Broken & Bounded
1 Alexander Scherbítsky
A chuva caía lenta e constantemente molhando meu rosto, meus cabelos e minhas roupas, fazendo quase impossível para mim continuar a fumar o cigarro que tinha em meus lábios. Tento acende-lo novamente, mas desisto, jogando-o frustrado no chão, e vejo o cigarro, agora amassado, correr pela água acumulada na sarjeta e cair dentro do bueiro mais próximo. Do outro lado da rua, vejo um grupo de jovens adultos andarem apressados pela chuva, que ficava cada vez mais forte, rindo espalhafatosamente, pulando e chutando as poças de água que se formaram em sua frente. À alguns anos, eu era uma dessas pessoas, que riam descontraidamente com os amigos, ignorando algo tão trivial como a chuva, mas isso foi antes. Antes de eu me juntar ao bando; de eu me tornar seu líder. Antes de eu ser traído por aqueles que mais importavam para mim, não uma, mas duas vezes.
Quando tinha 10 anos, eu e meus pais saímos de Severouralsk, uma cidade com um pouco mais de 29.000 habitantes localizada próximo à base dos Montes Urais, e fomos passar duas semanas na Espanha. Venho de uma família tradicional desta cidade e que desde a sua fundação, em 1758, criou sua fama e sua riqueza a partir da extração de ferro e cobre, mudando para a mineração e manuseio de bauxita em 1931. Tendo em vista tudo isto, duas semanas na Espanha não eram nada para nossa família, financeiramente falando, mesmo nós sendo de uma pequena cidade do interior da Rússia. Foram duas semanas incrivelmente agradáveis, até o dia anterior ao da nossa volta para casa. Havíamos nos separado de nosso guia para podermos aproveitar a vista que se expandia à nossa frente, então sentamos próximos à fronteira de uma floresta ao topo de uma colina e enquanto meus pais observavam o sol caminhar em direção ao mar em um belíssimo pôr do sol, eu, como o aventureiro que era naquela idade, resolvi explorar a floresta. Foi então que eu o vi. Primeiramente, não era nada além de dois pontos amarelos me olhando entre os arbustos, mas ele não demorou em mostrar sua cabeça maciça com pequenas orelhas triangulares. Seus lábios estavam repuxados mostrando duas fileiras de dentes brancos afiados e ameaçadores. Lábios estes que eram contornados por uma área de pelo branco-sujo que lhe cobria a parte superior da boca. Seu pelo era de um castanho amarelado, exceto nas patas dianteiras, onde havia uma faixa negra vertical em cada uma.O lobo, que era quase do meu tamanho na época, se aproximou vagarosamente, fazendo praticamente nenhum barulho mesmo com o chão coberto de folhas secas e gravetos. No momento em que me virei para correr, pude sentir suas patas em minhas costas quando ele pulou, me fazendo cair no chão, e em seguida, sua boca se fechando em meu braço direito.
Os dias seguintes para mim sempre foram um borrão. Lembro-me vagamente de ser arrastado para dentro da floresta e em seguida, lembro-me de meu pai berrando, tentando afugentar o lobo. Tenho algumas vagas memórias de quartos de hospitais, e de estarmos em um avião. Mas minha memória apenas se torna nítida quando já estava em casa, com a ferida em meu braço quase completamente cicatrizada. Nos 5 anos seguintes, nada aconteceu. Minha vida continuou normalmente, até eu atingir a puberdade. Quando as pessoas falam das mudanças que nós passamos nesta época de nossas vidas, elas com certeza não se referem ao que eu passei. Eu podia sentir todos os ossos do meu corpo se quebrarem e se juntarem novamente, tomando formas completamente diferentes; minha pele se rasgava revelando trechos de pele coberta por pelo espesso e grosso; meus dentes caiam de minha boca como se nunca estivessem realmente afixados à minha mandíbula, e eram substituídos por presas afiadas que cortavam minha língua e minhas bochechas. Até que então, tudo parou simultaneamente. Eu me movia agora com 4 pernas ao invés de 2, e minha visão havia ido de colorida para preta e branca. Com um pouco de dificuldade, consegui chegar até o espelho que havia em meu quarto e ao me olhar nele, vi um par de olhos amarelos brilhantes me encarando, rodeados por um pelo com manchas pretas, e castanho avermelhadas. A mesma mancha branca-suja sobre os lábios que eu havia visto no lobo que me atacara agora estava em meu rosto, assim como as faixas negras em cada uma das minhas patas dianteiras. Quando sai pela porta aberta do meu quarto e desci as escadas, fui de encontro com meu pai, que teve apenas que esticar sua mão esquerda para conseguir alcançar a espingarda que sempre utilizávamos em nossas caçadas. Lembro-me que ao tentar aprender a correr, consegui derrubar quase todos os móveis da nossa casa, fazendo com que vários destes caíssem em cima de mim abrindo pequenos cortes na minha recém criada pele, o que fez com que pequenos filetes de sangue sujassem meu novo pelo. Apenas consegui fugir com vida quando minha mãe abriu a porta da frente enquanto chegava em casa, me dando a única oportunidade que eu podia ver de sobreviver à fúria de meu pai. Ao sair na rua, já mais acostumado com minhas quatro patas, continuei a correr, sempre seguindo ao norte, imaginando que ali eu estaria a salvo das armas dos homens. Como eu estava errado.
Eu era um lobo escuro, e estava me embrenhando nos desertos nevados do norte da Rússia. Tentei utilizar todas as técnicas de caça que meu pai havia me ensinado durante minha vida, e juntei estas técnicas com o que havia visto sobre lobos em documentários, mas tudo foi inútil. Coelhos que se camuflavam perfeitamente na neve com sua pelagem branca conseguiam me ver antes que eu conseguisse me esconder, e o mesmo acontecia com renas e bisontes. Fui obrigado a voltar à civilização, e sempre que conseguia me esgueirar, derrubava latas de lixo e me alimentava de sobras, ou, quando tinha sorte, conseguia roubar pedaços de carne que haviam sido esfoladas e estavam curtindo em tempero do lado de fora das casas, mas isso raramente acontecia. Durante 7 anos vivi em pele de lobo, e durante 7 anos passei fome, frio e medo. Aparentemente o lobo no qual eu havia me transformado era uma espécie que existia apenas na Península Portuguesa, e achar um Lobo Ibérico no norte da Rússia começou a atrair a atenção de diversos caçadores não apenas da região, mas de vários locais da Ásia, e até da Europa. Com isso, fui obrigado a fugir, sendo empurrado por armadilhas e caçadores cada vez mais para o Oeste, sendo forçado a escalar os Urais. O vento frio e a neve em minhas patas não me incomodavam, mas tudo mudou quando comecei a escalar a montanha. As rochas eram afiadas e me cortavam as patas, fazendo com que elas sangrassem e ficassem mais sensíveis à neve. O vento se tornava cada vez mais forte, e por vezes me derrubava fazendo com que todo o progresso de um dia fosse desprezado. Quanto mais eu subia, menos animais eu encontrava, e a minha forma já miúda e magra se tornava ainda mais esquelética, com minhas costelas pressionando e aparecendo sob a minha pele. Finalmente consegui alcançar o topo da montanha que estava escalando, e minha descida foi um misto de tropeços, quedas, cortes e pancadas. Usei todas as minhas forças para continuar andando para fugir de possíveis caçadores e do frio cortante que havia acabado de escapar. Não pude acreditar quando minhas patas tocaram terra e grama macias e, sentindo o sol aquecer meu pelo, desmaiei em meio a uma paisagem primaveral.
Acordei cercado de pessoas me olhando e tentando me hidratar. Forcei meus músculos a funcionarem, mas eles falharam, e eu voltei a cair deitado. Elas falavam comigo como seu eu fosse uma pessoa, e não um lobo, e isso despertou minha curiosidade. Resolvi, pela primeira vez desde que havia me tornado um lobo, confiar em seres humanos. Com apenas o que eu ouvia de conversas paralelas, consegui descobrir pouco sobre este grupo de pessoas que havia me resgatado. Estávamos em uma casa simples, e o clima era consideravelmente mais quente do que eu estava acostumado, o que para mim foi um alívio. Aparentemente havia um líder, cujo nome era Dimitry, mas às vezes os membros do grupo o chamavam de Alpha. O conheci apenas após estar quase completamente curado, e foi neste dia que eu descobri que podia voltar a ser humano. Neste mesmo dia descobri que aquele grupo não era apenas uma espécie de 'Proteção aos Animais' como eu havia chegado a pensar, mas sim um 'Bando' e todas as pessoas que eu havia visto nos dias anteriores eram como eu. Éramos todos lobisomens.
Nos 8 anos seguintes que passei com este Bando, aprendi inúmeras coisas que nunca imaginava. Eles me explicaram que minha transformação ocorreu com 5 anos de atraso por que ela foi ativada pela grande quantidade de testosterona que o corpo humano produz no período da puberdade; me explicaram também que dentro dos bandos, os lobisomens eram classificados em Alpha, Beta e Omega, sendo o primeiro o líder do bando, o segundo, os membros do bando, e o último os lobos solitários. De acordo com eles também, eu tive muita sorte em ter sobrevivido, principalmente por causa da espécie de lobo que eu havia me tornado. Me explicaram que a espécie de lobo em que nos transformamos varia dependendo da nacionalidade do lobo que transmitiu o gene da lycantropia. Antigamente era isso o que possibilitava saber de onde certos lobisomens eram, embora isso também facilitasse a identificação desses lobisomens, entretanto, atualmente, com a globalização e a facilidade de se locomover por longas distancias, a identificação ficou mais difícil pois existiam diversos casos parecidos com o meu. Ainda durante estes 8 anos, eu fui capaz de desenvolver minha musculatura, tanto como homem quanto como lobo, perdendo a aparência miúda que eu possuía e assumindo uma estrutura altiva e forte; consegui aprender a controlar a transformação, exceto em dias de lua cheia; comecei a me aproximar de uma das mulheres do bando, me apaixonando rapidamente por ela. Seu nome era Aniya, seu longo cabelo era castanho acobreado, e tinha os olhos verde-claros mais lindos que eu já havia visto. Passávamos mais tempo juntos do que com o resto do bando, inclusive quando estávamos na forma de lobos. Ela se transformava em um belíssimo Lobo da Tundra branco com delicadas manchas cinzas e amarelo claras, o que ressaltavam seus olhos e nariz, que ficavam completamente pretos após a transformação. Com o meu desenvolvimento corpóreo, e agora tendo mais vantagens na hora de caçar, visto que minha pelagem se misturava mais facilmente com o ambiente, comecei a subir nos níveis dentro do bando, chegando a ser o braço direito do Alpha em pouquíssimo tempo. Dimitry começou a me ensinar sobre a política dos bandos, e sobre os territórios de cada um. Fiquei surpreso com a quantidade de grupos de lobisomens que existiam apenas nesta região da Rússia, e sabia que teria dificuldade em decorar seus nomes e seus limites de terras. Com o passar dos anos, alguns dos membros do bando começaram a discordar de decisões e ações que nosso Alpha tomava ou deixava de tomar, juntando-se eles à mim. Embora no início fossem apenas poucos, começaram a aparecer brigas dentro do bando entre os 'lados', deixando alguns dos nossos feridos e até mutilados. Sendo forçado a tomar uma decisão que resolvesse o problema, desafiei Dimitry para uma luta pela posição de líder, e, pelas normas, ele foi obrigado a aceitar o desafio. Foi uma luta sangrenta que me deixou com uma cicatriz permanente no rosto indo do meu olho direito até meu queixo, mas após quase 1 hora de briga, consegui subjulgar Dimitry, que foi obrigado a se rebaixar para Omega e abandonar o bando. Agora tinha 27 anos, e era o Alpha.
Nosso bando prosperava, eu tinha uma mulher que eu amava, e todos os Betas me aceitavam como seu líder sem reclamações. Eu estava vivendo uma época áurea, e nem percebia. Contudo, como acontece com todos os impérios, uma hora tudo vem a baixo. Nosso bando foi atacado sem aviso e sem insinuações por um bando vizinho com o qual nunca havíamos tido problemas. Estávamos em menor número, e completamente despreparados. Dois terços do meu bando morreu naquele dia, e o um terço restante se juntou ao bando inimigo. Entretanto, o que mais pesou em mim, foi que a pessoa que liderava o outro bando, que organizou o ataque e que massacrou todos meus irmãos e irmãs havia sido Dimitry. O plano dele havia entrado em execução quando o bando começou a se separar, me apoiando ao invés dele. Tudo, desde o 'motim' até a briga, havia sido planejado para que eu perdesse todo o meu poder dentro do bando e fosse expulso. Dimitry estava começando a se sentir ameaçado pelo meu rápido desenvolvimento, e, pelas leis do bando, um lobisomem não pode ser exilado sem um motivo prévio. Agora com o bando todo a seu lado novamente, inclusive Aniya, eu havia caído de Alpha de volta para Omega. Tomado de raiva, mágoa e ceticismo, parti novamente em uma jornada solitária, continuando meu caminho para o oeste, em busca de algo que pudesse acalmar estes sentimentos dentro de mim.
Quatro anos após minha queda para Omega, é onde me encontro agora, vendo aqueles jovens adultos rirem descontraidamente na chuva. Respiro fundo, e começo a andar sem rumo pelas ruas vazias na madrugada. Dentro de mim, o homem que deveria existir é reprimido pelos instintos do lobo, que só pensa em sobreviver. Os cheiros da movimentada cidade são lavados e confusos por causa da água que cai, agora, torrencialmente. Mas o lobo não se importa em se encharcar. Estou em cima de uma ponte quando um cheiro forte consegue quebrar a confusão da chuva, e me invade as narinas. Eu me viro abruptamente já em posição de ataque, pronto para me transformar ao menor sinal de movimento, quando um relâmpago ilumina uma silueta parada em pé no peitoril da ponte.
– Heh, é só você... Achei que fosse alguém importante...
Atrás de mim, eu pude ouvir claramente quando o famoso sino Big Ben badalava informando que eram exatamente meia noite.
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