Broken

17 Capítulo 17


POV EMILY

Meu pai às vezes possui a sutileza de um elefante. Nem parece aquela pessoa calma, com semblante sereno e despreocupado do GA. E agora ele me faz uma pergunta dessa, aqui, agora. Nunca menti pra ele, e não pretendo começar mas também não queria entrar nesse tópico. E agora Emily?

Como se ouvisse minhas silenciosas preces, Alison começou a se mexer na cama, o que fez meu pai ficar desconfortável e provavelmente com medo de ela acordar e se assustar com sua presença ali.

Emily: Pai, agora não é uma boa hora. – sussurrei apontando pra porta.

Ele nem respondeu, apenas acenou com a cabeça e saiu de fininho do quarto, fechando a porta silenciosamente.

POV ALISON

Ai meu Deus. Achei que estivesse num pesadelo, ouvindo a voz de um homem mas acabei me dando conta de que a voz era bem conhecida, era do pai da Emily, e caramba, ele tá conversando com ela aqui comigo ''dormindo" ao lado dela.

"Mr Fields: Mas minha filha, isso não é certo. Ela vai ficar dependente de você e nem sempre você vai estar disponível pra ela, uma hora vocês vão acabar se afastando."

Sim, esse é o meu maior medo. Naquele dia em minha casa eu já tinha falado com a Emily sobre isso, e ela me garantiu que isso não iria acontecer. Eu acreditei nas palavras dela, hoje eu confio nela ainda mais. Mas ao mesmo tempo isso me dá medo. Do mesmo jeito que ela entrou na minha vida, ela pode simplesmente sair.

"Emily: Primeiro, você está se contradizendo, isso que acabou de sair da sua boca é exatamente o oposto do que você prega nas sessões do GA. E segundo..

– Eu sempre estarei disponível pra Alison. Sempre!"

Emily subiu um pouco o tom de voz quando disse a última frase, o que fez meu coração derreter. A firmeza com que ela disse, como se estivesse repreendendo seu pai por falar aquilo, por duvidar dela. Ela estava me protegendo de maneiras que eu nunca imaginei.

"Mr Fields: Emily, não minta pra mim, você está se apaixonando por essa garota?"

Meu coração disparou furiosamente. Como assim o pai dela faz essa pergunta do nada? Por que ele acha isso? Será que a Emily teria dito a ele algo sobre mim antes? E espera, eu sou um garota, como assim ele pergunta com tanta naturalidade... a Emily é lésbica?

Eram muitas perguntas e sinceramente eu estava com medo das respostas. Numa tentativa de interrompê-los, eu me mexi um pouco, trocando de lado. Emily sussurrou algo e logo depois a porta se fechou. Ufa, consegui. Me aconcheguei mais em Emily e fui dormir de novo, deixarei pra pensar mais tarde, agora preciso aproveitar.

POV EMILY

Xx: Emily...

Emily: Nãooo. – apertei os olhos.

Xx: Em, você deve estar atrasada pra faculdade. – Essa voz é da Alison!

Abri os olhos e finalmente me situei, Alison estava em pé ao lado da cama, me olhando com receio. Aposto que ela se perguntou pelo menos umas dez vezes se deveria me acordar.

Emily: Bom dia! – sorri. – Dormiu bem?

Alison: Bom dia.. dormi sim, e você?

Emily: Maravilhosamente bem. – levantei da cama, indo para o banheiro. — Você já desceu?

Alison: Ahm.. ainda não. – respondeu enquanto eu escovava os dentes.

Emily: Então vamos, vamos tomar café.

Descemos as escadas e Alison parecia estar desconfortável, mais do que o normal. Ela se sentou num dos bancos , enquanto eu fui pegar os pratos e preparar algo para comermos.

Emily: Você tá bem?

Alison: Aham.

Emily: Não parece. Aconteceu alguma coisa? – me aproximei da bancada.

Alison: Não, nada. Onde está todo mundo? – claramente quis trocar o assunto.

Emily: Bem, pela hora, meu pai deve estar na loja e meu irmão na escola. – coloquei os pratos na bancada. – Você quer cereal?

Alison: Sim, obrigada.

Nosso café foi rápido, Alison comeu cereal com frutas e algumas torradinhas, enquanto eu comi apenas ovos mexidos e uma maça. Como de praxe, ficamos em silêncio o tempo todo, mas dessa vez estava estranho, muito estranho.

Emily: Olha, eu tenho uma aula essa tarde, mas se você quiser a gente pode..

Alison: Não! Você não vai faltar aula por minha causa.

Emily: Não se preocupa, eu já ia faltar mesmo, lembra que a gente ia sair hoje?

Alison: Não, mas não precisa, já te incomodei demais. Você pode me levar pra casa e ir pra sua aula normalmente. – dessa vez não parecia timidez, ela queria ir embora mesmo.

Emily: Tudo bem então, se você já quiser subir e trocar de roupa, pode ir, eu vou limpar tudo. – apontei pra louça suja.

Alison não falou nada, apenas levantou e foi na direção das escadas, sumindo do meu campo de visão. Alguma coisa aconteceu, eu tenho certeza. Será que o meu pai falou algo pra ela? Não, ele não faria isso mas, PORRA! Ela ouviu nossa conversa mais cedo, só pode ser isso!

Agora o que ela ouviu? Quais partes, o que ela entendeu daquela conversa? Vamos Emily pense! O que você vai fazer agora?

Pressioná-la não vai ajudar em nada. O melhor a se fazer é deixá-la em casa, dar-lhe um tempo pra pensar, digerir seja lá o que ela tenha ouvido e depois eu falo com ela.
Isso, é isso que eu vou fazer.

Estacionei em frente à casa da Alison e ela mal esperou eu desligar o motor, já foi tirando o cinto e destravando a porta.

Emily: Alison, espera.

Alison: Oi. – respondeu seca.

Emily: Lembra de quando eu falei que as vezes as pessoas não precisam nos contar algo diretamente, que basta prestar atenção nos sinais?

Alison: Sim, eu lembro.

Emily: Pois bem.. só queria que você se lembrasse disso. Até breve Ali. – enfatizei o "breve"

Alison: Tchau Emily. Obrigada.

POV ALISON

(…) Not really sure how to feel about it

Something in the way you move

Makes me feel like I can’t live without you

It is takes me all the way

I want to you stay…

De repente essa canção tornou-se a minha favorita. Me impressiona o quanto uma musica pode definir seu estado, seus pensamentos, seus desejos, tudo magicamente se encaixa.

Mas na vida real as coisas não são simples assim, principalmente quando se tratam de mim. Ainda tento entender o que foi dito há dois dias atrás naquela conversa. Por que o pai da Emily se preocupou tanto em saber se a filha estava se apaixonando por mim, e pior, aquilo era verdade?

Tenho 17 anos e nunca namorei, praticamente nunca beijei, se não levar em consideração um selinho roubado na 7ª série por um garoto que eu achava lindo, mas depois descobri que ele tinha me beijado por causa de uma aposta. Garotos...

Daí agora essa ‘bomba’ cai no meu colo. O fato de ser uma garota pouco importa se você olhar o plano como um todo. Como vou lidar com a possibilidade da pessoa mais bonita que eu já vi na minha vida, a garota mais inteligente, doce e prestativa do mundo estar apaixonada por mim. POR MIM! Alison Dilaurentis, a garota estranha do bairro, que não sai de casa, que não fala com os outros. É com certeza a coisa mais surreal da face da terra.

Eu estou imaginando mil coisas sobre isso e nada delas parece fazer sentido. Achei que precisava de um tempo pra colocar as coisas em ordem, mas a verdade é que eu não vou chegar à nenhuma conclusão sozinha.

Num momento ímpar de coragem, peguei meu celular e digitei uma mensagem para a Emily.

''Sei que pela hora você deve estar em aula, então quando vir essa mensagem e se não tiver ocupada, vem aqui casa. Não gosto dessa expressão, mas nós precisamos conversar''

– Alison.

Enviei imediatamente após escrever, não dando espaço para o súbito momento corajoso sumir antes da hora. Eu ainda digeria o que havia acabado de digitar quando meu celular vibrou, indicando que uma mensagem havia chegado.

''Chego em dez minutos''

– Emily

Me espantei com a velocidade da resposta e com a sua prontidão em atender meu pedido. Desci as escadas e fiquei na varanda esperando Emily chegar. Minha mãe havia saído com Aria e meu pai estava no quintal, cortando a grama.

Poucos minutos depois e eu vejo o carro dela estacionar em frente à minha casa. Quando entrou no meu campo de visão, a vontade foi de xingá-la por ser tão linda. Emily vestia uma camiseta do Arctic Monkeys, com uma calça jeans apertada e botas de combate. Como era final de tarde, seus óculos estavam no alto da cabeça, dando-me a visão perfeita do seu rosto. Os lábios marcados pelo batom vermelho davam um toque mais feminino, sobrepondo-se ao seu estilo despojado. Seus olhos estavam cinzentos, mas ainda sim, completamente inebriantes. Agora eu me pergunto, por que essa perfeição da natureza perde seu tempo comigo?

Sacudi a cabeça, e foquei nela, sentando-se na cadeira ao meu lado.

Emily: Oi Ali. – sorriu

Alison: Oi.

Emily: Então, sobre o que quer conversar?

Alison: Aqui não, vamos pro meu quarto. – levantei, e ela fez o mesmo.

Alison: Pode sentar. – pedi quando já estávamos em meu quarto

Emily sentou na ponta da cama enquanto eu estava na outra extremidade, escorada na parede. Ela me olhava com dúvida, mas ao mesmo tempo divertida, como se soubesse o que eu ia falar, como se soubesse que agora eu estava escolhendo as palavras à serem ditas.

Emily: Vamos começar assim. O que você ouviu da minha conversa com meu pai? – disparou.

Quando ela falou dos sinais, era sério mesmo. Precisei de alguns segundos pra me recompor e tentar responder sua pergunta.

Alison: A partir do ''vocês vão acabar se afastando''. – contei.

Emily: E o que você achou da conversa? Você não gostou de algo que meu pai ou eu dissemos?

Alison: Eu não sei o que achar. Passei os últimos dois dias com isso martelando na minha cabeça, mas sinceramente não cheguei à lugar algum. – disse frustrada.

Emily: ''Isso' que você se refere não é a conversa em geral certo? – fez aspas na palavra ''isso''.– É sobre a última pergunta do meu pai? – se aproximou. – no seu significado e na sua resposta? – completou.

Alison: Sim. – confessei.

Emily: Vou começar pelo começo, meu pai perguntou isso por que eu já me relacionei com garotas antes, e com a nossa proximidade, ele acabou imaginando que.. – fez sinal com as mãos. – enfim, não vou mentir pra você, muito menos ser hipócrita, Alison, você é linda! – disse olhando em meus olhos. – Quando digo isso, me refiro à sua beleza estética, seu rosto perfeito, seus olhos grandes e expressivos, sua pele macia e extremamente cheirosa. – corei. – Mas também me refiro à sua personalidade. Sua timidez é linda, o jeito que você morde o lábio quando está envergonhada é lindo, coisa que você está fazendo agora. – sorriu, e imediatamente pus as mãos no rosto, com mais vergonha ainda. – Quando te vi pela primeira vez, lá na sessão, eu senti uma coisa dentro de mim, uma vontade, uma obrigação de estar com você, de cuidar de você. Algo que eu nunca havia sentido antes, algo que não deu pra controlar. Os dias foram passando e você se abrindo comigo cada vez mais, confiando em mim, me deixando entrar na sua vida. E honestamente, é o lugar onde eu mais quero estar. – pegou minha mão. — Ali, eu nunca me apaixonei, então não tenho como comparar ou definir, mas uma vez me disseram que amar é se doar por completo, sem esperar por nada em troca. Se for mesmo isso, eu tenho certeza da resposta pra pergunta do meu pai. A única coisa que eu peço é que depois de toda essa minha confissão, você não me tire da sua vida. – pediu. – Como eu disse, eu não quero nada em troca, meu objetivo é te fazer bem, é ver um sorriso no teu rosto. É poder te ajudar a esquecer tudo aquilo que fez você sofrer. – afagou minha mão.– Eu prometo guardar esse sentimento pra mim, eu prometo que nada disso vai interferir no grupo, ou no seu processo de reabilitação. Prometo que tudo vai ficar como antes. Só não se afasta, por favor. – implorou, deixando uma lágrima correr pelo seu rosto. – Eu entendo que você não está pronta pra esse tipo de coisa, e provavelmente nunca vai estar pra mim, por que eu sou uma garota e enfim.. – sorriu tristemente.– Eu só te contei isso tudo por que eu prometi que nunca ia mentir pra você. . Mas eu juro pra você que nada entre a gente vai mudar, eu juro!

Emily: Alison, fala alguma coisa.. por favor!