Notas iniciais
PERDOEM-ME PELA DEMORA! Eu finalmente fiquei de férias ~~êêê~~ e tinha coisa demais pra me ocupar rs. Agora minhas aulas começaram e tudo o que falam pra mim soa como "vestibular vestibular vestibular". Achei um tempinho pra Marie, então: divirtam-se.

Abri a porta de meu quarto com as mãos ainda trêmulas devido as ameaças de Joey. Annie estava sentada em minha cama – agora com uma roupa sua e uma mochila surrada jeans ao seu lado – balançando as pernas constantemente e com um cigarro na boca. Ah, merda. Arranquei o cigarro de sua boca e o joguei pela janela após apaga-lo na parede de meu quarto, deixando ali uma marquinha.
– Aqui dentro, não.
– Eu já tinha acabado mesmo. – ela deu de ombros e desviou o olhar, como faz uma criança fazendo birra. Bufei e sentei-me ao seu lado, examinando minha mão direita ainda dolorida e agora vermelha devido ao soco que eu tinha depositado carinhosamente em Joey. Observei que Annie prestava atenção nas marquinhas vermelhas comigo, sua sobrancelha arqueada como quem analisava algo.
– Eu o soquei. – disse, rindo um pouco. – Fui até a casa de Joey e o soquei. – eu estava gargalhando agora. Annie continuava séria.
– Por que você não me atendeu?
– Eu já não sei dirigir, se eu falar ao telefone e dirigir ao mesmo tempo, é capaz de eu morrer. Você quer dar um jeitinho de se livrar de mim? – brinquei.
– Você sai correndo daqui e eu pergunto pra sua mãe onde você foi e ela diz que foi na casa do seu ex. – ela disse quase feito um robô.
– Annie, você ‘tá com ciúmes? – eu queria morrer. De rir.
– Não! – ela quase berrou. – Eu só... esquece.
Balancei a cabeça de leve, protestando perante a falta de necessidade daquilo. Depositei minha mão na sua e as levei até minha coxa, fazendo Annie sorrir um pouco. Ela apertou a barra de meu vestido com o indicador e o polegar, até que a porta se abriu, interrompendo-nos.
Pulamos de susto em sincronia, soltando nossas mãos ao mesmo tempo e quase nos empurrando uma pra longe da outra. Lúcio, Juliana e Lucy estavam parados na porta, os três sorrindo e me olhando com expressões que podiam dizer “eu vi o que você estava fazendo, mocinha”.
– Oi pra vocês também. – eu disse, séria.
– Nossa, que recepção agradável. – Juliana sorriu. – A gente só veio avisar que os pais de Lorena vão viajar amanhã, então...
Meus três amigos se olharam e começaram a imitar salamandras e cantar em meu quarto, o que me fez rir. Eu podia ouvir Annie abafando a risada ao meu lado, o que – por algum motivo desconhecido – me fazia rir mais.
– Posso levar bagagem? – eu disse, referindo-me a Annie.
– Algo me diz que daqui um tempo ela não será mais bagagem e sim parte de nós também. – Lúcio sorriu. Pisquei pra ele em forma de agradecimento.
Juliana sentou-se no chão e começou a explicar como iria funcionar a festa. Cada pessoa levaria algo para colaborar, mas Ju havia dito que “casais podem levar uma coisa só, então vocês duas levem alguma bebida ou salgadinho que está de bom tamanho”. Corei quando ela pronunciou aquelas palavras, não sabia bem o porquê. Após ficarem tagarelando sobre eu ser uma filha da puta sortuda porque minha cirurgia seria na semana que as aulas começavam e eu ter uma semana a mais de férias por causa disso, eles foram embora (fazendo piadinhas sobre me deixar sozinha com Annie, claro).
Passamos o resto do dia jogando vídeo-game (o de Annie, que ela havia trazido de sua casa após ir até lá, no horário que sua mãe não estava, para pegar algumas roupas e trazer as tralhas sem as qual ela não vivia; só aí reparei em sua guitarra cuidadosamente depositada no canto de meu quarto), com Annie sempre ganhando de mim e zombando por isso. Ao cansarmo-nos, Annie foi tomar banho enquanto eu fui até o quarto de minha mãe agradecer pelo favor que ela havia concedido a mim mais cedo.
– Você pode me explicar agora? Digo, explicar a história. – ela apontou para onde deveria estar meu quarto (ou Annie, no caso).
Era difícil ter que inventar algo para contar a minha mãe; eu sempre contava tudo a ela, mas eu não ia chegar do nada e “ei, Val! Estou com uma garota agora e você vai ter que lidar com isso”. Era óbvio que minha mãe já sabia a respeito de Annie (além de ela dar uma tremenda pinta, minha mãe tinha o gaydar* mais poderoso que eu conhecia), mas eu já havia presenciado situações em que “os amigos de meu filho podem, mas meu filho não” e tinha medo que isso acontecesse comigo.
Contei-lhe tudo, excluindo apenas a parte que Joey havia armado para cima de Annie e que eu também estava no meio da história. Minha mãe xingou a mãe de Annie de todos os palavrões conhecidos e desconhecidos desse mundo, enquanto eu ria de sua indignação com a situação. Foi quando ouvimos três batidinhas na porta, que se abriu mostrando uma Annie meio tímida, sorrindo torto de um jeito que fazia meu coração parar.
– Eu só queria agradecer... por poder ficar aqui. ‘Tô tentando dar um jeito de...
– Você não tem que dar jeito de nada. – levantei e fui até ela, puxando-a pra dentro do quarto.
– Concordo. Você pode ficar quanto tempo quiser. – minha mãe sorriu para nós duas, que estávamos de mãos dadas.

****
Enquanto eu delineava meus olhos em frente ao meu espelho gigante, Annie secava seu cabelo de um jeito meio atrapalhado do outro lado do quarto. Já estávamos atrasadas uns vinte minutos para a festinha na casa de Lorena, então havíamos decidido comprar uma garrafa de vodka qualquer no caminho da festa. Annie xingava e gritava com seu cabelo, enquanto eu ria de sua irritação. Era engraçado nós estarmos na mesma casa, por mais estranho que fosse. Ela me acalmava de um jeito... dela, que acabara tornando-se fundamental para mim.
– Merda! Acabei.
– Eu também. – ajeitei meu cabelo, jogando-o para o lado e observando Annie me fitar com um olhar meio pervertido.
– Gostei da sua roupa.
Olhei-me novamente no espelho: tênis, short jeans e uma blusa de mangas compridas que insistia em cair, deixando meu ombro esquerdo à mostra. Senti meu rosto corar quando Annie abraçou minha cintura atrás de mim, depositando um beijo em meu ombro nu e sussurrando em meu ouvido “você é linda, gatinha”. Virei-me de forma que fiquei de frente para ela, ficando de ponta de pé e depositando um beijo em sua boca. Meu celular tocou, interrompendo-nos e me lembrando de que tínhamos uma festa pra ir.

As batidas fortes da música eletrônica tomavam conta do lugar. Havia alguns amigos de Lorena do colégio, alguns conhecidos nossos, meus amigos e até alguns penetras. Annie não soltou minha cintura um segundo sequer, guiando-me em meio a multidão não tão grande assim de adolescentes bêbados para um cantinho onde ficássemos confortáveis. Encontramos Sam, que já estava bêbado – o que não era uma novidade – junto de Lúcio e Lucy. Os três me cumprimentaram, me abraçando fortemente de um jeito atrapalhado por causa da mão de Annie que tinha grudado em minha cintura.
– Você tem que beber isso, está sensacional. – Sammuel disse, dançando de um jeito atrapalhado no ritmo das batidas de alguma música que eu não conhecia.
– Nah. – fiz uma careta de nojo. – Hoje não.
– Covarde. – ele me ofereceu o copo. Annie me olhava com as sobrancelhas arqueadas, um sorrisinho no rosto.
Foda-se.
Virei o copo, deixando a substância forte tomar conta de cada papila gustativa em minha língua. Eu não conseguia distinguir o que era, mas realmente tinha um gosto bom. Logo formamos uma rodinha que ria de piadas mal contadas e conversava sobre qualquer coisa que vinha a mente.
Depois de quatro copos (cheios) de caipirinha, eu já me sentia meio... alegre.
– AI MEU DEUS EU AMO ESSA MÚSICA. – Sam me puxou ferozmente dos braços de Annie para o meio da sala. Eu só conseguia gargalhar enquanto ele balançava seu corpo no ritmo da música. Olhei para Annie e ela me olhava, encostada na parede de um jeito desleixado enquanto fumava. De repente, tudo o que importava pra mim naquela festa, era ela. As pessoas sumiram, a música não existia mais, Sam segurando minha mão me fazendo dançar era como parte de uma fantasia agora. Eu a queria perto de mim. Era como um ímã, ela simplesmente me puxava para si. Pulei de cima da mesa que eu nem lembrava de ter subido, atropelei todos os obstáculos e a beijei ali mesmo. O gosto de cigarro se misturava com o gosto da bebida e o gosto dela. Eu senti seu cigarro cair em minha perna, mas não me importei com a ardência ali. Suas mãos me apertavam e as minhas imploravam para ela ficar mais perto de mim – como se fosse possível.
De repente, a música parou e pude ouvir um grito de “puta que pariu”, que me parecia ser Juliana.
“Todos de joelhos com as mãos atrás das costas!”
– Ah, merda. – ouvi Annie sussurrar enquanto se abaixava. Eu ainda fitava o ambiente meio confusa (e bêbada). Percebi que todos estavam de joelhos no chão, alguns começando a choramingar, quando percebi dois caras vestidos como policiais me observando.
– Pro chão, pirralha! – o policial bigodudo e alto gritou pra mim, cuspindo em si mesmo. Pulei, tomando um susto, ao mesmo tempo que Annie puxava minha mão para eu me ajoelhar ao seu lado. – Tem algum menor de idade aqui? – eu e mais de metade das pessoas da festa levantamos as mãos.
O mesmo policial que havia gritado comigo sussurrou algo no ouvido de seu companheiro baixinho e bombado e veio em minha direção e se ajoelhou na minha frente. Fitei seu crachá: Steven.
– Sua identidade, mocinha. – ele falou enquanto passava a mão pelo meu rosto.
– Não tenho uma. – cuspi.
– Hmmm, é uma pena. Acho que teremos que passar a noite juntos. – Steven desceu sua mão até minha cintura, enquanto eu deixava clara minha expressão de nojo e tentava me afastar daquele monte de pelos em cima de seus lábios. Nojento.
– Você não tem autorização pra tocar nela. – ouvi Annie falar ao meu lado, com a cabeça erguida.
– E você não tem autorização pra me mandar fazer algo, então cala a boca.
Annie gargalhou em resposta.
Meu Deus, por que ela não calava a boca?
– Voltando pra você, lindinha. – o Sr. Bigode continuava passando a mão em minha cintura. Eu queria vomitar. – Você vem comigo.
– Tire as suas mãos nojentas dela.
Abri a boca para mandar Annie ficar com a dela fechada, mas fui interrompida pelo barulho que o tapa do Sr. Bigode contra o rosto de Annie fez. Ela caiu no chão, e minha boca continuou aberta. Dessa vez, gritando.
Steven me puxou contra seu corpo, tapando minha boca e algemando minhas mãos. Enquanto me levava até a viatura, gritou para seu parceiro pegar o “projeto de sapatão nojento” e trancar em um dos carros. Eu sentia as algemas ferirem meus punhos de leve e o vento frio batendo contra meu rosto, secando as lágrimas em minhas bochechas. Steven me jogou dentro de uma viatura, trancando-me lá dentro. Eu sentia meu corpo todo doer, inclusive minha garganta – eu não conseguia parar de gritar (o nome de Annie). Cerca de cinco minutos depois, Sam foi jogado no mesmo carro junto a mim.
– O que você ta fazendo aqui?
– Pare de gritar! – Sam berrou mais alto. Gemi baixinho. – Ok, desculpe. Vai ficar tudo bem, vocês são menores, ninguém pode fazer nada. – ele suspirou pesadamente e continuou: — Depois que você saiu, gritei pro policial que seria gostoso se não fosse nojento que homofobia é crime e que íamos ferrar com todos eles. Eles me pegaram e Lucy os mandou a merda. Ela está no outro carro com Annie. – Sammuel deu de ombros, como se aquilo tudo estivesse sendo um sonho.
Eu queria morrer.

Notas finais
*radar para gays.