Bring Me Back To Life
19 Capítulo 19.
Notas iniciais
Acordei numa sala suja com cheiro de ferrugem e uma luz branca fortíssima me cegando. Tentei me levantar. Eu estava imobilizada numa camisa de força. Oliver estava ao meu lado, também imobilizado. Lancei-lhe um olhar desesperado.
– Acordaram já? – uma freira chegou perto.
– Irmã? – sibilei.
A freira me deu um tapa na cara.
– Não bata nela! – Oliver protestou.
A senhora pegou um jarro de água e jogou no rosto de Oliver. Ele engasgou e tremeu. A água parecia estar geladíssima.
Depois a freira cuspiu no rosto dele.
– Cale a boca, pecador sujo. Irmã Judith!
Uma segunda freira mais jovem apareceu correndo. Ela entregou à Irmã mais velha um chicote e depois, com a ajuda de enfermeiros, arrancou as nossas camisas de força. Levamos chicotadas nas costas. Meu Deus, onde eu havia me metido?
– Vão trocar essas roupas. Tome. – ela entregou uma camiseta e uma calça de algodão para cada um de nós.
Levamos mais chicotadas nas costas e saímos andando. Tentei me concentrar no que eu viera fazer nesse inferno. Eu tiraria Helena dali e acharia o Anjo. Mas como eu faria isso?! Eram tantos psicopatas que era quase como procurar uma agulha num palheiro. Ou melhor, uma agulha num agulheiro. São várias, mas nenhuma é a certa.
Fui levada para a ala dos adultos com Oliver. Inúmeras freiras caminhavam pelo hospital junto aos internados, chicotando-os a maior parte do tempo. Eu podia ver a tristeza em todos os pares de olhos. Podia ver o desespero e em alguns, a malícia. Tentei procurar Helena e absorver cada porta que eu passava. Helena poderia estar atrás de qualquer uma delas.
Fui jogada num quarto sujo junto com as roupas. A freira bateu a porta e eu fiquei sozinha finalmente. Ou foi o que eu pensei.
– Sarah! – a baixinha se atirou nos meus braços como se fossemos amigas que a muito não se viam.
– Laila! Eu pensei que você tinha fugido com o Derek!
– E deixar Helena pra trás?! Nunca! Nós sabemos que ela está aqui e já temos algumas suspeitas de onde ela pode estar aqui dentro.
– Aonde?! – empurrei-a para trás.
– Depois eu te mostro. Aqui as paredes têm ouvidos e olhos. – ela apontou para algo prateado no teto. Uma câmera.
– Ok. Eles não limpam as coisas por aqui?
– É difícil. Bem difícil.
– Ah.
Fui até a janela e comecei a trocar de roupa. Senti os olhos de Laila em mim, mas tentei ignorar isso.
– Então, por que você veio parar aqui? – ela perguntou despreocupada.
– Eu e Oliver tivemos um surto psicótico. – respondi simplesmente, terminando de me trocar. Dobrei minha roupa e coloquei-a em cima da cama que Laila não estava deitada.
Irmã Judith entrou no quarto e pegou meu pulso cortado que já havia parado de sangrar. Colocou uma pulseira de identificação nele e me entregou meus remédios e um copo de água. Tomei-os sabendo que a dose estava muito acima do recomendado e entreguei o copo para ela. A Irmã pegou minhas roupas de qualquer jeito e saiu.
– O que ela vai fazer com as minhas roupas? – perguntei para Laila desesperada.
– Provavelmente queimar. – ela não parecia estar brincando.
– Eles vão queimar minhas roupas?! Eles não podem fazer isso!
– Mas eles vão. Eu também perdi minhas roupas favoritas quando entrei aqui. Eles pensam que assim estão queimando e fechando um ciclo para começar um novo. Um tanto irônico para um corpo cristão.
– Como eu pude deixar Helena num lugar como esse? Como?
– Não se culpe por isso, você não sabia que aqui era o inferno na Terra. Você só foi mais uma vítima, como todo mundo.
– Mas agora eu estou pagando por ter deixado-a aqui. Eu vou tirar ela daqui viva. E se eu conseguir vou tirar você e Derek também.
– Obrigada. É bom saber que alguém quer me tirar daqui, mesmo que esse alguém também esteja trancado. Trancado em sua própria prisão.
Olhei-a de esguelha. Ela deu de ombros. Eu não estava em uma prisão interior. Não mesmo. Eu tinha um objetivo e depois com bom comportamento eu seria libertada. Esse era o plano e ele seria comprido. Eu não admitiria falhas.
– Ás vezes eu entendo a vontade que o Oliver tem de fumar. Parece que um cigarro consegue aquecer tudo o que está frio por dentro e parece que algumas cenas só se encaixam se um cigarro estiver aceso. – eu disse.
– É mais ou menos assim.
Deitei-me na cama e suspirei. Será que meus pais já sabiam o que aconteceu? Será que eles se importariam ou eles já sabiam que as coisas um dia iam terminar assim?
Mas na verdade, a maior pergunta era: Eles me tirariam daqui?
Eu suspeitava disso.
– Quer que eu te mostre as instalações? – a voz fina de Laila quebrou o silêncio.
– Eu adoraria. – menti.
Saímos para o corredor, uma freira um pouco mais amigável quis nos acompanhar, mas Laila a dispensou. Fomos andando. Ela me mostrou o banheiro que todos usávamos, mostrou o refeitório, a recepção, o lugar para visitas que era um dos únicos lugares que era limpo regularmente.
– E aqui é a caldeira. – terminou numa porta de ferro.
Eu achava estar ouvindo coisas, mas eu tinha certeza que estava ouvindo uma espécie de gemido baixo vindo de dentro da sala. Um gemido de choro.
– Laila. – fiquei paralisada.
– Sim? – ela estava distraída.
– Acho que tem alguém aqui dentro.
Ela ficou em estado de alerta no mesmo momento e chegou mais perto para ouvir.
– O que vocês estão fazendo aí? – uma voz grave perguntou. Virei-me num pulo. Derek estava atrás de nós duas e junto dele, Oliver.
Joguei-me nos braços do meu namorado.
– Elas te bateram mais? – ele perguntou.
– Não. E você?
– Elas mal tocaram em mim. Já o cara com quem eu divido o quarto é um tanto aterrorizante.
– Não é o Derek?
Ele negou.
– O achei enquanto andava pelos corredores. – disse. – O que vocês estavam fazendo aqui?
– Laila estava me mostrando minha nova “casa”.
Ele ficou sério.
– Não diga assim, você vai ser a primeira a sair daqui. Odeio a ideia que você fique nesse lugar.
– Meu lugar é aqui. – eu disse meio triste.
Ele segurou meu rosto e me olhou muito sério.
– Nunca, nunca mais diga uma coisa dessas entendeu? Nunca mais. Eu prometo que vou te tirar daqui.
Assenti, sabendo que mesmo que eu não dissesse eu pensaria nisso todos os dias que eu estivesse ali.
Senti uma pontada na boca do estômago. Eu tinha a sensação de que a promessa dele não fosse tão concreta. Tentei expulsar o pensamento da minha cabeça, entretanto não tive muito sucesso.
Fomos até o pátio externo. Árvores secas ladeavam um local cheio de mesas e bancos de pedra quebrados. Sentamo-nos em alguns bancos que estavam em melhores condições e contemplamos a paisagem doentia da clínica. Poderia ser cenário para um filme de terror com psicopatas e psicóticos e possuía um ar sufocante e aterrorizante. Era fácil ver alguém se matando nesse lugar. Era fácil ver eu me matando nesse lugar.
– No que você está pensando? – Oliver me tirou dos meus pensamentos mórbidos.
– Em como eu me vejo morrendo aqui facilmente. – as palavras dispararam para fora da minha boca antes que eu pudesse engoli-las. Acabei chamando atenção para o pensamento errado.
– Sarah, olhe para mim. – Oliver colocou meu rosto em suas mãos. – Você vai sair daqui antes mesmo que consiga pensar em fazer uma coisa dessas. Você não vai fazer nada aqui, entendeu? Nada. E eu não vou permitir que toquem em você.
Dei de ombros. Havia algo em suas promessas. Não sei se eram promessas demais ou sinceras demais. Eu sabia que alguma coisa ia dar errado.
– Onde vocês acham que a Helena está? – perguntei doida para mudar de assunto.
– Você ouviu aquilo na caldeira? Não parecia com o gemido dela? – Laila perguntou séria.
– Laila, eu já disse! Não tem nada na caldeira! Eu já fui lá! – Derek disse irritado.
– Já mesmo?! Há mais salas dentro do corredor para a caldeira do que dentro dessa clínica! – Laila retrucou.
– Escute aqui você acha que se eu não soubesse de qualquer coisa eu não falaria ou tentaria salvá-la?! Você não acha que eu estou sofrendo tanto quanto você?! Eu amo ela!
– Eu ainda acho que tem alguma coisa lá.
– Você não acredita em mim?! – a voz de Derek ficou mais grave e mais alta.
Uma freira chegou por trás dele e deu uma chicotada em suas costas.
–Não grite, daqui a pouco chegarão pessoas importantes.
–E daí?! Você acha que eu ligo Irmã Tereza?!
A freira desferiu outro golpe em suas costas. A camiseta branca começou a ficar vermelha.
– Sua ficha está suja o suficiente para que você jamais saia daqui.
– Olhe as costas dele, você o machucou! – eu gritei.
Levei uma chicotada fortíssima nas costelas. Logo eu também estava sangrando.
– Não se meta comigo, Sarah Jackman. Você não sabe como você está encrencada. Eu posso fazer a dor dos seus cortes e dessa chicotada parecerem cócegas então não me provoque.
Ela saiu. Oliver foi ao meu lado e olhos minhas costelas. Com certeza eu não ganharia um curativo.
– Bella ragazza, não desafie essas pessoas, nem ao menos olhe elas nos olhos. Não quero que você se machuque. Por favor, prometa que não vai deixar seu gênio te machucar.
– Eu prometo.
– Ok. Então cumpra.
Senti minhas bochechas esquentarem. Com certeza eu tinha uma grande inclinação para quebrar regras e promessas, mas eu não esperava que Oliver soubesse disso. Bem, talvez ele tenha dito apenas por dizer mesmo.
O vento de outono beijou-me a face e trouxe algumas folhas para o lugar onde estávamos sentados. Lembrei-me do último outono. Eu ficara trancada no quarto, tocando como sempre e deprimida. Oliver havia atenuado minha depressão e meu estado mórbido ultimamente. Será que até mesmo nesse inferno ele surtiria o mesmo efeito? Esse pra mim era o grande problema.
Eu poderia ter poupado Oliver daquilo. Ele poderia estar no campo com os avós e poderia continuar apenas com o simpático “Oi” quando nos cruzávamos na escola, sem estar envolvido em tudo e sem estar preso em uma clínica. Mas Deus sabe como eu preciso dele e como eu estava sendo egoísta em mantê-lo por perto, sabendo que eu o machucaria. A típica coisa de “não posso ficar com você porque vou te machucar” de todos os romances. Mas como aquilo conseguia ser verdade! Eu precisava dele como nunca precisei nem dos meus pais, precisava dele para literalmente me manter sã, entretanto eu não podia machucar ele daquela forma, pois eu sabia que toda vez que eu tinha um surto ele se feria. E eu não queria magoá-lo com estilhaços das minhas explosões sentimentais, não era justo. E mesmo assim, eu era covarde demais para terminar com ele. Estava viciada demais para abrir mão da heroína agora. Eu já fora longe demais, Deus, nós estávamos internados num sanatório! Nós havíamos ido muito longe juntos para nos separarmos agora.
Oliver passou o braço pela minha cintura, alheio à bagunça dos meus pensamentos. Aquilo estava parecendo um livro em que eu estava botando na balança meu relacionamento para no fim rompê-lo. Mas eu era dependente demais dele para romper.
Entramos quando um sinal bateu.
– O banho de sol já acabou. – Laila disse.
Banho de sol? Éramos o que?! Presidiários?!
Derek sugeriu que fossemos para a Sala de Recriação. Laila pareceu pouco animada com a ideia, mas concordou, dizendo que tínhamos que conhecer o tal lugar.
Seguimos até a sala mais iluminada e bem cuidada do prédio. Com certeza era um dos lugares onde os pacientes recebiam visitas. Onde os familiares podiam ver e não pensavam que tinham largado seu filho doente para um lixo de lugar.
Havia instrumentos sem corda, pincéis e coisas para desenhar e pintar. Havia até um tambor e um violão. Suspirei aliviada. Talvez não fosse tão ruim assim.
Estiquei a mão para o violão, mas levei uma chicotada que me impediu.
– Não vai se matar com as cordas, doente. – a enfermeira disse olhando para meu corte vermelho. Ele estava começando a inflamar.
– Eu só quero tocar. – aquilo era ridículo, eu parecia uma criança choramingando.
– Não.
Sua voz firme e dura me fez recuar. Ela passou por mim e foi até Oliver.
– Venha comigo. Você tem que fazer alguns exames.
Meu namorado saiu com a enfermeira. Aquilo não estava me parecendo bom.
Tentei desenhar para me distrair. Acabei desenhando um anjo com as asas abertas, voando, a cabeça baixa, os cabelos lisos formando uma espécie cortina castanha caindo em seus olhos verdes claros.
Um grito estridente interrompeu as atividades de todos. Saímos todos correndo até o corredor. A enfermeira que estava com Oliver estava pendurada pela garganta na luminária, o pescoço escorrendo sangue e cheia de hematomas roxos e amarelos.
E Oliver havia sumido.
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