Brincando Com o Inimigo
7 Capítulo Sete.
Depois de meia hora envolta por suas músicas, a deusa se levantou, decidida de que sua dose de depressão daquela manhã já estava no limite.
Limpando as marcas das lágrimas que insistiram em cair pelo seu rosto há um tempo, decidiu fazer algo produtivo. Assim, foi para o próprio quarto. Afinal, ainda tinha muito o que preparar. Malas para desfazer, roupas para guardar, livros para organizar.
Andando pelo palácio, pôde mais uma vez admirar a incrível arquitetura. As paredes brancas ficavam com um tom azulado por conta da água, as portas marrom avermelhadas, os moveis impecáveis, os tapetes vermelhos que se estendiam por quase todos os corredores.
Quando finalmente chegou ao quarto, teve uma surpresa: não tinha o que arrumar. Todo o cômodo estava impecavelmente organizado.
Como que por instinto, Athena olhou para o relógio, que estava no criado-mudo do lado direito. Ele mostrava que faltavam quinze minutos para o meio dia.
— Não é possível, como o tempo pôde ter passado tão rápido? – murmurou para si.
— Ele não passou – disse alguém atrás de mim. E não era necessário ser a deusa da sabedoria para adivinhar quem era esse "alguém".
— Você está me perseguindo, não é? Saia logo do meu quarto – disse a deusa, tentando manter a calma.
— Acho que já tivemos essa discussão antes. – ele falou, fazendo-a soltar um suspiro cansado.
— Poseidon, estou falando sério, saia do meu quarto agora.
— O relógio não está funcionando. — disse ele, ignorando as palavras da loira. — Na verdade, ainda são nove e meia... As coisas tendem a quebrar aqui, por conta da água e da pressão, apesar dos meus esforços com as barreiras. De qualquer forma, vou mandar alguém para arrumar isso... Enfim, eu só vim te avisar que o almoço será servido ao meio dia em ponto.
— Está bem – falou a deusa, de forma fria.
— Não se deixe enganar tentando adivinhar as horas pelo sol.
— Como sabe que eu faria isso? – disse, não deixando a surpresa transparecer na voz.
— Você não usa relógio, e é paranoica de mais com o horário — ele deu de ombros.
— Se você convivesse com Hera também seria... – murmurou.
— O mais provável é que você usasse o sol para saber as horas. Eu entendo, são anos de prática. Nem sempre tivemos relógios tão facilmente à disposição. Acontece que é fácil se enganar por conta da água. – ele falou, mais uma vez ignorando os comentários da deusa.
— Refração... faz sentido. Mas, de todo modo, eu não me enganaria – garantiu, com a voz ainda fria. Embora tenha de admitir ter ficado impressionada por ele ter deduzido isso tão facilmente.
Ele riu antes de responder:
— Não se deixe levar pelas aparências, eu mesmo me engano às vezes, e tenho anos de experiência.
— Como se você soubesse ver as horas através do sol. – falou, ignorando o fato de Poseidon ter citado A Bela e a Fera. Provavelmente não fora intencional.
— Tem muita coisa que você não sabe a meu respeito. – ele abriu um sorriso de lado, e saiu.
(...)
Como a deusa estava sem o que fazer por todas as suas coisas já terem sido organizadas, ela se prontificou a fazer um "conhecimento de campo" pelo castelo. Ao olhar o relógio em seu pulso — que fizera questão de colocar para garantir que não se atrasaria para o almoço — percebeu que marcava onze e quarenta, então decidiu ir para sala de jantar.
Após virar por alguns corredores, percebeu que não reconhecia o lugar onde estava. Era só o que me faltava, me perder no palácio do meu maior inimigo... Humpf.
Seguindo em frente, a deusa se deparou com uma janela por onde a luz do sol entrava, formando um arco Iris com o contato da água. Ela poderia pedir ajuda, sabia que tinha dracmas em um dos bolsos, mas o orgulho falara mais alto.
Após uma breve reflexão, decidiu seguir em frente, deduzindo que por haver luz do sol adentrando a janela ela estaria em um ponto alto do palácio, provavelmente uma torre, e por isso seria mais fácil achar uma escada.
Depois de andar por cerca de dez minutos, a deusa notou que as paredes haviam adquirido um tom mais escuro, e o tapete vermelho já não estava mais presente. Imaginou que o palácio devesse ter passado por uma reforma recente, pois não faria sentido a parte do local que deveria ser o mais novo, aparentar ser o mais antigo.
(...)
— Você está meia hora atrasada. – Poseidon disse logo que a viu entrar na sala.
— Desculpe, me perdi. – falou ao se sentar.
— Que você se perdeu eu sei.
— Como você sabe que eu me perdi?
— Graças a nossa pequena discussão mais cedo, no seu quarto, eu sabia que você se recusaria a se atrasar para o almoço. — ele falou, dando de ombros – E, a julgar pelo relógio no seu pulso, eu estava certo. Não quis arriscar pelo sol, não é mesmo? Embora eu pensasse que você fosse esperta o suficiente para tirar o relógio antes de entrar aqui — ele sorriu de lado enquanto fazia esse último comentário. — Então, depois de dez minutos te esperando, coloquei alguns guardas para te procurar. Bem, se a comida estiver fria, saiba que a culpa é sua.
Poseidon se virou e fez um gesto com a cabeça para uma senhora, e o almoço começou a ser servido.
— Obrigado — Poseidon agradeceu, fazendo com que a senhora sorrisse. Logo depois, ele franziu a testa, como se tivesse lembrado de alguma coisa. — Aliás, Marrie ainda não desceu para almoçar. Pode ver se aconteceu alguma coisa, por favor?
— Marrie almoçou mais cedo, junto com os serviçais.
— Uhm... Bem, ela almoçar mais cedo é normal, mas normalmente vem me fazer companhia quando eu estou almoçando... Posso saber qual o plano de vocês dessa vez? — perguntou Poseidon, com um tom desconfiado, embora um sorriso estivesse estampado em seu rosto. Athena sorriu com isso. O deus de olhos verdes sempre fora muito reservado mas, naquele momento, parecia impossível que estivesse sendo mais aberto.
— Não estou escondendo nada! — disse dona Tathieine.
— Você vai me contar agora, ou eu vou ter que descobrir sozinho? — Poseidon falou, arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços, embora a diversão estivesse estampada em seu rosto.
— Sozinho não, porque eu também estou curiosa — declarou a deusa, embora já soubesse o que se passava.
Dona Tathieine suspirou. Ia abria a boca para falar quando a porta se abriu. Apenas uma cabeça adentrando a sala.
— Tathieine, preciso de ajuda com o vestido. — falou a dona da cabeça.
— Marrie, pare de espiar atrás da porta! E pode desistir, a dona Tathieine vai falar o planinho maligno de vocês. Agora — disse Poseidon, e a esse ponto Athena já segurava as gargalhadas.
Marrie soltou um granido, fechou a porta, e saiu.
— Dona Tathieine, pode começar.
— Bem, Marrie apenas pensou que você não fosse precisar de companhia — ela lançou um olhar para a deusa da sabedoria. — agora, eu preciso ajudar Marrie com o vestido. — falou, já saindo.
Poseidon mexia a cabeça e sorria, e rapidamente se voltou para a deusa.
— Mas agora, me responda Athena, você sabe me descrever onde estava? — Perguntou Poseidon, com uma súbita mudança de assunto que fez a deusa empertigar-se.
— Eu não sei muito bem — respondeu ela, virando para ele. – Na verdade, eu queria te perguntar se o palácio passou por uma reforma atualmente.
— Não. Por quê?
— É que o lugar onde eu estava, ele parecia mais antigo, as paredes eram mais escuras, não havia o tapete vermelho, a iluminação era feita a poucas tochas. O que aconteceu?
Poseidon se mexeu em sua cadeira, obviamente desconfortável, para depois responder:
— Digamos que o meu divórcio com Anfitrite não tenha sido dos mais felizes.
— Ah... Está bem, então. Embora eu não entenda em que isso seja relevante na arquitetura do palácio.
— Reparou na arquitetura? – Poseidon perguntou.
— Oh, mas é claro que reparei! A mistura do grego com o romano, do clássico com o moderno. O palácio é incrível!
Poseidon abriu o seu clássico sorrisinho de lado antes de falar:
— Muito obrigado, eu tenho dons natos para arquitetura.
— Você quer mesmo que eu acredite que foi você quem arquitetou esse lugar?
— Claro, é a verdade.
A deusa revirou os olhos com o que julgava ser as "baboseiras" dele, mas não sem se repreender mentalmente, como eu pude ter sido tão estúpida por não ter tirado o relógio antes de entrar na sala? Ou por não ter pensado que o próprio Poseidon pudesse ter desenhado o palácio?
“Hora, não cobre tanto de si mesma, você — e provavelmente todos os outros seres pensantes que existem — simplesmente não achou que ele tivesse capacidade mental para projetar um palácio tão magnifico como esse. Muito menos que ele fosse reparar que você estivesse usando o relógio. Afinal, estamos falando do energúmeno do Poseidon”.
Ainda assim, eu sempre planejei tudo tão minuciosamente, como pude ter cometido deslizes tão absurdos?
— Poseidon, que roupas eram aquelas que estavam no meu closet? Eu as vi ontem à noite e esqueci de perguntar – falou, mudando de assunto e tentando reverter o curso dos pensamentos.
— Ah, eu esqueci de avisar. É que logo depois que o seu pai declarou que você se casaria comigo, Afrodite veio aqui, toda serelepe, e disse que queria “arrumar o seu quarto”. Eu falei que já estava tudo pronto, mas ela abriu um sorrisinho estranho e falou que iria arrumar mais especificamente o closet. E eu não sou louco para contrariar Afrodite se tratando do quesito “roupas”. Deixei que ela se divertisse.
— Tenho medo até de imaginar o que aquela doida colocou naquele closet... Mas quem arrumou as minhas coisas no quarto?
— Você, não? Eu ia falar para algum dos criados fazer isso, mas pensei que você gostaria de deixar tudo do seu jeito.
Pra quem fez um quarto tão impessoal, ele tem adivinhado muitas coisas sobre mim...
— Não, não fui eu quem arrumou. Quando cheguei ao meu quarto naquela hora, um pouco antes de você ir me encher, os meus livros já estavam nas estantes, as minhas coisas estavam organizadas pelo quarto, e as minhas malas não estavam mais lá.
— Eu não mandei ninguém arrumar.
— É... – falou a deusa enquanto pensava, com a cabeça tombada para o lado, até que arregalou os olhos – Poseidon, os meus livros estavam organizados por cor!
Athena subiu correndo as escadas.
Quando chegou no quarto, foi direto para o closet. E, como suspeitava, nenhuma das roupas que estavam lá lhe pertenciam. Nem mesmo as que já tinha colocado ali.
— Afrodite! Você me paga!
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