Broken Arrow

14 Capítulo Treze


Notas iniciais
Hey flores. Como estão?
Não demorei muito dessa vez, certo?
Então, boa leitura para vocês.


Capítulo Treze.

Você já se sentiu partindo ao meio?
Você já se sentiu fora de lugar?
Como se de alguma forma você não fosse daqui.
E ninguém te entendesse?
(Welcome To My Life — Simple Plan)


Naquele domingo tedioso, a noite caía sobre Londres, a capital inglesa, como uma manta cobrindo um aquário. O céu era lentamente encoberto por nuvens escuras e carregadas, foscando o brilho da lua e das estrelas. Era um começo de noite escuro, onde o vento soprava com força e hora ou outra se escutava um estrondo vindo do céu.

Em contraste com o claro e fresco dia, o tempo fechado era um aviso mudo às donas de casa para retirarem suas roupas do varal, pois muito brevemente iria cair sobre a movimentada cidade, um belo temporal.

Harry tinha as mãos dentro dos bolsos da frente da calça jeans que trajava. Caminhava distraidamente pelas ruas, encolhendo-se quando uma brisa dançava ao seu redor, tão fria quanto uma brisa londrina de um começo de tarde nublado, poderia ser.

O apartamento que dividia com Louis, seu melhor amigo e companheiro de banda, não estava muito longe, no entanto Harry nem ao menos prestava atenção no caminho que tomava. Estava ligado ao piloto automático, enquanto relembrava a ligação de horas antes e o quão estúpido fora seu pai em achar que ele seria cordial e o recepcionaria de bom grado, depois de tudo o que fizera a sua família. Não que houvesse uma má convivência com o pai, somente preferia se manter o mais longe possível do mesmo.

Harry ainda lembrava, e suspeitava seriamente de que nunca iria esquecer, as noites em que escutava o choro abafado da mãe, quando esta se fechava ao quarto para ir dormir. Mesmo com a separação mútua e amigável entre os pais, Harry culpava Des Styles por ter se afastado cedo demais da sua vida. Culpava o pai por ter sido obrigado a crescer muito cedo; lembrava-se do quanto teve de ser forte e maduro, para tomar responsabilidades que eram dever do seu pai tomar; para ser o homem da casa.

Lembrava-se do estupor de tristeza que a mãe vivia e que parecia rondar toda a casa, até Rob chegar. Harry não se afeiçoara de cara com o padrasto, mas ao perceber que o mesmo trazia conforto a toda dor que a partida do verdadeiro pai havia trago a família, Rob ganhou total respeito do cantor.

Harry soltou o ar de forma ruidosa por entre os lábios ressecados, chutando uma pedrinha pelo caminho que trajava. Desistiu de se importar com seus problemas e voltou sua atenção para o caminho que o levava para seu lar, localizado um pouco mais a frente de onde se encontrava.

O porteiro logo lhe avistou pelo vidro de sua cabine, e sem se dar o trabalho de sair da mesma, automaticamente abriu o portão. Com um sorriso simpático, acenou e lhe desejou uma boa noite. O que, um tanto a contragosto, o garoto retribuiu. Esperava que Jacobs pudesse ter uma noite melhor que a sua.

O elevador não estava no hall, o que fez Harry ponderar em subir pelas escadas. Essa ideia logo foi desconsiderada ao relembrar que morava no último andar do belo edifício.

Para sua felicidade, o elevador não demorou a chegar e após uma velha mulher sair do mesmo, abarrotada por bolsas e mais bolsas, Harry pode se locomover para dentro do cubículo e, apertando no botão 20, esperar.

Harry se lembrou de Melody e teve vontade de por o dedo sobre o botão 19 e a fazer uma visita. Mas contando com fato do que ele soube que ocorrera na noite anterior envolvendo Melody e Liam, provavelmente a garota não estaria apta para o tipo de visita que Harry pretendia.

Ele desconfiava o porquê da menina ter bebido daquele jeito, pescara os olhares raivosos que ela lançara a ele e Caroline durante toda a noite em que estivera presente no evento. E sabia a aversão que a mesma sentia por Caroline. Por um momento, chegou a ponderar que traia a cantora, sabia o que Caroline representava na relação dos dois; contudo, ao se lembrar do quão estúpida agora era sua relação com Melody, Harry se viu ainda mais motivado em manter as mãos em Caroline. Queria que Melody se arrependesse de tudo que o dissera e do como esnobara seus sentimentos.

Bom, pelo menos não seria ele o único a ganhar uma tremenda bronca de Simon.

Caroline não significava muito para Harry. Mentiria em dizer que nunca se apaixonara por Caroline, Harry lembrava o quanto caíra nos encantos da bela mulher. Contudo, depois de tudo o que passaram e do modo que descobrira quem realmente era Caroline por trás dos olhos dóceis e do sorriso bondoso, Harry não sentia nada a mais do que aversão. Muito embora não pudesse negar que Caroline fora uma ótima distração na noite anterior, já que Melody parecia muito ocupada com Liam e Danielle.

Em contraste com a sofisticação do corredor, a porta vermelha a qual o rapaz parara enfrente não parecia combinar nada com as paredes em tão claro que revestiam o bem decorado corredor e sua demais decoração; o único enfeite pregado à porta eram os números 2001 em prata.

Assim que Harry pôs os pés no tapete verde com Bem-Vindo escrito em preto numa letra cursiva, esfregou o pé no local, encaixou a chave na fechadura e logo abriu a porta, que normalmente, quando ele ou Louis estavam em casa, ficava destrancada; contudo o amigo provavelmente estaria aproveitando o dia de folga ao lado da namorada, já que no dia seguinte voltariam a todo vapor para a turnê.

Seguindo para o interior do apartamento, a luz piscando na secretária eletrônica, anunciando que havia uma nova mensagem, pescou a atenção do moreno. Andou a passos largos até o aparelho e levou o dedo indicador para um dos botões, logo andando em direção ao sofá.

Jogou-se sobre o estofado, sem ligar para a visível desorganização e bagunça que se estendia ao seu redor, e logo a voz Simon irrompeu o silêncio estendido ao longo do apartamento.

— Harry, ligue esse celular. — fora a primeira ordem que dera, antes mesmo de continuar seu discurso. Harry revirou os olhos, pegando do bolso traseiro o aparelho que ele mesmo desligara. — E, por não conseguir me comunicar, vou logo avisar por aqui. Você está em maus lençóis garoto, saíram fotos sua da noite anterior na companhia da Flack e isso está causando um reboliço na mídia e nas suas fãs. Eu não disse para se distanciar de confusões e principalmente o quão ruim pode ser para sua imagem se esse caso da Flack vier à tona novamente? Vamos conversar amanhã Styles, e prepare os ouvidos.

Com um apito, a mensagem finalizou.

Harry bufou, mesmo já esperando por tal bronca que levaria de Simon. Jogou o celular com força sobre o sofá, sem se importar de ligar o mesmo; não queria se comunicar com ninguém, muito menos levar bronca de Simon por algo que desrespeitava somente a Harry.

E eram em vezes como essa que o cantor sentia vontade de jogar tudo para o alto. A pressão em ter de fazer tudo conforme as leis do mundo da fama, a obrigação em ter de andar na linha para não ter alguma má reputação nos tabloides, o dever em ter que pensar sempre no bem de sua imagem, sufocava Harry.

Além do mais, Harry não era mais uma criança. Já tinha sua maior idade, respondia por seus atos e deveria poder sair com quem desse na telha. Era um adolescente normal com os hormônios a flor da pele; somente tinha um amontoado de paparazzi a sua escolta e alguns milhares de fãs a quem deveria servir sempre com sorrisos e bom humor. E essa situação às vezes cansava.

Ter de ser o exemplo cansava, porque ele não era, e estava bem longe de ser, perfeito. Era um garoto com costumes e manias iguais aos demais garotos da sua idade, apenas tinha de lidar com sua imagem para imprensa.

Não que ele reclamasse de tudo o que conquistara, muito pelo contrário, ele amava fazer parte do One Direction, mas toda a pressão e limites que haviam imposto sobre ele estava fazendo o sonho virar uma tortura. Era difícil viver assim, com uma pessoa controlando tudo o que ele fazia, não podendo ir aos seus lugares favoritos e ter que, por obrigação, se manter longe de garotas quando fotógrafos estivessem por perto, apenas para fazer média com a publicidade.

Sentiu saudades de quando era somente o garoto que trabalhava em uma padaria e que muitos diziam que nada seria. Sentiu saudades de poder correr para os braços reconfortantes da mãe e de desabafar com a irmã mais velha.

Não via a família há algum tempo, e todo o tempo em que se mantivera distante, agora começava a despertar a imensa saudade que sentia. Durante o último mês, não havia entrado em contato com as duas mulheres que ele dizia serem as mais importantes em sua vida. E se perguntou quando havia virado aquele garoto tão frio em relação a laços sentimentais.

Com a cabeça cheia demais e prestes a explodir, Harry se viu querendo desesperadamente se livrar de todos aqueles acumulados pensamentos que rondavam a mente e parecia estar a fazê-lo quase surtar.

Então o escape que tinha dentro da gaveta de seu quarto pareceu gritar seu nome. Harry ainda chegou a travar uma luta interna enquanto se encaminhava para o aposento bagunçado. O moreno tinha consciência que o que faria seria errado e que quebraria uma promessa que havia feito a si mesmo. No entanto, tudo o que desejava era fazer algo para aquela sensação de que iria explodir, sumir.

Com o cigarro na mão, ainda travando a luta em seu interior. Harry soube que já estava derrotado e, o acedendo com o isqueiro que havia posto perto do cigarro, o garoto tragou com vontade a droga para dentro do corpo.

Logo sentiu todo o peso na mente se dissipar e, abrindo um sorriso idiota nos lábios, ele decidiu se importar com o restante depois.

E se entregou a nova companhia. Sucumbindo novamente ao meio errado de esvair a mente sobrecarregada.

——


Estalou o pescoço se virando mais uma vez na curta caminhada que executava da sala à cozinha. Olhou o relógio em seu pulso; já era tarde, não poderia pedir alguma comida por telefone. Abaixo de sua sobrancelha uma irritante dor reinava e ao se lembrar da noite anterior a dor só piorava.

Estalou todos os dedos das mãos e foi em direção a cozinha. Abriu a geladeira bruscamente e estudou tudo o que continha dentro, contudo, a geladeira quase vazia não o oferecia mais do que alguns queijos estragados, água e uma garrafa de refrigerante sem gás.

Bufou, pegando a garrafa de água para logo fechar a porta de modo estrondoso. Como se o pobre coitado do eletro doméstico fosse o culpado da sua falta de comida e dos outros milhares de problemas que pesava sobre suas costas.

Niall despejou o líquido translúcido em um copo de vidro e deixou a garrafa sobre a bancada, sem se dar o trabalho de botá-la novamente na geladeira. Observou as gotículas d'água se formarem ao lado de fora do vidro do copo, pensando em como seu interior parecia ter se desfeito junto a consideração que tinha por Melody.

A verdade é que não havia um porque da garota ter, algum dia, olhado para ele. E sinceramente, ele a entendia. Quem olharia para Niall Horan se tendo Harry Styles? Nem mesmo o irlandês se fosse a garota, olharia para si mesmo.

Sempre sentira o olhar das garotas, quando novo, sobre os amigos; ele mesmo nunca chamara a atenção. E não mudou muito depois de atingir maior idade. Até mesmo algumas muitas fãs do One Direction admitiam que ele não era bonito o suficiente para fazer parte da banda, ou nem mesmo desfrutava de um talento e voz esplendidos como os demais. Quem olharia para Niall Horan, o irlandês deslocado na capital inglesa, quando se tinha Harry, Liam, Louis e Zayn?

Nunca se sentia bom o suficiente, nunca nem mesmo se achara bonito. E sua autoestima somente desfaleceu após Melody Lewis aparecer em sua vida.

Vira-se tão envolvido com a garota, tão cegamente apaixonado, que passara a se dedicar a ela e não a si mesmo. Passara a ignorar todos e quaisquer sinais de perigo, querendo somente estar ao lado da bela garota. E olha onde fora parar; até mesmo a amizade estava destruída agora.

Niall soltou um longo suspiro, pondo o copo de vidro sobre a bancada, ao lado da garrafa, sem nem ao menos ter bebido um gole. Sentia que nada desceria por sua garganta, até mesmo a fome passara; e olha que esse feito era raro vindo dele. Niall realmente se encontrava em uma situação perturbadora.

O garoto caminhou para sala novamente, pisando sobre as almofadas jogadas ao chão e sentando-se de forma desleixada sobre o sofá desarrumado. O silêncio zumbia em seus ouvidos, pensara em ligar a televisão, mas a última vez que o fizera, fora assombrado pela linda Melody Lewis e seu pé, tecnicamente, torcido. E somente a notícia da farsa, a qual Danielle dera a ideia para ajudar a garota, fora o suficiente para trazer a tona sua raiva e revolta.

Imaginava como Danielle ou até mesmo Liam estariam naquele momento. Se ele, que nada tinha com Melody, se vira revoltado, que dirá o casal.

Niall jogou a cabeça para trás, fechando os olhos com força. Sentia uma dorzinha chata que ia dominando seu coração, causando uma angustia; uma vontade de gritar. Gritar para Melody que ele não era uma ferramenta dela, que ele tinha sentimentos os quais ela estava pisando sem pensar nos danos que causaria a ele.

Naquele momento, Niall enxergou a verdadeira Melody. Egoísta a ponto de pensar somente em si mesma, sem perder tempo em refletir o quanto poderia atingir Niall.

E o pior de tudo, é que ele sabia que o momento que ela aparecesse e se derramasse em seus braços, ele não hesitaria em retribuir. Sem ligar para ego, autoestima, significância ou qualquer outra coisa do gênero. Ele já havia se acostumado em ser um fantoche na mão de Melody.

Era isso amar, não? Dar sem receber. Ter a felicidade da pessoa amada acima de qualquer outra, até mesmo a sua.

E por um momento ele entendeu Melody.

Amar doía e muitas vezes, se você pudesse escolher, preferiria não senti-lo.


——



Com um alto e estrondoso trovão a chuva caiu sobre a cidade; o céu parecia estar desabando sobre a caótica Londres.

Melody acordou sobressaltada com a claridade que iluminara o aposento por milésimos de segundos; o barulho do trovão ecoando segundo depois deu a impressão de ter feito o prédio tremer.

A cantora, ainda sonolenta, novamente se jogou sobre a cama e fechou os olhos, tentando achar uma posição mais confortável no colchão, que outrora tão macio, agora mais parecia uma pedra. Com frio, a garota buscou o edredom ao seu redor, no entanto, suas mãos somente passearam sobre o assoalho frio.

Melody franziu o cenho, finalmente se dando conta de que estava deitada sobre o chão e não em sua cama. Ergueu o tronco lentamente, apoiando as mãos sobre o assoalho para logo sentar em posição reta, sentindo os pulsos latejarem em protesto ao apoio.

A morena descansou as mãos sobre o colo desnudo por conta de trajar somente um boy short. Passeou com os olhos pelo aposento, e por um momento, se sentiu deslocada; aquele era seu quarto, deveria se sentir familiarizada, aconchegada, mas não conseguia sentir nada além do vazio. Todo aquele luxo e sofisticação não tinham compatibilidade alguma com a verdadeira Melody, aquele quarto ou todo o apartamento em si, nem de longe era algo com que Melody associava a um lar de verdade. Era somente um imóvel, o qual ela usara para se instalar. A cantora já não sabia o significado verdadeiro de casa, se sentia deslocada, como se não pertencesse a lugar nenhum.

Um relâmpago iluminou todo o quarto, a luz, que adentrara pela janela de cortinas abertas, fizera que algo que se encontrava jogado ao chão refletisse nos olhos de Melody. Curiosa, a garota passeou com os olhos pelo assoalho, e fixando-os sobre o objeto de alumínio, alguns passos a sua frente, as lembranças vieram como a enxurrada que caia ao lado de fora; dês da decadente noite anterior, à tarde de ressaca, as ligações de Simon ignoradas e ao ato masoquista que praticara antes de cair ao sono ali mesmo, sobre o assoalho frio de seu quarto.

A lâmina suja de sangue, jogada mais a frente, era como recordar cada lembrança que a fizera ter sujado o objeto cortante com seu próprio sangue.

Melody se ajeitou, grudando as costas na parede gélida de um canto qualquer do quarto. A respiração espessa e o coração acelerado enquanto as lembranças pareciam a assombrar e perseguir como fantasmas. O choro ficara preso na garganta, e Melody sentia que a qualquer momento iria desmoronar novamente.

Sentia seu autocontrole esvair pouco a pouco e não podia lutar contra isso. Era como areia em mãos, aos poucos vai vazando entre os dedos e nada se pode fazer contra. A cantora sentia que aos poucos a insanidade se aproximava, sorrateira como uma cobra, pronta para dar o bote. Melody talvez terminasse louca, ou morta por suas próprias mãos. Estava no limite da razão, estava a ponto de explodir e não teria ninguém ao seu lado para salvá-la.

Ali na sua frente estava a lâmina, gritando que conseguira vencer, que Melody não conseguira se controlar, que sucumbira ao vício. E o que amedrontava Melody era que ela já não mais sentia remorso, não sentia culpa ou arrependimento; simplesmente não sentia mais nada.

Afundou as mãos pelos cabelos, puxando com força os fios lisos e escuros para trás. Estava pouco a pouco, perdendo tudo que conquistara, perdendo tudo que ainda a impedia de ir longe demais.

E ela tinha de confessar que sentia falta, falta de quando a convivência com os garotos era fácil; falta de quando ela ainda poderia, mesmo que por minutos, esquecer todo o resto. Agora estava ali, destruindo amizades uma por uma. Primeiro fora Harry, Niall e agora Liam e Danielle. A cantora se perguntou o quão grande deveria estar a raiva e o nojo que o casal provavelmente estaria sentindo por ela; bem, Liam pelo menos se importara em não deixá-la morrer de hipotermia no box do banheiro, desmaiada. Como um ótimo rapaz, colocara uma roupa quente e seca na garota e deixara-a sobre a cama. E isso somente fazia com que Melody se sentisse ainda mais culpada; Liam deveria ter deixando-a morrer de hipotermia. Seria menos um problema na vida de muitas pessoas, principalmente na dela própria.

Envergonhada. Melody se sentia demasiadamente envergonhada. E o pior era que ela sabia que não faria nada. Não iria nem ao menos lutar, veria tudo escorrer por suas mãos e somente ficaria parada a observar. Sempre fora assim, Melody desaprendera a lutar por sentimentos. E faria alguma diferença? Já nem mais sabia se poderia ser digna de sentir algo bom.

Naquele momento, mesmo não querendo admitir para si mesma, a cantora sentia-se traída. Traída por Harry, o garoto que, anos anteriores, jurara que nunca a faria sofrer. O garoto que a prometera tanto, mas que nunca cumprira nada. Ou talvez se sentisse traída por si mesma, em ter posto expectativas em algo que sabia não valer a pena quando aprendera a não por expectativas em nada, para não ter decepções.

Melody soltou um ruidoso suspiro; pôs as mãos sobre as pernas, os olhos castanhos sendo levados aos pulsos. O fato da manga do moletom estar erguida dava para a morena total visão das cicatrizes, que latejavam vagamente, cobertas por curativos brancos. Melody sabia que toda vez que olhasse para os pulsos, as cicatrizes a fariam lembrar-se do que a fizera cometer tal ato. Era como um lembrete de cada erro, cada dor, de cada crítica. Elas pareciam tão mais cruéis quando sangravam, contudo, naquele momento nem causavam medo. Só vergonha. E uma vontade inconsciente de fazê-las sangrar de novo.

Com o nó na garganta a sufocando, Melody se virou para a janela. Observou a chuva; ela estava desabando, como a chuva desabava sobre Londres. Era engraçado como a noite parecia semelhante com seu estado de espírito. Fria, tempestuosa, melancólica, triste. Melody quis se juntar a chuva e derreter com ela.

E sucumbindo a insanidade, a morena apoiou ambas as mãos sobre o assoalho, aos lados do corpo, e se impulsionou para cima, sem se importar com o pulso que latejara em protesto. Caminhou pelo quarto com tamanha pressa, pegou o primeiro short que vira na frente e o vestiu.

Iria alimentar sua loucura.


——


Jogou a cabeça para trás e, com os olhos fortemente fechados, inspirou o vento gélido daquela madrugada londrina para dentro dos seus pulmões.

A morena sentiu os grossos e gélidos pingos de chuva desferirem contra sua pele, encharcando seu cabelo, moletom e todo o corpo em questão de segundos. Não se importou em calçar nada, pois só lembrara que deveria ter posto algo nos pés quando sentiu a meia molhar sobre as solas do pé ao fazer contato com o pavimento empoçado da calçada.

O frio lentamente a tomava e fazia com que seu corpo esguio tremesse sem seu controle. Mas Melody não se importava. Tudo o que queria, tudo o que precisava, era que sua cabeça estivesse ocupada processando as informações do frio, então ela estaria livre das insanidades, que com frequência maior do que o normal, queriam dominá-la.

Encontrando um tanto de paz, sem ligar para a responsabilidade que a alertava de que poderia novamente acordar de cama, Melody continuava a rodopiar sobre a chuva; talvez fosse o que estivesse à procura, se ficasse de cama não seria obrigada a encarar Liam, Niall ou seus problemas, de frente.

Toda via, todo aquele estupor que conseguira entrar, como se estivesse em uma bolha onde nada poderia a atingir, fora sugado com um toque firme em seu ombro coberto pelo moletom encharcado.

Melody virou de imediato, com os olhos levemente arregalados, receosa em ter sido abordada por um ladrão ou coisa pior, afinal, já era madrugada.

Porém, sua visão, e pensamentos, foram foscados pelos olhos azuis do irlandês que andara tomando seu sono; e da presença que antes ela estivera covardemente tentada a não encarar. Ela o fitou por alguns segundos, o tempo em que o loiro se aproximou o suficiente para o guarda-chuva que segurava deixassem ambos protegidos da chuva.

— Você está bem? — indagou Niall um tanto preocupado, desviando seus olhos dos castanhos da cantora. Melody se questionou o quando teria o machucado para que o mesmo não conseguisse nem mesmo olhar em seus olhos por muito tempo; provavelmente fora o suficiente para ele se manter longe, como parecia estar ávido a fazer.

— Estou. — foi tudo o que Melody se limitou a responder, mesmo sabendo que ambos estavam cientes da grande mentira que proferira. As pessoas perguntam se está tudo bem sem realmente querer saber a resposta. Então porque dizer a verdade? Um tudo bem evita perguntas e conversas indesejadas por ambas as partes. E, depois de um tempo dizendo a mesma mentira, ou você se afoga nela, ou você passa a crer. Melody havia se afogado, dizendo estar bem, todos os dias. Mas na verdade estava no fundo do poço, como se a luz não mais existisse. — E você, o que faz aqui?

— Tem certeza? Você está rodando na chuva as, bem, não sei que horas são, mas é tarde. — Niall ditou aparentemente ignorando a indagação da cantora, suas palavras soando hesitantes, assim como seus olhos pareciam estar ao fitá-la. Ele não queria admitir que viera ao apartamento dos amigos como desculpa para saber algo sobre a garota.

Um sorriso desenhou os lábios de Melody, não era um sorriso alegre ou feliz, apenas um curvar de lábios um tanto divertido; Niall provavelmente estava a achando louca.

— E dai? Só queria tomar banho de chuva. — a cantora se explicou um tanto seca, dando de ombros, ainda sob o guarda-chuva que Niall segurava sobre os dois.

— Certo, eu esqueci que isso é unicamente problema seu. Desculpe por me importar. — ele proferiu as palavras com ressentimento, e encarou Melody com seus olhos transbordando desgosto. A cantora se encolheu sobre o olhar tão cálido de sentimentos de Niall, sentiu a dor e a tristeza que transbordavam por eles e doeu toda magoa e decepção que eram direcionados a ela. Melody percebera que preferia o olhar alegre do irlandês, mesmo que isso custasse muito dela.

— Niall, eu...

— Só espero que tenha consideração por seus fãs. — ele a interrompeu, seus olhos tornando-se duros; seu maxilar trancado e sua expressão séria. — Eles não sabem quem é você de verdade, mas te amam e admiram independente de tudo. E você tem todo esse reconhecimento por conta deles. Então acho que pelo menos eles, merecem o seu melhor. E você estando de cama não vai poder dar muito.

A cantora abaixo o olhar, sentindo-se acuada sobre o olhar e as palavras duras de Niall. Simplesmente não conseguia suportar todo aquele rancor e desamparo que seus olhos azuis extravasavam e pareciam afogá-la em um mar de decepções.

Melody sentiu um nó na garganta e o frio já não lhe parecia tão agradável, pois continuava a pensar em Niall e a melancolia que os envolvia. Melody já não mais queria ter ido para a rua para sentir a chuva a encharcar; não queria mais estar na presença de Niall, ou somente não sabia mais o que queria.

Ou pior, ela sabia. Ela queria Niall de volta. Sua amizade, sem complicações, apenas os dois sem mais porém.

— Me desculpa. — ela murmurou, sentindo as lágrimas acumularem em seus olhos. No entanto, ela exalou, controlando-se para não deixar suas angústias transbordarem pelos cantos dos olhos.

— O que? — Niall indagou um tanto incrédulo, muito embora fitasse Melody com rancor explícito. Deu um passo para frente, assistindo Melody dar outro para trás. — Do que você está pedindo desculpas? Por tudo que já falou? Pela distância posta entre você e seus amigos? Pelo o que fez noite passada? Espera, você tem que pedir desculpa as pessoas que machucou e não a mim.

— E eu não te machuquei? — questionou ela, levantando seus olhos até os dele. Observou Niall vacilar, suas armaduras fraquejarem e a máscara de indiferença que havia posto para usar com Melody, simplesmente desabar, como se fosse feita de areia.

— Me responda você. — respondeu o loiro, encarando-a avidamente. Melody engoliu em seco, não queria falar, não queria se expressar. Se sentia violada sobre os olhos tão intensos de Niall, fazendo-a se sentir como se estivesse sido empurrada para fora de uma plataforma elevada, sem aviso prévio. Estava caindo, e temia a sensação muito mais do que bater no fundo. Não havia um final, apenas a sensação constante de gravidade. Como se flutuasse no nada, para sempre. — Pelo menos...

— Eu estou pedindo desculpas porra. Isso não é o suficiente? — interrompeu-o, sua voz soando alterada, quase gritante. Niall abaixou o chapéu e não fez questão de segurá-lo, deixando-o voar junto ao vento alvoroçado da madrugada. Aproximou-se a passos lentos de Melody, assistindo-a dar passos para trás enquanto a chuva voltava a desferir suas milhares gotas sobre ambos.

Melody assistiu a cabeleira loira se encharcar, os fios grudando até metade da testa de Niall. A blusa verde que trajava, grudara no tronco timidamente malhado, o rosto esbranquiçado, avermelhado pela visível revolta que sentia, pipocado pelas diversas gotas que escorriam pelos traços bem marcados. Os olhos azuis pareciam brilhar em meio à cascata da chuva e a noite escura.

— Você acha que pedir desculpas apaga tudo? Você acha que suas desculpas vão justificar seus erros, cicatrizar feridas e tudo o mais? Você está ciente de tudo que fez? Tente parar de olhar mais para si...

E Melody o interrompeu com um beijo. Nada além do tocar de lábios moldando-se uns nos outros. As mãos de Melody apoiaram-se nos ombros largos do irlandês e logo ela se sentiu sendo abraçada pela cintura; Niall passou seus braços pelo corpo esguio da morena e aproximou seus corpos ao mesmo tempo em que aprofundava o beijo; dando tímidos passos até sentir o corpo de Melody imprensado a construção de cimento.

Por um instante, Melody não acreditou no turbilhão de sensações que dominou seu corpo e, após o primeiro movimentar sincronizado de suas línguas, levou suas duas mãos a agarrarem os fios do cabelo da nuca de Niall. Naqueles três míseros segundos que levou para assimilar o que estava acontecendo, foi como se o tempo houvesse congelado; o mundo havia se calado, a chuva estiado, o coração parado.

Então tudo voltou com mais força. Os pensamentos desorganizados, os sentimentos camuflados e desornados que nutria por Niall; Melody se sentia completa e ao mesmo tempo vazia.

Melody se sentia intensamente confusa.

Niall passou a mão sobre a lateral do corpo de Melody e a cantora sentiu como se fogo se alastrasse por onde as mãos macias do garoto tocavam. Era engraçado o fato de que toda vez que ficavam sozinhos suas bocas parecessem chamar uma pela outra.

E foi naquele instante, onde se beijavam sobre a chuva, que Melody percebera que nada poderia voltar ao começo. Que ela nunca mais poderia ter a velha amizade de Niall a tona, sem os porém.

Ambos estavam cientes que não estavam conversados e que Melody não estava cedendo.

Contudo, naquele instante, somente se deixaram levar, sem pensar.

Notas finais
E então? O que acharam dessa recaída do Harry? E da Melody com o Nini?
Mudei a capa, quem percebeu? Gostaram? Me contem tudo nos reviews ok? Deixem suas opiniões, palpites, ideias e criticas construtivas, eu amo ler e responder cada uma.
>>> Volto com 14 ou mais reviews. Eu sei que vocês vão conseguir, certo!? Quero ver as fantasminhas aparecendo haha
Beijões minhas lindas. xx
> OBS.: Estou com uma nova fic, "Start Over", se alguém se interessar e quiser ler, é só dá um pulinho nas minhas histórias e não se esqueçam de comentar haha (:
> OBS².: Como só podem deixar um review por capítulo, não fiquem acanhadas em tirar dúvidas me mandando MP ok? Ou se quiserem, podem usar o twitter. (@hibabi)