarem, ou, como você pode ver, criar uma barreira que impede a chuva de nos molhar. Os poucos bruxos que existem são catalogados pelo Vaticano, ou pelo menos suas famílias são, já que os poderes são transferidos de pais para filhos. Da última vez que chequei os arquivos, não li sobre ninguém que se encaixasse com o seu perfil, portanto, eu realmente gostaria de saber: Quem é você?

O homem sorriu abertamente, e antes de responder, suspirou fortemente. Era como se ele estivesse prendendo a respiração por muito tempo, ou estivesse carregando um fardo extremamente pesado, e finalmente ele era capaz de se livrar deste fardo. Olhando para cada um de nós lentamente, ele fez seus olhos brilharem amarelos, o que explicava os dois pontos luminosos que eu havia visto a poucos instantes, e falou.

– Meu nome, é Logan Griffith.

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Notas finais
Traduções: (1) - Senhora da Noite (2) - Tudo bem. (3) - Dama da Noite (4) - Me chamo Alexander Sherbítsky (5) - Obrigada Capítulo por NUgriumov