Notas iniciais
Olá, pessoas! Ainda estão por aí? Hoje começamos uma nova fase da história. Já viram a capa nova?! estou mesmo muito empolgada sobre isso. Na primeira parte, tudo foi narrado na perspectiva da Felicity, e mesmo com o drama, havia alguma luz em ver um casal se conhecer e se apaixonar, além de assistir de perto eles amarem juntos esse bebê que crescia no ventre dela. Agora esse amor será provado, e de tantas formas diferentes que já estou até com uma dorzinha no coração. As coisas estarão um pouco diferentes agora, talvez mais obscuras, e não é porque a chegada de Tommy o torna um vilão. Ele não é isso e nunca será, não aqui, está mais para um contraponto quase que involuntário para o nosso casal. Também vamos conhecer um novo lado de Oliver, quase já sinto falta do poderoso homem de negócios que conseguia tudo que queria sempre. E Felicity agora é mãe, mais confiante e determinada, logo também vamos nos despedir dos cabelos longos, moletons e vestidinhos de criança. E claro, tem Ben, que liga todo mundo numa farofada só. Ah, e esse povo todo está na seca faz um tempo já, então também poderá ficar mais *pigarro* vocês sabem… Intensas. A termos de narrativa, agora elas serão divididas entre nossos três protagonistas. Os cenários também mudaram, ao contrário da primeira parte que quase toda se passou na mansão, agora vamos pra o centro de Starling, o apartamento deles, a empresa, a boate. E talvez até outra cidade… Mas não podia deixar de agradecer à Melanie Gabrielly, que maratonou a fic e já chegou recomendando. Obrigada, sua linda!! Enfim, já falei demais aqui, não sei como ainda estão lendo isso. Boa leitura! Até as notas finais.. Bjs*

"O Retorno"

#POVTommy

Eu tentei mesmo não levar para o pessoal. Felicity estava provavelmente no momento mais doloroso da sua vida, eu não a cobriria de questionamentos agora, até porque a culpa da situação era minha, toda minha.

Olhei para a janelinha que dava para a preparação para entrar na sala de parto, e Oliver quase quicava no lugar enquanto uma das enfermeiras o ajudava a colocar as roupas equipamentos obrigatórios de proteção para estar ali.

― Aí vem outra ― a médica avisou sobre a contração um segundo antes que Felicity apertasse minha mão com força quase ao ponto de machucar.

― Estou aqui, princesa ― tentei em vão acalmá-la, cobrindo sua mão com a minha livre.

― Oliver… ― ela murmurou mais uma vez com os olhos fechados, os dentes trincados, sua testa brilhava com o suor que escorria.

― Ele está vindo, meu amor, calma.

Meu irmão entrou aos trancos na sala, quase esbarrando em uma bandeja de instrumentos médicos, até se posicionar na cabeceira da maca, lhe afagando os cabelos.

― Oliver?

― Estou aqui, Felicity, você está conseguindo.

― Eu não posso mais fazer isso, Oliver. Está demais.

― Sim, você pode ― a contradisse com carinho.

― Estamos aqui com você. ― Ele olhou para mim por apenas um segundo, então voltou a olhar para ela.

― É, estamos aqui.

― Só mais um pouco ― a obstetra nos falou quando a contração cessou, e Felicity relaxou as costas contra o colchão.

― Viu, só mais um pouco ― tentei a motivar. ― Logo nosso bebê estará aqui conosco, princesa.

― Então, o que está acontecendo aqui? ― Ollie chamou minha atenção para si com um pigarreio. ― Quando Thea me chamou, achei que estivesse acontecendo alguma complicação ou coisa assim.

― Não, ela só estava chamando por você.

― O quê? ― interpelou realmente confuso.

― Sei lá, irmão, só não queríamos deixá-la mais ansiosa. ― Ele assentiu, então se voltou para ela.

― Ei, eu sei que está com medo, mas eu também sei que é durona o bastante. Tem aguentado firme esses meses como uma verdadeira guerreira, é a mulher mais forte que eu conheço, Felicity.

― E se meu bebê não aguentar? Não consigo nem imaginar…

― Eles estão bem, Anna? ― perguntou à médica com a intimidade do primeiro nome, que conferiu algo em um monitor.

― Batimentos bons e fortes de ambos. Ele só não está conseguindo se impulsionar para fora antes do fim da contração.

― Então não precisamos mesmo cogitar uma cesariana de emergência? ― Como meu irmão playboy entendia de gestação e parto, só Deus sabia. Quanto tempo passou?

― Em minha opinião, ainda não, Oliver. Mas a decisão é da Felicity.

― O que você quer fazer?

― Eu aguento ― confirmou procurando a mão dele e apertando com a mesma força que apertava a minha.

― Vamos, Felicity, agora uma força maior e logo todos vamos conhecer o rostinho do pequeno Ben. ― A médica segurou as pernas dela e Felicity começou a colocar mais força, seu rosto ficando ainda mais vermelho suor pingando de sua testa.

A emoção do primeiro choro do meu filho foi algo que não consigo sequer relacionar a algo. Mesmo todo amor do mundo reunido ainda era pouco comparado àquilo. O pequeno ser humano vermelhinho e coberto de uma gosma branca que gritava aos quatro ventos já era a coisa mais linda da minha vida.

Olhei para Felicity e ela chorava, e até Oliver, que nunca vi chorar por nada, tinha os olhos marejados. Então ele se inclinou sobre ela e deixou um beijo em seus cabelos, murmurando um "você conseguiu".

― O papai quer cortar o cordão? ― A médica perguntou solícita, e assenti, indo até ela e em um só corte separando os dois.

― Aqui, Felicity. ― Ela entregou o pacotinho embrulhado naqueles panos azuis e foi só ser colocado no colo da mãe que parou de chorar.

Quando ele abriu os olhos, eles eram iguais aos de Felicity, mas eu podia ver traços meus ali também, no nariz e na boquinha. Era como se todo aquele amor que compartilhamos houvesse tomado uma forma que era uma misturinha perfeita de nós dois.

― Ele é perfeito ― murmurei emocionado, e quando Felicity me olhou e sorriu, foi como se me sentisse completo.

― Parabéns, pessoal ― Oliver falou baixinho enquanto encarava nós três. ― Eu vou esperar lá fora. ― E saiu sem esperar dizermos mais nada, o que Felicity parecia prestes a fazer, até desistir e voltar a olhar nosso bebê.

― Vocês querem uma foto? ― A médica voltou sem as luvas e parte do equipamento que usava.

― Onde Oliver foi? ― Nem eu ou Felicity a respondemos, então ela apenas puxou o celular do bolso e tirou uma foto.

― Quando nossas famílias poderão entrar? Sei que eles estão ansiosos lá fora, e se conheço minha irmã, vai demorar pouco pra ela invadir isso aqui.

― Oh, conheço bem Thea e ela fará exatamente isso ― a médica brincou, e eu entendi. Meus irmãos acompanharam toda a gravidez, por isso toda aquela intimidade e apego com Oliver. ― Vamos arrumar Felicity e limpar o bebê e nos encontramos na enfermaria, pode ser? ― Quando Felicity parecia não querer soltar o bebê, ela sorriu. ― É rapidinho, mamãe, já já terá seu príncipe de volta. O papai pode esperar lá fora, eu chamo vocês em alguns minutos.

Foi só colocar o pé pra fora da sala que já fui engolfado pela onda de parentes ansiosos. Meu pai me abraçava me dando parabéns. Minha mãe chorava e sorria ao mesmo tempo, enquanto Thea balançava meus ombros perguntando quando poderíamos entrar.

A mãe de Felicity ficou me perguntando pelo seu bebê e quando disse que Ben estava muito bem, ela agradeceu a informação, mas que falava de Felicity. Achei ela divertida de cara, me perguntei como não havíamos nos conhecido antes. Diggle foi o mais contido, apenas me deu um aperto no ombro e murmurou um parabéns.

― Cadê o Ollie? ― perguntei depois de explicar tudo que sabia para todos.

― Ali atrás, no seu melhor modo tenso ― Thea me respondeu. ― Não teve paciência nem para nos dar alguma informação.

― Ei, irmão. ― Ele deu um sorriso pequeno ao ver eu me aproximar.

― Parabéns, cara.

Finalmente trocamos o abraço que estávamos segurando por todas aquelas horas. Fora Felicity, era dele que eu mais sentia falta. Éramos melhores amigos antes de sermos irmãos, nunca tínhamos passado tanto tempo separados e agora não mais.

― Uau, aquilo lá foi tenso, uh?

― Um dos momentos mais intensos da minha vida, obrigado por me deixar participar, mano. ― Dei de ombros. Não que eu estivesse reclamando, ele havia ajudado, mas a participação dele não foi exatamente minha escolha. ― Então… Você tá aqui, de verdade! Ainda é como um sonho maluco de universo alternativo.

― Eu sei, às vezes nem acredito também.

― Nem eu ― Thea chegou abraçando nós dois pela cintura. ― Nós três aqui de novo, juntos. Ainda estou com raiva de você por me fazer desidratar em um funeral inútil, mas você vai contar essa história com detalhes depois. ― Me encolhi diante dos seus tapas, que só mostravam que a mão pesada e o amor doído da minha irmã caçula não mudaram em nada.

― Com certeza vou, mas agora preciso de uma atualização rápida de vocês. ― Apontei meus indicadores para ambos. ― Por favor, foquem na vida amorosa e escândalos da mídia. ― Os dois trocaram um olhar estranho, Oliver negou de leve com a cabeça enquanto Thea fez aquela cara de teimosia que eu conhecia bem, enquanto batia o pé. ― Qual é, me deem alguma coisa!

― Ollie terminou o noivado, com um escândalo na mídia. ― Não podia dizer que fiquei surpreso, ou ao menos triste com a notícia.

Laurel e Oliver tinham esse relacionamento estranho e meio perturbador há muito tempo, mais todas as traições e ciúmes deixavam a coisa doentia para os dois e para quem acabava envolvido de algum modo.

― Finalmente! ― Oliver me olhou com a expressão surpresa com minha exclamação.

― Nossa, Tommy… Se você tinha uma opinião contrária tão forte ao meu relacionamento, deveria ter dito antes ― falou sarcástico, mas o tom de diversão estava claro em sua voz. Finalmente meu irmão estava voltando para mim, já que ele estava bem estranho desde que voltei.

― E nos privar daquelas adoráveis crises de ciúmes e dos presentinhos e comentários constrangedores de Laurel? Faziam meu dia!

― Babaca ― me xingou.

― E outra… Não é como se você sem Laurel fosse ficar sem companhia. Recentemente eram quem? Mackenna, Susan e Helena? ― Levantei um dedo para enumerar cada uma das conquistas do meu irmão quando eu fui embora.

― Ele terminou com as três e com qualquer outra antes mesmo de acabar com o noivado ― Thea fingiu uma confidência, mas falou alto o bastante para que ele ouvisse.

― O quê? ― Não pude evitar elevar minha voz. Como assim dava pra usar o adjetivo fiel para Oliver-mulherengo-Queen?

― Calada, Speedy. ― Ele a segurou em um meio abraço, tapando a boca da nossa irmã com a mão.

― Thea está ficando com o segurança da família e acha que ninguém sabe. ― Ela arregalou os olhos para ele, e quando Oliver a soltou, ela estava chocada demais para falar qualquer coisa, só não mais do que eu.

― Thea está saindo com Diggle?

― Como você sabe disso, seu fofoqueiro? ― perguntou a ele, que apenas deu de ombros.

― Então você está mesmo com Diggle?

― Primeiro, eca ― falou para mim. ― Segundo, não é da conta de nenhum dos dois em quem eu enfio minha língua.

― Ok, informação demais. ― Quem fez cara de nojo agora foi eu. ― E por favor, nunca mais usa o verbo "enfiar" na minha presença, falou?

― Ou na minha ― Oliver me apoiou. ― Obviamente não é com Dig, ela está com o novo cara ― explicou. ― Vivem se pegando na dispensa.

― Thea, sua safadinha, não te ensinei nada?! Atrás da garagem é o melhor lugar para se esconder das câmeras da mansão.

― Não a incentive, Tommy.

― Não estou, juro. Até porque, depois de todas as consequências dos desencontros com Felicity, o que menos apoio são amores secretos. ― Oliver que tinha relaxado e já sorria, voltou à sua atitude fechada de antes.

― Viu, Ollie? É um bom conselho. ― Se ele pudesse, a teria derrubado apenas com um olhar. Acho até que qualquer pessoa menos teimosa teria caído.

― Eu sou o sábio do trio, pensei que já soubessem disso ― me gabei com a mão no peito.

― Eu senti falta da gente. ― Minha irmã passou os braços pelos nossos. ― Sabe o que gente deveria fazer? Esvaziar o bar da Verdant pra comemorar o nascimento do meu sobrinho e afilhado, e o retorno do meu maninho fantasma.

― Você nem tem idade pra beber, Speedy! ― argumentei.

― Aí que você se engana, bonitinho. Minha festa de 21 foi o evento da cidade.

― Ei, vocês. ― Dig chegou até nós. ― Felicity chegou no quarto ― anunciou e não conseguir evitar sorrir devido ao teor de nossa última conversa.

― Estamos indo.

― Pare de rir, pervertido ― Thea entendeu para onde meus pensamentos haviam ido e brigou comigo.

― Vocês colocaram essa ideia na minha cabeça, não tem como tirar agora.

Havia uma tensão discreta entre meus pais e Felicity quando entramos no quarto. Ninguém tinha me dito nada sobre algum problema entre eles, mas eu os conhecia o bastante para saber que meus pais não dariam a essa gravidez toda a credibilidade e que Felicity não levaria nada calada. Pelo menos eu tinha o conforto que meus irmãos estavam do lado dela.

― Ele é tão perfeito! ― Moira soava emocionada com Ben no colo, que já estava todo vestidinho de branco.

― Igualzinho ao Tommy nessa idade, é tão parecido que impressiona. ― Thea praticamente pulou em cima do bebê para conferir as palavras de Malcom.

― Ah, mas os olhos são de Felicity com certeza. ― Donna, a mãe de Felicity, chegou a mesma conclusão que eu, chegando mais perto e quase roubando o bebê dos braços da minha mãe.

― Não é uma bola de basquete, galera, peguem leve ― alertei, mas as deixei babando no meu filho enquanto ia para perto de Felicity. ― Como você está, princesa?

― Melhor.

― Sério? Você acabou de parir um bebê gigante.

― Thea tem razão ― a médica se aproximou da cama. ― Quase quatro quilos, 51 centímetros. Você foi uma guerreira hoje, Felicity.

― Ela sempre foi. ― Beijei sua testa.

― Bom, vou dar mais uns minutos pra vocês então vou levar o bebê para alguns exames iniciais e vacinas. Poderão vê-lo no berçário, e mais tarde eu trago para amamentar, tá bem? Eu sei que estão todos muito animados, mas é melhor deixarem Felicity descansar um pouco, foi um longo dia.

― Eu não vou sair do seu lado ― falei baixinho para ela que fez uma pequena careta.

― Obrigada, Tommy, mas eu prefiro que só minha mãe fique comigo essa noite. ― Não consegui esconder minha insatisfação.

― Por quê?

― Sei lá, é estranho. Estou toda feia e preciso mesmo de um banho.

― Isso é besteira ― Oliver, que se mantinha calado e encostado na parede perto da janela todo o tempo, se manifestou. ― Nesse quarto cabem todos, e não é como se eu ou ele fôssemos te deixar aqui sozinha. ― Apontou para si, então para mim.

― Ei, eu vou cuidar muito bem do meu bebê, bonitão número 1!

― Desculpa, Donna, eu sei que vai ― se desculpou.

― Mas porque arriscar se temos tanta gente disponível? Thea é a maior desocupada que conheço, ela pode ficar responsável só pelos lanches.

― Cala a boca, Tommy ― me recriminou. ― Muito legal e bonitinho os dois bancando os protetores, mas a escolha é dela. Tudo bem, cunhada, sei que não quer se indispor com eles, então eu mesmo digo: vazem!

― Mas…

― Mãe, pai… Tchau. Ollie, Tommy, beijinho nela e tchau. E, Donna, não vou te deixar sozinha aqui com ela, sinto muito. Eu fico.

― Voltamos amanhã cedo ― meu pai anunciou, e minha mãe entregou Ben para Donna e acenou uma despedida rápida, saindo com Diggle. Thea olhou com cara feia para Oliver, que não moveu um músculo do lugar.

― Eu não vou embora, se não me deixar ficar aqui, fico lá fora, simples ― falou teimoso. ― Mas se me dão licença, preciso fazer algumas ligações para o escritório. Quer que eu te traga algo para comer, Felicity?

― Nada de contrabando de comida, queridos. A dieta dela é bem regrada e controlada pela nutricionista da maternidade.

― Claro, claro, compreendo totalmente ― concordou, parecendo constrangido, mas foi só a médica virar as costas que Felicity gesticulou com os lábios as palavras "sorvete de chocolate com menta", para ele confirmar com a cabeça e lhe lançar uma piscadela, antes de sair também.

― Bom, Felicity, você provavelmente terá alta amanhã, está bem e saudável, assim como o pequeno Benjamin. Então porque eu não levo esse bebezinho pra dar mais uma examinada?

― Ah, doutora, mas eu acabei de pegar nele! ― Thea reclamou, então a seguiu para fora do quarto.

― Por que não dou uns minutos a sós pra vocês dois? Não estresse minha filha, bonitão número 2, ou eu volto aqui e castro você ― Donna ameaçou com a cara séria, então sorriu como se não tivesse acabado de dizer aquelas palavras.

― Tchauzinho. ― Nem ela aguentou dois minutos a tensão que se instalou no quarto.

― Uau, sua mãe é intensa. ― Me aproximei até sentar na beira do colchão.

― É um jeito gentil de descrever ― falou enquanto procurava uma posição para se ajustar melhor ao leito. ― Posso pegar mais travesseiros pra você ― ofereci, pois conhecia bem o desconforto de uma cama de hospital.

― Não, estou bem, só realmente cansada.

― Olha, meu amor…

― Tommy… ― me interrompeu. ― Eu sei que temos muito o que conversar, mas não hoje, tudo bem? Não faz nem um dia inteiro que você estava morto e eu grávida, então vamos tomar uma respiração antes que todo aquele assunto volte à tona? ― pediu e acenei concordando.

Todo aquele assunto.

Aquilo sim era o jeito gentil de descrever o que eu fiz quando descobri de sua gravidez. Eu a amava tanto que apenas cogitar uma traição ou golpe daquele tipo me fez perder totalmente o senso. Fui um cavalo injusto e egoísta e por minha culpa perdi toda a gestação do meu filho e preciosos meses com a mulher da minha vida.
Mas agora eu daria o tempo que Felicity pediu. Mesmo que não quisesse mais passar um segundo sem estar com ela, e tendo a ciência que o tempo havia passado de formas diferentes para nós dois, eu faria de tudo para conseguir seu perdão e conquistá-la de volta. Era como tinha que ser.

― Posso só ficar aqui olhando pra você até sua mãe voltar e me chutar para fora?

― Eu estou feia, já disse. ― Rolei olhos. Até parece… ― Barba legal. ― Passei a mão no rosto sorrindo, um pouco frustrado pelo desvio de assunto.

― Tenho um filho agora, sabe? Tenho que parecer sério e sem cara de bebê. ― Dei de ombros, com falsa arrogância no gesto.

― Então, você vai me contar como sobreviveu a um acidente de carro?

― Eu quase não sobrevivi. ― Me aproximei dela, escolhendo bem as palavras que usaria. ― Eu não estava dirigindo, um cara que dei carona estava. Fui lançado para fora do carro por um barranco, encontrado depois por um casal que caminhava na mata e cuidado por uma pessoa muito paciente. Uma neurocirurgia, muita fisioterapia, alguns meses sem memória depois, e aqui estou eu.

― Isso que é sorte!

― Sorte ou o destino me dando outra chance. Chance de conhecer meu filho, abraçar minha família, me reconectar com você.

― Tommy…

― Ok, nada "daquele assunto". ― Ergui ambas as mãos em rendição. Nesse momento, meu celular começou a tocar. E não consegui evitar sorrir para a foto que surgiu no display.

― Preciso atender, você pode ficar alguns minutos sozinha até que sua mãe chegue?

― Claro, pode ir.

― Precisa de algo?

― Se puder trazer água, estou com muita sede.

― Seu desejo é uma ordem.

Quando saí, já caminhei em direção à cafeteria do hospital para comprar a água de Felicity, só então retornei à ligação.

― Hey, doutora.

― Tommy, quer me matar de susto? Quando não atendeu, pensei que tivesse tido uma coisa.

― Relaxe, estou bem. Sem dores de cabeça ou tonturas desde que deixei Central City.

― Bom. E aí, como foi o grande encontro com sua família? ― Suspirei, ocupando em uma das mesas livres.

― Incrível, meu anjo. ― Tomei uma respiração profunda. ― Meu filho nasceu. ― Eu não sabia se ela podia ouvir toda a emoção emanando da minha voz.

― Uau, isso é demais! ― Alguns instantes de silêncio se seguiram, e eu quase podia vê-la mordendo os lábios antes de decidir como prosseguir. ― Então já encontrou a Felicity.

― Bem a tempo de assistir o nascimento do meu filho. E ela também, está fantástica, tão mais forte e determinada. Vou conquistá-la de volta.

― Que bom. ― Seu vocabulário estava estranhamente limitado para alguém tão inteligente, mas não ia importuná-la por isso agora. ― E seus irmãos? Seus pais? Eu não te disse que fazer do seu retorno uma surpresa era uma péssima ideia? ― Minha risada saiu solta.

― Meus pais e Thea levaram alguns segundos para entender que não viam um fantasma. Já Oliver está muito diferente, encontrei ele com Felicity. Aparentemente eles são muito amigos.

― Algo está te incomodando, consigo ouvir isso na sua voz. Me fala.

― Sei lá, tem algo que ele não está me contando.

― Quer um conselho?

― Eu negar vai te impedir de dá-lo? ― brinquei.

― Não ― respondeu simplesmente, e quase a podia ver dando de ombros. ― Não force a barra, ok? Siga o fluxo, vá com calma. Esperem eles se acostumarem com a ideia de ter você de volta, tudo vai dar certo.

― Você é a melhor, sabia? Tô com saudade ― murmurei a última parte, brincando de girar a garrafa de água em cima da mesa, quase a perdendo quando usei força demais e o objeto de plástico quase foi ao chão.

― Só faz 24 horas que você foi embora. ― Aquela dose de timidez na voz dela era adorável.

― Então faz 23 horas e 59 minutos que estou com saudade ― completei. ― Nem parece que só nos conhecemos há cinco meses, já é minha melhor amiga.

― Sete meses, se você contar quando eu cuidava de você em coma.

― Sete então. E por aí, como estão as coisas?

― Todos sentem já sua falta, te mandaram beijos.

― Outros para eles. O maior pra você. ― Tive meu galanteio inocente prontamente ignorado quando ela já mudou de assunto.

― Contou pra sua família o que aconteceu?

― Só pra Felicity, uma versão bem resumida. Foi um dia bem tenso com o bebê e tudo.

― Viu? Você não chegou dando detalhes de quando estava longe. Dê tempo a eles.

― Eu vou, obrigado pelo conselho. Eu tenho que desligar agora, Felicity precisa de mim, mas eu te ligo amanhã e conversamos melhor, ok?

― Até amanhã, Tommy.

― Até mais, Caity. ― Desliguei.

Ah, eu já sentia falta dela. E do Cisco, até da Susanne. Logo que essa animação com o novo bebê diminuísse, eu voaria para Central City para vê-los.

― Felicity está sozinha? ― Encontrei Donna no corredor, distraída demais com seu batom e a câmera frontal do celular.

― Hey, bonitão número 2!

― Aí, queria mesmo perguntar… Por que sou o número dois, se conheci Felicity primeiro?

― Mas eu conheci o bonitão número 1 primeiro. Meio azedinho no início, mas gente boa se você se acostuma. Já você é um doce, menos quando está chamando minha filha de golpista e negando a paternidade do meu neto. ― Engoli seco, dando um passo instintivo para trás.

Foi como se a gentil e extravagante mulher se transformasse diante dos meus olhos em uma mamãe ursa pronta a enfiar as garras na minha cara por machucar sua filhinha. E desde quando é de Oliver que as senhoras gostam? Geralmente as mães me amam e o querem longe das filhas.

― Me desculpe, eu estava sendo idiota.

― Idiota não chega nem perto de descrever, querido. E eu sei que Felicity te perdoou porque você morreu e tudo, mas comigo vai ter que se esforçar um pouco mais, tá bom, lindinho?

Ela voltou ao modo doce, sentando em uma cadeira próxima e voltando a olhar no espelho, me deixando inexplicavelmente nervoso. Eu mal conhecia e já tinha conseguido a antipatia da minha sogra?

― Eu vou levar a água para ela… ― Apontei meio sem jeito para a porta fechada.

― Bonitão número 1 está lá.

De novo?

― Está bem, obrigado.

Entrei sem bater, surpreendendo Oliver quase debruçado sobre a cama de Felicity, ela segurando um de seus braços, e com a mão livre, ela tinha uma colher de sorvete a caminho da boca dele, que sorria, tentando desviar, numa brincadeira boba. Ok, se eu consegui ignorar todas as outras situações bizarras, aquela não dava.

― Desde quando você come gordura saturada, Ollie? ― Ele tomou um susto, puxando o próprio braço de volta para si, e voltando a sentar na poltrona do acompanhante.

― Eu só estava dividindo a culpa, você sabe como é ― Felicity foi em defesa do gesto. ― Quer uma colherada também? Daí você deixa de ser testemunha pra virar cúmplice. ― Deu uma risada nervosa.

― Não, valeu. Aqui sua água. ― Depositei a garrafa na mesa de cabeceira.

― Bom, como eu estava dizendo, antes de quase ser envenenado por sorvete… ― Oliver era péssimo em qualquer tipo de piadas, mas o fato dele tentar era o mais estranho, só não mais do que alguém rindo delas, como Felicity fez. Franzi o cenho. ― Tenho que correr até a empresa, surgiu um problema que exige minha presença imediata, mas eu volto logo, tá bom? ― Não respondi, já que ele não estava falando comigo mesmo.

― Ei, dá uma passada no berçário pra ver se eles não trocaram meu filho?

― Ninguém vai fazer isso, relaxa, Felicity. ― Ele deu um beijo na testa dela.

― Parabéns de novo, cara. ― Recebi um tapinha amigável no ombro, antes de novamente estar sozinho com ela.

― Então… Sorvete? ― Me estendeu a colher. Como neguei novamente, ela levou o doce à própria boca.

― O que tá rolando entre você e meu irmão? ― mandei a pergunta direta, precisava saber de uma vez.

Felicity começou uma crise de tosse, ou talvez estivesse mesmo engasgando, não sei, não seria a primeira vez que ela fingiria pra me enrolar, ainda assim corri para pegar água para ela, que bebeu quase tudo de uma vez, sem pausa alguma.

― Pode me responder? ― insisti quando ela pareceu melhor.

― Não tem nada para responder, Tommy.

― Isso que tenho visto não é nada. Vocês estão saindo ou coisa assim? ― perguntei, mesmo sentindo um nó no estômago em cada palavra.

― Não, claro que não. Saindo, não estamos saindo, tem cada uma! ― Eu deveria ter ficado aliviado, mas fundo sentia que não poderia. ― Por que diz isso?

― Sei lá, estão tão próximos.

― Oliver acompanhou minha gravidez toda, eu morei por um tempo na casa de vocês. Eu não estou próxima apenas dele, mas da sua irmã também, qual o problema nisso?

― Não foi por Thea que você chamou quando estava tendo nosso filho ― argumentei.

― Eu estava com muita dor e a cabeça meio embaralhada, você não pode me considerar sã naquele momento.

― Ele estava no seu apartamento quando cheguei. ― Felicity pareceu perder completamente a paciência nessa hora.

― Primeiro, o apartamento não é meu, é dele. Oliver me emprestou e podia entrar lá quando quisesse. Segundo, você está me irritando com todas essas perguntas, e, na boa, não estou com saco para elas.

― Uau, não queria te estressar.

― Pois conseguiu, ok? Pode chamar minha mãe pra mim? ― Aquilo foi um claro convite para que eu me retirasse.

― Parece que hoje não é meu dia para argumentar com Smoaks ― falei indo para a saída. ― Donna não gosta de mim, mas gosta do Oliver, o que é além de bizarro. ― Não podia deixar aquele assunto sem essa última observação.

― E você não consegue imaginar nenhum motivo para isso, Tommy? ― retrucou mal humorada. ― Chama ela, por favor. ― Assenti saindo do quarto.

Encontrei com Oliver no corredor para o berçário, ele saía de lá apressado em direção à saída.

― O que foi? Trocaram mesmo o Ben?

― Com Thea montando guarda, impossível. Depois a gente conversa, tenho que correr.

― Só uma coisa. ― Segurei seu braço o impedindo de continuar. Usar a mesma abordagem direta que usei em Felicity não funcionaria, Caitlin já havia me desaconselhado a isso, então peguei outro caminho dessa vez. ― Você não mentiria para mim, mentiria, irmão? ― Oliver ficou pálido na hora, parecendo ainda mais ansioso para sair dali correndo.

― De onde isso está vindo, Tommy?

― Sim ou não? ― Ele respirou fundo.

― Somos família, e somos melhores amigos antes de disso. Eu jamais te magoaria de propósito.

― Não foi o que perguntei.

― Claro que não, então ― respondeu baixinho.

― Então vocês estão tendo alguma coisa?

― Alguma coisa?

― Romanticamente falando ― esclareci, e ele desviou os olhos dos meus, negando com a cabeça. ― Ok, então, se você está dizendo que não, eu acredito. ― Eu não tinha motivo algum para desconfiar de Oliver, meu irmão nunca havia mentido para mim em toda nossa vida, e não acreditava que ele começaria agora.

― A gente se vê, mano.

― Vou com você até lá embaixo. ― Acompanhei sua caminhada rápida para fora.

― Não vai ficar com Felicity? Acho que deveria.

― Ela não me quer aqui, Ollie, e tudo bem. ― Meus ombros caíram. ― Mas uma boa amiga me disse para não forçar a barra e "seguir o fluxo". ― Fiz sinal de aspas com os dedos. ― E também tenho um monte de coisa pra organizar com essa minha volta à vida.

― Ah.

― Thea e Donna estão com eles, não se preocupe. E nós dois temos muito o que conversar, tenho tanto para te contar, cara.

― Teremos tempo. Olha, eu sei que pode estar me achando estranho, mas saiba que eu estou muito feliz de ter meu irmão de volta, está bem? Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido na nossa família.

― Eu também estou feliz. Eu também.

Nos despedimos com um abraço forte, e só então seguimos cada um para seu caminho.

Notas finais
Eu ouvi um SnowMerlyn se aproximando no horizonte? Claramente Tommy está querendo retomar seu relacionamento com Felicity, então onde Caitlin se encaixa nessa história? Veremos. E antes de jogar hate no meu moreno preferido (e nessa autora que vos escreve), esperem para ver ele com um bebê no colo. É muito fofo! Até segunda.. Nos vemos pelos reviews. Bjs*