Broken Arrows
2 Give Me Love
Notas iniciais
Capítulo 2 Broken Arrows – Give Me Love
Give me love like never before
'Cause lately I've been craving more
And it's been a while but I still feel the same
Maybe I should let you go
You know I'll fight my corner
And that tonight I'll call ya
After my blood, is drowning in alcohol
No I just wanna hold ya
Give a little time to me, we'll burn this out
We'll play hide and seek, to turn this around
All I want is the taste that your lips allow
My my, my my, oh give me love
Ele lentamente abriu as pálpebras pesadas. Sua cabeça estava latejando e a sua boca estava seca. Ele podia sentir o cheiro antiséptico no ar e ver as luzes flourescentes sobre ele. Dor pulsava por todo seu corpo; ele se sentia letárgico e dolorido.
– E aí, garoto. Eu estava começando a me perguntar quando você acordaria. – Uma voz rouca disse, fazendo com que ele lentamente virasse a cabeça para o lado esquerdo da cama para encontrar o rosto desconhecido de antes. Era o homem que o achara na praia.
– Onde eu estou? – Ele perguntou, a voz áspera e pesada.
– Você está no Hospital St. John Bunbury. – O homem disse, os grandes braços cruzados no peito, sua postura tensa e alerta.
– O que aconteceu comigo? – Ele perguntou, lentamente movendo as mãos e olhando para a intravenosa saindo do seu braço, as máquinas monitorando seus sinais vitais e bandagens infinitas sobre o seu corpo. O que diabos acontecera com ele?
– É o que eu estou tentando descobrir. – O homem disse brevemente.
– Slade. Não seja hostil com ele. – Uma bela asiática disse entrando no quarto. Ela tinha longos cabelos negros e um sorriso gentil. Ela vestia uma longa saia vermelha que fluía até seus pés e uma blusa preta. Ela olhou para a prancheta presa ao pé da sua cama e folheou as páginas, lendo cuidadosamente o que quer que estivesse ali.
– Não estou fazendo nada disso. Só queria saber se o nosso ‘Fulano’ havia se lembrado de algo. – O grande homem, que agora ele sabia que se chamava Slade, disse. Slade olhou carinhosamente para a asiática e ele percebeu que eles provavelmente estavam juntos.
– Eu nome é Dra. Shado Fei. Esse é meu marido, Slade Wilson. Você se lembra de nós? Nós te encontramos na praia. – Ela disse calmamente, esperando para ver se ele poderia realmente se lembrar de onde eles o encontraram.
– Acho que sim, talvez... Eu não tenho certeza. Minha memória está bagunçada. Eu não sei o que é real e o que era um sonho. – Ele disse frustrado, cansando demais para dizer qualquer outra coisa.
– Então você ainda não lembra de nada? Nem seu nome ou de onde é? – Ela perguntou cautelosamente enquanto seu marido se levantava da poltrona para ficar ao seu lado.
– Não. – Ele respondeu simplesmente, sua voz preenchida com desespero.
– Está tudo bem. Você teve um sério trauma na cabeça e o seu cérebro inchou um pouco. É provavelmente por isso que você não pode se lembrar de nada no momento. O inchaço sumira com o tempo e vai ser quando as memórias talvez possam voltar a aparecer. Ênfase no talvez. Você também tem cortes e escoriações por todo o seu corpo. Sua perna direita também sofreu um pouco de dano, e você teve uma torção no joelho. Você provavelmente sofreu algum tipo de acidente ou talvez se envolveu em uma briga.O que acabou acarretando com você se machucando muito. Nós acreditamos que isso foi o que causou o inchaço e a sua perda de memória. – Shado explicou, ainda segurando firmemente a prancheta.
– Você estava horrível, garoto. Você ficou incosciente por três dias. – Slade disse, ainda tenso.
– Três dias? – Ele perguntou chocado. Parecia que quanto mais ele ouvia, pior a situação ficava.
– É. Infelizmente você não tinha nenhum documento com você. Então nós não conseguimos localizar ninguém para ficar com você. Nós fomos até a polícia local e demos a sua descrição física no caso de alguém estar procurando por você. Mas até agora ninguém apareceu. Eu sinto muito. – Shado disse suavemente.
– Tenho certeza que tem alguém procurando por você. – Slade disse, tentando assegurar o jovem de que ele realmente acreditava nisso. O jovem loiro parecia extremamente perdido. Talvez não houvesse ninguém procurando por ele.
– Obrigado. – Ele disse ao casal, inseguro do que dizer.
– A única coisa que você tinha com você era isso. – Slade disse, tirando um pequeno saco plástico do bolso do seu jeans. Ele o passou para o jovem, que pegou a corrente de platina com as mãos trêmulas.
– Você usava esse colar quando o encontramos. – Shado disse, vendo o jovem movendo seus dedos sobre o pequeno pingente de flecha antes de fechar as mãos sobre ele, segurando firmemente. – Você tem ideia do que significa? – Ela perguntou curiosa.
– Significa Lar. – Ele sussurrou sem hesitação. Ele não estava certo de onde era a sua casa, o seu lar, mas ele podia sentí-la no pingente. Bem lá no fundo ele sabia o que era isso. Significava lar, não importava onde fosse.
Conforme os dias se passavam, ele começou a se sentir melhor, seu corpo se curando mais rápido do que ele acreditava que iria. As feridas e cortes sumiram um a um. Ele ainda não podia andar direito, mas os médicos disseram que em um mês sua perna estaria bem. Infelizmente as memórias não voltaram conforme seu corpo parecia melhorar, mesmo depois do inchaço no cérebro ter quase desaparecido completamente. Shado pedira para uma colega sua, Dra. Yang, para fazer mais alguns testes para ver se conseguiriam descobrir como conseguir as memórias de volta. Mas não importava quantas ressonâncias magnéticas, scans e testes sanguíneos eles fizessem. Então depois de mais ou menos uma semana no hospital, era hora de ir embora. Um policial havia pego os testemunhos de Shado e Slade, mas até agora ninguém havia aparecido buscando alguém que batia com a sua descrição física. Então sem ninguém para buscá-lo, ele andou em direção a entrada do hospital com um par de muletas, usando um moletom de Slade e uma camiseta. As roupas eram grandes demais para ele, mas estavam limpas e inteiras.
– Com licença, Dra. Yang me disse para pegar os papéis da minha liberação. – Ele disse para a mulher na recepção. Ela rapidamente pegou seus papéis de alta e digitou os dados no computador. Imprimiu alguns formulários finais para ele assinar, mas ele não podia, sendo que ele não sabia seu nome real. Antes que ele pudesse perguntar sobre isso, a mulher da recepção pegou de volta os papéis e lhe explicou algumas coisas.
– Por causa da sua condição sua assinatura não será necessária. Sua conta e a sua alta já foram acertadas. – Ela disse a ele com um sorriso de desculpas enquanto lhe entregava uma conta assinada por Slade Wilson. Seus olhos praticamente saltaram pra fora quando ele viu que a conta totalizava 25.000 dólares australianos.
– Porra. – Ele sussurrou, olhando para a lista infinita de serviços e testes para ele. A conta era gigantesca e ele não sabia como reagir pelo fato de ter sido paga por um estranho.
Ele não sabia o que dizer. Ele não sabia quem era, ele não sabia o que fazia para viver, ou muito menos se ele tinha dinheiro para pagar essas contas. Slade e Shado não deveriam ser responsáveis por pagar as suas contas. Eles já haviam feito o suficiente salvando a sua vida. Ele estaria morto se não fosse por eles. Ele sabia disso. E agora eles faziam isso? Era um tipo de gentileza que ele não sabia como retribuir.
Enquanto ele andava lentamente com as muletas ao longo do corredor do hospital, a conta parecia queimar dentro do bolso do moletom. Ele não conseguia parar de pensar nisso. Quando chegou próximo as portas de saída, ele viu Slade e Shado esperando por ele. Ele parou onde estava por um instante, tentando esconder a vergonha que sentiu por tê-los feito passar por isso.
– Me desculpem. Se eu soubesse eu não teria ficado no hospital. Eu vou encontrar uma forma de pagar vocês, eu prometo. – Ele disse erguendo a conta, a culpa pesando sobre ele.
– Pode apostar que sim, garoto. Era todas as minhas economias. – Slade disse o fazendo sentir ainda pior.
– Slade. – Shado disse em tom repreensivo dando-lhe um olhar afiado. – O que meu marido realmente quis dizer, é que até agora ninguém veio procurar por você, mas não significa que não virão eventualmente. Sua memória pode voltar amanhã, semana que vem ou daqui há um ano. Nós não temos certeza. Mas nesse meio tempo você precisa de um lugar para descansar, comida e tempo para se recuperar. Nós queremos te ajudar a melhorar. – Ela terminou de falar, com um sorriso nos lábios, e suavemente tocando o braço de seu marido. Shado estava tentando passar a impressão de que a decisão era dos dois, e não só dela.
– Espere, você está dizendo que quer me ajudar enquanto eu ainda tiver amnésia? – Ele perguntou confuso, incerto de como esses dois estranhos queriam ajudá-lo ainda mais do que já haviam feito.
Slade olhou para a sua esposa e a deixou responder – Sim. Nós estamos dizendo que queremos ajudá-lo enquanto precisar. Talvez eu tenha sido presunçosa, mas eu deixei nosso contato na delegacia e no hospital. Se alguém aparecer procurando por você, pode achá-lo conosco.
– Eu não sei. Vocês já fizeram demais por mim. Não quero me impor ainda mais. – Ele disse, suavamente chacoalhando a cabeça.
– Ouça garoto. Nós estávamos na nossa lua-de-mel quando nós o encontramos. Eu gastei todas as minhas economias pagando pelas contas do hospital e a minha esposa está bem certa de que podemos ajudá-lo. Você parece ser um bom garoto que entrou numa situação ruim. Estou certo que logo alguém vai aparecer procurando por você. – Slade disse, recebendo um olhar maligno da sua esposa enquanto suas palavras pareciam fazer o jovem loiro se sentir ainda pior do que antes. – Mas eu sei o que é estar num lugar escuro e precisar de ajuda. Tudo o que eu posso prometer é que há trabalho duro a ser feito em casa; coisas que você provavelmente nunca fez antes, mas é um trabalho honesto. E em troca desse trabalho eu posso te fornecer um teto, comida e roupas. Você pode pagar a sua dívida com trabalho. E se você se lembrar da sua vida, ou se alguém te encontrar, nós podemos lidar com o dinheiro depois. Certo?
Ele assentiu rapidamente antes de perguntar com cautela: – Que tipo de trabalho?
Slade resfolegou antes de sorrir. – Algo que um bonitão com essas suas mãos macias nunca fez antes.
O trajeto de 15 milhas entre o Hospital St. John em Bunbury até Capel demorou menos de meia hora. Ele o percorreu no banco de trás da grande picape de Slade, observando a mudança de cenário milha por milha. Capel era uma cidade pequena, 132 milhas ao sul de Perth, entre Bunbury e Bussel. A pequena cidade com uma população de 2.000 pessoas estava localizada próxima ao Rio Capel. Era conhecida como uma cidade de fazendeiros. Enquanto olhava para os pequenos prédios, as casas de madeira e as pessoas andando lentamente pelas ruas, ele se sentiu estranhamente em casa. Olhando entre uma capela cristã e um pequeno mercado ele se encontrou fechando os olhos e deixando a brisa quente deslizar sobre a sua pele enquanto sua mão envolvia subconscientemente o pingente pendendo do seu pescoço. Ele caiu num sono leve.
Sem que ele percebesse, eles viraram numa longa estrada e dirigiram por mais algum tempo até finalmente pararem. Slade saiu do carro para abrir o grande portão de ferro na frente da propriedade. Ele voltou para o carro e dirigiu para dentro, e depois saiu outra vez para fechar o portão atrás deles. Eles dirigiram em direção a uma casa de fazenda de madeira ao lado de um lago de tamanho médio. Slade estacionou o carro em frente a ela, antes de se mover para a outra a porta a fim de ajudar Shado a descer e dar uma batida na janela na qual o loiro havia adormecido sobre. Ele saltou assustado, antes de relaxar ao ver Slade e... uma fazenda.
– Lar doce lar. – Slade disse, pegando suas coisas do carro.
– Uma fazenda? Você tem uma fazenda? – Ele perguntou chocado. Era a última coisa que ele esperava quando Slade disse que ele poderia pagar a sua dívida com trabalho.
– Cuidado com a sua perna. – Shado disse observando o jovem loiro descer do carro e tentando se afirmar nas muletas na no chão cheio de barro.
– Você não parece o tipo de homem que tem uma fazenda. – Ele disse, incerto de como absorver tudo.
– Com o que me pareço então, garoto? – Slade pergunto a ele, desafiando o jovem.
– Me desculpe, eu não quis soar tão rude. Eu só... Acho que eu te imaginava como um policial ou um bombeiro. – Ele disse, envergonhado por tirar conclusões preciptadas.
– Venham, vocês dois. Estamos todos cansando e eu tenho certeza que você adoraria tomar um banho quente. E a propósito, nós precisamos encontrar algo para chamá-lo, a não ser que você prefira que eu também o chame de ‘Garoto’. – Shado o provocou com um pequeno sorriso abrindo a porta da frente e entrando na casa. Era simples mas muito ampla, com uma cozinha e uma sala de estar no mesmo espaço. A casa era grande, com três quartos e dois banheiros de acordo com Shado. Havia uma varanda espaçosa ao redor da casa, que estava preenchida com cadeiras e um grande balanço branco.
– Eu não sei. Nunca tive que escolher um nome antes. – Ele disse correndo a mão pelo cabelo, algo que aprecia estranhamente familiar para ele.
– Então é melhor começar a pensar em um. – Shado disse com um sorriso gentil enquanto continuava o tour pela casa. – Esse é o quarto de hóspedes. Não é muito, mas tem um sofá-cama confortável. Eu vou trazer lençóis limpos e alguns cobertores. Geralmente fica frio a noite. Alguns travesseiros também, você precisa de algo para manter o seu pé elevado. – Slade chegou e começou a remover algumas caixas que estavam sobre o sofá.
– Obrigada. Está ótimo. – Ele disse, não sendo capaz de agradecê-los o suficiente pela sua generosidade.
– Eu vou te trazer uma toalha e algumas roupas do Slade também. Nós podemos arranjar alguma coisa do seu tamanho amanhã, certo? – Ela disse, o deixando para trás pensando o quão sortudo ele era por ter sido encontrado por Slade e Shado.
Levou três dias para ele finalmente escolher um nome. Durante esses três dias ele se encontrou assistindo um antigo seriado de ficção científica chamado Stargate SG-1. No final ele decidiu que ele seria chamado de Jack daqui pra frente, como o personagem principal do seriado, Jack O’Neill. O programa parecia familiar a ele, como se ele já houvesse visto antes. E enquanto ele assistia, ele não podia evitar um sorriso que se abriu durante o tempo todo. Era como se o seu corpo estivesse se lembrando de um tempo mais feliz acontecendo ao redor daquele programa. E era ainda mais estranho como o seriado trazia à sua mente a memória de um batom rosa brilhante por alguma razão.
Enquanto seu joelho estava sarando, ele ajudou Shado o quanto podia em tarefas domésticas, mesmo que ele não parecesse ter qualquer habilidade com qualquer uma delas. Enquanto o tempo passava ele aprendia mais e mais sobre o jovem casal que o trouxera para as suas vidas e sua casa. Slade Wilson era um ex-militar de 36 anos que fora dispensado com honras após ser ferido numa missão especial. Foi por causa desse ferimento que ele conheceu a Dra. Shado Fei, uma médica de 32 anos que o estava ajudando a se recuperar do olho machucado e a se adaptar e reinserir na vida civil. Eles se apaixonaram rapidamente, embora o temperamente de Slade fosse algo que fez o relacionamento difícil no começo. Eles se casaram após estarem juntos por dois anos. Enquanto aprendia isso, ele não disse a eles o estranho fato de que toda vez que Jack via como a aliança dela brilhava sob a luz da manhã algo se apertava dentro do seu peito, como se algo dentro dele estivesse faltando. Primeiro ele pensou que estava enlouquecendo, mas quando o sentimento não enfraqueceu, ele percebeu que era algo da vida que ele havia perdido.
– Você está bem, Jack? – Shado perguntou a ele enquanto picava os vegetais. Eles estavam preparando o jantar, carne assada com batatas e vegetais.
– Sim. Eu acho que as vezes eu apenas me perco nos meus próprios pensamentos. – Ele disse encolhendo os ombros enquanto descascava as batatas.
– Sabe, eu notei o seu sotaque. Você não é australiano ou britânico. Talvez você seja dos Estados Unidos ou do Canadá. – Ela disse, tentando distraí-lo.
– Você não tem sotaque australiano. – Ele retrucou com um pequeno sorriso.
– É porque eu nasci em Hong Kong. Meu pai era chinês e a minha mãe americana. Então eu aprendi inglês quando eu era muito nova e vim para a Austrália cursar Medicina. Depois que os meus pais faleceram eu não tive razões para voltar para a China. Não muito tempo depois disso, eu conheci Slade e você sabe o resto da história. – Ela disse com um sorriso calmo, misturando os vegetais picados com os temperos numa grande frigideira.
– Então você acha que eu deva ir até a embaixada para ver se há alguém prcurando por mim? – Ele perguntou, não querendo criar muitas esperanças. Ele estava ficando confortável ali.
– Você deveria tentar. Perth tem ambas as embaixadas. E só fica a duas horas de carro daqui.
– E o que eu deveria dizer? “Olá, meu nome é Jack. Eu não tenho dinheiro, não tenho documentos, e não tenho memória. Você pode ver se eu bato com alguém do seu sistema?” – Ele refletiu amargamente.
Shado estacou e olhou para ele. – Jack, se você não se sente preparado, está tudo bem. Você pode levar o tempo que precisar.
Era como se ela estivesse lendo a sua mente. É claro que ele poderia passar pelas embaixadas, descobrir quem ele era. Mas e se houvesse uma razão pelo qual ele ter acabado tão machucado e encontrado numa praia? E se ele fosse uma má pessoa? Ele parou por um segundo antes de expressar as suas preocupações. – E se eu descobrir que eu não gosto de quem eu era? E se eu fui uma pessoa terrível? Eu não tenho certeza se quero voltar para uma vida que eu odeio. Talvez eu não deva lembrar de quem eu era. Talvez essa seja uma oportunidade para eu começar outra vez. Uma segunda chance.
Shado começou a mexer os vegetais mais uma vez. – Mas e se você tivesse uma vida ótima? Uma família que ama você? Amigos e talvez alguém especial? Você está disposto a arriscar tudo isso por causa do medo?
– Eu não sei. – Ele disse com a voz trêmula, colocando as batatas numa panela fervendo.
– Jack, só faz duas semanas desde o seu acidente. Você ainda está se recuprando de todos os seus machucados. Você não precisa decidir isso agora, certo? Mas saiba que Slade e eu vamos te apoiar, qualquer que seja a sua decisão, ok?
– Certo.
Shado ficou com eles dia e noite pela primeira semana, mas ela era a médica principal da cidade e logo ela precisou voltar ao escritório, deixando-o sozinho com Slade Wilson. Slade era um homem de poucas palavras e preferia passar seu tempo trabalhando a conversar. E ele intimidava Jack em todas as maneiras possíveis. Slade trabalhava duro nos campos de trigo, sempre saindo antes do sol nascer e retornando depois que já havia se posto. A propriedade pertencera ao pai de Slade, e depois do exército, ele decidiu mante os ‘negócios da família’. A fazendo não era muito grande, como a maior parte daquelas em Capel. Era mantida num âmbito familiar, então apenas Slade e outros dois homens trabalhavam nas culturas.
Conforme o joelho de Jack melhorou e a sua mobilidade voltou ao normal, ele passou das tarefas domésticas para trabalhar nos campos. Levou tempo e muita paciência de Slade, mas de alguma forma Jack aprendeu a como trabalhar nos campos de trigo. Ele ficou muito bom, na realidade. À medida que os meses passaram, as estações mudaram, as plantações creceram e era hora da colheita. E nenhuma vez alguém apareceu procurando por ele. Mas naquelas noites que ele sentava no balanço da varanda e encarava o céu noturno ele ainda tinha esperanças de que alguém viria por ele.
Seis meses depois que pisará ali pela primeira vez, Jack não era só mais um trabalhador na fazenda, ele também era um bom amigo de Slade e Shado. Ele sabia que a sua presença não era ideal para um casal de recém-casados, então ele perguntou a Slade se havia alguma forma de transformar parte do velho celeiro num lugar para ele ficar. Slade riu alto e lhe deu uma batida amigável no ombro, se divertindo com a ideia. Uma semana depois eles estavam costruindo uma pequena cabana para Jack em uma área um pouco mais afastada do que o celeiro. Era um projeto longo, mas em alguns meses estava pronto. A pitoresca cabana de madeira tinha uma pequena cozinha adjacente uma sala de estar que tinha uma pequena lareira a gás. Ao lado da cozinha havia um pequeno banheiro, apenas com as coisas essenciais. Uma pequena escada de madeira levava ao mezzanino, onde o quarto ficava, com uma cama de casal de madeira e uma pequena cômoda. O lugar era pequeno mas confortável, muito prático. De uma forma representava a pessoa em que ele havia se tornado depois do seu “acidente”, como Shado gostava de chamar.
Então agora ele trabalhava na fazenda, a sujeira cobrindo suas mãos. Trabalhar nas plantações se tornou natural para ele. Ele ficou mais forte e durão. Seu corpo ganhou músculos que ele não tinha antes e suas cicatrizes começaram a parecer menos terríveis. De qualquer forma ele já se acostumará com elas com o tempo. Ele cortou os longos cachos loiros, deixando um corte curto e deixou a barba por fazer. Suas mãos que um dia eram macias e suaves, como Slade adorava provocá-lo sobre, agora eram calejadas e ásperas por causa das horas de trabalho duro. Ele se tornou o completo oposto daquela pessoa assustada e quebrada que veio para a fazenda. Ele tinha orgulho do seu trabalho e novo estilo de vida.
Conforme os meses se transformaram em anos, Jack tinha certeza que não havia ninguém procurando por ele. Capel se tornou seu lar e Slade e Shado a sua família. Jack viu a família Wilson crescer com a chegada de Alexander Zian Wilson, um garotinho com o sorriso e gentileza da mãe, e a força e temperamento do pai. Jack se encontrou passando tempo com o garotinho que constantemente vinha a sua cabana em busca de entretenimento.
Nenhuma memória voltou com o tempo, e de certa forma ele acreditava que era uma maldição e uma benção: uma maldição – porque ele nunca saberia quem ele realmente era, quem eram seus pais, e se ele tinha sua própria família – e uma benção – porque ele nunca teria que carregar qualquer culpa de algo que ele tenha feito na sua vida antes de ser encontrado na praia, e agora ele poderia aproveitar a vida que levava. E toda vez que ele sentia que estava sozinho, ou que faltava alguma coisa em sua vida, ele segurava o pingente de flecha firmemente em suas mãos, fechava os olhos e respirava fundo. E derepente tudo se tornava mais leve e mais feliz. Ele sentia que o pequeno símbolo trazia consigo um calor e uma luz que eliminavam todos os seus medos e dúvidas. Cinco anos depois de que ele quase morrerá naquela praia, ele nunca tirará o colar. Ele não conseguia suportar o pensamento de perder a única coisa que impedia tudo de desabar. Era a única coisa que o mantinha próximo de quem ele costumava ser. Era seu último pedaço de casa.
Jack estava basicamente cintilando sob o sol, seu corpo coberto de suor. As cicatrizes que marcavam sua pele bronzeada estavam visíveis sobre todo o seu peito, abdômen e costas, já que a sua camisa xadrex azul estava na cadeira da varanda. Seus braços moveram o machado para cima e para baixo em direção a um pedaço de madeira, cortando-o em um único golpe, o dividindo em duas metades. Ele observou a poeira subir no ar e depois cair no chão, um lembrete dos pneus estridentes deixando uma nuvem de poeira e uma mulher muito irritada que havia acabado de deixar os degraus de sua cabana. Helena Bertinelli era uma tempestade que veio rapidamente e deixou uma trilha de destruição na vida de Jack. Uma maravilhosa morena de 26 anos, com grandes olhos azuis e pernas de morrer. Ela também era a “rainha da beleza” da cidade e filha do prefeito. Ela e Jack tiveram um relacionamento vai e volta nos últimos meses. Para ele era sexo casual e para ela, bem, digamos que ela já estava escolhendo os nomes dos futuros filhos. Não importava o quanto ele dissesse que não estava atrás de nada sério – afinal, toda a cidade sabia da sua histórioa e de como ele não lembrava de quem ele era – um relacionamento à longo prazo era a última coisa que ele queria. Se ela quisesse se divertir á beça na cama, ele estaria lá para ela, mas se ela quisesse romance ele não estava interessado. Ele teve o mesmo problema com McKenna Hall, uma jovem policial que era filha do xerife, o que acabou sendo uma dor de cabeça considerando que o homem parecia viver para torturar Jack por ter “partido” o coração da sua garotinha.
– Foi Helena Bertinelli quem eu vi saindo voando daqui? – Slade perguntou vindo pelo caminho de pedras e se aproximando de Jack.
– É. – Jack disse, cortando outro pedaço de madeira ao meio.
Slade chacoalhou a cabeça. – A moça é doida. Eu disse para ficar longe dela. Não disse?
– Sim, pai. – Ele respondeu sarcasticamente, empurrando as metades da madeira para o chão quando elas não caíram.
– Jack, você pode pelo menos tentar sair com mulheres que não tem o poder de tornar a sua vida miserável depois que vocês terminarem? Digo, sua caminhonete tem tantas multas que faz mais sentido deixá-la estacionada aqui do que usá-la. Agora se eu fosse você eu me prepararia para ter a caminhonete riscada e os pneus furados. – Slade avisou com um tom ligeiramente divertido.
– Você me conhece, Slade. Eu sempre sou honesto com elas; todas sabem que eu não estou atrás de compromisso. Não é minha culpa se elas ficam iludindo a si mesma, pesando que eu vou mudar de ideia; de que elas são diferentes das garotas antes delas. Eu sempre deixo claro. – Jack disse enquanto guardava o machado e se movia para pegar uma cerveja no pequeno cooler na varanda da frente. Slade o seguiu enquanto sentava numa das cadeiras e bebia a sua cerveja.
– Talvez você devesse tentar fazer isso numa cidade em que todo mundo não saiba o que todo mundo faz. É uma cidade realmente pequena, Jack. Você sabe que as pessoas falam. – Slade disse enquanto pegava uma cerveja do refrigerador.
– Malditas velhinhas fofoqueiras. –Ele respondeu rindo.
– Sabe garoto, eu não estou ficando mais jovem aqui. Um dia Alex vai ser um adulto. E ele vai ter a sua própria família e eu vou sentar na varando com a Shado, com as minhas rugas e cabelos grisalhos, vendo nossos netos brincarem e crescerem. Eu vou saber que vivi uma vida longa e satisfatória. Mas eu temo que você vai sempre se segurar por algo que nunca foi. – Slade disse, sentando-se ao seu lado, um olhar preocupado em seu rosto.
– Você está tentando dizer que quer que eu me mude? – Jack perguntou com um sorriso, tentando mudar de assunto.
– Você sabe que não é isso o que eu quis dizer. Já fazem cinco anos, Jack. Você nunca tentou descobrir quem você é.
– Eu sei quem eu sou. – Ele se inclinou para trás, segurando a cerveja nos pulsos cerrados. Eles não tinham essa conversa há algum tempo.
– Quem você realmente é? Quem são seus pais? Qual é seu sobrenome? Onde você nasceu? Quem são as pessoas que te amam e estão esperando você voltar para o lugar que você tenha vindo? Eu te amo como um irmão, garoto, mas você precisa descobrir quem você realmente é.
– Slade, ninguém me procurou em anos. Talvez não haja ninguém que sinta a minha falta. Eu sou feliz aqui. Eu gosto do meu trabalho. Amo a minha casa. Amo estar aqui com você, Shado e Alex. Vocês são a minha família, e eu não preciso de nada mais. – Ele disse calmamente enquanto relaxava as mãos e tomava um gole da cerveja.
– Tem certeza? Eu estou certo de que você não pode ir em frente por causa daquele seu maldito colar. – Slade fundamentou apontando para o pingente de flecha descansando em seu peito nu.
A mão de Jack automaticamente subiu para tocar a flecha. – Eu não tenho ideia do que você está falando.
– Acho que quem quer que tenha te dado isso era uma pessoa muito especial; especial o suficiente para você se manter apegado por anos mesmo depois do que te aconteceu. Alguém especial o suficiente para te mander apegado mesmo sem memórias. – Slade explicou.
– Isso é a única coisa que sobrou de quem eu era. Não importa quantas vezes eu pense em tirar, me livrar disso, eu não consigo. – Ele sussurrou correndo as mãos pelas pontas afiadas da flecha.
Slade apertou o seu ombro. – Garoto, se você realmente não quer saber quem é ou de onde veio, depende de você. Mas você precisa começar a viver a vida que escolheu. Você não pode passar o resto dela sozinho, esperando por alguém que você nem conhece. Você precisa deixar as pessoas se aproximares. Se você quer deixar o passado para trás, você precisa se esquecer dessa mulher que te segura. Você não pode continuar vivendo assim.
Ele entrou no pequeno apartamento, uma mistura de cores e texturas, cheio de laranjas brilhantes e azuis elétricos, lavanda suave e hortelã aveludado. Cheirava como frésias e a brisa de uma janela aberta em algum lugar tocou seu rosto, quente e delicada, acariciando sua pele. Era tudo familiar e estranho ao mesmo tempo. Ele andou pelas cores misturadas, de um cômodo ao outro, até que chegou à última porta. Ele gentilmente girou a maçaneta e a abriu. Dentro do quarto havia um campo aberto, o sol brilhava e ele podia ver um grande carvalho e uma cama de casal de ferro no meio da campina florida.
Ele andou pela grama alta, entre flores roxas, brancas e amarelas.
Na cama de ferro havia uma mulher com a pele pálida como leite num longo vestido de seda, cabelo loiro chacheado passando da altura da cintura; uma coroa de flores em sua cabeça. Ele não podia ver seu rosto como geralmente acontecia em seus sonhos, mas ele não podia impedir seus pés de levá-lo a ela. Uma vez que ele se aproximou dela seus pés pareciam chumbo, ele não podia se aproximar mais. Ele lutou e lutou, mas era inútil, ele não podia se mover.
Então ele a observou da pequena distância enquanto ela se deitava sob o sol, sorrisndo, os raios de sol fazendo sua pele parecer que brilhava. Ela parecia em paz e feliz. Perfeita.
– Eu pensei que você tinha se esquecido de mim. – Ela disse docemente, sua voz soando como uma melodia suave em seus ouvidos, como se ele conhecesse o tom de algum lugar, mas que ele não podia se lembrar de onde.
– Eu nunca poderia esquecer você. – Ele sussurrou, mesmerizado pela visão da mulher maravilhosa. Ele a conhecia. Ele sentia isso bem no fundo de si mesmo.
– Faz muito tempo desde que pensou em mim pela última vez. Eu estava com medo que fosse me deixar. Que havia me esquecido para sempre. – Ela murmurou, olhando para baixo, seus cabelos bloqueando a visão do seu rosto.
– Te deixar? – Ele perguntou, confuso.
– Que você fosse se livrar disso. – Ela disse, apontando para o pingente de flecha sem olhar para cima.
– Eu te conheço. Eu sei disso. Eu só não consigo me lembrar de onde. – Ele disse, sua responsta trazendo um sorriso ao rosto dela. Sua franja longa estava cobrindo seus olhos, mas ele finalmente podia ver o seu sorriso. O sorriso dela era brilhante; ele ficou sem fôlego e seu coração bateu mais rápido dentro do peito. Ela era tudo. Ela era o que ele estava procurando.
– Você realmente me conhece. – Ela disse, movendo suas mãos delicadas sobre as flores da campina que cresciam ao redor da cama.
– De onde? Me diga onde posso te encontrar. – Ele implorou.
– Eu vou sempre estar aqui dentro. – Ela respondeu, apontando para o peito dele, exatamente onde o seu coração estava batendo ao rítmo do samba.
– Por favor, não me deixe. – Ele berrou enquanto ela se levantava da cama, andando lentamente pra longe dela.
– Foi você que escolheu me deixar.Que escolheu não voltar para mim. Eu estou aqui. Esperando por você. – Ela disse, as costas ainda viradas para ele.
– Eu não quero que você vá. Me leve com você. Eu vou a qualquer lugar, eu faço qualquer coisa, só não me deixe sozinho. – Ele gritou, tentando lutar com qualquer que fosse a força que o mantinha parado. Mas quando mais ele tentava escapar, mas preso ele ficava.
Ela virou a cabeça, o cabelo caindo no rosto. – Eu nunca vou te deixar sozinho. Mas você precisa lutar por mim. Você não pode me deixar.
– Eu vou lutar! – Ele gritou – Eu prometo que eu vou!
– Eu sei que você vai. Essa é uma das coisas que eu mais amo sobre você. – Ela disse com um sorriso enquanto andava para longe.
– Não! Não! Por favor, fique comigo! – Ele gritou outra vez, tentando alcançá-la.
– Eu estou com você, Oliver. Nunca deixei de estar. Venha me encontrar, eu estou esperando por você. – Ela disse, sua voz, de algma forma, soando clara na campina. Ele a observou se movendo pela grama alta e pelas flores até que ela estava longe demais para seus gritos alcançarem-na.
Jack se ergueu na cama; seu peito coberto de suor, sua respiração pesada e as mãos tremendo. Tudo forá um sonho. O mesmo sonho, tudo outra vez. O sonho sobre ela. Lá no fundo ele sabia que a conhecia. Ele a conhecia da mesma forma que conhecia a si mesmo; ela era aquela por trás da flecha. Ele empurrou as cobertas para o lado e respirou fundo. Pelos últimos meses ele vinha tendo o mesmo sonho, sempre com a loira misteriosa, sempre onde ela o deixaria para trás e sempre onde ele nunca conseguia segui-la e descobrir quem era ela.
Ele nunca via seu rosto ou seus olhos; era sempre o seu sorriso. Ele sabia que aqueles sonhos tinham um significado mais profundo do que uma fantasia.Porque essa mulher era diferente, essa mulher era especial... essa mulher era tudo para ele.
Ele sabia que ele nunca poderia se livrar do pingente de flecha, ele sabia que ela era a razão por trás disso, ele sabia que ela era aquela esperando por ele em algum lugar. Ela era a razão pela qual ele não poderia deixar o passado para trás e ter uma vida ali, mesmo depois de tantos anos. Ele não podia deixar as coisas para trás, porque lá no fundo ele sabia que ela também não podia. Ela estava esperando por ele em algum lugar. Mas como ele poderia encontrá-la? Ela era ao menos real? Alguma coisa ali era real? Ou ele era tão fechado que a sua mente havia criado uma justificativa pela falta de desejo de criar laços com as mulheres que ele havia saído nos últimos anos? Mas e a maneira que ela havia o chamado? Ela sussurrou um nome, algo que soará estranho, algo que ele sentia que conhecia: Oliver.
Talvez fosse a hora de encontrar a verdade. Talvez fosse a hora de procurar sua verdadeira casa. Talvez fosse a hora de procurar por ela.
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