Breeding Love
7 The Ties That Bind
Notas iniciais
“Os Laços que Unem”
Fiquei na ponta dos pés e estiquei meu braço o mais alto que consegui, e apenas toquei de leve no vidro do pote, desvantagens de uma cozinha gigante. Se eu não estivesse com tanta vontade, eu juro que já teria desistido de comer a maldita amêndoa.
Droga!
Desci do banquinho e peguei uma cadeira mais alta, arrastando para perto do armário e subindo no banco, então nela, feliz da vida por ter alcançado o meu objeto de desejo.
― Ai, que troço bom! ― exclamei depois de colocar no mínimo umas cinco de uma só vez na boca e mastigar. ― Rico em óleos e proteínas vegetais, ótimo para a mamãe e para você, bebê ― imitei a voz de Oliver. Não ter seu ódio tinha como desvantagem aulas sempre que possíveis sobre alimentos e suas propriedades nutricionais. ― Não acredito! ― Soltei um suspiro exasperado ao ver a caixa plástica cheia de todo tipo de gordice.
De baixo não era possível ver, mas dali, com a vista privilegiada, descobri onde Thea tinha mandado esconder as coisas boas e estava só a alguns centímetros dos meus dedos. Aquela megerazinha não ia ficar com todo aquele ouro glicêmico só para ela.
Te peguei, Thea Merlyn!
Inclinei um pouco para a esquerda e já conseguia tocar no plástico. Fiquei mais na ponta da cadeira e me estiquei só mais um pouco. Vamos, Felicity, você está chegando lá. Daí poderá guardar quanto disso quiser no quarto e comer escondida quando tiver vontade.
Eu estava com uma mão na caixa de plástico e o braço envolvendo o pote de amêndoas quando senti a cadeira pender para o lado, então o vazio, sendo dominada por aquela sensação horrível de quando você sabe que vai cair e não pode fazer mais nada para impedir, apenas esperar o impacto.
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#Flashback ON
― Cuidado, princesa. ― Tommy me segurou pela cintura quando escorreguei de uma pedra e quase caio no chão. ― O que estava tentando fazer?
― Matando o tédio, na verdade ― murmurei. ― Quando você chegou?
― A tempo de não te deixar se emborrachar no chão, minha desastrada mais linda. ― Me girou ainda em seus braços, deixando um beijo em meus lábios. ― Pra você.
A flor de hoje era a mais bonita de todas, e logo que a vi, já se tornou minha preferida. Era uma petúnia híbrida, vermelha no centro, com bordas irregulares rosa claro, não desordenadas, mas como se tivesse sido desenhada em detalhes de renda por alguém.
― Ela é linda, obrigada. ― Lhe beijei mais uma vez, sendo colocada no chão. ― Algum dia vai precisar me contar onde arruma essas flores, Tommy, elas são perfeitas demais para você simplesmente arrancá-las a caminho daqui.
― Qualquer dia te levo lá. ― Beijou o dorso da minha mão, quando começamos a andar. ― Agora que tal a gente ir imprimir aqueles currículos que você disse que precisava de ajuda, ir procurar uma roupa lindona pra você conquistar aquele emprego nerd, então ir comer daquele dogão que amamos?
― Parece que meu namorado já veio com a tarde toda planejada ― observei, abraçando sua cintura. ― Tem certeza que pode faltar uma tarde no seu trabalho para me ajudar com isso? Seu chefe pode não gostar, vai que precisam de você pra fazer alguma entrega.
― Fica de boas, princesa, está tudo sob controle ― me garantiu.
― Tudo bem, então. Só que hoje vamos pular o dogão, estou meio enjoada.
― Se sente mal, quer dar uma passada no hospital?
― Não, deve ser só algo que comi. ― Dei de ombros. ― Vamos logo, tenho um processo de seleção amanhã e outro na semana que vem.
― Onde serão? Posso conhecer alguém.
― Príncipe, você com certeza é o barman mais lindo da cidade, mas duvido que possa fazer alguma ligação que me ajude a arrumar emprego na área de TI.
― Você ficaria surpresa, Felicity.
― Sendo assim, a de amanhã é na subsidiária da Palmer Tech de Starling, e semana que vem na sede da Queen-Merlyn.
Tommy começou do nada uma crise de tosse e já estava ficando vermelho e sem ar, e eu só sabia lhe dar tapinhas nas costas. O que mais eu poderia fazer? Sua respiração foi estabilizando e o moreno apenas justificou que havia sido saliva pelo lugar errado. Estranho.
#Flashback OFF
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― Cuidado, garota! O que estava tentando fazer?
Primeiro olhei para o chão, estava uma bagunça, o pote de vidro estraçalhado no chão, a cadeira virada de ponta cabeça, amêndoas espalhadas por toda a cozinha. E eu só não estava como eles porque Oliver me mantinha segura em seus braços.
O susto me fez entrar em choque, mas foi mais do que isso. Oliver se segurou exatamente do jeito que Tommy fez na última vez que nos vimos antes do encontro em que tudo implodiu em nossa cabeça, sendo por eles serem irmãos biológicos ou não, meu corpo reconheceu de alguma forma.
― Me coloca no chão ― pedi, a voz embargada pelas lembranças. O cheiro, a pressão do toque, o ritmo da respiração, a voz, tudo era diferente, mas talvez por não ter tido tanta proximidade com qualquer outro homem depois de Tommy, o contato me bateu tão forte quanto o martelo do Thor.
― Você poderia ter se machucado feio com esse vidro, tem que ter mais cuidado, está grávida! Se cai de barriga ou bate a cabeça? ― ele continuava a brigar comigo.
― Me coloca no chão, por favor. ― Minha voz não passava de um murmúrio, duvido até que ele tenha entendido, mesmo assim, me pôs no chão.
― Que merda, Felicity, existe uma dúzia de empregados nessa casa, você pode pedir qualquer coisa para eles, ou até para mim! ― Desviou dos cacos de vidro, andando nervoso pela cozinha, alguns dos funcionários da mansão chegando no cômodo com toda aquela gritaria. ― Dá pra você se esforçar um pouco mais em não causar outro acidente fatal nessa família?
― Me deixa em paz, Oliver.
Esbarrei nele ao sair da cozinha, a visão embaçada pelas lágrimas, ignorando totalmente os pedidos dele para que eu parasse, dizendo que tinha algo para me falar, mas eu não parei para escutar. Tranquei a porta do quarto e fiquei lá o resto do dia.
~
Eu podia ouvir sussurros na minha porta, de Thea em sua maioria, conversando com todo mundo da casa. Com Oliver, perguntando o que ele havia feito comigo. Com Raisa, perguntando se eu já havia comido algo. Com Moira e Malcom, perguntando se era preocupante e se eles sabiam o que tinha acontecido. Com Diggle, perguntando se já deveria arrombar a porta e invadir o quarto.
Com essa última, tive que me render e abrir a porta, pegar a bandeja do jantar e quase implorar para ser deixada em paz, que logo ia melhorar. Que a culpa não era de ninguém e apenas era um dia ruim.
Eu lutava contra esses dias ruins sempre, fazia o máximo para não deixar que eles me abalassem, pois não seria nada bom para o bebê que eu me sentisse triste, deprimida e devastada, e até estava indo bem nessa função, até hoje.
Eu simplesmente não conseguia levantar da cama, chorar estava sendo minha única atividade das últimas horas, cada grande e pequeno momento com Tommy tocando em looping pela minha mente sádica.
Eu sentia tanta falta que a dor começava a se tornar física, meu peito apertado, e não queria falar com ninguém sobre. Por mais que já tivessem me aceitado, a maioria ali sequer acreditava que nós dois nos amamos algum dia, não queria explicar, nem insistir. Era coisa nossa, só nossa.
Acordei cedo no outro dia e montei acampamento na porta, atenta aos ruídos do lado de fora. Ouvi quando Thea chegou em casa da boate, perguntou por mim e entrou no próprio quarto para descansar. Ouvi quando Oliver, Malcom e Moira saíram para a empresa para mais um dia de trabalho.
Só então desci e fui até a cozinha, tomando uma vitamina de frutas em grandes goles, e pegando mais duas torradas integrais para comer fora. Não queria passar muito tempo ali, uma das coisas que foi falado na minha porta ontem era que outro segurança/motorista havia sido contratado para os Merlyn, para deixar Diggle apenas na casa à minha disposição. E conhecendo a empatia e preocupação naturais que vinha dele e Raisa, fugi o mais rápido possível das perguntas, decidindo por sair da mansão e explorar um pouco a propriedade.
A brisa da manhã era agradável e meu vestidinho florido de alcinhas era perfeito para deixar que os raios de sol aquecessem minha pele. Tirei minhas sapatilhas para colocar o pé na grama e tudo ficou melhor.
Eu andava pela parte de trás da casa, e como um ímã, fui atraída pelo perfume e colorido até o jardim. O segundo jardim, na verdade, o primeiro era enorme e na frente, com grandes árvores cortadas em formas diferentes e flores organizadas por cores, tamanhos e algumas até formavam figuras e os símbolos da família.
Esse aqui não, cercado por um muro baixo de pedra, de longe parecia bagunçado, de tamanhos variados e um colorido não uniforme. Mas ao chegar perto, era lindo. Banquinhos em uma viela estreita de pedra disputavam espaço entre as flores, que cresciam livres partindo de vasos ou direto do chão, agrupadas com suas famílias, cores vibrantes e perfumes agradáveis que deviam fazer o dia de qualquer um melhor apenas se…
Foi quando notei.
Eu conhecia aquele jardim, a grande maioria dele, ao menos. Era dali que Tommy tirava cada uma das flores que levava para mim em nossos encontros. Olhar para elas era lembrar de cada ocasião. A rosa branca, nosso primeiro encontro oficial e nosso primeiro beijo. A hortênsia azul, quando ele me pediu em namoro. A begônia violeta, a primeira vez que ele disse que me amava.
Senti minhas pernas falharem e logo eu estava indo em direção ao chão, uma mão em meu ventre já saliente e outra apertada junto ao meu coração, até estar sentada na grama. Se eu achei que tinha chorado o bastante e que não mais faria isso por algum tempo, não poderia estar mais errada, já as lágrimas caíam como se eu estivesse revivendo a morte e a falta do meu amor numa intensidade multiplicada por mil.
Foi quando senti chegar os sintomas de uma crise. Meu peito apertado, a respiração difícil causando uma hiperventilação, a dor de cabeça insuportável, minhas mãos geladas e trêmulas, a vontade de chorar e sem previsão alguma de quando isso pararia.
― Ei, ei, calma. Estou aqui com você.
Era Oliver.
Não sei como ele me descobriu aqui ou o que estava fazendo em casa essa hora, muito menos de onde havia saído toda aquela serenidade na voz e carinho quando se agachou ao meu lado e me abraçou. Quis resistir, não queria ninguém me segurando agora, mas ele não deixou, me apertando mais forte.
― Você está tendo um ataque de pânico. ― Não era uma pergunta, e eu só consegui esconder meu rosto em seu peito, encharcando seu terno de trabalho. ― Felicity, eu sei que é difícil, mas você precisa se concentrar em mim agora, no som da minha voz. Você precisa tentar controlar a respiração, então vai segurar e só soltar quando eu contar, ok?
Não estava nada ok, como caralhos eu ia controlar qualquer coisa agora?
― Se você precisar, me aperta firme, estou aqui e não vou embora. ― Fiz o que ele pediu, e já estava mais fácil respirar. ― A cada número uma respiração. Dez, nove… ― Somente na terceira de suas lentas contagens regressivas foi que consegui respirar normal. ― O que aconteceu?
― As flores, eram as flores dele. Eu conheço elas, ele me trazia elas, eram as flores dele! ― Eu não devia estar fazendo o mínimo sentido, mas elaborar frases coerentes não eram meu forte nem quando estava totalmente lúcida, imagina agora.
― É, eu sei.
Oliver fazia um carinho em meus cabelos ao tentar me consolar. O homem que havia se saído surpreendente bem no que fazer, agora só parecia meio perdido sobre o que dizer, mas ele não precisava falar nada para mim.
Eu dizia que queria ficar sozinha, sofrer por Tommy sem plateia, só que ali, foi que percebi que sozinha não era como eu queria estar. Por mais maluca que aquela família fosse, tínhamos essa dor em comum. Eles entendiam.
― Você quer uma água, ou sei lá ― sugeriu depois que meus soluços cessaram, algum tempo depois.
― Como sabia o que fazer? ― De todas, essa foi minha crise que passou mais rápido, e eu só conseguia pensar que havia sido por conta dele.
― Thea começou a ter uns desses no início da adolescência, eu a ouvia do meu quarto e precisava ajudar. ― Deu de ombros. ― Posso te conseguir alguma outra coisa?
― Não, tudo bem. ― Saí de seu abraço, tomando alguma distância, e ele sentou no chão na minha frente, a dor clara em seus olhos azuis. ― Como me encontrou aqui?
― Ali é meu quarto. Eu te vi vindo para cá lá de cima. ― Apontou para uma das janelas da casa atrás de mim. ― Olha, eu não queria ter gritado ontem com você naquela hora, prometi que seria legal, eu só fiquei preocupado com a cena que vi ao chegar na cozinha, você poderia mesmo ter se machucado, e não sabia que desencadearia...
― Não foi nada com você, Oliver. ― Seria cômico se não fosse trágico aquele homem daquele tamanho, todo de terno e gravata sentado no chão e se sujando de terra. ― É só que... Eu sei que você diz que são diferentes, e eu não poderia concordar mais, só que... Às vezes você me lembra tanto ele.
― Ah. ― Seu olhar ficou ainda mais triste e caiu para o chão. ― Desculpe.
― E agora as flores… Tommy me trazia uma cada vez que nos encontrávamos, nunca repetia o tipo ou cor ― expliquei. ― E estar aqui no meio delas, eu me senti mais perto dele e nunca doeu tanto. ― O olhar de Oliver mostrou compreensão.
― Era o jardim dele, meu irmão amava esse lugar, ele mesmo plantou a maioria disso aqui, você percebe pela bagunça organizada. ― Trocamos uma risada sem humor algum, então silêncio.
― Posso te fazer uma pergunta?
― Claro, qualquer uma.
― Você disse pra mim ontem "não causar outro acidente fatal". O que isso significa?
― Não é nada, eu estava muito nervoso, você me assustou de verdade lá, falei besteira. ― Não comprei nem por um segundo, ele estava desviando de responder a pergunta que eu já havia feito para Thea meia dúzia de vezes e não obtive resposta.
― Oliver, como ele morreu? ― insisti, dessa vez mais direta. ― E antes que venha tentar me enrolar com seu papinho, saiba que já imaginei os piores cenários possíveis. Eu sei que foi em um acidente de carro, mas preciso saber como.
― Tem coisas que é melhor não saber, vai por mim.
― Oliver! ― exigi, e o homem soltou um suspiro resignado, ajustando sua posição sentado na grama para uma que lhe pareceu ainda mais desconfortável.
― Por um tempo odiei você, Felicity. ― Franzi as sobrancelhas, não era uma surpresa afinal, mas também não era uma resposta, não entendi porque ele começou a história por ali. ― Não odiava exatamente você, eu não te conhecia, mas a garota pela qual Tommy se apaixonou. Você o fez feliz naquela época, e isso me fez feliz, mesmo que nunca tenha dito a ele. Ele te contou do TDAH?
― No nosso segundo encontro, foi estranho. ― Um sorriso pequeno surgiu com a lembrança, quando cocei um ponto aleatório da minha testa. ― Ele simplesmente veio com "tenho déficit de atenção e hiperatividade, se eu esquecer algo importante ou não te der a atenção me merece, não é você, é o transtorno".
― Ele vivia dizendo isso pras pessoas. ― Sorriu nostálgico. ― Se me perguntar, acho que já era pra justificar previamente seus atrasos crônicos, mas tudo bem. ― Deu de ombros. ― Meu irmão foi diagnosticado quando só tinha uns dez anos, e desde então a família meio que dispensava a ele mais cuidados que pra mim ou Thea, por exemplo. Sua inquietação, impulsividade e falta de moderação podiam ser preocupantes.
― Eu sei disso, Oliver. Lidei com cada uma dessas coisas nele, não era problema para mim.
― Mas virou um problema quando vocês terminaram. Tommy ficou miserável, sem comer ou dormir direito, procurando você por toda a cidade. Até que naquela noite, ele decidiu que deveria falar pessoalmente, em Las Vegas, estava arrependido de tudo e só queria pedir perdão e dizer que te amava e amava esse bebê. ― Seus olhos tristes baixaram para minha barriga que começava a aparecer pelo tecido do vestido, e foi quando entendi.
Oliver estava certo, para algumas coisas, o melhor é não saber. Ignorância pode ser uma benção.
― Tommy estava indo me encontrar? ― Eu que já tinha me recuperado bem da crise, ouvi minha própria voz quebrar em pedacinhos. ― Ele morreu por minha causa?
― Não, não, não foi assim. ― Tentou começar um novo abraço, mas afastei suas mãos de mim.
― Como não, Oliver? Ele estava mal por minha causa e morreu em um acidente quando estava indo ao meu encontro. O pai do meu bebê, seu irmão, está morto por minha culpa, não é a toa que você me odeia.
― Não, eu te odiava porque precisava colocar a culpa em outro alguém que não eu mesmo.
― Do que você está falando?
― Não é culpa sua dele ter se apaixonado, muito menos pelas atitudes imprudentes dele, Tommy não conseguia evitar. Mas naquela noite… ― Engoliu seco, e peguei sua mão. ― Naquela noite, eu poderia tê-lo parado, eu devia, sabia como ele era e como estava transtornado, mas eu só não me importei. Eu ia encontrar alguém que nem lembro mais quem era, todo o drama estava me chateando. Não é sua culpa dele ter ido, é minha.
― Oliver… ― Ia dizer que não, mas ele parecia tão certo daquela triste verdade, que já me interrompeu.
― Eu sei disso, e tá tudo bem. É um fardo que vou carregar pra sempre, meu desinteresse em fazer parte dos problemas dessa família mataram meu irmão, e não é justo que você também carregue esse peso.
Naquele momento, mais do que em qualquer outro, senti uma conexão entre a gente. Sim, eu poderia estar ligada pelo amor e boas lembranças de Tommy aos outros membros daquela família, mas com Oliver, era diferente. Para sempre a culpa nos aterrorizaria, eu sabia disso.
― Hey, não é justo que você também carregue tudo sozinho. Divide comigo que fica mais leve. ― Apertei sua mão entre as minhas. ― Não é justo que ninguém sofra por isso para sempre, não fizemos de propósito. ― Eu falava mais para tentar convencer a mim do que ele.
― Com intenção ou não, ele continua morto ― falou amargurado.
― Eu sei, eu sei. Mas há tanto para lembrar, tanta coisa boa, esse jardim, tudo. Não é como se um dia nos livraremos completamente da culpa, mas o jeito é aprender a lidar com ela. Eu não tenho a pretensão de achar que o conhecia mais do que você, mas posso dizer que seria o que Tommy ia querer. ― Sorri pequeno.
Com certeza o Tommy que conheci, que teve uma vida curta, mas plena e feliz, jamais ia querer ver o irmão amargando para sempre um peso tão grande na consciência.
― Você o amava de verdade, não é?
― Como nunca aconteceu antes ― declarei sincera. ― Eu tento focar no que Tommy fez quando terminamos para não doer tanto, mas agora isso parece tão distante, sei lá. ― Mais lágrimas brotaram dos meus olhos. ― Eu só queria ter mais alguns minutos com ele, só mais uns minutos. E esse bebê que já vai nascer sem saber a pessoa maravilhosa que o pai foi.
― Ele vai saber, Felicity. ― Segurou minha mão. ― Nós vamos garantir que ele saiba.
― Obrigada.
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