Brincando Com o Inimigo
8 Capítulo Oito.
Notas iniciais
Depois de a deusa jogar a metade do closet em cima da cama enquanto procurava por algo decente e gritar enfurecidamente ao olhar para cada peça de roupa descabida que ali havia, Poseidon entrou no quarto.
— Athena, você está bem? Estou ouvindo os seus berros lá de baixo. Se fosse possível, eu pensaria que você estivesse morrendo.
— Eu bem poderia estar morrendo! OLHA ISSO! VOCÊ ME IMAGINARIA USANDO ISSO?! – gritou, jogando em cima dele um vestido/blusa preto, decotado e justo.
— É, definitivamente você não poderia usar isso... É uma coisa inimaginável.
— Você, por acaso, está insinuando que eu não sou bonita o suficiente para usar um vestido como esse?
— Na verdade eu estava falando que a sua personalidade não condiz com um vestido desses. Por exemplo, Afrodite usaria isso para ir ao mercado, já você... Acho que não usaria nem que descobríssemos que Zeus é a Hannah Montana, mas pense o que quiser.
— Eu aposto que você só sai com mulheres que usam esses vestidos.
— Na verdade, não — ele chegou mais perto, encostando seus lábios na orelha dela. – Eu sempre preferi as quietinhas.
Ele falou aquilo como se fosse um segredo, saindo em seguida, e a deixando sozinha enquanto olhava incrédula para porta fechada. Por mais que odiasse isso, estavam arrepiada.
***
Depois de pensar e absorver tudo que aconteceu nos últimos dias, Athena chegou às seguintes conclusões:
1 – Poseidon pode ser gentil e atencioso quando quer.
2 – Ele é mais esperto do que aparenta.
3 – Ele sabe ler o que os outros estão sentindo.
4 – Ele consegue adivinhar o que os outros estão pensando.
5 — Ele é confuso.
Após essas “incríveis” conclusões, ela decidiu procurá-lo. Afinal, precisavam ter uma conversa séria.
(...)
Athena vagou pelo palácio por algum tempo. Contudo, a verdade era que ela não fazia ideia de onde procurá-lo.
Ela continuou andando até que encontrou Marrie, a jovem dona da cabeça da cozinha e do plano mirabolante do qual a deusa fora vítima na hora do almoço.
Agora, de perto, a deusa da sabedoria podia ver que a jovem tinha lindos olhos azuis, daqueles que pareciam poder penetrar na sua alma e descobrir todos os seus segredos. Iguais aos de Poseidon, só que azuis ao invés de verdes, pensou.
Sua pele era extremamente clara, assim como a de todas as ruivas. Os cabelos, de um tom vermelho alaranjado vívido, eram curtos e repicados, fazendo com que emoldurassem o seu rostinho redondo.
Ela usava uma camiseta branca com um casaco jeans na cor verde grama, uma calça também jeans, mas preta azulada e bem escura, e uma bota preta de cano longo por cima da calça, deixando à vista uma adaga "escondida".
— Oi, com licença. É Marrie, certo?
— Sim. A senhora tem de fato uma ótima memória, Lady Athena.
— Obrigada, mas pode me chamar só de Athena.
— Oh, claro. Força de habito, com Anfitrite era sempre "senhora isso", "lady aquilo". Sabe como é... Enfim, precisa de ajuda com alguma coisa?
— Na verdade, eu estava procurando Poseidon... Você sabe onde ele está?
— Eu não sei, mas não é difícil adivinhar. Provavelmente está na biblioteca.
— Biblioteca...?
— Sim, Poseidon não te falou? Aqui temos uma biblioteca incrível.
— E Poseidon está lá por vontade própria? Ninguém o Forçou a ir? – perguntou, sem conseguir acreditar. Achava incrível e ao mesmo tempo surreal que ali houvesse uma biblioteca, e ainda mais que Poseidon estivesse lá.
— E por que alguém precisaria obrigá-lo a ir? Seria mais provável tentar obrigá-lo a sair.
— Como assim?
— Ah, Poseidon faz tudo dentro daquela biblioteca. Parece até a toca de um aliem, ele só sai de lá para dormir e comer. — ela contava, enquanto levava a deusa pelos corredores – Teve uma vez que ele brigou com Anfitrite... bem, grande novidade, eles brigavam sempre... Enfim, essa deve ter sido mais grave. Ele mandou colocar uma cama e um frigobar lá dentro... Não saiu de lá por uma semana! Eu era a única pessoa que ele deixava que entrasse. Levava comida, conversava, essas coisas — disse Marrie, orgulhosa. — Ele não estava batendo bem das ideias nessa época. Não dormia direito, e ficava conversando sozinho. Ficamos todos muito preocupados.
— Eu, mais do que ninguém, sei como é se sentir assim. Já aconteceu comigo várias vezes. Perdia a noção do tempo e por isso me esquecia de dormir, conversava com os personagens dos livros e, às vezes, a fome também se esvaia. Não sentia vontade fazer outra coisa senão ler. – falou a deusa, e logo em seguida pararam em frente a uma grande porta dupla marrom escura.
Marrie bateu na porta três vezes, e logo em seguida uma voz respondeu:
— Entre.
Athena demorou um pouco para reconhecer que a voz pertencia a Poseidon, pois ela estava diferente. Soava baixa e surpresa, como se ele estivesse acabado de sair de um transe.
Marrie abriu a porta, e o que se encontrava lá dentro fez com que a deusa perdesse o ar.
A biblioteca era simplesmente a maior de todas as que já havia visto em sua eternidade. O chão tão claro que chegava a reluzir, as paredes de grafiato azul, extremamente claras, as prateleiras de livros também brancas.
Do outro lado da biblioteca, no fundo da sala, depois de todas as estantes lotadas de livros, a parede era de vidro, deixando entrar uma luminosidade natural, e dando uma vista incrível para o jardim. Em frente a parede, havia um lugar com vários pufes vermelhos e azuis, uma mesinha de centro marrom escura, um tapete branco felpudo, e uma lareira preta. A lareira estava ligada, dando um ar aconchegante ao ambiente.
Sentado em um dos pufes azuis, estava Poseidon. Ele se encontrava tão concentrado em um livro que não havia notado que a deusa havia entrando ao invés de Marrie.
Athena sentou ao lado dele, em um dos pufes vermelhos, chamando sua atenção.
— Você em uma biblioteca, por vontade própria... Quem diria? – disse ela, fazendo-o sorrir.
— Eu disse, tem muitas coisas que você não sabe sobre mim – ele fechou o livro e me olhou. – Mas agora que Marrie tomou a liberdade de te trazer aqui sem o meu consentimento, responda: Gostou? A minha humilde biblioteca lhe agrada?
— Se eu gostei? Eu adorei! Essa é a biblioteca mais incrível que eu já vi! E de humilde ela não tem nada...
— Obrigado.
Poseidon se levantou e andou até a lareira. Mexeu em alguma coisa e uma música suave de piano começou a tocar. De imediato a deusa a reconheceu: Pour Elise, de Bethooven. Ele voltou a se sentar, e Athena pôde ver que em cima da lareira havia um toca discos, e na prateleira encostada na parede, ao invés de livros, vários discos de vinil se encontravam.
— Música clássica?
— Ajuda a pensar. – ele disse, dando de ombros.
— Apolo quase enlouqueceu na época para escolher "aquele que ""revolucionaria a música", lembra?
— Sim... Ele ficou obcecado em achar alguém a quem pudesse dar o dom, mas que não se acharia melhor do que ele depois — disse o deus dos mares, sorrindo. — Sempre muito vaidoso.
— Bem, no final não deu muito certo...
— Não mesmo — disse Poseidon — Por mais que o cara não se achasse, Apolo ficou com tanta inveja que tentou tirar a audição dele. Foi uma pena.
— Sim, a sorte do cara fui eu — disse Athena.
— Você? — perguntou Poseidon — Foi você quem não permitiu que Apolo o deixasse surdo de vez?
— Ele era incrível ao ponto de conseguir continuar tocando se ficasse surdo, mas eu não iria correr o risco de deixá-lo sucumbir a tristeza e acabar se matando. Acabei desafiando Apolo para uma luta, e ganhei. Na aposta, ele não pôde acabar com a audição dele, apenas danificá-la.
— Isso explica bastante coisa, na verdade. Sempre me perguntei porquê ele não acabou com tudo de vez — disse o deus, voltando a pegar seu livro.
— O que está lendo? – Perguntou Athena, abaixando a cabeça para tentar ver a capa.
— Sherlock Holmes.
— Acho que isso explica porque você vive adivinhando tudo, e percebe todos os detalhes do que está ao seu redor.
— Efeito colateral.
— Você tem o resto da coleção? – perguntou ela, apontando para o livro.
— Tenho sim, terceira prateleira de baixo, no ultimo corredor à esquerda, na estante da direita.
Athena levantou e foi até onde ele falou. De fato, lá estava toda a coleção de Sherlock Holmes. Ela voltou para o pufe vermelho em que estava sentada antes, e começou a ler o livro que não conseguiu terminar no Olimpo.
Ela terminou de ler o livro ao mesmo tempo em que a música parou de tocar. Poseidon se levantou e foi até o corredor de discos, ele voltou com um na mão e o colocou no tocador. A música Don’t Look Back in Anger, do Oasis, começou a tocar.
Athena arqueou as sobrancelhas, o olhando surpresa.
— O que foi? Não gosta? – ele perguntou, sentando novamente.
— Gosto sim. Não é nada – respondeu, mordendo o lábio.
— Nada?
— É que eu não imaginava que você gostasse de Oasis. Só isso.
— Da mesma forma que você não imaginava que eu gostasse de ler, ou que pudesse ser gentil quando quero, e que sou mais inteligente do que você pensava?
— E que você conseguisse adivinhar o que as pessoas estão pensando? Sim, exatamente isso.
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