Brincando Com o Inimigo
39 Capítulo Trinta e Nove.
Notas iniciais
Capítulo Trinta e Nove
Atena, uma última vez, contemplou sua imagem refletida no espelho.
Afrodite, realmente, fizera um bom trabalho. Seu cabelo loiro estava trançado e caia por sobre seu ombro direito. Algumas de suas madeixas cacheadas caiam em frente ao seu rosto causando-lhe cocegas na bochecha.
Seu vestido, dourado, reluzia quase tanto quanto seus olhos cor de tempestade. O corpete do vestido, justo de forma a emoldurar perfeitamente sua fina cintura e seus seios, era bordado por fios de ouro em desenhos espiralados. A partir do quadril o vestido era solto, porém não armado. Ele caia de forma solta por suas pernas, marcando levemente seus formatos cada vez que ela anda. A cauda dele era simples, feita apenas para acompanhar o caminhar da deusa.
Seus sapatos, visíveis a cada passo dado por ela, eram saltos e dourados, abertos em tiras na parte da frente, deixando à mostra as unhas de seu pé feitas de forma perfeita e pintadas de branco, assim como as das mãos.
Sua maquiagem era graciosa, feita para que os outros percebessem apenas o que a maquiadora quisesse que os outros percebessem. Afrodite conseguira apagar todas as suas olheiras, levantar o olhar da deusa, deixar seus olhos maiores, seu nariz mais fino, suas bochechas mais acentuadas e até mesmo seus lábios mais longuinhos e cheios. Ainda assim, a deusa do amor deixou Atena com a expressão incrivelmente natural. Quem a visse só perceberia o batom rosa, quase tom de boca, em seus lábios, o lápis que circundava delicadamente os cantos superiores de seus olhos e, se fosse uma pessoa observadora, talvez percebesse o rímel que delineava seus cílios.
Atena desviou o olhar do espelho, se virando e afastando dali. Ela saiu de seu quarto, atravessou o corredor e entrou no de seu noivo, se sentindo decepcionada – embora não surpresa – por não encontra-lo lá.
Ela suspirou, se dirigindo até a sacada e espiando por entre as cortinas, vendo apenas uma carruagem azul e dourada que parara em frente à entrada do castelo.
Ela abaixou o rosto e se distanciou do local, o tecido marrom avermelhado da cortina escapando por entre seus delicados dedos.
Atena sentia falta de alguma coisa, e tinha certeza que não se tratava das mangas de seu vestido, pois já tinha se acostumado ao fato de que ele era do modelo tomara-que-caia. Também sabia que não eram seus brincos ou sua gargantilha, uma vez que havia acabado de coloca-los, e sentia os diamantes pesarem em sua orelha e em torno de seu pescoço.
– Atena? Você está bem? – a voz doce de Ártemis preencheu o cômodo, e Atena levantou o olhar para encara-la. A outra deusa entrava lentamente no quarto, como se pedisse aprovação para prosseguir. Atena assentiu, respondendo à pergunta, voltando a encarar o chão, pronta para ouvir a resposta de sua amiga. – Tem certeza? Você não me parece muito bem para alguém que está prestes a se casar.
Atena levantou o olhar e encontrou os olhos prateados da amiga. Após alguns segundos o silencio e a intensidade dos olhares foram cortados pelas palavras da deusa da sabedoria.
– Esse é o ponto. Não sei se estou prestes a me casar. Não sei se ele virá.
– Ele virá – afirmou Apolo, entrando no quarto e parando ao lado de Ártemis, sua noiva, e segurando sua mão.
Atena se sentou na cama, abraçando um dos travesseiros e se deixando inebriar pelo cheiro de Poseidon.
Ela abriu os olhos e encontrou o olhar terno de sua amiga sobre si.
Ártemis desentrelaçou delicadamente a sua mão da de Apolo, e foi até a amiga, sentando-se em frente a ela e pousando as suas mãos sobre as da outra.
– Por favor, querida, não chore. Você acabará aparecendo no salão com o rosto avermelhado, e Afrodite surtará. E possível que ela sequer te deixe entrar no salão assim.
– Eu não me importo Arti. Eu só quero vê-lo.
– Atena – chamou Apolo – eu já disse. Ele virá. Não precisa se preocupar.
– Como pode ter certeza?
– Porque eu o conheço bem o suficiente para saber que ele jamais deixará o amor da vida dele escapar.
***
– Atena, querida, você está pronta? – perguntou Afrodite.
Atena a olhou. Afrodite estava esplendorosa em seu longo vestido vermelho. Seus cabelos, castanhos escuros, estavam soltos e caiam em ondas delicadas por seus ombros, emoldurando perfeitamente seu rosto e destacando seus incríveis olhos verde-oliva. Seu batom vermelho-sangue combinava com o tom de seu vestido, e fazia um par perfeito com o desenho do lápis sobre seus olhos.
Sua bolça trazia a única divergência de cores em toda sua aparência. Ela era do modelo carteira, e trazia um tom de marrom quase preto e com os detalhes em um dourado quase da cor do sol.
Atena negou com a cabeça, fazendo com que a deusa do amor relaxasse a postura em desapontamento.
– Como assim não está pronta? Eu fiquei duas horas apenas fazendo a sua maquiagem. Demorei horas para te aprontar. O que falta para que você esteja pronta? – Ela perguntou, abismada.
– A coragem, Dite.
Afrodite sorriu em compreensão. Desde que Artemis fora embora para encontrar um lugar para se sentar ao lado de Apolo, Atena ficara sozinha se preparando psicologicamente para entrar.
Ela pensara nas palavras de Apolo, mas, mesmo assim, as dúvidas ainda a rodeavam. Afinal, ela era de fato o “amor da vida de Poseidon” como Apolo falara? Até porque, ele nunca sequer disse que a amava. E, ainda que isso fosse verdade, as palavras de Apolo ainda prevaleceriam se ele soubesse o que ela contou a Poseidon?
– Atena, não se preocupe. Você acha que eu não fiquei preocupada quando fui me casar com Hefesto? Esqueceu que o meu casamento com ele também foi arranjado?
– Você sabia que Hefesto apareceria no casamento. Sempre soube que ele foi apaixonado por você.
– Fala como se Poseidon não fosse doido por você.
– Eu não sei Dite. Ele nunca me falou.
Afrodite a olhou, um sorriso terno estampado nos lábios.
– Não se preocupe com isso querida. Tudo tem a sua hora.
Atena abaixou o olhar, a mente vagueando à procura de um possível lugar onde Poseidon pudesse estar.
– Dite, o meu medo é que eu entre e ele não esteja lá. Você sabe, entramos ao mesmo tempo. E se eu passar pela porta de um lado e ele não estiver entrando do outro? O que vou fazer? Eu não vou aguentar. Sei que vou desabar. E todos ainda estarão olhando para mim... Eu não vou conseguir, Dite.
– Atena, a deusa da sabedoria, a maior redatora de palestras de todo o Olimpo, está com medo de palco?
– Não seja boba. Eu só tenho medo que as coisas não saiam da maneira certa. O que vou fazer se ele não aparecer?
– Você se esqueceu das aulas de teatro que eu te obriguei a fazer? Se as coisas não saírem conforme o planejado, improvise.
***
Atena estava parada em frente às portas duplas.
Ela, basicamente, se controlava para não derramar as lágrimas de nervosismo. Por enquanto, estava conseguindo.
Dali a alguns segundos as portas se abririam, e ela entraria pelo lado esquerdo do salão. Poseidon – se aparecesse – entraria à frente dela, do lado direito do salão, e os dois se encontrariam no centro em frente às escadas, na frente de Hera, e a cerimônia se iniciaria.
Por outro lado, se Poseidon não aparecesse, Afrodite começaria a gritar no salão dizendo que Poseidon foi raptado. Atena, a esse ponto, sairia correndo pelo não comparecimento do noivo, mas ninguém estaria prestando atenção a este fato. O salão seria tomado pelo caos, e o resto só as Parcas saberiam.
Uma delicada mão pousou sobre o ombro direito de Atena, chamando sua atenção.
– Está na hora – disse Ártemis.
Seu vestido era quase tão prateado quantos seus olhos, da forma mais Ártemis possível. Nada que ela usasse era exagerado, na verdade, era mínimo. Sua maquiagem era leve, apenas realçava seus olhos, e seu lindo cabelo ruivo estava solto. Talvez, a única mudança na forma com o qual ela sempre se arrumou para as festas fosse o fato de que seu vestido marcava um pouco mais o seu corpo do que era de habito pela deusa. Provavelmente, uma mudança ocasionada em decorrência de Apolo.
Atena respirou fundo e assentiu. Ela lançou um último olhar à amiga antes de olhar para as portas e então escutar a musica de três notas tão comum aos casamentos olimpianos. Atena nunca esperou ouvir a musica enquanto entrava no salão, do mesmo modo que nunca esperou que todas as damas do casamento estariam usando vestidos longos por causa do casamento dela, como mandava a tradição.
As portas terminavam de se abrir e Atena fechou os olhos. Ela contou até três e deu o primeiro passo. A essa altura, ela já esperava ouvir o grito de Afrodite, mas quando não o ouviu, abriu os olhos, e encontrou um par de esmeraldas verdes e sorridentes sobre si.
O sorriso que Atena abriu poderia iluminar o mundo e aquecer o coração de todos, tirando até mesmo o posto de Apolo como deus do sol.
Quando todos os paços foram dados e os dois enfim se encontraram no meio do salão, Poseidon entrelaçou seus dedos nos de Atena e se aproximou, sussurrando no ouvido da deusa.
– Achou que eu não viria?
Atena, desnorteada, o olhou.
– Eu...
– O casamento olimpiano é uma das maiores juras, promessas, gestos de fidelidade e, sem dúvidas, o maior compromisso de união que dois deuses podem tomar em sua eternidade – começou Hera, interrompendo Atena. – A partir do momento em que passaram por aquelas portas, vocês dois iniciaram uma jura eterna perante o Rio Estige. Se algum de vocês dois, Poseidon, deus dos mares, ou Atena, deusa da sabedoria, não estiver de acordo com o casamento ou com os seus termos, esta será a última chance de falarem.
Nenhum dos dois se pronunciou, e Atena soltou o ar que ela sequer percebera que prendeu.
Poseidon apertou mais a mão de Atena, e ela o olhou. A primeira impressão, o rosto de Poseidon estava inexpressível, mas se reparasse bem, era possível ver que seus lábios estavam levemente arqueados, como se ele tentasse segurar um sorriso.
– Um casamento entre dois deuses olimpianos não poderá ser anulado. Portanto, é necessária a certeza entre as duas partes de que querem continuar. – comunicou Hera. Ela os olhou, esperando a confirmação.
Atena engoliu em seco, com medo. Ela e Afrodite tinham bolado um plano caso Poseidon não aparecesse, mas não para o caso de ele sair do casamento.
Poseidon sorriu, entendendo o gesto da deusa, e começou a acariciar a mão dela com o seu polegar.
– De acordo – responderam Poseidon e Atena em uníssono.
Hera voltou a falar, mas Poseidon mal ouvia suas palavras. Sua atenção estava voltada para a mão de Atena. Para a macies da pele dela, e para o choque de sensações que aquele simples gesto lhe proporcionava.
Seu dedo passou por cima do pulso dela, e ele sentiu o quão forte os batimentos cardíacos dela estavam. Poseidon abaixou a cabeça e, mais uma vez naquele dia, sussurrou ao ouvido dela.
– Não precisa mais ficar nervosa. Eu não vou embora.
Atena se virou para ele e o estudou, para logo depois dizer:
– Não é mais por isso que eu estou nervosa.
Poseidon sorriu.
– E pelo que seria?
– Eu tenho três bons motivos, mas só posso te contar dois.
– Então os diga – o tom de Poseidon tinha um que de diversão, mas esta era quase afogada pela curiosidade que tomava o deus.
– O primeiro são os votos, o segundo é a sua proximidade. Você sempre me deixa nervosa.
Poseidon soltou um lindo sorriso.
– Espero que você fale isso no bom sentido.
– Mas é claro que sim.
– Se serve de consolo, os seus dois motivos também se aplicam a mim. Você escreveu os votos?
– Sim. E você?
O sorriso de Poseidon naquele momento poderia ter dito muitas coisas e ao mesmo tempo não ter significado nada. Foi um misto de expressões passadas em um lapso de segundo que nem mesmo Atena conseguiu entender o significado.
– É, escrevi.
Os dois pararam de conversar e se voltaram à Hera, que tinha acabado de fazer uma pausa e os olhava.
– Para que um ato matrimonial seja consagrado, é preciso ouvir as palavras daqueles que transformarão os seus destinos em apenas um só a partir de hoje – disse Hera. — Poseidon, seus votos.
Poseidon sorriu e se virou de frente para Atena, segurando as duas mãos dela entre as suas e se aproximando, para total surpresa da maior parte dos presentes.
– Eu passei muitos anos da minha vida guardando tudo só para mim. Ou melhor, atrás de uma porta no fim do corredor. Por mais que eu tentasse dividir o que eu sentia com alguém, eu sempre soube que faltaria algo. Até que eu recebi a linda notícia de que seria você a se casar comigo, e eu parei de usar a minha porta como tapete e jogar tudo que eu não queria que ninguém visse de baixo dela.
“Eu percebi, Atena, que a única pessoa para quem eu quis esconder as coisas por todo esse tempo foi você, e fiz isso somente por ter medo da sua reação. Da mesma forma que, há tantos séculos atrás, no dia do baile em comemoração ao seu nascimento, eu cometi o pior erro da minha existência.”
“Talvez se, naquela noite, enquanto nós dançávamos, eu não tivesse mentido dizendo que era comprometido com a moça que me acompanhava no baile, sendo que eu não era, e tivesse lhe dito a verdade, a de que aquela mulher apenas me acompanhava, que eu estava perdidamente apaixonado por você, nós dois já estivéssemos casados há muito tempo. E, por isso, eu te peço desculpas.”
Poseidon levantou a mão e, com o polegar, enxugou a lágrima solitária que escorria pelo rosto da deusa. Quando terminou o gesto, porém, ele não afastou a mão, a repousando sobre o pescoço de Atena e o acariciando com o polegar.
– Você Atena, como deusa da sabedoria e estratégia, como a ótima lutadora que sempre foi, deve saber o quão ruim é saber que fez uma escolha errada e o preço que se pode pagar por ela. A minha pior escolha foi tentar te causar ciúmes e, por mais que eu não tenha demorado mais do que alguns segundos para faze-la, eu paguei um preço muito alto por um bom tempo.
“Eu fiquei sem você.”
“Hoje Atena, o meu único desejo é que você permaneça ao meu lado. Eu quero acordar do seu lado, passar o dia com você e ir me deitar sabendo que você está comigo. Nem que, para isso, eu tenha que segurar a sua mão enquanto adormeço por todos os dias da minha vida.”
“Eu quero tentar resgatar o nosso tempo perdido, nem que para isso eu tenha que te olhar por todos os segundos pelo resto da eternidade. Afinal, não é como se isso fosse um sacrifício.”
“Acredito que você, assim como eu, é uma grande conhecedora das palavras, e também acredite que quando proferida demais, as palavras perdem o significado. Por isso, eu não vou acordar todos os dias e dizer que te amo, embora esta seja a mais sincera das verdades. Não vou deixar que o amor, a mais bonita das palavras e o mais belo dos sentimentos percam o significado para nós. Ao invés disso, eu te prometo demonstrar o meu amor por você todos os dias, de todas as maneiras possíveis, ao longo da eternidade. E, quando eu já tiver usado todas as minhas maneiras criativas, nós poderemos começar com os nossos tão amados clichês. Nessa época, eu te garanto que você vai realizar o seu sonho de fazer parte de um livro.”
Com isso todos riram, inclusive Atena, que agora tinha o rosto tomado por lágrimas.
– Eu te amo, Atena – continuou Poseidon. – Por todos esses anos, foi você quem deu motivo a minha existência. Eu só queria ter conseguido dizer isso antes.
Poseidon encostou a testa na de Atena, agora com as duas mãos repousadas delicadamente sobre seu pescoço.
Poseidon fechou os olhos, mas Atena continuou a estuda-lo com os seus de cor tempestade.
– Muito bem – disse Hera, com um pouco de atraso, provavelmente chocada assim como a maioria no recinto. – Atena, os seus votos.
Poseidon abriu os olhos e encontrou os da deusa, a encorajando a falar. Ela abriu um mínio sorriso e deu uma piscadela para seu quase marido antes de começar a falar.
– Se você passou todos esses anos guardando tudo só pra você, eu os passei despejando as minhas mágoas sobre todas as pessoas ao meu redor. Eu tenho certeza que, durante eras, fui a pessoa mais ignorante, fria e calculista do Olimpo. E, se não fui, é uma decepção porque eu me esforcei muito para ser.
Todos riram.
– Eu queria ser odiada por todos, e isso apenas por não ter a sua afeição, Poseidon, a pessoa que mais me importava.
Atena colocou a mão sobre a barriga do deus, e foi deslizando suas mãos lentamente até chegar à nuca dele, onde uma de suas mãos afundou no cabelo dele, enquanto a outra acariciava lhe a bochecha.
– Quando eu vim para cá, a minha amargura, se assim posso chamar, foi se esvaindo aos poucos, por causa de você que, apesar dos pesares, foi a única pessoa que me entendeu. Nunca desistindo de mim, embora eu te desse inúmeros motivos para isso.
“Acho que, depois de um tempo, sendo compreendida e me tornando mais próxima de você, eu acabei percebendo que o amava. Quer dizer, que ainda o amava. E, aos poucos, também fui ganhando sua afeição, e com isso consegui voltar a ser eu mesma. Consegui deixar de tentar ser a pessoa que pensava precisar ser, para ser simplesmente eu.”
“Isso, eu devo a você, e por isso agradeço.”
Hera os olhos por alguns segundos, os analisando, antes de voltar a falar.
– Eu, Hera, como deusa do casamento, considero estes dois casados.
– E – disse Hestia, se levantando do seu lugar – Eu, como deusa do lar, abençoo esta união.
Uma enxurrada de palmas se iniciou e, antes que Atena pudesse esperar que elas se silenciassem, uma leve mão a segurou pelo braço.
Atena virou a cabeça, encontrando uma Afrodite com lágrimas nos olhos e, logo atrás, Artemis, com os olhos avermelhados.
– Vá – disse Poseidon.
Atena se virou para olha-lo. Apolo segurava o ombro de Poseidon, e sorria para ela como se dissesse “eu te avisei”. Bem, não é como se ele não tivesse avisado.
Atena tornou a olhar para seu marido, apenas vendo que ele sorria para ela.
– Vá. Nós vemos em breve. Precisamos conversar.
Atena assentiu, olhando uma última vez as orbes verdes antes de se virar completamente e se deixar ser puxada pelas amigas.
Elas subiram as escadas sem uma sequer palavra ser proferida, até que chegaram ao quarto de Atena. Artemis abril a porta, e Atena avistou uma Marrie que praticamente pulava de felicidade. Porém, quando Marrie viu o rosto da deusa, sua expressão logo se fechou.
Afrodite fechou a porta e as outras três abraçaram Atena. Era quase palpável a felicidade que as três emanavam, mesmo que elas tentassem se controlar para não deixar a amiga mais confusa.
Artemis e Marrie tiraram a cauda do vestido de uma Atena que sequer percebeu o ato. Enquanto isso, Afrodite destrançava o cabelo da deusa e arrumava as mechas douradas de tal modo a ficarem com cachos perfeitos caindo em cascata até suas costas.
Quando as três terminaram, Afrodite, com facilidade, fez com que Atena se sentasse na cama, uma vez que quase não havia diferença entre manipula-la ou a uma marionete naquele momento.
A deusa do amor começou a retocar a maquiagem dela. Desta vez, entretanto, passou um rímel aprova d’água, para que não houvesse risco de Atena tornar a chorar e a maquiagem borrar.
Quando terminaram, as três logo saíram da sala. Afrodite foi primeiro, seguida por Artemis, mas Marrie, antes de sair, se ajoelhou a frente da deusa e repousou a mão em sua perna, dizendo:
– Não se esqueça que, do mesmo modo que você queria que ele visse o seu lado, você também precisa ver o dele.
– Talvez não seja pelo o que ele me falou que eu esteja assim – respondeu Atena.
Marrie abriu um sorriso antes de responder.
– Eu sei que não.
E, dando apenas uma piscadela, ela saiu.
Logo que a porta foi fechada, Atena sorriu minimamente.
– Garota esperta...
Três batidas à porta foram escutas pela deusa, chamando-lhe a atenção. Ela teria ficado surpresa, se já não soubesse de quem se tratava.
– Entre.
A porta foi aberta, e Poseidon adentrou o quarto. Atena se levantou, retomando a compostura.
– Acho que temos de conversar. – disse ele, se aproximando dela.
Atena esperou até que ele parasse de andar para, então, responder:
– Eu acho que não.
Ela avançou e o abraçou, surpreendendo ao deus.
Atena se aconchegou contra o corpo forte dele, escondendo o rosto na curva de seu pescoço e, ali, despejando suas lágrimas. Poseidon passou os dois braços ao redor da cintura delicada dela, os dedos às costas da deusa acariciando a pele encoberta pelo tecido. Ele enterrou o rosto nas ondas dos cabelos dela, sentindo o cheiro de seu perfume o inebriar.
– Por favor, não chore. – pediu ele, a voz rouca de preocupação.
Atena o abraçou mais forte. Era como se ela precisasse senti-lo junto de si ou morreria. Como se a coisa mais preciosa que ela poderia ter pudesse lhe escapar. E poderia, se ela não à segurasse, não é mesmo?
– Você é um canalha, sabia? – disse entre lágrimas, embora houvesse um que de diversão em sua voz.
Poseidon riu, negando com a cabeça em descrença e agitando os fios loiros de sua amada. Ele recuou a cabeça, ainda mantendo os corpos dos dois juntos, segurou o rosto de Atena entre suas mãos, acariciando lhe as bochechas e olhando com ternura seus olhos marejados.
– Eu sei. Deveria ter te contado antes, quando você me contou a sua parte da história. Eu sei que te deixei preocupada e...
– Não – disse ela, interrompendo-o. – Você prometeu que nunca me abandonaria.
– E eu abandonei?
– Não. Mas me fez pensar que sim.
– Eu jamais faria isso com você. Você sabe disso, não é?
Atena o olhou mais profundamente, observando até o espelho de sua alma por dentro dos olhos do deus. E foi desta vez que Atena viu, pela primeira vez, que os olhos dele eram mais verdes do que esmeraldas e mais profundos e intensos que o mar.
– Agora eu sei.
Poseidon sorriu, tomando os lábios dela contra os seus. Era um beijo calmo e doce e, ao mesmo tempo, emergente. Os lábios de Poseidon se moviam com suavidade contra os de Atena, e sua língua percorria o interior da boca dela como se sua existência dependesse disso. Atena, por sua vez, o beijava com o fervor e o desejo de sua paixão que por tanto tempo estivera guardada dentro de si. Era como se ela estivesse tentando, em um beijo, descontar todo o amor que não pode dar a ele durante todos os anos que o esperou.
Quando eles se separaram, ofegantes, as respirações se condensando em decorrência da proximidade, os dois sorriam.
– Acho que temos de ir para a festa – disse Poseidon.
– Acho que sim – respondeu Atena, assentindo.
***
Logo que os dois desceram ao salão de festas, eles não tardaram em serem separados pela multidão de convidados que lhes davam os parabéns.
– É... Acho que agora eu, oficialmente, terei de dividir a minha filhinha. – disse Zeus, chamando a atenção da filha.
– Papai?
– Você conhece outro Zeus senhor dos céus, por acaso?
Atena sorriu, o abraçando.
– Oh pai. Fico tão feliz que tenha vindo.
– E por que eu não viria?
– Hora, você sempre odiou Poseidon. Não pensei que viesse ao meu casamento com ele.
– Querida, eu nunca odiei Poseidon. Okay, ele é inconsequente, irresponsável, egocêntrico...
– Pai!
– Mas eu nunca o odiei. Eu só sentia ciúmes de você. Só isso.
– Ciúmes?
– Sim. Desde que você nasceu, eu sempre soube que vocês se gostavam. Bem, grande parte dos deuses sempre achou isso, na verdade... Mas enfim, eu sempre soube. Ou você acha que eu teria deixado que você se casasse com ele sem mais nem menos. É claro que eu sabia que isso acabaria acontecendo.
– Então você aprova?
Zeus deu de ombros, como se a pergunta de sua filha fosse quanto a quantidade de comida para se dar a um peixinho dourado.
Mas, para Atena, era mais do que isso. Significava que, novamente ela tivera uma opinião errada com uma pessoa. Primeiro com Poseidon, e agora com o fato de que o pai não a havia deixado se casar com o deus dos mares apenas por orgulho, mas sim porque se importava com ela.
Para Atena, que costumava estar sempre certa, era bom errar. Pois ela sempre fora a maior defensora da ideia de que se aprende com os erros.
A deusa o abraçou novamente.
– Tenho de ir. – disse ela.
– Tem mesmo. A sua primeira valsa é daqui a pouco. É melhor achar o irresponsável do se marido.
Atena revirou os olhos e deu as costas ao seu pai, indo à procura de Poseidon.
***
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