Broken

16 Capítulo 16


POV EMILY

Uma hora e vinte e sete minutos, esse é o tempo exato desde que a Alison pegou no sono. Nem cochilei desde que a chamei pra deitar ao meu lado, para fazer-lhe cafuné, já que ela estava bastante tensa e desconfortável em dormir num lugar desconhecido.

Era extraordinariamente gostoso sentir sua leve respiração acariciar a pele do meu pescoço, bem como sentir as batidas do seu coração, que pulsava ritmado e uniforme. O problema era que os músculos da minha mão já estavam entrando em processo de cãibra, junto com o resto do corpo, eu precisava muito trocar de posição.

Levantei-me cuidadosamente da cama, colocando um travesseiro no meu lugar. Observei Alison e ela continuou dormindo serenamente. Decidi ir até a cozinha tomar um copo de água e aproveitar a breve caminhada para esticar um pouco as pernas, já que eu me encontrava na mesma posição há horas. Dei uma pequena volta pela casa, vi se tudo estava em ordem e fui para a cozinha. Abri a geladeira e decidi tomar ao invés de água, um copo de leite.

Peguei a caixinha já aberta e comecei a despejar o líquido no copo de vidro quando ouço meu nome proveniente de um grito amedrontado. ALISON!

Deixei o copo e a caixa em cima do balcão e corri em disparada para o meu quarto.
No caminho dei de cara com o Mike, que estava no meio do corredor coçando a cabeça sem entender nada.

Mike: Quem..

Emily: Volta pra cama, tá tudo bem. – falei rápido, sem desviar do caminho pro meu quarto.

Abri a porta e mal deu tempo de eu entrar no quarto, já fui surpreendida pelo corpo da Alison se chocando contra o meu, num abraço asfixiante.

Emily: O que aconteceu Ali? Outro.. pesadelo? – falei com dificuldade, pois seu aperto estava realmente forte.

Alison não falou, apenas fez sinal negativo com a cabeça e eu pude sentir a gola da minha camiseta ficar úmida, ela estava chorando. Passei os braços ao redor da sua cintura e à afastei um pouco, querendo olhar para o seu rosto.

Emily: Então o que aconteceu?

Alison: Eu acor.. acordei, e você n-não estava a-aaaqui – abaixou a cabeça.

Meu coração quebrou ao vê-la assim de novo, e o sentimento de culpa já estava corroendo minhas entranhas. Sequei seu rosto com as duas mãos e puxei-a para outro abraço.

Emily: Me perdoa Ali, por favor. – pedi, enquanto beijava o topo da sua cabeça. – Eu prometi que ia ficar ao seu lado, mas acabei saindo.. me desculpa.

Alison suspirou pesadamente e se afastou um pouco, mas nossas mãos continuavam entrelaçadas.

Alison: Não precisa se desculpar por isso, eu só..

Emily: Só nada, Alison. Eu não vou mais sair do seu lado. A menos que você me peça. – falei com firmeza.

Sua expressão suavizou e eu quase pude notar um sorriso em seus lábios. Alison andou de volta para a cama, e eu a acompanhei. Sentamos uma de frente pra outra e ela parecia que queria me dizer algo.

Alison: Você quer saber o que aconteceu na última tarde?

Emily: Só se você quiser me contar.

Alison: Desde que.. ahm.. você sabe.. – fez uma pausa pra respirar. – minha mãe sabe de tudo o que acontece comigo. Alimentação, remédios, horários e.. meu ciclo. – murmurou a última parte. – Então, já faz mais de uma semana que eu estou atrasada e apesar de eu não querer, minha mãe insistiu em me levar para o médico. – apertou os olhos. Oh, eu entendi.

Emily: Então você foi parar naquela lojinha depois de ter fugido do médico por que estava com medo da consulta? Estava com medo que ele te tocasse?

Alison: Aham. – estremeceu. – eu não ia conseguir Emily, eu sabia. – voltou a chorar. – Só de imaginar aquilo, eu.. – passou as mãos pelo rosto soltando um suspiro – Não entendo como minha mãe pode me levar até lá, ela sabia, ela sabia que.. – abaixou a cabeça.– Então esperei uma distração da minha mãe e fugi daquele lugar. O posto ficava a oito quadras do consultório, só entrei lá por que eu lembrava daquela fachada amarela, eu sabia que eu já tinha passado por lá com você. – falou baixinho.

Emily: Eu te entendo Ali, sei que é difícil pra você... Olha, não estou dando a razão a ela, mas entenda sua mãe também, ela fez isso porque se preocupa tanto com você. Ela só estava assustada. – peguei sua mão direita e acariciei com o polegar.

Alison acenou com a cabeça e finalmente sua expressão suavizou, seu rosto estava sério, mas agora sereno, aliviado e como sempre, lindo.

Emily: Vamos voltar a dormir, vem. – deitei na cama e fiz sinal para ela se aproximar.

No mesmo instante Alison veio ao meu encontro, um sorriso brotou no meu rosto ao constatar que ela já não mais hesitava em me tocar. Dessa vez eu estava deitada de lado, com Alison à minha frente totalmente encaixada em meu corpo. A sensação era ainda melhor, com certeza a melhor que eu já provei.

Emily: Não vou sair daqui até você acordar, eu prometo.

Ouço meu nome ao longe, mas ignoro sem mesmo tentar abrir os olhos.. ah, aqui tá muito gostoso, não quero estragar..

Agora há fracas batidas na porta. Que saco! Abro os olhos e percebo que já amanheceu. Meu quarto possui apenas uma janela, a qual está coberta por uma grossa persiana, ou seja, nada de claridade me cegando, apenas singelos feixes de luz.

Meu nome é chamado mais uma vez e eu resmungo, a fim de que entendam que eu não quero ser perturbada. É, mas não funciona. Lentamente a porta é aberta e para a minha surpresa meu pai aparece em meu quarto.

Mr Fields: Emily, essa é a Alison? – sussurrou assustado.

Emily: É. – Respondi baixinho. – O que você quer? – perguntei impaciente.

Mr Fields: O que eu quero? Uma explicação né minha filha. – falou como se fosse óbvio.

Emily: Eu sei o que você tá pensando.. – vou contar logo de uma vez, por que eu não aguento mais. – Me aproximei da Alison por que senti uma coisa diferente quando a vi, sinceramente ainda não sei o que foi, mas era como uma obrigação, um chamado que eu não podia negar. Aos poucos fui conhecendo-a mais, literalmente entrando em sua vida, coisa que só fez meu encantamento por ela aumentar. – encantamento? – Bem, e agora ela está aqui, na minha cama por motivos que agora não vem ao caso, mas o que importa é que a cada dia que passa ela está se abrindo mais pra mim. Lembra o que você disse a ela no grupo? Antes de saber que "aquela pessoa" era eu? Então, ela está fazendo. – expliquei.

Fitei meu pai e seu rosto estava sério, pensativo.

Mr Fields: Ela te contou o que aconteceu com ela? – O que?

Emily: Mais ou menos. Por que?

Ok. A situação já estava desconfortável o bastante. Meu pai chegando de viagem, assim de surpresa, e agora está no meu quarto, conversando comigo com Alison dormindo ao meu lado.

Mr Fields: Emily, isso não vai dar certo. Alison é muito instável. – encostou-se na parede– seu pai me disse que ela mal dorme durante a noite por conta dos pesadelos, volta e meia ela tem ataques de pânico. Não sai de casa há meses, exceto agora pro GA. – Estou chocada. O pai da Alison havia contado tudo isso ao meu pai?!

Emily: E daí? Você não percebe que ela está progredindo? – argumentei. – nós saímos no domingo, fomos à praia, ela conversa comigo, ela confia em mim pai.

Mr Fields: Mas minha filha, isso não é certo. Ela vai ficar dependente de você e nem sempre você vai estar disponível pra ela, uma hora vocês vão acabar se afastando. – Como assim, do que ele tá falando?!

Emily: Primeiro, você está se contradizendo, isso que acabou de sair da sua boca é exatamente o oposto do que você prega nas sessões do GA. E segundo. – fiz uma pausa pra respirar.– Eu sempre estarei disponível pra Alison. Sempre! – aumentei o tom de voz por um breve momento, esquecendo o fato da minha protegida estar dormindo calmamente em meus braços.

Meu pai engoliu em seco minhas palavras, passando a mão pela barba. — coisa que ele faz quando está perturbado ou sem saber o que fazer.

Segundos depois ele se recompôs e voltou a me encarar com um semblante sério, mas ao mesmo tempo preocupado.

Mr Fields: Emily, não minta pra mim, você está se apaixonando por essa garota?