Brighter.
8 Oito.
Notas iniciais
Ao chegarmos à delegacia, jogaram-nos em celas separadas. Com o passar do tempo, alguns pais foram buscar seus filhos e amigos foram pagar fianças dos jovens maiores de idade que estavam em nossa festa. Depois de esperar o que me pareceram horas, a figura mais assustadora que eu conhecia apareceu em frente às grades que me separavam da liberdade.
– Marie... cometi um erro ao te deixar com a tua mãe.
– Cometeu um erro ao vir aqui e dá-me o desprazer de te ver de novo.
Sorrindo, meu pai deu espaço para o policial destrancar minha cela, permitindo minha saída.
– Você vem comigo agora. – Paulo adentrou o cubículo no qual fui jogada e puxou-me pelo braço, com uma expressão de poder no rosto.
– Eu não vou embora daqui com você!
– Marie – meu pai murmurava em meu ouvido –, lembre-se de que eu tenho metade de sua guarda judicialmente e posso usar sua “prisão” como motivo para acusar sua mãe de negligência. Além disso, não fui avisado de sua doença... Isso seria ótimo para mim no tribunal.
– Você nem se importa com meu estado de saúde! O que você está fazendo aqui? – repeti. – Eu não vou sair daqui... – olhei para trás. Annie e Sammuel ainda estavam em suas celas, ambos tensos e atentos à minha conversa com meu pai. – Só solte os dois. Por favor. Você tem dinheiro o suficiente pra isso.
Apesar de ter pagado a fiança de Annie e de Sam, Paulo não me deixou cumprimenta-los e fui forçada a ir embora sem despedir-me. Permanecemos todo o caminho da delegacia até algum lugar desconhecido calados, até que – finalmente – chegamos em um hotel cinco estrelas. Óbvio que meu milionário pai empresário ficaria em um lugar luxuoso. Aquilo me deu náuseas.
Após um funcionário indicar-nos o número do quarto, seguimos para o elevador até chegarmos à suíte reservada. Antes mesmo de meu cartão ser encaixado na porta, ela se abriu, revelando que minha noite não seria nada fácil.
– Querido Joey, não imagina o quão saudoso seu sogro estava!
– O sentimento é recíproco, querido Sr...
– Já avisei-lhe várias vezes que deve me chamar apenas de Paulo. Sou seu amigo, acima de tudo.
Avistei a cena em minha frente revirando os olhos e desejando nunca ter sido apresentada ao filho do grande amigo de meu pai...
Eu já estava ficando entediada naquela festa de negócios que meu pai havia insistido em me levar. Após me deixar sozinha pela terceira vez, Paulo voltava sorrindo para mim, agora acompanhado de seu amigo – que havia se apresentado minutos antes como dono da casa e da festa – e de um jovem e bonito garoto, cujo nome eu desconhecia. Até o momento.
“Essa é Marie, minha menina de ouro, o grande amor de minha vida!” meu cérebro girava perante as mentiras contadas por meu pai. “Marie, conheça Joey: ele é filho de meu sócio e o único aqui com a idade próxima a sua.”
O garoto sorriu e beijou minha mão de um modo gentil. “Marie. Lindo nome. Vou acompanha-la hoje.”
E me acompanhou pelos piores três meses de rolo e quase seis de namoro que eu poderia ter.
– Ok. Agora vocês podem me explicar o que está acontecendo aqui?
– Joey me ligou, filha. – revirei os olhos. – Contou-me o que estava havendo. Fiquei muito triste que tenha trocado um futuro tão lindo com esse moço exemplar por uma sapatão de rua qualquer.
– Você não conhece Annie para falar dessa maneira. E, além disso, não troquei nada por ninguém. Só cansei de ficar em um relacionamento no qual sou maltr...
– Sempre a tratei super bem! – mentira. – E as pequenas discussões que tivemos... todo casal tem, meu amor.
– Joey tem razão, filhinha!
– Ok, conheço ambos muito bem pra saber que vocês realmente me odeiam e que não dão a mínima pro meu bem estar. Alguém pode me falar a razão disso tudo?
Eu já estava impaciente. Diferente de meu pai e de Joey, eu não estava me divertindo nem um pouco com aquilo. Paulo se ajeitou na poltrona em frente à ponta da cama, onde eu permanecia sentada e estática.
– Marie, você vai pra Suíça.
Arqueei as sobrancelhas, fitando a expressão séria de Paulo e a divertida de Joey.
– Eu não posso ir a lugar nenhum, nem se eu quisesse. Eu tenho uma cirurgia...
– Sim, sim, uma cirurgia semana que vem. – Joey começou a tagarelar, andando de um lado para outro na imensa suíte cinco estrelas do hotel de seu pai. – É óbvio que pensamos nisso. Organizamos sua viagem para semana que vem, para você ter o repouso adequado após a retirada de seu tumor... onde é mesmo?
No meu cu.
– No ovário, segundo meus agentes.
Agentes? “Nós pensamos nisso. Nós organizamos.” Por que Joey estava falando na primeira pessoa do plural?
– Hummm... Será fácil então. Marie repousará, sob nossos cuidados, é claro. Assim que se recuperar, ela irá para a Suíça.
– Posso perguntar se vocês já pediram a opinião dessa tal de Marie? – perguntei em tom irônico.
– Marie, querida... – meu pai depositou sua mão em meu ombro. – Você não está pensando direito. Ninguém com conduta homossexual pensa direito, você sabe.
– Não, não sei não. Não tem “conduta homossexual” – fiz as aspas com os dedos no ar. – nenhuma, Paulo. E se eu for sapatão ou o que quer que vocês acham, qual o grande problema nisso?
– Marie, planejei seu futuro, dei-te um ótimo marido e você – primeiro – começa a andar com aqueles... aquelas... aquele bando, que te influenciou de uma péssima maneira e agora isso? Não vou deixar acontecer!
– É, Marie. Não adianta mentir. Os homens de seu pai nos deram todo seu cronograma nas últimas semanas...
– Peraí, peraí, peraí! Você colocou pessoas atrás de mim pra me perseguir e espionar?
– Desde que Joey me alertou...
Enterrei o rosto nas mãos, tentando conter o grito preso em minha garganta. Naquele momento, eu queria morrer. Eu queria que o tumor explodisse dentro de mim. Queria que o hotel explodisse comigo dentro. Queria que meu pai se explodisse.
– Bom, preciso ir para minha casa agora. Já está tarde e estou cansado... – Joey bocejou. – Espero que você tenha tempo pra pensar, gatinha.
Meu ex saiu porta afora, deixando na suíte seu cheiro adocicado e enjoado de drogas.
– Paulo, é o seguinte...
– Não. Chega. Quem dá as cartas aqui sou eu. Fui ausente por muito tempo, por causa dos negócios, mas agora vou te colocar na linha!
– Você voltou por causa dos negócios! – eu estava gritando. – Você voltou por seu desespero de me casar com aquele cara nojento só pra ter a outra parte da empresa que pertence à família dele. Você é ganancioso demais, egocêntrico demais e se põe acima de tudo e todos, pisando nos sentimentos e na moral de quem precisar pisar. Eu tenho nojo de você.
Paulo estava boquiaberto, ainda deglutindo minhas palavras, que jorraram de dentro de mim contra a minha vontade. Depois de um minuto e meio de silêncio fitando minha expressão carrancuda, vermelha e agora cheia de lágrimas, meu pai cuspiu:
– Está decidido. Nem mais um dia. Após a sua cirurgia, você irá direto para um reformatório na Suíça.
E então, deixou o quarto, batendo a porta ao sair.
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