Brigas por Nada
2 Capítulo 2
Notas iniciais
– Tu não sabes mesmo respeitar o espaço de uma pessoa, pois não?
– Dá-me só um beijo e eu juro que crio espaço.
– Como se fosse. Sai daqui. Larga-me.
– Estás na minha cama…
– Não seja por isso, eu saio já.
– Ohh Sah vá lá não sejas assim, a menina vai acordar…
– Então larga-me.
Suspirei, largando-lhe finalmente a cintura.
Era incrível como ela brincava comigo. Não muito depois do nascer do sol, eu havia acordado, ficando a dar mimos nos cabelos da Yume enquanto os meus olhos esquadrinhavam o rosto da mãe dela, tentando gravar cada pequena mudança. Passados poucos minutos, vira os olhos verdes procurarem lutar contra as pálpebras ainda pesadas. Como é óbvio, apressei-me a fechar os meus olhos, mantendo contudo uma pequena brechazinha para espreitar para ela. Eu bem vira o tempo que ela tinha estado a olhar para mim, o modo com a mão dela tinha procurado o meu cabelo, a leveza com que a mão dela tinha percorrido a minha, que estava ainda a proteger as costas da Yume.
Claro que, com o meu acordar meio fingido, tudo mudara e ela prontamente me afastara quando eu lhe tentara dar um simples beijo de bons dias. Ela era tão difícil…
– Escusas de estar a bufar, sabes bem que gosto pouco de muitas mãos para cima de mim logo de manhã.
– Há uns tempos era o que mais gostavas.
– Pois mas eu era maluca nesses tempos, lembraste? Não sei o que me deu para sequer partilhar uma cama contigo.
– Convenhamos que fazíamos bem mais que partilhar uma cama.
– Ai fazíamos?
– A Yume não é prova disso?
– Tu és mesmo muito porco não és? Eu nem sequer estava a falar de sexo!
– Nem eu estava. Crianças não se fazem só com sexo. Fazem-se com amor…
– Não venhas com filosofias porque tudo se resume a conversa de cama contigo. – Senti a chapada que ela me deu no peito deixar a pele a ferver. Ao contrário do que normalmente acontecia, ela deixou a mão ficar lá, alisando depois o local, como que a pedir desculpas pelo que tinha feito. O olhar encontrava-se vidrado no meu. Normalmente isto acontecia quando eu a agarrava pelo queixo e a fixava tão intensamente que nem a conseguia deixar pensar. Via a pupila dela focar e desfocar, parecendo tentar encontrar um fio de raciocínio, quando as palavras lhe tropeçaram nos lábios. – Não te… Atrevas a beijar-me… Não te…
O resto das palavras foi abafado pelo roçar dos meus lábios nos dela e pelo suspiro dela quando tal se deu. No mesmo segundo, senti as mãos dela procurarem-me a parte de trás no pescoço, insinuando-se pelo meu cabelo. As minhas procuraram a cintura dela, estreitando-a contra o meu peito, puxando-a contra mim para ficar a uma distância e a uma intimidade tal que já não saboreava há anos. Eu ainda era louco pelo corpo dela. Ainda era louco e apaixonado por ela. Ainda a queria para mim e perto de mim como antes. Ainda…
– Ehhhhh!! – O som de palmas fez-nos afastar abruptamente. Ou melhor… Fez ela empurrar-me pelo peito até eu cair da cama e bater literalmente de rabo no chão, tendo a Yume aproveitado para se empoleirar nos meus ombros. – A mamã e o papá ‘tavam aos jinhos, ehhhh!
– A mãe não estava a fazer nada pequenina, o teu pai é que é um prevertido.
– O qué um pevetido? – Perguntou ela, trepando para os meus ombros para poder por as pernas em volta do meu pescoço, equilibrando-se na parte de trás, agarrando-se ao meu cabelo.
– É um menino malandro, que está sempre a tentar agarrar-te e beijar-te e lambuzar-te, tal como o teu pai faz.
– Eu não te lambuzo.
– Salivas mais que um cão.
– És tão má para mim… Tu costumavas gostar dos meus beijos.
– Palavra correcta: costumava.
– Yume gosta quando ‘ces dão jinhos. – Confessou a minha menina, escondendo a cara no meu cabelo, certamente envergonhada por confessar tal assunto. Vi a Sakura estender as mãos para elam levando-a de volta para a cama, deixando-me depois voltar a deitar-me ao lado dela.
– A mãe sabe amor, mas eu e o teu pai já não fazemos mais disso.
– Mas todos os papás dos meus ‘migos fazem quando os vão ‘scae à c’eche…
– Pois meu amor, mas os pais dos teus amigos ainda estão casados… A mãe e o pai já não estão.
– Puqué que nhão ‘tão?
– Porque o teu pai não sabe manter as calças para cima.
– Lá vamos nós outra vez...
– Nhão sabes ‘botoar as calças papá?
Ri-me, beijando-a na mãozinha quando ela se virou na cama para mim, procurando o meu rosto.
– O pai sabe bebé. A mãe é que é muito desconfiada e não acredita que é a mulher da vida dele.
– Mas t’azes cá tantas a casa…
Senti de imediato a mão da Sakura a bater-me violentamente no meu peito.
– Andas a trazer galdérias cá para casa, com a tua filha cá?
– Ei calma. Não foi isso que ela…
– Foi isso sim que eu ouvi muito bem! Yume, conta à mãe: o pai traz mulheres cá para casa?
A minha filha só olhou de mim para a mim, tapando depois a cara com as mãos.
– Yume nhão vai contae. Yume nhão que’e b’igas…
– Ninguém vai brigar amor, a mãe só quer saber…
– As únicas que cá vêm a casa são a Temari e a Matsuri porque eu trabalho com elas. Não é preciso estares a pressionar a menina, podes perguntar-me isso directamente a mim.
– Tu mentes, Sasuke. Sei disso por experiência própria.
– Quando é que eu te menti?!
– Quando me disseste que era para sempre!
– E é para sempre!
– Pa’em!!! – Gritou a Yume no meio de nós dois, antes de se livrar tanto do meu toque como do toque da mãe e saltar da cama para o chão. Ainda a ouvi gritar antes dela sair do quarto. — Nhão gosto de ‘cês assim!
Suspirei levando as mãos ao rosto. Porque é que tudo acabava sempre assim? Ou a Sakura me batia com a porta na cara, ou gritávamos um com o outro, ou a Yume saía de ao pé de nós a chorar. Não havia um único sinal de bom ambiente entre nós, tirando os poucos momentos em que a Sakura baixava o seu enorme orgulho e me permitia estar com ela como antes. Mas, claro, havia sempre algo ou alguém a interromper isso também.
– Eu vou falar com ela… — Senti-a a começar a levantar-se da cama.
– Não, não vais. Agora vamos falar. Achas mesmo que te menti, quando disse que te amava? Eu fiz votos, Sakura! Lembras-te disso?
– Os votos não querem dizer nada, Sasuke. Mesmo que os tenhas feito, tu quebraste-os. Não me foste fiel.
– Eu nunca te traí. Tu é que puseste essa ideia grotesca na cabeça e baseaste um divórcio inteiro nisso! Para delegada, nem sequer me deixaste expor o caso, apresentar provas ou sujeitar-me a exames. Pura e simplesmente não quiseste saber da minha versão.
– Sasuke, tu chegaste a casa todo amarrotado, cheiravas a perfume e tinham batom na camisa. Achas mesmo que a história de que a Matsuri se tinha sentido mal no comboio e que tu a amparas-te ia pegar comigo? Eu não nasci ontem!
– E tu? Achas mesmo que se eu te tivesse traído nunca teria tido, pelo menos, o bom censo de tentar disfarçar?
– Tu nunca tiveste vergonha nessa cara e sempre fizeste tudo às claras.
– Mais razão me estás a dar! Achas que se te tivesse traído não era homem suficiente para to admitir e procurar o teu perdão?
Senti os olhos dela praticamente passarem os meus por um qualquer detector de mentiras que ela tivesse incorporado. Ela sempre me apanhava quando eu estava a mentir. Não percebia o porquê de ela não acreditar nem ter acreditado em mim daquela vez.
– Nada vai voltar a ser como antes Sasuke.
– Estás a ver o que tu fazes? Eu conto-te as coisas como elas são e tu foges do assunto, enveredas logo por outro caminho.
– Eu não estou a fugir do assunto.
– Estás sim. Olha para mim.
– Larga-me… Circula, gosto pouco que me agarrem.
– Ai gostas, gostas. – Sorri malandro, insinuando de novo as mãos pela cintura dela, puxando-a de encontro ao meu corpo, procurando o pescoço dela com a minha boca. Toquei os pontos exactos, que já sabia de cor. Primeiro atrás na orelha, depois o ombro e por fim o pescoço. Senti a pele dela a reagir, como electricidade contra a minha.
– Porco. Larga-me… Pára, não faças isso assim…
– Arrepio-te toda?
– Siiim… Não! Larga-me, credo! – Tive de me agarrar ao estrado da cama para não cair de novo, quando ela me tornou a empurrar violentamente. Ainda lhe vi o rosto vermelho, antes de ela se ter levantado, fugindo por completo a qualquer toque meu, vestindo o meu roupão. – Vou procurar a Yume e prepará-la para a creche. Vê se te despachas.
Olhei para o tecto, buscando calma para todas as células do meu corpo quando o silencio de abateu sobre a divisão. Era-me tão difícil saber que ela queria estar comigo mas que preferia enxotar-me e manter-me longe sob pretextos que nem sequer haviam acontecido. Eu nunca a havia traído. Era incapaz disso, eu amava aquela mulher com tudo o que tinha. Tinha aceitado a distância dela, devido ao trabalho, durante anos. Tinha cuidado da casa e de tudo sozinho, a partir do momento em que a Yume nascera. Abdicara de dois anos de trabalho para poder ficar com a menina em casa, enquanto ela trabalhava afincadamente para subir de posto, às vezes só me vendo a mim e à bebé aos fins-de-semana. Aceitara ficar com a menina, no processo de divórcio, para ela poder continuar a ser delegada a tempo inteiro…
Que mais provas queria ela de que eu a amava?
Rodava mulheres como quem muda de camisa? Sim. Amava-as? Não. Fazia-o por meramente aliviar o apetite sexual? Hmm… Talvez. Já a tinha superado? Não. Ainda a queria? Sim. Pensava nela quando estava com outras? Deus, sim! Queria-a de volta? Sim. Amava-a? Mil vezes sim! Ela percebia isso? Não. Ela deixava o orgulho de parte para tentar sequer perceber isso? Não.
Há quase cinco anos que eu fazia de tudo para que ela me explicasse o porquê de tudo o que a gente tinha se ter praticamente desmoronado como um castelo de cartas. Em troca, obtinha meias frases e sentidos trocados, sem contar com inúmeros casos que ela me atirava à cara como prova de que já não a amava. Mesmo que eu fosse directo e lhe tentasse demonstrar, a resposta dela era sempre a mesma: “circula”.
– Vá Yume falta pouco para entrares bebé, tens de comer pelo caminho, sim?
– Está bem!
– Vai dar um beijo ao pai, vá.
– Papá!!! – Peguei nela ao colo, levantando-a no ar antes de a apoiar contra o meu peito e receber o beijo suave dela no meu rosto. Senti depois ela procurar o meu dedo mindinho com o dela. – Um po todos…
– Todos pelo Harry Potter.
– Hakuna Batada. – Ri-me por ela não saber dizer como deve ser. Normalmente as deixas eram ao contrário. Beijei-a no nariz. – Ahh, não é assim papá!
– Timon e Pumba. – Encostei a testa à dela para ela roçar o nariz pelo meu, em despedida. – Tem cuidado sim meu amor?
– Shim! ‘Te logo papá!
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