Brinquedo Torto
11 Here we are
Notas iniciais
As palavras faltavam perante aquela situação constrangedora (a segunda da madrugada) em que eu me encontrava lado a lado no sofá com Sakura vestindo apenas minha roupa intima e um roupão nunca antes usado por ser grande demais e que, segundo ela, havia sido presente de sua mãe como modo de “incentivo” para que ela encontrasse alguém para vesti-lo.
O fato de ela ter insinuado alguma coisa — mesmo que sem pretensões maiores – me pareceu irrelevante enquanto eu ainda me via preso à tentativa de entender por que diabos alguém colocaria roupa molhada na parte de trás de uma geladeira.
Sim, ela tinha posto minhas roupas lá.
É a primeira pessoa que eu conheço que faz esse tipo de coisa, porém, mais estranho que isso somente o fato dela não ter uma televisão por opção. Por que alguém optaria por não ter televisão?
Por causa dessa infeliz escolha estávamos a observar sua parede com prateleiras lotadas de fotos sentindo o tedio pairando sobre nós.
Eu não iniciaria uma conversa, seria perda de tempo macular o silencio por algum assunto trivial, além de o sono já ter começado a dominar o meu ser.
Confesso que uma pequena faísca de curiosidade brotou em mim e minha língua coçou para perguntar a ela o motivo de suas saídas noturnas, – não era comum uma pessoa perambular pela madrugada sem motivo, e nas vezes em que nos encontramos ela não demostrava pistas que indicassem o destino de suas caminhadas – e qual seria seu grau de relação com meu “amigo” estupido.
- Por que não liga pra Ino? Não fica preocupado em não encontra-la em casa? Antes de sair ela me disse que ia te encontrar. O que aconteceu? – o tipo de assunto desnecessário que eu tentei evitar. Limitei-me a continuar encarando a foto a minha frente em que uma garotinha loira de uns cinco anos, talvez, aparecia vestida como bailarina e sorria banguela.
Estava pouco me importando com o paradeiro de Ino, desde que ela não fizesse algo estupido que pudesse ser ligado a minha imagem.
- Sasuke. – ela me chamou após um suspiro, eu me limitei a olha-la de esguelha – Sabe onde ela esta? – acenei negativamente – e não se preocupa? – tornei a repetir o gesto – que tipo bizarro de namorado é você? – ela franziu o cenho indignada.
O tipo bizarro que não considera aquela loira escandalosa como namorada.
- Hm – murmurei me afundando no sofá e fechando os olhos.
- Vou ligar para ela. — Pude senti-la me encarando.
Aposto que a ligação caiu na caixa postal, pelo o pouco que conheço a loira, a essa altura ela já deveria estar fora de si a muito, sem condições de atender o telefone ou quem sabe teria o perdido.
- Ela não atende – eu não disse – estou preocupada. Faz alguma coisa, Uchiha! – suspirei.
- Você é a melhor amiga dela, deveria saber que Ino faz isso com frequência. — permaneci de olhos fechados esperando enxurrada de recriminações e sermões que deveriam vir a seguir.
Mas para minha surpresa, ela não disse nada.
Olhei-a novamente e ela tinha as sobrancelhas juntas enquanto contraia os lábios em uma linha fina de preocupação. Oras! O que eu poderia fazer? A culpa não era minha se Ino fazia esse tipo de coisa, e eu não tinha a menor ideia de onde ela poderia estar.
- Ela vai aparecer. – não era de meu feitio consolar pessoas, mas a situação clamava que eu fizesse algo. O clima estranho tinha se tornado pesado e muito incomodo — Amanha ela vai estar aí reclamando de dor de cabeça por causa da ressaca, é isso que ela sempre faz, não é?
- É... – ela respondeu ainda tensa, mas tentando suavizar a expressão. Outro motivo por eu não ser do tipo “cara solidário que consola e dá conselhos” é por eu ser péssimo fazendo isso.
Ela suspirou resignada, porém ao contrario do silencio que pensei que se seguiria ela mudou de assunto. Aparentemente aquele clima a incomodava tanto quanto a mim.
E por horas a fio ela entoou um monólogo me deixando a par de sua vida, e que, surpreendente, não me provocou nenhuma aversão.
Ouvi-a reclamar das saídas sem aviso de Ino, comentar sobre cada foto a nossa frente e exaltar sua paixão pelo trabalho que exercia. Descobri que ela era editora de livros freelance, e que traduzia algumas obras apenas por distração.
Ela fez questão de mostra sua coleção de livros, alguns que havia editado outros adquiridos por interesses pessoais. Não estavam totalmente organizados, — ela sofria com a falta de espaço em seu apartamento — então tinham algumas pilhas de livros e de caixas ao redor de sua mesa de trabalho.
Descobri que ela preferia trabalhar a noite e que ao longo do tempo tomado pela ocupação, ela efetuava pausas forçadas pelo cansaço que tomava sua mente – ela simplesmente saia às ruas para espairecer antes de voltar ao trabalho.
Pude constar duas coisas:
Primeira: Sakura Haruno era uma criatura estranha que tinha uma necessidade, aparentemente, colossal de falar.
Segunda: Aquilo não estava me irritando. Percebi que me sentia mais confortável quando ela falada desenfreadamente, ocupando minha mente com coisas que usualmente seriam consideradas por mim totalmente desnecessárias.
Perdi-me no tempo.
Não sei há quanto tempo foi que a chuva parou, ou quando foi que o sol começou a raiar. Só sei que enquanto ela falava, eu apenas emitia alguns sons se necessário, sem me atrever a interromper aquele ser que curiosamente estava sendo tão receptivo comigo.
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