Bring Me Back To Life
14 Capítulo 14.
Notas iniciais
A fumaça começou á tomar conta do local. Haviam tacado fogo na dispensa, cheia de produtos inflamáveis e panos de chão. Alguém percebera e acionara o alarme de incêndio, mas era tarde demais, as chamas se esgueiravam para fora, numa linha de álcool que alguém fizera para o incêndio ser mais rápido. Não tinha dúvidas de que era o Anjo da Morte.
Oliver me pegou pelo braço e me abaixou junto com ele. Fomos rastejando até um bebedouro próximo e ele encharcou a camiseta.
– Coloque no nariz.
– E você?!
– Agora!
Abaixamos e nos rastejamos enquanto uma coluna caía no lugar onde estávamos segundos atrás. Amarrei sua camiseta molhada na nuca e cobri meu nariz. Aquilo me ajudaria á respirar, mas, e Oliver?
Fomos nos arrastando e Oliver tossia como um tuberculoso. Quando estávamos chegando lá fora, tirei a camiseta e amarrei em seu nariz.
– Não discuta. Apenas venha comigo.
Os bombeiros chegaram em seguida e socorreram Oliver. Ele estava terrível, não conseguia falar por conta de tanta fumaça e sufocava desesperado por ar. Deixei as lágrimas rolarem e lavarem seu rosto sujo de cinzas.
– Oliver, fique comigo. Fique comigo. — eu implorava.
Ele tossiu e disse sufocado.
– E-eu amo... — ele desmaiou.
– Não! Oliver! — gritei.
Os bombeiros me arrancaram de Oliver e lhe inseriram a máscara de oxigênio. ”Ele está respirando, mas está difícil.”. Senti minhas entranhas se contorcerem, senti o desespero batendo. Era assim que alguém se sentia quando alguém que você ama está morrendo? Se fosse, eu não desejaria isso nem para o meu pior inimigo. Meu coração foi espremido como uma laranja e reduzido á um caroço de abacate. Mais uma surpresa do meu labirinto. Uma surpresa que me sufocava. Os bombeiros inseriram uma máscara de oxigênio em mim, embora eu quisesse dar todo o meu oxigênio para Oliver e o fazer acordar de novo. Eu o queria me amparando naquele momento.
– Oliver. Meu namorado. Como ele está?! — eu perguntei desesperada.
– Respirando. Com dificuldade, mas respirando. Faremos de tudo para ele ficar bem, ok?
Senti meu cérebro ardendo e a vista escurecendo. Não. Eu não podia desmaiar. Eu tinha que ficar acordada para ver Oliver. Mas a escuridão me agarrava com seus tentáculos e eu fui mergulhada em um poço de ébano.
“Enquanto seu namorado está com os pulmões em cinzas, eu vou me aproveitar um pouco de você, ok?” — uma voz na minha cabeça sussurrou.
Fui atirada de um lado para o outro no lago de ébano do meu sonho. Eu queimava e borbulhava. Sentia que ia explodir. Sentia como se toda a água do meu corpo evaporaria naquela lava negra. Mas eu já deveria ter explodido. Na verdade, eu queria explodir e dar toda a minha vitalidade á Oliver. A sensação de queimar e a pele borbulhar e soltar não era nem comparada á o que eu sentia nas minhas entranhas. Oliver não poderia ficar sem ar. Eu deveria morrer. Não ele.
Então eu afundei e afundei no lago de ébano e bati as costas no fundo. Agora eu não conseguia voltar e meus pulmões ao invés de se encherem de líquido enchiam-se de cinzas. Então eu me toquei. Oliver estava tendo dificuldades porque seus pulmões já estavam cheios de fumaça de cigarros. Mas isso não era argumento para ele se sufocar e morrer. Ele deveria, deveria...
O sonho mudou. Eu estava no centro do meu labirinto. As paredes negras curvavam-se e no centro havia ele. Oliver estava lá, sufocando e queimado por cinzas. Aquele era o pior sofrimento. Ver alguém que você ama morrendo e não poder fazer nada. Tentei sair correndo, mas eu não podia deixá-lo sozinho.
Acordei após horas vendo Oliver sufocar. Eu estava no hospital, de novo. Helena estava sentada ao meu lado, mas ele não estava ali.
– Cadê o Oliver?
Helena pegou a minha mão.
– Ele está em observação na UTI, mas não é nada demais segundo os médicos. Disseram que é só ele se recuperar e ele já vai para o quarto.
– Eu preciso ver ele. Helena, deixa-me ver ele.
– Ainda não, Sarah. Você também está em observação, levando em conta o seu coração.
– Helena, por favor. — implorei reprimindo um soluço.
Ela suspirou.
– Vou ver o que posso fazer por você.
Ela saiu. Fiquei sozinha e perdida em meu labirinto íntimo, enquanto as vozes sussurravam e brincavam com os meus sentimentos. Os budistas acreditam que para você cumprir sua missão, você deve atingir a iluminação. Eu poderia não acreditar ou não querer acreditar em nada, mas eu ansiava a iluminação porque a iluminação a meu ver era sinônimo de que o sofrimento seria extinto. O labirinto ruiria e só sobraria paz. E Deus (ou Buda) sabe como eu queria que esse labirinto ruísse.
Mas ele não ruía, ele continuava firme e forte enquanto eu morria em cada curva. Um pedaço da minha alma era partido com cada dor e pela primeira vez eu entendi porque eu preferia estar morta ao invés de ser um alguém normal. Não havia sofrimento na morte, mesmo que numa morte fantasiosa. Eu preferia ser o fantasma que eu era antigamente, sem sentimento algum, do que estar ali, agora, sofrendo por causa do meu namorado com os pulmões tostados. Um dia Oliver havia-me prometido que não faria churrasco dos próprios pulmões e que iria parar de fumar. Se ele tivesse cumprido a promessa não estaria na UTI agora. Jurei para mim mesma que se Oliver não parasse de fumar depois daquilo eu o convenceria a parar.
Helena voltou horas depois e disse que eu só poderia ver Oliver quando ele estivesse no quarto e para que eu não tentasse fugir ela esperou até Oliver sair da UTI e ser levado ao quarto para me falar aquilo.
O médico fez um pequeno check-up para ver se eu estava bem e após um eletrocardiograma positivo ele me permitiu ver meu namorado.
As paredes azuis de seu quarto haviam sido recentemente pintadas e os móveis brancos davam a impressão de ser um hospital particular embora não fosse.
Oliver dormia e graças a Deus não precisava de aparelhos para respirar. Seu peito ia para cima e para baixo, para cima e para baixo. Dei um leve suspiro e beijei-lhe a bochecha. Ele resmungou um pouco, mas não acordou. Parecia sonhar profundamente. Tomara que seus sonhos sejam melhores que os meus.
Após um tempo observando-o dormir voltei ao meu quarto. Eu já recebera alta, então fui ao banheiro e coloquei minhas “Roupas De Ir Embora” que Helena trouxera. Mas eu não iria embora. Eu iria ficar e esperar até que ele recebesse alta no dia seguinte assim como ele fez.
–Vou comprar um café bem forte para te manter acordada, ok? — Helena disse depois de algumas horas. Concordei levemente com a cabeça. Eu não percebera, mas já passara das 20h30min pm.
Fechei o meu sobretudo quando um vento cortante passou pelos corredores gelados. Fiquei assistindo à Teen Wolf enquanto esperava Helena. Ela voltou vinte minutos depois com um copo de café expresso, que me entregou e eu bebi bastante. Eram 500 ml de café expresso, o suficiente para me deixar ligada a noite inteira.
Voltei minha atenção à TV e Helena me entregou um caderno e uma caneta.
– Caso você queira escrever algo. — disse e voltou sua atenção ao seriado novamente.
Fitei o caderno. Era um emaranhado de emoções e tentar passá-las numa música seria difícil. Decidi não escrever nada.
Apoiei minha cabeça no ombro de Helena.
Ela afagou meu cabelo e tomei mais do meu café. Eu queria dormir, mas não podia, não conseguiria. Helena trouxera-me também um livro, não o Precisamos Falar Sobre O Kevin. Aquele não. Eu começara com Oliver e terminaria com ele. Então eu só esperei, lendo Alice No País Das Maravilhas e bebendo café.
...
No dia seguinte Oliver foi liberado. Levamos ele para sua casa e eu ficaria lá com ele. Helena foi embora.
– Quer comer alguma coisa, Ollie? — perguntei quando entramos.
– Não. Eu vou tomar um banho. Vem. — ele me levou até o seu quarto. Uma barra de ferro fora colocada entre os batentes da porta. Agora eu sei como ele fica com os ombros desse jeito.
Sem querer sugerir nada eu sentei em sua cama desarrumada, porém, confortável. Ele pegou algumas roupas, uma toalha e por último deu-me um beijo e disse.
– Espere aqui, eu já volto.
Esquadrinhei seu quarto com os olhos. Uma mistura de branco com azul cobalto e uma bagunça enorme. Levantei-me e dei uma olhada em sua escrivaninha. Inúmeros papéis estavam jogados e bagunçados. Peguei um para ler. Era um poema.
Amava
Nalgum lugar, distante de todos nós,
Ouvi o alento em sua voz ao dizer que me amava
E eu amava sua voz suave
E amava tocá-la
Amava abraçá-la
E beijá-la e acariciá-la
Simplesmente a amava.
Por ela ser ela
E por ela me amar.
E eu me amava
Por amar ela.
E na vida e na morte
No azar e na sorte
Eu de modo puro e simples
A amava.
Dei um sorriso fraco e deixei o poema no lugar. Eu sabia que o poema era sobre mim e adorei todos os versos, todas as palavras, todas as rimas e cada vez que ele citava “amava”. Reli o poema várias vezes quando o senti atrás de mim, me abraçando. Ele beijou meu pescoço.
– Gostou do poema, amore mio?
– É lindo, Oliver.
Ele me virou.
– Não mais do que a pessoa para quem é dedicado.
E me beijou, começando pelos meus ombros, subindo pelo meu pescoço e finalmente chegando à minha boca.
Deixei-me ser envolvida pelos seus braços, suas mãos percorriam minhas costas e as minhas repousaram em sua nuca. Então ele desabotoou a camisa e eu o olhei o reprendendo.
– Só estou com calor, amore mio. Sei que você não quer nada. — ele me puxou pela cintura e me pegou no colo.
Ele me deitou na cama, sem tirar os lábios dos meus. Ficamos assim por um longo tempo.
Um e-mail chegou.
– Não vai ver? — murmurei sem desgrudar os lábios dos seus.
– Não, não é importante agora. — ele disse.
Enquanto minhas mãos percorriam seus ombros, acabei pegando numa queimadura de leve. Ele reclamou baixinho.
– Desculpa. – disse.
– Nada demais.
– Sabe, eu fiquei desesperada quando você desmaiou.
Ele parou de me beijar e se deitou, ficamos olhando para o teto.
– Você achou que eu fosse morrer? — questionou.
– Naquela hora eu tinha certeza que você estava morto. — respondi reprimindo as lágrimas.
– E como foi?
– O que?
– O que você sentiu?
– Como se estivessem cerrando o meu coração e a minha alma. Uma parte dela foi arrancada durante o desespero e foi jogada num lago de larva fervente cor de ébano. — fechei os olhos lembrando-me do sonho.
Senti seus lábios nos meus.
– É assim que eu me senti toda vez que você esteve à beira da morte.
– Eu quase surtei. — declarei.
– Eu também. — ele disse enquanto acariciava meu rosto.
– Me promete uma coisa?
– Qualquer coisa.
– Prometa que nunca mais vai colocar um cigarro na boca de novo.
Ele me deu um selinho.
– Eu juro, Sarah, que eu nunca mais vou fumar. Nunca mais.
Suspirei.
– Isso me deixa melhor.
– E me deixa melhor saber que você está melhor.
Ele se levantou e foi ver o e-mail, se espreguiçando e retesando os músculos.
Ele pareceu congelar.
– Sarah, vem ver isso.
Levantei-me preguiçosamente e quando vi o e-mail entrei em choque.
Uma foto de eu e Oliver nos beijando com ele sem camisa estava anexada.
“Meu pai me disse uma vez para não se meter na intimidade de um casal, mas eu não dou muito valor ao que o meu pai me diz. Ninguém sabe que vocês não fizeram nada além de beijar, infelizmente, e digamos que metade da Jordan High School recebeu essa foto. Não sou uma daquelas garotas fofoqueiras, mas isso foi realmente divertido. Seu nome está bem perto agora, Sarah...”-Anjo da Morte.
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